Sobre o amor e alguns equívocos

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Fotografia da ChristinArt (todos os direitos reservados)

Não é a minha intenção aqui resolver problemas de amor, nem dar conselhos de como se deve amar ou consegui-lo, já é demais querer falar de amor por ser um tema tão vasto e possuir tantas abordagens, outrossim pela sua natureza abstrata ser impossível de encaixá-lo em planos ou projetos para o futuro. É também entrar num mundo composto de sentimentos, paixões e muitas histórias. O amor tem a sua presença em todas culturas e o seu lugar na história da humanidade pela sua força criadora e sua capacidade de provocar mudanças.

Muitas pessoas falam do amor só como uma experiência que seja, fantástica, absurda ou dolorosa; nunca um tema foi tão abordado quanto este, nunca uma frase foi tão repetida como “eu te amo”, “I love you”, “ j’taime”,  e em outras línguas. A literatura, a música, o cinema, o teatro são formas artísticas cheias de exemplos de amores, tais como os correspondidos ou não; os realizados e os malogrados; os ilusórios, complicados, tempestuosos, cruéis e, sobretudo, os infelizes. Infelizes porque se fala melhor do amor quando ele faz sofrer? A dificuldade reside em encontrar um equilíbrio entre a dor e o
prazer de amar, de poder desfrutar estar junto com o outro, mesmo sabendo que este momento não fica para sempre. Esta descrição está nos versos de Ira Intsch de forma belíssima:

Meu rosto se apóia em tuas mãos.
Sentir-te, absorver teu perfume e unir-me a ti.
Contigo falar de Deus e de tudo que o mundo
nos mantém juntos.
És tu que te expandes em mim.
E eu faço o mesmo em ti.
Resistiremos a tudo isso?

Ainda há aqueles que negam a sua existência, e falar de seus insucessos é um bom argumento para afirmar que ele é impossível de forma erótica. Ou melhor: no desejo sexual, cuja energia é a libido, simbolizados por Eros, não há amor, já o amor a Deus seria a única forma cabível de amar, do mesmo modo que o amor entre pais e filhos. Assim o amor erótico se diferencia do amor filial e do fraterno e estes do amor voluntário a Deus. Estas distinções tanto nos ajudam como dificultam a entender este sentimento tão desejado, mas também temido porque ao mesmo tempo que é um componente tão decisivo para a nossa felicidade, também é uma parte difícil de nossas experiências. No fundo, como um sentimento, é nobre, o maior entre todos os outros, e que sem ele não há chance de uma vida plena; basta pensar nos casos de crianças órfãs ou abandonadas e nos meninos de rua: se as condições materiais de uma família se encontram abaixo do mínimo aceitável de existência, não há mais espaço para o amor como fator de união e segurança; a família carece da coluna que sustenta a confiança e previne-a de perigos, garantindo tranquilidade de espírito para o seu bem-estar.

Com relação ao amor erótico, este é o mais complicado e fornecedor de equívocos por ser exclusivo e estar centrado em nós mesmos, na nossa necessidade de fundir-nos com o outro intimamente. Este aspecto do amor se confunde com a fase mágica da paixão, movida pela atração física, pela energia da libido que nos empurra até o outro para formar uma nova união. Está poeticamente mencionada no Velho Testamento:

„Eu sou para o meu amado
o objeto de seus desejos.
Vem, meu bem amado,
saiamos ao campo,
passemos a noite nos pomares;
pela manhã iremos às vinhas,
para ver se a vinha lançou rebentos,
se as suas flores se abrem,
se as romãzeiras estão em flor.
Ali te darei minhas carícias.
As mandrágoras exalam o seu perfume;
temos à nossa porta frutos excelentes.
novos e velhos
que guardarei para ti meu bem-amado.“
(Cântico dos Cânticos, 7,11-14)

O Novo Testamento não cita o amor erótico, mas sim o amor a Deus e o fraternal que é uma forma de amor universal e está centrado no outro, no coração e na benevolência „Amar ao próximo como a si mesmo“ é a prova do êxito social do cristianismo e do seu caráter revolucionário, pois até então o perdão era tido como uma prática da bondade de Deus aos homens e não como uma determinação moral do homem – o homem perdoa ao seu semelhante e com isso assume uma posição de liberdade – pois perdoar também significa soltar, liberar – o que não deixa de ser um componente do amor.

