É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos

 
Para escrever este texto tive que me apoiar num material informativo, por isso li muitos artigos de revistas e online, vi documentários e entrevistas. As principais fontes foram Spiegel e Spiegel online, Stern, Süddeutsche Zeitung, Badischer Zeitung Freiburg, Focus online e Welt.de

 
No sul da Alemanha, num lugar pequeno perto de Freiburg chamado Staufen um menino – hoje com dez anos – foi cruelmente abusado sexualmente durante dois anos por parte de seu padrasto Christian L., 39 anos e de sua própria mãe, Berrin T., 49 anos; foi filmado em cenas pornográficas e ao ser violado por pedófilos perversos e depois oferecido numa área obscena e criminosa da internet em troca de dinheiro. O casal admitiu e confessou seus crimes, embora Christian L. tenha sido o melhor esclarecedor dos fatos, até apontando à polícia outros homens envolvidos nas violações, enquanto ela permaneceu como uma incógnita, transparecendo desleixo e falta de empatia, procurando racionalizar seus motivos através de clichês para sua própria defesa ao ser questionada. No início deste mês os dois foram julgados e condenados, ele a doze anos sob o regime de segurança – uma espécie de liberdade confiscada o aguarda após o cumprimento de sua pena, pois permissão para sair não terá, por ser considerado como perigoso para a sociedade e inclinado a sofrer recaídas; ela, a mãe, a doze anos e meio de cárcere – um resultado que decepcionou a maioria das pessoas que esperava mais justiça, não só considerando o grau das atrocidades cometidas pelos dois, mas também o descuido de funcionários do judicial ao deixar que o menino voltasse à custódia da mãe após ter sido afastado do lar. Na Alemanha uma pena para os casos especialmente graves de abusos sexuais a crianças pode ser de até quinze anos; se nenhum dos dois abusadores não recebeu esta pena, é por que para a justiça o caso ainda não foi considerado como extremamente grave? Mas o que é isso tudo em comparação com os danos físicos e psíquicos causados à criança, danos estes que irão marcar toda sua vida? A promotora Nikola Novak já tinha apelado para uma pena mais longa, sobretudo para a mãe do menino que não só colaborou com o seu parceiro, preparando o ambiente, conduzindo a criança às humilhações e torturas, mas também ela mesma, abusando do menino como se ele fosse seu brinquedo sexual.

Quando se conheceram no início de 2015, Christian L. tinha acabado de sair da prisão também por abuso sexual a uma garota de treze anos e daí ficou conhecido nos meios policiais como um tipo ainda capaz de retroceder a ações pedófilas, não lhe sendo permitido, por isto, estar em contato com crianças e jovens, a não ser na presença de um funcionário do judicial. Claro que Berrin T. sabia de tudo isso, mas mesmo assim concedeu a ele possibilidades de abusar sexualmente de uma menina de três anos, filha de uma conhecida e de quem ela tomava conta como babysitter. Nessa época o menino tinha oito anos e para ele também começaram o suplício físico e moral, a escravidão, a prostituição forçada, os estupros com a absoluta permissão dela. Por quê? Alegou ter permitido por medo de ser abandonada pelo parceiro – o que deixa claro seu papel de vítima na história – ou para também comprazê-lo como uma forma de amor? Não. Para mim uma forma de perversão, uma extrema falta de empatia, uma inteligência deteriorada e submetida à vileza. E onde fica nisso tudo o amor maternal que esperamos de toda mãe?

Nikola Novak não crê sem mais no papel de vítima de Berrin T. e pergunta se a tal estivesse mesmo sob pressão do parceiro – por que não mostrava sentir piedade pelo filho nos vídeos onde o menino era violado? Não mostrou. Seu interesse era não deixar transparecer marcas de violência nele, através de algemas, adesivos e outros instrumentos repressivos que usaram na criança; seu interesse também era mostrar-se como mãe protetora e lutadora, e assim o fez quando em março de 2017 um policial deu-se conta de que Christian L. e Berrin T. viviam juntos apesar da proibição de contato. O filho foi retirado do lar e entregue aos cuidados de uma família. Após um mês a criança voltou a viver com a mãe, sem que os funcionários de amparo a menores tivessem se dado conta de estar sendo ele vítima de agressões e abusos – a criança não foi ouvida, apenas ela, a mãe conseguiu convencer os funcionários usando conhecidos argumentos clássicos que definem uma mãe como boa, amorosa e cuidadosa – mentiras, enganos, mas que deram para ganhar a sua confiança. Como poder estar contra de uma mãe que quer proteger o filho? Com a mãe o menino não poderia estar em melhores mãos. – Assim se defenderam alguns dos funcionários – Por que o menino voltou a viver sob a tutela da mãe equivale a pergunta por que ele voltou ao martírio. Esta pergunta tardia, muitos a fizeram na imprensa e na mídia em busca de uma claridade, que no fundo revelou, por um lado, a expressão do fracasso das autoridades competentes que poderiam ter evitado mais sofrimento à criança se tivessem à disposição mais pessoal com suficiente trabalho coordenado, como também o acatamento a bitolas no modo de pensar e trabalhar impediram esclarecimentos dos fatos e até a possível salvação da vítima. Por outro lado a imagem da mãe protetora, cuidadosa e cheia de amor que temos fortemente impregnada em nós é incapaz de se virar no contrário. A confiança vem daí, deste padrão de que uma mãe por natureza não desonra o filho, e quando isto acontece e tomamos conhecimento, ficamos perdidos, nossa imaginação se limita, sentimos repulsa dos fatos que ouvimos e evitamos falar deles, pois falar deles é tocar num tabu, o tabu que envolve a mãe, que a faz intocável e longe de ser vista como uma abusadora sexual ou pedófila. Até os termos causam estranheza porque quem abusa comumente é o pai, o padrasto, o avô, o tio e outros ligados à família, mas nunca a mãe. Expertos no assunto dizem que a maioria dos delitos de abuso sexual a crianças praticado por mães – ou mulheres em geral – fica na sombra, encoberto porque não queremos aceitá-lo como verdade, e a razão disso repousa em profundos tabus, em mitos de gêneros e em repressão coletiva. Na Alemanha, segundo as estatísticas policiais, foi registrado em 2017 que no total de abusos sexuais a menores, quatro por cento foi de autoria de mulheres – a mãe, a avó, a tia, etc. – em todas elas está presente o mito do amor maternal. E os casos não registrados? Destes não sabemos.

Que energia produtora é capaz de conduzir a tais atos? O papel da mídia, da ganância, a história familiar de cada uma, o perfil psíquico? Já foi constatado em vários casos que quando uma mulher pratica pedofilia, já foi ela mesma vítima de abuso sexual, sem que jamais tivesse procurado ajuda terapêutica, ou vem de meios familiares insanos, tornando-se alcoólica ou dependente de drogas, no fundo um desajuste de personalidade. Sabe ela disso? Está consciente dos danos irreparáveis que causa à criança? Acho que sim, embora não queira se dar conta, ou procura um mecanismo de defesa para livrar-se de sentimentos de culpa. Uma mãe que manipula ou força seu próprio filho a satisfazê-la sexualmente – manualmente, oralmente, ou através de objetos – que se masturba na sua presença, ou o incita a uma penetração não pode esperar compaixão da sociedade, mas sim ódio – ela violou um tabu – por isso há casos de pedófilas que querem e tentam abrir-se para outros, principalmente por meio de serviços telefônicos de ajuda emocional, mas interrompem o contato se pressentem que poderão ser descobertas; daí as dificuldades nas investigações porque ao contrário dos pedófilos, elas não aparecem, mas sabemos que existem e por toda parte.