O que torna o amor erótico mais enganador é o seu caráter de imediatez que faz romper a distância entre os dois através da consumação do desejo no contato sexual, como se este – não importando o que o estimula – fosse suficiente para unir profundamente duas pessoas. Aí está o equívoco de crer que se há atração sexual, ela é responsável para garantir o amor e fazer durar o relacionamento. Para sempre? O que não se vê é que a sexualidade e o amor, apesar de poderem conviver juntos, são duas coisas distintas. Aquela pode ser vivida sem amor, e este pode ser expresso ou desenvolvido sem aquela. Homens, melhor que mulheres, usufruem desta dualidade de forma confortável sem se sentirem culpados; muitas mulheres, pelo contrário, ainda não admitem viver sua sexualidade sem amor, o que é um equívoco, mas também não deixa de ser equivocada a grande importância que se dá a ela, sem vê-la apenas como uma parte de nós, mesmo podendo ser ela até mais dominante que o amor.

Todos nós queremos o amor, e já fomos exortados a amar desde a idade infantil – a Deus, à Virgem, aos irmãos, aos avós, e assim ia. Hoje somos exortados a seguir os apelos da publicidade, da internet e sobretudo dos especialistas do assunto que nos prometem encontrar o amor ideal e eterno, bastando para isso seguir seus mandamentos, esquecendo, porém, que as duas pessoas têm a sua própria história, e esta é a que, na maioria das vezes, determina o potencial e a capacidade de amar de cada uma. A figura de um coração que palpita, duas mãos dadas, rosas vermelhas, todos estes símbolos invocam o amor, mas no fundo sabemos que não é fácil amar, talvez por estarmos centrados em outras necessidades, deixamos de consultar o nosso próprio coração. E aqui reside outra equivocação em querer experimentar o amor: ele passa a se centrar mais no ser amado por alguém do que no amar este alguém; tirando do amor o caráter de poder ser produtivo e causar mudanças. Erich Fromm já falou sobre isso no seu famoso livro „A arte de amar“ ao deixar claro que o amor „é uma capacidade de um caráter maduro e produtivo“, mas não abstraindo disto a parte de influência que uma cultura (seja ela qual for) tem sobre o caráter de um indivíduo, e enfatiza a estrutura da cultura ocidental e o espírito que dela resulta como incapazes de desenvolver o amor. Fromm escreveu isto nos anos 50 e o modelo capitalista abundava nos Estados Unidos do pós-guerra. Não é que ele via neste sistema um impedimento ao amor – sabia muito bem que „o capitalismo moderno precisa de homens que se sintam livres e independentes“, mas que, ao mesmo tempo e paradoxalmente”estejam dispostos a ser manejados e a fazer o que se espera deles“ – mas bem Fromm tinha uma fé na capacidade do homem em fazer possível o amor como um fenômeno social; neste ponto ele se diferenciava fundamentalmente de Freud que entendia o amor como basicamente sexual, incluindo até o amor fraterno como um resultado dele, onde o instinto sexual, porém é transformado num „impulso inibido“. Assim Freud não dava ao amor um atributo racional, nem via nele o resultado maduro de um processo consciente.

E no entanto o “grande amor” continua a ser ansiado e esperado – aquele, alimentado por palavras ou por momentos felizes, aquele que é mais bonito quando escrito ou encenado nos filmes e nas telenovelas, cuja beleza é mais um produto de um conto que vive na ânsia de ser realizado, e assim passamos a querer esses amores por serem mais belos que reais, mas que por outro lado nos enchem de esperança: a de não estar mais só e poder compartir a vida com o outro. Por ele ou em seu nome tudo é possível entre a vida e a morte: abandona-se a família, contraí-se dívidas, sofre-se maus-tratos, morre-se e até mata-se o objeto do amor – o ser amado. O amor como fator de sofrimento antes era encarado por muitos como fazendo parte do grande sofrimento da humanidade; hoje esse padecimento ou tortura levaram ciências como a psicologia e a sociologia a procurar as raízes desses martírios até tentar eliminá-las.

Até em sociedades avançadas da Europa, para muitas mulheres uma prova de amor ainda seria ganhar num dia não especial um buquê de rosas vermelhas ou um jantar especialmente preparado pelo amado e ainda ouvir à luz de velas um “eu te amo”. Para outras mulheres as flores também fazem esquecer os maus-tratos e até mesmo atos violentos do parceiro, levando-lhes à submissão: “ele me bateu ontem, mas hoje me trouxe rosas; no fundo ele me ama.” São estas formas simbólicas já consagradas de provar o amor o que ainda o define? Claro que não. Detrás delas está a necessidade premente de experimentá-lo como um direito natural que se deve ter na vida, igual a gozar de saúde ou ter uma família e uma moradia; e assim justificam-se as cobranças que se faz do amor. Contudo homens são diferentes e têm na cabeça outros pensamentos como a intolerável e irritante pergunta: „O que ela quer mais, se faço tudo por ela?“, exprimindo mais um ajuste de contas indiferente, do que a expontânea expressão de um tão esperado: „Te amo“. Por que é tão importante repetir esta frase? Mulheres a necessitam mais ouvi-la porque homens se sentem menos masculinos ao pronunciá-la? Os filmes típicos americanos de amor me irritam quando abusam dela como uma elocução gratuita adornando um cenário fantasioso, mas que me fascina quando tirada da realidade, mesmo sendo pronunciada dentro de um cenário fictício.

Os símbolos que se referem ao amor se dividem entre mulheres e homens; esta separação leva mais a perpetuar os clichês em torno do amor e só nos separam excluindo do „sexo forte“ até a capacidade de amar por não se ver esta representada através de formas usuais e repetidas nos cartões de felicitações e na publicidade como um coração, a mãe e seus filhos ou o ato de amamentar, símbolos sumamente femininos. Por que não se vê representado o amor paterno ou o amor masculino sem precisar estar envolto de   virilidade?

Por mais que o papel do segundo sexo hoje assuma mais responsabilidade dentro da família, do trabalho, etc., ainda esperam mulheres a sua salvação pelo lado do amor, como sendo este uma garantia para durar toda a vida ou „até que a morte os separe“. No entanto, quem ainda acredita que o amor se conserva inalterado para sempre? Esta estagnação não pertence ao amor, mas sim atividade para desenvolver-se. Casais que permanecem juntos até o fim de suas vidas, não justifica isto a idéia de que foi por conta do amor fazer possível esta união até a morte. Outros fatores mantêm uma relação, fazendo-a conservar-se, mesmo estando esta submetida à dominação ou ao sacrifício. Como também há muitas outras coisas que unem um casal, sendo muito mais reais e viáveis do que a perseguição de uma velha aspiração, de um sonho, ou seja, de um ideal.