Nos países onde o feminismo ainda anda de quatro ou quando este ainda precisa, apontar o dedo na cara dos machos irreverentes e, de formulações fortes e diretas para confrontá-los, não é fácil também ver a mulher com aqueles comportamentos contra os quais ele se posiciona ou considera-os como típico de homens – até para estes é difícil conceder que uma mãe faça isso, contudo a moeda também tem outra cara, e segundo relatórios de profissionais uma parte considerável dos abusos sexuais intrafamiliar tem a mãe como cúmplice. Uma vez que também não é fácil aceitar esta triste realidade, caímos em formas de defesas – como é possível? Isso não chega na cabeça de ninguém! – Pois sim, e dá até margens para revisar certos posicionamentos radicais ou polarizados dentro do feminismo. Homens que foram abusados sexualmente pela mãe quando crianças guardam por muito tempo a dor, sem poder expressá-la, de terem sido maltratados, golpeados e ameaçados de serem abandonados, caso não a satisfizessem como ela queria – tudo se passa a nível dos sentimentos, pois as crianças não sabem exatamente o que está sucedendo; a maioria dos abusos começa antes da puberdade, e nesta fase elas são vítimas diretas de serem divididas entre o que é certo e o que não é certo; não sabem julgar o que é amor, dedicação e sexualidade e sentem-se exigidas de passarem a ter vários papeis: filho, amigo, amante, marido – tornaram-se vítimas, a serviço dos desejos de prazer da mãe – o prazer como um vício vazio – até puderem de uma vez se liberar: isto passa no período da puberdade entrando na adolescência, quando os garotos já esgotados, estragados e desorientados dizem um basta acompanhado muitas vezes do afastamento radical da mãe. Muitos reprimem esses episódios, banindo-os do consciente, esquecendo-os até que qualquer vicissitude oferecida pela vida faça com que eles irrompam brutalmente e o horror do inferno volte outra vez. Daí a necessidade de trabalhar esse passado horrendo numa terapia – e quanto mais cedo melhor – o que não passa com muitos pela repetida razão do quanto esse passado desorienta e causa desordem na personalidade de seu dono.

Agora Berrin T. e Christian L. estão na prisão graças a uma indicação anônima à polícia em setembro de 2017. Eles têm ainda que pagar 42.500 euros à criança assim como às outras vítimas – o chamado dinheiro da dor pelos estragos causados a elas, e será aplicado em favor de sua educação. O menino está vivendo sob os cuidados de uma família e não quer falar sobre o que passou com ele. Ela, a mãe, a qual nunca vi seu rosto – baixou a cabeça ou cobriu-o com um papel durante o julgamento – é gorda, uma figura balofa, com aparência desleixada e sem atrativos, um acúmulo de gorduras e cigarros fumados; não perguntou pelo filho, nem como ele estava, sua preocupação maior foi poder comprar seus cigarros.

Próximo post: 24/9/2018

Que “coisa” é essa, Clarice?

Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.
Clarice Lispector

 

 
Que coisa é essa que se interpõe entre os fatos e a justiça? Que coisa é essa que põe a justiça em questão?

Os tiros disparados matando José Miranda Rosa, conhecido por Mineirinho, um bandido e criminoso procurado pela polícia, encheram Clarice Lispector de dor e revolta e levaram-na a viver uma experiência humana profunda, a qual ela expressa de maneira densa e magistral no conto „Mineirinho“ e ao mesmo tempo surpreendente pela sua forma, parecendo mais um plaidoyer – acho eu – do que um conto ou uma crônica, embora seus argumentos não o teriam nem salvo da prisão nem da morte. Mineirinho foi morto em 1962 no Rio de Janeiro por uma série de tiros; um total de treze balas perfuraram seu corpo indefeso. Clarice Lispector disse numa entrevista em 1977 para a TV Cultura, sua última entrevista, que só uma bala teria bastado para matá-lo, os treze tiros foram “vontade de matar” – foram perversão bárbara digo eu: uma desnecessária execução que fez de Mineirinho um bandido a menos, como um resultado de glória para os tais atiradores e para aqueles que acreditaram neles como defensores de sua segurança. Ou como se diz hoje “bandido bom é bandido preso”, ou em últimas instâncias pode-se corrigir a sentença para: “bandido bom é bandido morto”, quando nisto uma justiça chega a seu ápice ao não dar ao criminoso exatamente o que ele tirou de outro ou outros: o direito de viver. Mas que justiça é essa que devolve na mesma moeda? Seja qual for a sua atuação, na área do judicial ou não, é motivo para Clarice Lispector indignada dirigir-se a ela, repudiá-la pelo alto preço que cobra por um bem-estar e segurança de se poder estar em casa e dormir em paz – nosso conforto é pago por outros que pagam com a vida – e Mineirinho foi fuzilado enquanto ela dormia – e enquanto dormimos outros vão continuar pagando com a vida em nome de uma justiça que diz nos amparar enquanto outros ficam desamparados. Para Clarice somos todos uns „sonsos“; pois deixamos escapar, por essa sonsice, a nossa responsabilidade frente ao outro, e isto é o que sustenta o nosso comodismo diário.

Apesar de o sentido de justiça ser primordial e estar presente no texto de várias formas, não foi, porém, o que mais me tocou no seu texto; Clarice era formada em leis e sabia muito bem o que o termo „justiça“ podia significar em meio a tantas apelações; ela também estava longe de querer justificar gratuitamente os crimes de Mineirinho; mas bem uma outra coisa, „uma coisa“ que a faz se acercar do caso através de sua voz interior, e não por uma ostentação teórica; bem melhor deixar vir à tona aquilo ou aquela „coisa“ que a justiça não cumpre, ainda que seja ela o princípio dos direitos. Mas como expressar essa coisa, a coisa que faz doer a morte de um facínora?
Clarice assiste ao drama de sua cozinheira por não saber exprimir seus sentimentos de pena, por também estar dividida entre a sua compaixão e os fatos reais: quem não sabe que Mineirinho era criminoso?, mas por outro lado: … tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu. A escritora procura em si mesma – sem se individualizar, mas como um dos representantes do nós – que coisa é essa que rebentada não a permite sentir-se aliviada pelo fim de mais um bandido? Se Mineirinho tivesse sido morto com apenas um ou dois tiros, estes não teriam sido suficientes para que nela a coisa se rebentasse: Mas há alguma coisa, que me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, … – entretanto esse desumano excesso de tiros a tira do comodismo – como, meu Deus, precisamos de tragédias, catástrofes para acordar para a realidade! – e levam-na à continuação a despertar-lhe para algo, ressoam em sua memória com insistência, como se eles fossem as treze estações de uma via crúcis, a sua e a de Mineirinho – a via crúcis de Cristo tem uma estação a mais – e ela passa dolorosamente a ser o outro, pois só nessa transformação é possível a compaixão.

“Não matarás”, um dos dez mandamentos de Deus entregues a Moisés e é o que serve para assegurar nossa existência como viventes, porque só Deus tem o direito de tirar nossa vida; aqui rege a lei do olho por olho até que muito mais tarde o Messias resumiu as duas tábuas dos mandamentos em dois grandes ensinamentos, que não foram dele próprio porque já estavam presentes no antigo testamento: um tem que ver com o amor a Deus, de maneira exclusiva e absoluta, e o outro com o amor ao próximo. O revolucionário deste segundo ensinamento é que não é amar o próximo como ele é, mas sim amá-lo como se ama a si mesmo, pois não há diferenças entre amar o outro e amar-se. Vejo um ponto de partida aí no humilde reconhecimento de si mesmo que gera um amor irrestrito e sem barreiras; desta forma posso amar o outro, e entre mim e ele o amor é o mesmo, porque – sob o poder do amor – eu sou o outro e ele é eu, ou seja, amo o outro porque reconheço nele o que sou. Isto longe de nos relegar à passividade, nos levaria a ser ativos – sujeito e discurso – um movimento para a frente, para a união. Este amor incondicional ao próximo nos é exigido pelo cristianismo, mas é-nos, por outro lado, possível? No texto vejo-o referido como um dos lados da tal „coisa“ já mencionada. Há uma coisa, existe uma coisa pura em nós que nos une, que nos faz humanos, mas por ser tão intensa também é capaz de assumir o contrário do que é; essa coisa que ao mesmo tempo que minúscula como um grão de areia fina, também pode ser tão forte e destrutiva como a irradiação do radium: … essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado. Em Mineirinho essa „coisa“ – que por um lado – o fez gostar „feito doido“ de uma mulher e ser devoto de São Jorge também é a mesma coisa que – por outro lado – o desorientou e caotizou sua vida. Pergunto-me que área do conhecimento se prestaria a definir essa coisa. Clarice Lispector não encontra resposta nem na justiça baseada na idéia universal do direito natural, a qual nos dá o que é fundamental para existir: a vida – como se diz: „o sol é para todos“ e não só para alguns, e que é no fundo o princípio de todas as revoluções – esta aqui não chegou a alcançar Mineirinho permitindo-lhe que o sol também brilhasse para ele – nem na justiça dos homens como procedimento arbitrário do que é justo e correto: esta a envergonha porque dá-se conta de sua fachada: sua casa segura, que protege seu sono tranquilo, não é tão segura assim se ela começa a ter acesso à coisa, a aquilo que lhe tira a máscara da sonsice de toda uma vida e cobra-lhe amor ao outro enquanto indignada. Usando de lucidez, Clarice recorre ao divino sem pieguices, não importando se de forma irônica ou não, mas confiando que daí se possa tirar a bondade e a esperança; assim repete a palavra „Deus“ por quatro vezes no texto, como também se vale de passagens da Bíblia, não para rogar piedade por Mineirinho, pedindo a inocência e o perdão para ele – o que seria por demais abstrato, sabia ela – bem mais para pô-lo no lugar dos homens, de todos os homens, que também somos nós, porque nós todos somos perigosos se nos faltou a mão de um pai sobre nossa cabeça a nos amparar. Estes são momentos lindos do texto, vivos e fortes, nos quais a escritora expressa suas convicções sem deixar de se referir à tal coisa – ela quer essa coisa que move montanhas ou „a coisa“ que a faz dar água a quem tem sede, não porque ela tenha água, mas porque, também ela sabe o que é sede.