Quando homens me esclarecem o mundo

É a minha tradução (só) do título do ensaio e livro de Rebecca Solnit, cujo original em inglês é Men Explain Things to Me. Já me referi a ele no meu último post “A Susceptibilidade de Escreva Lola Escreva” de forma apenas a introduzir meu texto sem aprofundar-me no seu conteúdo. Agora quero expor o que me parece este seu ensaio publicado em 2008. Ele foi inspirado por uma experiência vivida seis anos antes pela própria autora numa festa em companhia de uma amiga, quando o anfitrião, com ar arrogante, tentou esclarecer-lhe sobre um livro recém- publicado sem ter querido dar-se conta de que ela era a autora do livro em questão. Um sinal de que não tinha querido ouvi-la dizer que o tal livro era seu, e  assim presunçoso continuou palavreando até que, após várias incursões da amiga em tentar dizer-lhe que era o livro dela, deu-se conta em fim onde tinha se metido. Depois de saírem e já a uma certa distância, as duas amigas riram aliviadas do sucedido – como não rir do ridículo? O riso é uma reação que pode nos dar distância dos fatos e ajudar-nos a relaxar frente a situações que no momento não teríamos outra saída; rir como reação à prepotência ou como uma liberação. E Rebecca Solnit ainda ri deste fato, e sem ter rido de antemão, talvez não tivesse escrito um ensaio com tanta agudeza. Primeiramente foi publicado na Website de Tom Engelhardt – TomDispatch – com grande recepção: foi como beslicar uma corda de violão, disse, ou tocar numa ferida aberta; pois ela nunca tinha recebido antes tanta repercussão com um ensaio como com este . Mas por que um só ensaio, e além do mais curto, chegou a causar tanto impacto, não só entre mulheres, como entre homens também? Nós mulheres conhecemos muito bem o que significa o título deste ensaio em situações ou momentos onde sobretudo homens se impõem como donos da verdade em favor de sua pretensa sapiência ou conhecimento das coisas para poder estar no centro das atenções. São esses discursos soberbos carregados de explicações, definições, … por onde se deixam aparecer, muitas vezes só insinuando saber sobre isso e aquilo, mas que nos levam a calar como se fôssemos impedidas de abrir a boca – nem sempre por meios de imperativos, mas por reserva nos excluímos – confirmando uma insegurança ou o medo de sermos ouvidas. Rebecca Solnit fala do quanto é brutal fazer com que  mulheres se calem: „Eu sei do que estou falando.“ Uma frase agressiva como esta, e pelo seu conteúdo já podemos imaginar sem dificuldade como ela foi pronunciada – aos gritos – uma frase categórica de homens e sinônima de: „Você não sabe de nada“. Por que só ele sabe sobre o que fala, e ela não? A vivência deste fato brutal, não importando o contexto, se relacionado a uma discussão ou a uma simples conversa, perpetua nela o ódio e interrompe-lhe a claridade de pensar. Com esta tamanha tirania está explicado então porque mulheres não ousam ser ouvidas, e chegando esse silêncio a situações extremas, mostra até aonde vai a relação de poder entre os sexos existente na sociedade. Solnit não descreve o patriarcalismo como nascente do machismo para justificar este  comportamento específico, fala porém da hierarquia entre os dois gêneros como fundamento básico da sociedade, e enfoca bem sim essa habilidade secular que têm homens de fazer calar mulheres e de se fazerem escutados por elas. Será que são mesmo escutados como creem? (Podem continuar acreditando queridos!)
Nascida na Califórnia em 1961, Rebecca Solnit é dona de uma notável carreira intelectual, já tendo escrito mais de doze livros ligados a diversos temas desde política, história da cultura, arte, feminismo até meio ambiente, e embora estando seus livros fundamentados sobre uma pesquisa sólida, mesmo assim não passa a escritora incólume a situações como a experiência do início com o sr. importante, por ela assim batizado. Esta e outras são experiências que põem em questão suas certezas e podem avivar-lhe velhas inseguranças – experiências nada gratuitas como encontrar-se na presença do sr. importante que revestido de confiança na sua atuação, e também confiante que ela se deixará vacilar e intimidar-se frente à certeza dele. É com essa lealdade e coragem que fala de si mesma e lembra o que dia a dia enfrentam mulheres quando são expostas a situações sem terem o direito de exercer sua expressão, sendo esta o que lhes dá o direito de ser alguém.  Já fui muitas vezes testemunha de casos como este, e quem não foi? Homens também a mim já explicaram e querem explicar o mundo e o significado das coisas como se eu fosse uma colegial preguiçosa e desinteressada, e muito pior até, sem levarem em conta se eu conheço ou não o assunto sobre o que eles estão falando, ou se tenho ou não uma bagagem de conhecimento ou experiência de vida. Homens que não dão importância a esses pré-requisitos não querem ouvir, mas serem ouvidos e admirados – E como é irritante ter que ouvir um discurso sem fim!