Quando eu tinha entre catorze e quinze anos vi uma cena que me repugnou; foi numa das paradas de um transporte coletivo rumo ao centro da cidade. Numa esquina estava um rapaz com o seu carrinho de sorvetes, e ao redor dele um grupo de rapazes, que pela sua aparência pertenciam a uma classe social bem mais superior. Sem levar em consideração que o sorveteiro trabalhava pela sua subsistência – e talvez até de uma família – e sem nenhum respeito humano a ele, os rapazes tentavam provocar a ira do jovem para humilhá-lo na sua condição de pobre e indefeso. Da janela do ônibus fui atraída pelo seu sofrimento existencial, sozinho e desamparado sem poder se valer do que ele tinha de mais valoroso: sua dignidade humana, sua nobreza de ser homem trabalhador mesmo não possuindo um título honrado; vi no seu rosto a dor de quem já era um perdedor oprimido, recuando como única defesa, pois no momento uma valentia isolada não significava nada. O ônibus seguiu adiante sem que eu pudesse ter visto como terminou esse episódio vergonhoso; sua humilhação deve ter se transformado em ódio, e a vergonha por não ter podido ele mesmo se socorrer, deve tê-lo impedido por muito tempo de usar de sua racionalidade. Não ouvi no ônibus nenhum comentário – é muito provável que outras pessoas também tenham visto o que acontecia na esquina, apesar de tudo isso ter passado depressa, só o tempo de uma parada sem demora, mas o suficiente para paralisar-me pelo terror. Eu era muito jovem, uma adolescente desprevenida para essa realidade e, como a cozinheira de Clarice, não sabia me expressar e acabei reagindo como todos: deixando passar para evitar a dor que dela faria do sorveteiro um de nós, porque no fundo seria essa dor o que poderia nos unir. Esta lembrança agora emergida é a dita prova de como fomos todos sonsos – eu e os outros dentro do ônibus – o medo e a indiferença nos impediram de usar uma justiça – fosse ela qual fosse – em favor de um homem acuado e ultrajado por outros; preferimos não ver para continuarmos comodamente nossa viagem – a cegueira foi o preço que pagamos, evitando que o ônibus estremecesse se a tal coisa rompesse pelo menos em nome do que se chama coragem civil.

Como deixar viver essa coisa? Clarice acha que só a doidice – perder-se – seria um meio de chegar a ela: uma justiça mais doida, um amor doido, uma compreensão doida do que é perigoso compreender, e só sendo doido pode-se sentir um amor profundo – aquele que explodiria seus raios em „ isso ou aquilo“, ou seja, na esperança, na confiança, no amor, ou naquilo que seria o contrário levando à desorientação e a destruição. Pergunto-me por que ela não usa palavras como louco, louca, loucura para referir-se ao acesso à „coisa“ ou ao estado da „coisa“ – acho que seriam estas bem mais formais; também não recorre a explicações científicas porque, para ela, não há explicação científica para a tal coisa. Clarice Lispector vale-se de Clarice mesma para expressar seu olhar profundo e sua compreensão aguda dirigida às coisas e a nós; com isso ela nos mostra nosso próprio desespero humano, – nós pobres humanos – nos põe na fronteira de nossa capacidade de compreensão, nos deixa desamparados frente a termos tão comuns, mas também abstratos como „erro“ e „salvação“, mas que em suas frases assumem estes um caráter ambíguo, porque um pode ocupar o lugar do outro: o erro é o seu – o nosso – modo de viver, mas ao mesmo tempo a sua – a nossa – salvação; o bandido Mineirinho é resultado do seu erro, mas também é o que vale para a sua salvação; seu erro é assustar-se diante da vida em forma de carne, sangue, lama, assim como sua salvação é calar esse erro, não compreendê-lo, afugentá-lo. A necessidade de abstrair coisas ocultas dos fatos – que só um coração compassivo pode ver – vem de sua inquietação, de suas longas elucubrações, tentando criar com esforço, não o que é óbvio, mas numa profunda solidão, a unidade entre o ser e o pensar. Aonde quis chegar? Ao místico? De sua solidão – acho eu – veio a necessidade e o intento de viver o outro, pois todos nós somos da mesma matéria e da mesma lama, mas por outro lado por que somos um ao outro tão aversos? O que nos salvaria?

Como responder perguntas tão inquietantes? Como dividi-las com alguém, senão no ato de escrever? Para leitores despreparados, Clarice Lispector não oferece textos fáceis de tragar, agradáveis de ler, por sentirem-se eles perdidos até mesmo em meio a um relato de fatos cotidianos, pois estes podem inesperadamente desorientá-los. É o contato com a coisa? Talvez. Disse na sua última entrevista que ela não se considerava popular e até era vista como hermética; por estas dificuldades a sua obra literária está, na maioria das vezes, entregue aos doutores e professores de literatura, o que pode tornar sua leitura um tanto elitista – infelizmente. Não acho que ela tenha escrito seus livros visando este fim – ela escreveu por necessidade, o seu modo de ser se espelha de forma sincera na sua expressão – e a maior ou menor, ou mesmo nenhuma aproximação do leitor com seus textos é independente do nível intelectual: ou se entra em contato com ela ou não.

As categorias de bem e de mal se contrapõem marcadamente em casos como o de Mineirinho; é muito fácil julgá-lo só levando em conta o seu lado escuro, demoníaco e assim não lhe conceder nem defesa, nem perdão, por isso é incabível, lato sensu, aceitar argumentos tais como – Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Ou: Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. Ou ainda: Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou … – sem beirar a culpa, o exagero e até mesmo o utópico. Contudo Clarice Lispector chegou aí – à doidice? À utopia? Ao ilimitado? Ao limiar do impossível dentro do possível? Como entendê-la? Ela disse que quem entende desorganiza e é o mesmo que querer entender a coisa que nos faz com que nos ofusquemos e nos calemos tanto frente a um brilhante, como frente ao horror, pois essa mesma coisa que nos enche de amor, também nos desespera e faz nossa casa estremecer, mas é bom lembrar que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Então seria possível sim.

Já um mês sem Marielle Franco

 

Devia publicar no 30 de abril deste, como mesma o indiquei no post anterior. A data de hoje – um mês da morte de Marielle Franco – não me fez calar, mas antes expressar a minha dor em forma deste humilde texto.

 

Já um mês sem Marielle; um mês sem a sua presença forte e decidida, sem o seu respaldo a aqueles por quem ela lutava. Não a conhecia quando estava viva e atuando como vereadora – que pena! – talvez por não viver no Brasil e não poder me dar conta de tudo que passa no país; assim não pude acompanhar seu itinerário político e suas lutas, sendo por isso este post de caracter pessoal e carregado de emoções, como também vindo de um esforço à maneira de suprir as lacunas que tenho em torno de sua vida. Mas observando as suas fotografias, deparei-me com uma mulher alegre, forte e dona de um sorriso aberto de quem conhece a franqueza, e de um olhar firme e direto, de quem sabe ir muito longe. Essa mulher merecia morrer? Claro que não, e ainda mais por mãos de – encargados ou não – bandidos vis, como uma forma de represália – por ter sido Marielle um perigo para seus projetos ignóbeis? Com ela também morreu outro, o Anderson Pedro Gomes, que foi uma vítima do crime só porque conduzia o carro onde se encontrava a vereadora – esta sim era o alvo da emboscada que resultou em treze tiros. Treze tiros também foram disparados contra Mineirinho, um bandido e criminoso em 1962 e que levaram Clarice Lispector a escrever um conto sobre ele – um dos seus contos preferidos. Os treze tiros me fazem lembrar que na sua última entrevista em 1977, poucos meses antes de morrer, Clarice Lispector mencionou horrorizada o quanto esse caso a encheu de dor e revolta diante da injustiça chamada „justiça“: foram treze balas „quando só uma bastava para matá-lo“ e „qualquer que tivesse sido o crime dele, era prepotência, era vontade de matar.“ Clarice, de forma magistral no conto, se transforma em Mineirinho e acompanha-o até o último disparo: „ O décimo terceiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.“

As perguntas ao redor da morte de Marielle são muitas sem que já tenham sido respondidas, deixando um vazio como um buraco aberto, mas sem mostrar o que tem no fundo. É também o vazio que ela deixou na sua família, na sua companheira, nos seus colegas de militância e em todos os brasileiros que a seguiam e acreditavam no seu trabalho. Este vazio só pode ser preenchido através de lutas que continuem as suas aspirações e digam NÃO ao crime organizado: MARIELLE VIVE.

A Organização das Nações Unidas exigiu dos políticos brasileiros o esclarecimento total sobre a execução de Marielle e seu motorista, Anderson Pedro Gomes; a Anistia Internacional e comissões comprometidas com os direitos humanos também estão preocupadas pela falta de solução e incerteza que o caso no fim das contas poderá descambar; enquanto isso forma-se no Brasil uma onda de protestos – como se já estivesse prestes a explodir – assentada no torpor e na indignação de um povo inconforme com os abusos dos que acoitam a violência e o crime. Isto para mim é mostrar uma cara nova, ao preferir formas sociais de protesto e não entregar nas mãos de Deus, como se só ele fosse capaz de fazer justiça. Por outro lado, e como reação direta ao processo de conscientização das populações oprimidas, eclodiu uma onda negativa saída de um ódio profundo às classes – um ódio antigo, anterior às democracias – expresso falsamente em nome da livre expressão, mas que no fundo é uma descarga de repulsa a tudo que se opõe ao conservadorismo, ao patriarcalismo e à discriminação social que leva a marginalizar pessoas pela cor, pelo sexo e pela condição de vida de onde elas emergem – uma aversão às forças democráticas, as quais o Brasil, dotado de bom senso daqueles que lutam contra elas, não deverá permitir.

O ódio é uma descarga do medo; o pânico de perder o poder ou privilégios e até mesmo o próprio caráter onde se assentam as convicções. Uma das teorias do ódio o explica como resultado de uma pressão sofrida por uma pessoa ao ser exigida que ela se libere, ou seja, forçar o outro a liberar-se, causa ódio. Podemos aplicar esta teoria às expressões de ódio contra a esquerda? Marielle e Lula são os mais recentes exemplos de difamação, calúnias e desrespeito até onde não se pode imaginar, como mesma li nas redes sociais e noticiários vistos como confiáveis. Chamar Marielle de safada, ou Lula de bandido sujo é ao meu ver a expressão de uma incapacidade ao não poder liberar-se do que impede reconhecer o outro e vê-lo como igual. Por que a desembargadora Marília Castro Neves preferiu caluniar a referir-se a Marielle com mais ponderação e discernimento? Por que muitos comemoraram a prisão de Lula? Marielle sabia responder sem medo estas perguntas e outras mais; por isso a fizeram calar.

 

 

 

 

É típico de homem…, é típico de mulher…

 

PRÉ-TEXTO:

Quando estava escrevendo este texto, fui surpreendida pela notícia do assassinato de Mariella Franco. Desde então não me senti mais à vontade para continuar a escrever; achava que meu texto nem de longe chegava a tocar na cruel realidade deste momento, em que agora nos encontramos. Após vacilar muito, decidi terminá-lo como uma dedicatória a Marielle Franco, pois sei que se ela o lesse, iria me dar razão: A Mariella Franco.

 

 

Será mesmo a ambição que nos separa? Mulheres não têm, nas mesmas medidas que os homens, um alto grau de ambição – a qual lhes garantiriam obter mais êxito profissional – porque elas reservam uma grande parte de suas energias para a família e as relações pessoais. Pelo menos é o que quis dizer Lawrence Summers em 2005, então na época presidente da renomada Universidade Haward nos Estados Unidos, e citado por Natasha Walter no seu livro Living Dolls – The Return of Sexism, 2010 (Muñecas Vivientes, em espanhol), ao ser perguntado por que só poucas mulheres chegam a ensinar matérias científicas e tecnológicas nas faculdades da tal universidade. Os argumentos de Lawrence Summers desencadearam discussões entre os que o defendiam, julgando-o como homem letrado e capaz intelectual americano, e outros, sobretudo mulheres – também renomadas professoras universitárias – que relegavam seus argumentos a um nível de absurdo. Contudo para Summers – antes de se ter desculpado mais tarde de seus próprios absurdos – mulheres não se sairiam bem, em comparação com homens, em profissões, cujos encargos recebem alto grau de tensão no ambiente de trabalho, porque elas, por natureza, não deixariam de enxergar o mundo através dos óculos da família e dos relacionamentos, e por isso não seriam dadas às tarefas científicas. É muita presunção, acho, estabelecer diferenças inatas de capacidade reduzindo as mulheres a uma esfera limitada no campo profissional e da produção científica, ao fortificar a tese de que elas não mostram ambição suficiente, ou seja, a ambição necessária para que pudessem brilhar em suas carreiras como cientistas ou pensadoras, porquanto lhes faltam um certo talento para as tarefas que exigem esforço físico ou mental excessivos. Esta forma de pensar e crer não é nada nova e está longe de ser um tabu – é corriqueira, é o que leva a maioria das pessoas a falar assim, é o clichê da insuficiência e da incapacidade, no qual mulheres não resolvem facilmente questões que requerem lógica, mecanismo e precisão: isso é trabalho de homem, se diz, e faz-nos evitar tais atividades crendo mesmo que não somos capazes. A prova disto se vê na menor presença de mulheres nos cursos de mecânica, física, astronomia e outros que exigem grande abstração ou até mesmo em outros ofícios: existem mulheres como encanadoras, eletricistas, carpinteiras, por exemplo? Claro, mas muito poucas, e as que existem enfrentam-se no desenrolar de seus trabalhos, tanto quanto com pessoas que se surpreendem ao vê-las ali, em vez de homens, como com reações de desconfiança – eu mesma me surpreendi uma vez dentro de um avião quando quem se apresentou como comandante da aeronave foi uma mulher; e não fui a única, pois também ouvi de algumas pessoas reações de surpresa, como oh!, quê?! e suspiros suspeitos. Claro que não me assustei pelo fato de ser transportada nas alturas de um país a outro por uma mulher, mas fiquei pensativa porque fui pega desprevenida, o que após a surpresa, me senti orgulhosa.