Até hoje homens seguem esclarecendo o mundo a Rebecca Solnit, sem que nunca tenham lhe pedido desculpas por isso, ou por terem explicado errado, ou mesmo pelo fato de ela saber e eles não.
E mulheres por outro lado também não gostam de dar explicações, sobretudo a outras mulheres, muitas vezes sobre insignificâncias e até de forma desdenhosa como se fossem expertas no assunto? Sim, existem tais, como também em grande número e Rebecca Solnit não nega a existência delas, mas não que esse aspecto loquaz e maçante seja uma marca que especifique o gênero feminino; ao contrário uma atrevida exibição de confiança até na própria ignorância é para ela uma característica masculina – escondendo insegurança e imprestabilidade.
No meio político vemos com mais nitidez a inundação de discursos daqueles que sabem de tudo, e sabemos o como é difícil e fatigante para mulheres, as jovens principalmente, sobrepor-se e serem ouvidas com respeito até por seus colegas de partido. Solnit cita o caso de Coleen Rowley, uma agente do FBI durante a presidência de Bush, que não foi ouvida ao ter chamado com antecedência a atenção para o Al-Qaida. Não quiseram escutá-la, e isto é o mesmo que dizer: só escutaram o que estava conforme a seus conceitos. O fato de que a guerra foi resultado de um jogo  arrogante masculino, também leva-lhe a afirmar que há outras guerras, aquelas vividas no interior de quase todas as mulheres, por terem a convicção de poder ser dispensadas e atraídas a se calarem. Por que não devo me expor a falar sobre coisas que sei expor sabendo que tenho esse direito? E mesmo com uma certa insegurança sobre algo, isto pode ser útil e abrir caminho para corrigir-se: ouvindo, aprendendo e crescendo, mas quando essa insegurança é grande demais, pode conduzir a mudez e paralisações, do mesmo modo que uma excessiva autoconfiança pode demonstrar pura arrogância. Entretanto há um caminho entre esses dois pólos – diz Rebecca Solnit – onde os dois sexos podem conviver: a calorosa região do dar e do receber onde todos nós devemos nos encontrar. Uma metáfora nada proporcional à realidade da maioria dos diálogos entre homens e mulheres, mas otimista.
Se muitas mulheres, infelizmente, não ousam ser ouvidas, esconde-se por trás deste fato o quanto é importante ter credibilidade e até como um pré-requisito para sobreviver. Solnit escreve no seu ensaio que num Natal quando era muito jovem, e já tinha começado a entender o que era o feminismo e a sua importância, o tio de um amigo contou, como se fosse uma estória inventada, que a mulher de seu vizinho a altas horas da noite saiu despida de casa correndo e gritando que seu marido queria matá-la. Sem pestanejar acreditei na declaração da mulher, mas ao seguir lendo, defrontei-me com a pergunta da própria Solnit ao tal tio: Como o senhor sabia que isso não estava certo?  A explicação foi que o marido se tratava de um cidadão honrado e respeitado e que a acusação meu marido quer me matar não continha em si fator de credibilidade para que fosse tomada como verdade, embora ela tenha gritado na rua isso; mas que fosse uma louca, pelo contrário, foi levado a sério.
Em certos países do Oriente Próximo a falta de credibilidade às mulheres é comprovada em casos de violação sexual, nos quais a acusação da mulher não tem peso na justiça, a não ser que ela tenha um homem como testemunha, e que este queira confirmar sua acusação, o que só raramente acontece.  E Rebecca Solnit vai mais além destes fatos; ela que começou o ensaio por um incidente, foi mais adentro chegando a mencionar estupro e morte, o que para ela pode ser uma coisa de continuidade – um mal-entendido pode passar, de sua forma normal, ao abuso, à violência, intimidando mulheres a se calarem ou até as matando. É assustador ver o número de mulheres (incluindo meninas pequenas) reprimidas, abusadas, violentadas e mortas em quase todo o planeta – mulheres que são seres humanos e com direito à vida e a participar dela como um ser livre. Que este direito porém, deva ser conquistado, é uma luta, uma luta longa e amarga.
A ensaísta sabe disso e acha que a melhor maneira de compreender todas as formas de discriminação contra mulheres é dando-lhes uma expressão concisa, como abuso de poder, em vez de considerar em separado violência doméstica, assédio, estupro, etc., etc. e até morte: Tomando tudo junto, põe-se à luz o padrão de comportamento, evidenciando clareza e concisão.
Rebecca Solnit não se queixa de si mesma, está satisfeita com o seu próprio crescimento e desempenho e com ter encontrado na idade adulta a sua expressão. E como ela diz:
o direito de mostrar-se e de expressar-se é inevitável para a sobrevivência, para a dignidade e a liberdade. As circunstâncias me obrigaram a usar o direito de falar por aquelas que não têm voz.