Acreditar que nós mulheres não nascemos para executar profissões ou funções ditas como masculinas não é mais do que admitir velhas teorias engendradas num determinismo biológico que trata de considerar, entre outros, o fator da diferença entre os sexos para estabelecer poder político, domínio e oprimir os „naturalmente mal favorecidos“. Mas apesar de já se ter feito muito contra ele, ainda persistem controvérsias dentro das áreas de investigação científica, da política e dos mercados de trabalho, gerando discriminações e fazendo prevalecer os estereótipos que subestimam a nossa capacidade. Estes então, nos absorvem – também homens e mulheres jovens – eles nos estão inculcados sem que muitas vezes possamos fazer nada contra, e assim nos influenciam a fazer uma escolha ou um julgamento que podia ser bem mais justo sem eles. Um exemplo para isto é o que Iris Bohnet, também professora da Universidade Haward, diz significar „ser uma boa mulher“. No contexto brasileiro o adjetivo „boa“ relacionado à mulher está carregado de conotações negativas quando ele vem posto depois do substantivo, o que logo se constata na linguagem machista sendo aquela que é atrativa e com dotes para o sexo. Já uma boa mulher ou, realmente uma boa mulher, diz Bohnet, é aquela que não deve ser agressiva, e mais: deve ser cooperativa, passiva e social para ser querida. Por outro lado, se um homem assume a função de „tio“ num jardim de infância ou numa creche pode causar irritações, porque não esperamos que homens tenham tais qualidades femininas. Numa entrevista a uma jornalista alemã (*) por ocasião de seu livro „What Works“, 2016, Iris Bohnet falou de quanto os clichês podem influenciar nos processos seletivos de obtenção de empregos. Candidatos em geral a postos de trabalho se esforçam para impressionar bem seus recrutadores com seus curriculae vitae e cartas de apresentação, e não supõem que os pré-requisitos de seleção estão elaborados a apontar aqueles que condizem com seus moldes, o que para Bohnet esses mesmos pré-requisitos impostos não garantem aos empregadores encontrar os melhores candidatos, mas aqueles que correspondam a um modelo já feito – ela joga futebol, deve ser uma lésbica; ele joga xadrez, então é inteligente; ela tem um sotaque nordestino, deve ser uma caipira; e assim vai, parecendo até simplório à primeira vista, mas não é. Ao meu ver, esses exemplos e outros mais, quando são usados como critérios, desfavorecem a seleção tanto para o lado dos recrutadores como para o lado dos candidatos. Os solicitantes não se sentem seguros em mostrar interesses próprios, os quais, supõem, não se adequariam aos protótipos das empresas, e estas por sua vez, podem perder aqueles candidatos pendentes de serem bons funcionários. Estereótipos assim também existem nas ditas sociedades econômica e socialmente avançadas e naquelas, onde princípios patriarcais e retrógrados são dominantes, não é de se esperar que mudanças cheguem com rapidez.

Vivemos numa era, na qual os dados de informação ganharam muito peso, e com eles a necessidade de serem armazenados, processados, administrados, e manipulados ou não, são utilizados nas empresas e noutros setores para ajudar, entre outros fatores, no crescimento da produtividade, na escolha de clientes, no incremento do êxito, na redução dos custos, etc. e tudo isto num tempo razoável. Contudo quando se trata do papel humano, „parece que estamos há 50 anos atrás e caímos constantemente nos mesmos padrões de julgamento“, disse Iris Bohnet e alertou para um futuro não tão longe, no qual um software seria responsável pelos processos seletivos nas empresas e livres dos prejuízos que já discriminam a priori; computadores seriam capazes de fazer o trabalho sozinhos, não sendo mais necessárias as entrevistas – uma revolução – mas por enquanto ela defende mais neutralidade nas solicitações de emprego: sem nomes, sem fotos, sem idades, sem sexo, algo ofuscado, e também para minimizar aqueles critérios de simpatia ou de antipatia, ou mesmo de interesses comuns que comumente nascem no decorrer de entrevistas e que funcionam muitas vezes até como poder de decisão, mas que são, por outro lado, insuficientes para assegurar que a candidata ou o candidato escolhido seja o melhor para exercer o trabalho. No momento das entrevistas é importante que se faça as mesmas perguntas aos candidatos visando uma objetividade, disse Bohnet e menciona o exemplo dos anos 70 de algumas das orquestras sinfônicas americanas que puseram em prática um método para a seleção de novos músicos: os candidatos tocavam atrás de uma cortina sem que o maestro pudesse vê-los. A coisa é descarregar o mais possível os procedimentos seletivos de preconceitos e interesses já visados, e conceder uma igualdade de chances a aqueles que por tais vias não obteriam jamais um posto de trabalho.

(*) In Stern, 19/1/17.

Próximo post: 30/4/2018

 

Um certo tapete chamado vermelho

 

No Golden Globes Award 2018 uma atriz é chamada para receber o troféu de melhor protagonista; ela se levanta resoluta e dona de si, sem mostrar nervosismo, chega ao palco bem humorada, não se perdendo nos movimentos ágeis, e assim deliberada recebe o prêmio exibindo um ar de rapaz maroto, sem rodeios, sem cerimônia, sem chorar, mas segura de que o merece, e de pronto começa a falar com uma voz firme e entoada, deixando sair frases rápidas, daquelas de quem sabe o que quer dizer, um pouco de tudo, tomando como motivo o momento presente ou dirigindo-se às ladies convidando-as para uma tequila , ou fazendo uma observação política. A NBC reagiu com hostilidade a seu referido discurso – uma reação conservadora, claro – foi censurado e avaliado como de mau gosto e até extravagante, onde foram cortadas frases inofensivas, mas deixando passar outras mais diretas e mais fortes quando disse estar orgulhosa de si mesma com o seu trabalho no filme ao ter conseguido lançar um coquetel molotov de um lado da rua para o outro, ela que não sabe nem jogar beisebol. Uma tentativa de estigmatizá-la como perigosa? A atriz aqui mencionada é Frances McDormand que ganhou um globo de ouro no mês passado pela sua atuação no filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, no Brasil Três Anúncios Para Um Crime. Ela já é conhecida por não levar seus discursos previamente escritos, preferindo ser direta e até um tanto áspera, mas jamais monótona. Ouvi-la e vê-la nessas ocasiões é poder apreciar de sua mímica, de seus gestos soltos, de sua voz modulada e de seu humor. Também já se sabe que Frances McDormand não é uma atriz convencional, segundo o modelo de Hollywood, com respeito ao que se chama styling em ocasiões de gala, ou seja, não é importante para ela uma forma de aparecer que corresponda necessariamente a ser olhada como um objeto, e já deu provas disto trajando um casaco jeans quando recebeu o Tony Award – prêmio equivalente ao Óscar, mas outorgado às pessoas do teatro – em 2011. „ Não me tornei uma atriz porque queria ser fotografada. Sou uma atriz porque quero permutar-me com pessoas.“, disse. Ela é uma das poucas exceções que sabe vencer com talento e autoconfiança, não precisando usar a aparência para tornar-se atraente ao apresentar-se em público. Na cerimônia do Golden Globes Award apareceu pisando o tapete vermelho com um vestido escuro de mangas compridas, sem brilho, sem enfeites, parecendo mais um hábito de freira, mas condizendo com o luto como protesto do movimento Metoo nesta ocasião. É que Frances McDormand não quer ser uma estrela, ela é uma atriz madura de profissão, consciente de seu trabalho, que não se deixa ser um modelo de beleza cobrado pelo público como uma atração; ela é o que ela é.

Que significa realmente pisar no tal tapete vermelho? Que poderes tem? A cor encarnada dá um sentido de grandeza, impõe admiração, era a cor predominante na tapeçaria oriental antiga e os persas já a tinham determinado como símbolo da realeza. Seria outra cor concebível para impor tanta imponência? Difícil. O verde, por exemplo, daria um sentido ecológico, natural – seria lindo associá-lo à natureza – mas não seria majestoso e arrogante como o vermelho. Não é qualquer um ou uma que pode pisar no tapete vermelho; é preciso ser famoso, poderoso, ter prestígio: um proeminente, nunca um pobre. Essa imponência é o que faz ser excitante pisá-lo e poder exibir o que é vistoso, caro e supérfluo também – contudo uma coisa supérflua pode ser dispensada pelo excessivo que é; aqui a questão não é pôr abaixo o tapete vermelho – embora muitas pessoas, inclusive meu marido, acham que só o fato de falar sobre ele é estúpido, sem sentido, não passando de uma exibição caricaturesca: ele leu uma vez que o tal tapete devia ter umas manchas pretas como símbolo de sua imprestabilidade – a questão é porque ele é extremamente necessário como pano de fundo a exibições, ao meu ver, sem sentido.