 

(Próximo post: 19/4/2017)

A susceptibilidade de “Escreva Lola Escreva”

Este post é um comentário ao que captei como interessante para mim do blogspot escrevalolaescreva. Claro que este blog abrange mais temas que o referido aqui.
Não me prendi à variedade de interesses da autora, como política, cinema, viagens,
etc., nem a sua pessoa; tentei apenas ressaltar o papel feminista do seu blog dentro
do contexto brasileiro.
(As datas entre parênteses correspondem aos posts de onde os trechos citados foram retirados)
Nada mais comum do que duas amigas irem a uma festa para se divertirem, mesmo sendo uma delas uma escritora bastante tarimbada e diversificada em temas como meio ambiente, direitos humanos e feminismo – é que intelectuais também se divertem! –  No fim da festa quando as duas já queriam ir embora, interpôs-se entre elas o anfitrião apelando para que ficassem mais um pouco, pois ele ainda não tinha tido a oportunidade de conversar com elas, e dirigindo-se a nossa escritora em questão num tom desdenhoso, começou a falar de um livro muito bom e  recentemente publicado sobre o fotógrafo inglês já há muito tempo falecido Eadweard Muybridge.  Seu tom também arrogante acentuava uma presunção como se ele estivesse falando com “uma menina de sete anos na sua primeira aula de flauta”. No entanto não sabia o tal que ela era a autora do livro, o qual ele tentava explicar-lhe, e por mais que a sua amiga se esforçasse em dizer-lhe que ele estava falando com a própria escritora, ele não a escutava. Por fim se deu conta de sua desvantagem diante dela, até então julgada apenas como uma party girl, e claro, de nível intelectual inferior a ele, calou-se. Que cena grotesca! Esta experiência, nunca esquecida, levou-a anos mais tarde a escrever um ensaio, que se tornou famosíssimo, sob o título “Men Explain Things To Me”: Quando homens me esclarecem o mundo (a tradução é minha), primeiramente publicado numa plataforma dedicada a artigos de opinião crítica.

A autora a quem acabei de me referir é Rebecca Solnit, americana, nascida em 1961 na Califórnia . Seu texto, acima citado, foi como uma ferida aberta e ocasionou o aparecimento da expressão Mansplaining, até já usada por Hillary Clinton  – que em inglês é uma aglutinação do verbo explain (esclarecer) e man (homem), significando que o homem é quem melhor sabe das coisas e por isso tem a tutela do conhecimento – como também iniciou discussões quanto a quem pertence o saber, o conhecimento e o esclarecimento do mundo. Só aos homens? A partir daí as reações foram inúmeras, apareceram artigos de mulheres que passaram por experiências parecidas, como também cartas de homens que tentaram corrigi-la ou restringir o seu ensaio a uma experiência individual: “ Tem mais que ver com você que se deixa depreciar”…  Mas por outro lado, o que tudo isso tem que ver com o blog Escreva Lola Escreva? Muito.

Tanto Rebecca Solnit como Lola Aronovich, cada uma a sua maneira e vivendo em sociedades bem distintas usam seus meios de expressão para tocar bem no fundo uma ideologia já há muito tempo cristalizada como o machismo, e assim conseguem causar repercussão social atraindo, sobretudo, mulheres para um mesmo foco de interesse e abrindo discussões necessárias. E ainda mais: as duas conhecem as consequências do que
é mostrar claramente comportamentos masculinos autoritários frente às mulheres porque homens se dão conta dessas investidas, nomeadamente aqueles que se identificam com
elas e fazem de sua participação nas redes sociais um meio de deslegitimá-las.

No contexto de Solnit as reações masculinas marcaram não somente intenções de elucidá-la sobre o que ela “provavelmente” não conhece – acreditam eles – mas também dirigi-la em sua forma de comportar-se – no fundo eles queriam ensiná-la a ver o mundo segundo seus olhos.

Quanto a Aronovich, infelizmente uma parte das reações ao seu blog é de nível nitidamente inferior; as críticas a ela são agressivas e de forma a degradá-la moralmente, puni-la e até ameaçá-la de morte, como mesma constatei. É a expressão desesperada de homens “reaças”, “mascus” e “misóginos”; é o terror que ora se alastra por meio da internet. Como ela mesma escreveu: …” eu não sou ameaçada por ser Lola ou por meus lindos olhos verdes. Sou ameaçada por ter um blog feminista.” (30-12-14)