Para muitos do mundo do cinema e da televisão o momento de aparecer no tapete vermelho pousando para câmaras e fotógrafos é a oportunidade que o público tem de vê-los fora de seus papéis nos filmes, apresentando-se como são na realidade, e neste ínterim mais as mulheres que os homens são alvos de serem olhadas, examinadas, comparadas, e até copiadas: é o ápice da ostentação, e o poder de atrair atenções, o qual deve ser fascinante ao cumprir o desejo de ser as princesas da noite. Uma princesa não tem defeitos, deve ser apenas linda e cativante, e só vista por este ângulo é-lhe impedida a vez de atuar mais além dessas demandas; são velhos mitos ainda vigentes quando olhamos e vemos apenas figuras de papel. „ No tapete vermelho a igualdade entre os sexos ainda não chegou“, disse Anna Brueggemann, uma atriz jovem alemã, „ aparecemos no tapete vermelho como nos anos 50“ Ela é a iniciadora do #hashtag Nobody’s doll surgido em Berlim como uma iniciativa já tendo em vista seus objetivos de ação no Festival Internacional de Filmes de Berlim, a famosa Berlinale de 15 a 25 de fevereiro deste. Ela parte de que desde o Metoo o debate sobre sexismo e igualdade de direitos no mundo cinematográfico vem se ampliando, contudo um aspecto deste último ainda não foi devidamente tratado, que é a pressão sofrida por mulheres em ter que conservar-se jovens, lindas e esbeltas. Daí o porquê „mulheres fazem coisas nada cômodas nem práticas só com o fim de agradar a outros, homens por exemplo“, e com isso perdem em aparecerem naturais em favor de um look especial para atrair atenções. Para ela o que faz uma mulher atrativa é o que ela é capaz de fazer, seu desenrolar próprio e não o que se pode fazer com ela, tornando-a um modelo. Assim o atrativo está voltado para a realidade de cada mulher, é algo que se entremeia com suas ações, flui sem esforços, é pessoal e único. Ao contrário disto, o tapete vermelho, com poucas exceções, proporciona um show de beldades. „Esta fachada não corresponde de jeito nenhum com a nossa força como mulheres.“ Diz Anna Brueggmann, que não nega nem a beleza nem a moda e gosta de estar bonita, mas incluindo nestes dois ítens uma forma própria, autêntica de aparecer e brilhar sem reduzi-la a algo imaginário. Por que é imprescindível para uma atriz calçar, por exemplo, High Heels, mesmo sendo estes muitas vezes desconfortáveis, ou estar perfeitamente maquiada? Estas exigências, das quais homens sofrem menos, cobrem seus verdadeiros valores enquanto mostram corpos, caras que, muitas vezes, nem parecem deste mundo. Ela acha que uma atriz que tem o que dizer, mantendo conversações interessantes não seria menos interessante ou atrativa que outras preocupadas mais com o seu styling. O que eu acho extraordinário em Anna Brueggmann é a sua ousada pretensão em querer mover alguma coisa de algo já há muito tempo estabelecido – é como pretender que o tapete voe – a partir de pequenas ações que „abram a outras possibilidades.“ Por outro lado reconheço o árduo que é fazer implementar tal campanha; as reações, sobretudo de mulheres, não obedecem a um consenso, nem se dividem entre aquelas que deixam transparecer pura rejeição e outras que a confirmam. Pude ouvir várias opiniões de mulheres expressando não só desconfiança, mas imparcialidade também, o que demonstra ao meu ver um despreparo crítico frente à realidade e seriedade da iniciativa Nobody’s doll que tenta tornar o tapete vermelho, pelo menos em ocasiões como as Berlinales, um espaço menos limitado e com mais criatividade, mais cores e liberdade.

A importância da beleza da mulher é um tema antigo que se tornou um mito. Um mito se forma quando damos a uma coisa um peso no seu significado sem nos questionar se esse significado é verdadeiro ou uma ilusão. Lembro-me que quando eu era uma adolescente ouvia elogios, não a minha individual beleza exterior, mas sim a beleza de minha juventude, e mais acompanhados de uma forte advertência de que esta beleza era curta e passageira, por isso eu tinha que aproveitá-la bem. O que eu entendi de tudo isso foi que havia uma grande distância entre idosos e jovens e, claro, tive medo de envelhecer porque não me foi dito que o processo de envelhecer também traz vantagens e não tem que ser necessariamente como o fim da alegria e do prazer. Ao ler o livro de Naomi Wolf, uma feminista inglesa, O Mito da Beleza, pude reviver aquelas lembranças quando ela deixa claro que este mito prescreve formas de comportamento e não qualidades exteriores. Então foi por isso que não me elogiaram os cabelos, nem meu rosto, mas só o fato de ser jovem e inexperiente já cabia dentro de um ideal de beleza. Naomi Wolf diz que a concorrência existente entre as mulheres também é parte dessa prescrição por criar separações entre as que culminam ideais de juventude, por exemplo, e as outras que não. Mulheres que começam a envelhecer não são mais bonitas – são as chamadas tias, madrinhas ou avós – porque vão se tornando mais fortes e ganham em experiências, significando isto que os laços que ligam as gerações devem ser desatados. Assim ambos os grupos, jovens e velhos, temem um ao outro, e a considerada qualidade de vida vai se encurtando para as duas partes. O mais urgente que as mulheres devem fazer, continua Naomi Wolf, é fundar sua identidade na força da „beleza“ e daí tornar-se dependente de que outros a reconheçam; as vias de valorizar-se a si mesma estão dirigidas aos cumprimentos, à admiração que vêm de fora. É quando a „beleza“ e tudo do que dela faz parte segundo moldes pré-estabelecidos – cuidados, dietas, roupas, plásticas, etc. – torna-se um estorvo porque limita a sua liberdade de escolha. A confiança consiste em querer alcançar medidas, formas, semblantes impecáveis correspondentes a um mito de beleza, sem que jamais os consigam. Wolf diz que mulheres devem se liberar disso, pois esse ideal inculcado jamais será satisfeito, assim ele perderia sua função; pois importante para o mito é que a mulher se veja feia para que ele possa sobreviver, e isto já é uma razão para liberar-se dele. No fundo não importa como é a sua aparência, o mais importante é que a mulher se ache bonita. Naomi Wolf quer dizer que enquanto mulheres não definirem elas mesmas o que é „beleza“, serão manipuladas por ela. E a autora vai mais longe dizendo que o problema não se funda no fato de que mulheres se maquiem ou não, se elas emagreçam ou não, se elas façam cirurgias plásticas ou não, se elas façam das roupas, do rosto, do corpo uma obra de arte ou não, se desistam de jóias ou não; o problema consiste em que elas estão desprovidas de outra opção. Aqui o que tem que ver, segundo Naomi Wolf, é a luta entre o que proporciona dor e prazer, liberdade e ser levada por outros – mulheres estão metidas numa prisão, longe de desfrutarem da despreocupação, da leveza que é cuidar-se, apresentar-se, achar-se bonita. – Mulheres teriam mais satisfação com o vestuário, se este não fosse pura concessão, mas resultado de uma forte identidade, diz a autora e continua: uma mulher está livre do mito da beleza, se ela sabe decidir por ela mesma, uma entre muitas possibilidades, uma maneira própria, condizente com a sua identidade, de usar seu corpo, seu rosto, seu vestuário como sua forma de expressão; e num mundo onde a mulher tem a liberdade de decisão, seria a decisão, no que diz respeito a sua aparência, nada complicada, pois ela exprimiria aquilo que a mulher realmente é. Então a coisa é autodeterminar-se, liberando-se do mito da beleza? Wolf diz que sim e só vê vantagens para isso.

A criação do Nobody’s doll é do ano passado quando Anna Brueggmann escreveu com claridade, mas também movida por emoções seu texto de apresentação. Para ela é muito importante que este movimento não seja nem vire um meio de excluir mulheres ou apontar-lhes o dedo em acusações. Ao contrário, diz, „é um estímulo a todas, a apropriarem-se de liberdade,“ – que no fundo está ao nosso alcance – „ é um apelo a que muitos e muitas façam o movimento crescer, anexando-se a ele.“ Parabéns Anna Brueggmann!

 

Próximo post: 19/03/2018

 

 

O PODER DA OBSERVAÇÃO

É de se esperar de uma mãe que observa um filho pequeno enquanto ele toma um sorvete, comumente falando, o mais trivial possível – que gosto ele lhe dá saboreando este creme gelado, ou mesmo se ele vai sujar a roupa, deixando uma nódoa irreparável nela. No entanto se esta mãe, ao invés, se pergunta o que sentir por esse filho ao contemplá-lo, absorvido que está no prazer de lamber o sorvete e inconsciente de sua própria expressão e do que evoca nela, já não é corriqueiro, mas sim uma observação muito insólita. Ela se dá conta da falta de um sentimento „reconhecível“, talvez um daqueles imprescindíveis como resultado de um estímulo exterior, como se fosse absolutamente necessário ter que sentir algo específico e condizente num momento, tomando um pôr do sol como exemplo – muitas pessoas não sentem nada extraordinário ao presenciar o poente, sem embargo não deixam, nem por isso, de apreciar este espetáculo natural. Ter um sentimento como sem falta num determinado momento pode ser uma exigência nossa com o fim de nos conciliar com o meio onde estamos e não nos sentirmos estrangeiros. Por que não em vez de nos exigir algo, deixar-nos levar pelo que observamos?

A mulher, a mãe supracitada é Clarice Lispector – como é de se esperar – vivida numa de suas famosas crônicas escritas para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973 e reunidas no livro A Descoberta do Mundo. „Lembrança de Filho pequeno“ data de 28 de setembro de 1968, é um texto bastante curto com apenas três parágrafos, mas extremamente condensados em afinadas descrições de estados de ser, comparações aguçadas, paralelos inteligentes e uma manobra exemplar de adjetivos. Também é uma crônica que à primeira vista parece ser fácil – Clarice Lispector é como Franz Kafka – a facilidade de serem compreendidos é somente uma trampa da aparência, a inteligibilidade das frases oculta a complexidade do discurso existencialista atrás das palavras escolhidas, assim como a superficialidade dos fatos pode esconder o tema: é um sorvete de chocolate, degustado pouco a pouco em pedaços gelados que enchem a boca quente do menino sem que ele esteja ciente da „felicidade incômoda“ que o choque de temperaturas provoca na sua boca – „Essa, a boca é muito bonita“ – e continuando atenta, vê que de repente o filho ficou mais ávido: „ é que deve ter encontrado algum pedaço de sorvete com mais chocolate que o resto, e que a língua esperta captou“ – um triunfo para o paladar – contudo ele não olha para a mãe, deixando assim ser observado por ela „nesse seu ato íntimo, vital e delicado“; ele já está acostumado „à burrice“ do olhar dela „concentrado de amor“. Sim, ela está concentrada no filho que toma um sorvete de chocolate, mas apenas sente a sua natureza rígida, o que é ser ela mesma – fechada, dura, inflexível e o que é ser mãe com toda a sua aspereza, primitiva, tosca – está ali parada e retirada, uma observadora sagaz do filho que unicamente come. Seria de se deduzir inúmeros clichês em forma de sentimentos diante desse quadro, a perfeita dialética como resultado de mãe, filho e observar: um aflorar de sentimentos ditosos; entretanto não é o que Clarice expressou como centro de sua introspecção, mas sim o que do momento de sua observação a conduziu: a impenetrabilidade de seu ser, um encontro consigo mesma, o outro lado da moeda; um momento sem tempo, ou seja, sem processo, aprisionado na sua introspecção que se torna cada vez mais aguda. É a fascinação pela morte? Como tirar vida daí? Por que ela não fica feliz ao ver seu filho feliz tomando um sorvete? Para mim isto foi o seu tema central, ela deu pouca importância às ações, mas bem mais ao que está escondido atrás delas e difícil de sacar: a premente necessidade de exprimir o indizível da condição humana.

Quando li esta crônica pela primeira vez foi nos fins dos anos 80; eu era jovem, sonhadora e fiquei de pronto fascinada por ela – esse quadro antagônico entre o prazer e o torpor, mas que ao mesmo tempo se complementavam – me levou mesmo a uma certa obsessão. Como teria querido pôr em cenas a crônica, filmando-a! Imaginava a cara do menino em primeiro plano, ele só ocupado em saborear o seu sorvete, desligado da mãe e de outros interesses, e ela lá o observando passivamente. Logo me dei conta da grande dificuldade que era transformar em cenas essa mãe submergida em seus pensamentos, ensimesmada em seu mundo interior, atemporal e sem saída alguma a não ser a de confirmar ela mesma; senti que o grau de exigências sobre mim era superior às minhas possibilidades; foi quando pus meus pés no chão e desisti do projeto, para mim, irrealizável.

Ver, ouvir, tocar, cheirar, degustar são ações referentes à nossa capacidade de perceber; observar vai mais além do que ver porque requer atenção – uma certa atenção que se dá aquilo que se quer observar, quer seja de forma metódica, como nos experimentos científicos, quer seja livre e espontânea. A observação como método é seletiva, dirigida a um objeto determinado, exige muita atenção por ser um processo ativo, e mais: a perspectiva do observador é muito importante para o seu objetivo de estudo. Ao contrário desta, a observação do dia-a-dia, que não é sistemática, não tem objetivos nem planos, é mais uma casualidade da nossa percepção, está dirigida ao todo e não aos detalhes, não tem indicações de onde, quando, o que e como será observado, é subjetiva e depende espontaneamente das preferências do observador. Por ser uma observação mais livre, pode ganhar peculiaridades da observação metódica, mas sem que esta ganhe da outra. É o caso de dirigir a observação a algo no intuito de chegar a conclusões – os pais observam o crescimento dos filhos, a mulher começa a observar mais atenta as saídas do marido, a namorada ciumenta observa as mulheres que estão por perto do amado e assim vai. Estas observações são importantes porque nos dá capacidade de avaliar situações e até mudar formas errôneas de pensar.

Adoro observar e isto é a prova do porquê eu não sou tagarela e nem simpatizo com pessoas que têm esta característica – elas me deixam nervosa e podem ser bem negativas para a minha concentração – por isso o melhor é afastar-me delas cordialmente, se é possível. Os meus palcos de observação são bem variados, gosto de observar sobretudo as pessoas – seus estados e suas ações – juntas com outras ou não – nas ruas, em reuniões, festas ou passando pelo café onde estou sentada, ou nas bibliotecas, nos transportes públicos, etc. Também observo com prazer os animais – pássaros, cachorros, gatos que são os tipos que mais vejo durante o dia; crianças brincando, uma paisagem, o mar, um céu azul bordado de nuvens esparsas e como elas mudam ao encontrarem-se umas com as outras em seus passeios, à nossa vista, vagarosos. Gosto de ver atenta a sequência das cenas dos filmes, seus movimentos e como elas foram montadas. Enfim, observar é o que me salva da minha tendência ao retiro, uma necessidade para encher-me de estímulos e para viver o presente e participar dele.

Quando cursava Letras, fui um dia estudar com uma colega na sua casa; como tinha que ir embora depois do almoço, aproveitei a carona do seu marido que ia levar o filho pequeno, o Fabinho, pra escola. No carro eu sentada atrás, observava o pai chamando a atenção do menino no banco dianteiro para que ele da janela olhasse o que estava passando – o pai era um jornalista de profissão, e estava claro seu interesse em estimular a criança como provindo de suas próprias experiências: „Fabinho, olhe pro momento.“ „Olhe pro momento filho.“ E assim sem tom de comando repetiu a frase várias vezes para o menino, a qual no fundo guardava uma lição de vida – o pai transmitia ao filho o que era para ele um valor. Nunca me esqueci disto e sei que a lição também me serviu.

Com tudo isso nos basta só observar para captar e compreender a realidade? Não. Acho que a observação é só um passo – pode ser o primeiro – que nos abre para algo, mas de modo algum podemos ficar só de observar sem ir mais além disto, desviando-se da reflexão. Esta nos dá uma distância daquilo que observamos para compreendê-lo melhor: é lindo observar a natureza, sua beleza, suas cores, suas mudanças, entretanto também é mister perguntar por que ela está ameaçada. Há pessoas que adoram ir a um jardim zoológico para ver animais raros – eu não: prefiro ver animais livres – tudo bem, mas ele nos dá uma imagem estancada da realidade. A partir do momento em que perguntamos o porquê da raridade desses animais, já estamos refletindo sobre isto e daí já pode começar mudanças.

 

Próximo post: 25 de fevereiro de 2018

 

 

 

 

 

 

E assim são as notícias…

 

O que o ano de 2017 deixou no mundo foi um saldo de acontecimentos desafortunados, que geraram por sua vez notícias más, cruéis, e as palavras mais repetidas para expressar estes contextos não foram outras senão bombas, ataques terroristas, explosões, massacres, corrupção, racismo, guerra e… tantos outros termos que só exprimem desgraças, sem esquecer que a posse de Donald Trump no 20 de janeiro também faz parte desta lista.

Contemplando este arsenal desditoso, vejo que a vida no nosso planeta não tem melhorado, mesmo com o tão proclamado poder da democracia nas sociedades modernas e com tantos outros avanços sociais; a boa qualidade de vida é um dado concreto e relativo às condições matérias de existência como trabalho, moradia, saúde, previdência, aos quais todos os humanos devem ter direito, mas nem sempre garantem a tolerância, a justiça social e a integração. Por outro lado muitos dizem que não é que o mundo tenha piorado, mas sim que o acesso às notícias hoje é muito mais eficiente e elas estão à nossa disposição durante as 24 horas do dia nos inundando – é certo – e se a maioria das notícias é de fundo negativo, não tem que ver isto com o pioramento do mundo, mas sim com o fato de que antes não tínhamos esse acesso fácil, direto e rápido com o que se passava, como também a transparência dos fatos nunca fora tão facilitada como hoje através dos meios digitais. Em outras palavras, sempre houve políticos corruptos, crimes em série, estupros, crianças abusadas sexualmente, etc.; diferente hoje é que estas barbaridades estão mais passíveis de serem reveladas que antes, e as notícias se alastram mais rapidamente, não nos deixando quase tempo para refleti-las, pois outras novas igualmente já tomam o lugar das precedentes, gerando um excesso de notícias negativas ou de escândalos, sobretudo políticos e financeiros, um atrás do outro nos causando desconfiança e insegurança. É quando perguntamos onde estão as notícias boas e se elas ainda existem. Claro que existem, mas estas em sua maioria estão debilitadas frente à avalancha de notícias negativas ou disfarçadas em promessas vazias. E isto é o que faz com que as notícias de caráter negativo e assustador tenham mais alcance, ganhem mais importância e se tornem fidedignas. Já está provado o quanto essas notícias geram emoções fortes como o estresse, o medo, a ira, a repulsa, nos pondo em estado de excitação e, principalmente, podendo influir na nossa capacidade de reflexionar e discernir – é que acreditamos naquilo que nos pega emocionalmente, seja aquilo verdade ou mentira – ao passo que as boas notícias se perdem em descredito, não correm nas veias e tornam-se enfadonhas e esquecidas. Por que isso?

Arjun Appadurai, é um antropólogo americano, nascido na Índia, teórico da globalização e professor na Universidade de Nova York. Apesar de não gostar de muitas de suas idéias, concordo com ele quando diz que as notícias boas prendem muito menos a nossa atenção, embora seus conteúdos sejam, como por exemplo, os movimentos pela justiça e pela paz, ou projetos locais em prol do meio ambiente e, até mesmo, como exceção as boas negociações do governo para o povo. É que, diz ele, as boas notícias para serem usufruídas e credíveis necessitam da parte reflexiva de nossa personalidade, como também de esperança, de simpatia e empatia a sua vez; todos estes sentimentos precisam de tempo e requerem paciência e reflexão, o que para as más notícias eles não têm vez, ao contrário, estas podem ser consumidas mais rapidamente encontrando mais audiência e leitores que as notícias boas. Certo, e daí entendo o porquê nossas reações são opostas em face ao tipo de notícias que recebemos: as más nos suscitam o medo e nos paralisam, e as boas parecem ingênuas, idealistas e irreais. Daí também fica claro que tipo delas é mais apropriado para o populismo político e a manipulação do povo, como também porquê um homem como Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos – o populismo vive do medo do povo, e por causa deste medo é necessário construir muros, expulsar estrangeiros, retirar-se de acordos sobre as mudanças climáticas, fazer ameaças ou sentir-se ameaçado de guerras e por isso aumentar o arsenal bélico… É preciso ter uma forte capacidade crítica e um posicionamento para não se deixar levar por explicações que aparentemente parecem verdade.

O caráter negativo das notícias é tão forte que dele mesmo foram criadas medidas de proteção contra ele, como pontos convincentes e capazes de nos afastar não só das nocivas, mas enfim de todas as notícias. São conselhos a aqueles que saturados com tantas notícias más afirmam: „Não aguento mais essas notícias, elas só me roubam a paz!“ Ou: „Isso podia ter acontecido comigo!“, e proclamam uma vida sem contato com as notícias. É uma saída conducente à relaxação, pois enfim livre dos conteúdos estressantes e dos sensacionalismos que as notícias trazem, mas possível? Sim, mas não é fácil, e não é pessoalmente a minha solução definitiva, pois por mais que a informação seja sumamente necessária, não me contento só com a sua fenomenologia sem um pano de fundo convincente. Somente em perguntar-nos se na realidade é mesmo assim o que dizem ou publicam, já é um passo importante para liberar-nos dos blá,blá, blás e começarmos a formar um sentido crítico e a ampliar o nosso horizonte – abrir bem os olhos para o que está acontecendo e querer saber mais do que é mostrado e dito – é que ele é uma criação da maneira de como vemos, ouvimos, interpretamos e valorizamos as coisas, ou seja, ele é resultado de nossa percepção – como percebemos acreditamos como verdadeiro, independente de que isso seja verdade ou não.

Não é raro ouvir que a maior parte dos comentários das notícias transmitidos pelos meios convencionais de divulgação parecem trajados com um mesmo uniforme, como se viessem de uma mesma fonte e estabelecessem uma norma de pensar; não indo mais além do notório, limitando-se a uma unidimensionalidade dos fatos. Assim é comum dividir o mundo entre os bons e os maus e fazer destes verdadeiros demônios, contra os quais temos que nos defender. Este descaro tem que ver com as limitações que redes de notícias estão submetidas e assim as divulgam segundo os interesses daqueles que se beneficiam da forma como elas são transmitidas e comentadas. O medo de cada um de nós, o medo das massas é usado no fundo para manter o establishment – após ataques terroristas em cidades européias, por exemplo, foi instalado um grande número de câmaras de vigilância pelas cidades, como uma medida paliativa e nada mais. No fundo sobre as soluções para o terrorismo que nos invade, não se fala, porque aquelas dependem de medidas nada conformes com os objetivos políticos e financeiros de grupos que estão no poder e querem mantê-lo.

Onde ficamos em meio a esse arsenal de manipulação? O que lemos? Que fontes são fidedignas? São perguntas pertinentes para aqueles que não se bastam só com o que é geralmente divulgado. Quem quer saber mais do que está por trás das notícias correntes e informar-se através de outros meios que não os dos portadores do mainstream, deve se esforçar para chegar a outras fontes – existem projetos independentes e alternativos de divulgação de notícias e reportagens – onde interesse, empenho e tempo são exigidos para encontrá-las. Pessoas que preferem um jornalismo emancipado e feito por profissionais sérios e independentes dos monopólios das grandes agências de notícias têm sempre argumentos a mais e fundados em fatos reais que muitas vezes incomodam àquelas pessoas acomodadas com a ordem como as coisas estão e sem interesse em mudar alguma coisa.

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