Cheguei casualmente ao “Escreva Lola Escreva” no ano passado quando estava à cata de blogs de opinião feminista para melhor conhecer o campo de ação onde eu estava prestes a entrar com o meu blog pessoal. O primeiro que vi foi uma fotografia de cores pardas de uma menina sorrindo – a própria Lola, pensei – enquanto tem cada uma das mãos ao lado da boca, num gesto de querer anunciar algo. De imediato pareceu-me acertada a escolha da fotografia com relação ao nome do blog, levando em conta seu próprio processo de amadurecimento: a infância, a fase onde a expressão é sobretudo oral até a idade adulta, caracterizada pela prioridade da expressão escrita. E assim estava justificado o nome do blog para mim. Gostei. Mas mesmo assim confesso que me choquei um pouco mais adiante com a crueza das palavras e de algumas fotos; as acusações diretas aos “reaças” e “mascus” que “não sabem nada de nada”; um vocabulário especial dirigido aos “caras” e uma série de comentários como água fervente, porque neles, como canais abertos, vê-se claramente os ataques “deles” ao conteúdo dos posts. Senti que o ambiente era quente em comparação com outros blogues feministas que também comecei a observar, e não demorou muito para que eu me acostumasse com a sua linguagem: “Eu sou mulher, sou feminista, tenho peito, não tenho medo. Pra mim “aquilo roxo”, balls, cojones, nunca foram sinônimo de coragem. Coragem é enfrentar todo um sistema que insiste em perpetuar preconceitos.” (2-6-11) e começasse a captar a importância dele atualmente no contexto social brasileiro: não vivia só de acusações ao machismo, mas também era um espaço aberto capaz de impulsionar um movimento já vigente no Brasil e de servir de voz – aquela voz penetrante que não tem medo das palavras, repetindo sem dó termos como “cultura de estupro”, “aborto legalizado”, “homofobia”, “ódio destilado” –  que incomoda, e sem usar frases complicadas, mas chegando a um nível ao qual os “sujeitos”, contras radicais entendam: “… mas é o que sempre digo: se rola resolvesse algum problema, homens reaças não seriam o fracasso ambulante que são.”(23-11-17)  Lola Aronovich não apela para a diplomacia, ela sabe muito bem que no estado das coisas é preciso combater com as mesmas armas ou retirar-se; mas ela não se retira, ou melhor, nenhuma se retira, e em vez disso Lola escreve como numa campanha elucidativa para mostrar que mulheres no Brasil são humilhadas, insultadas, espancadas, estupradas, mortas. Por homens. Nessa luta quem é mais inteligente e quem melhor argumenta sobre o que é verdade, ganha. Quem só exerce violência não vence, mas quer eliminar o outro em vez de deixá-lo viver. Lola sabe que com outro tipo de linguagem não teria o seu blog uma grande ressonância e até também por parte dos “reaças”: “Sou a única feminista que reaças conhecem em seu mundo falocêntrico.” (23-1-17)

É nesse espaço aberto que muitas mulheres podem declarar suas queixas, fazer confissões de fatos horrendos passados em suas vidas e ver que outras mulheres também passaram por situações semelhantes; é que muitas das quais, certamente, nunca tiveram a oportunidade ou a coragem de expressar-se de forma pública. O blog da Lola oferece esta oportunidade e mais, serve até de conselheiro, sendo necessário, a aquelas que necessitam ser ouvidas e receber apoio moral. É quando Escreva Lola Escreva cumpre sua função de utilidade pública (também reconhecida num dos comentários), antes realizada pelos velhos consultórios sentimentais de revistas exclusivamente femininas – mas não feministas – alentando para uma nova consciência e mostrando novas direções: “Nós estamos fazendo a nossa parte para mudar o mundo e não vamos parar. E você, R., faz parte desse nós.” (21-9-16)

A susceptibilidade desse blog que se confunde com a autora tem que ver mais com os  feedbacks negativos que recebe dos “caras” – às vezes até como perseguições – e isto foi o que me motivou a segui-lo e a perceber que esta tendência, mesmo mostrando-se negativa, tinha dois lados interessantes: sem esta susceptibilidade estaria o blog hoje na posição de ser o mais lido ou um dos mais lidos do Brasil? Através dele podemos ver caras, as dos “caras” e suas intenções – Lola as exibe sem sentir vergonha, pois esta só limitaria seus objetivos feministas. Esta qualidade susceptível, passível de receber ofensas é por outro lado também um meio de como se medir a temperatura do machismo local. Eu que vivo fora do país há muitos anos, foi lendo o blog da Lola que me dei com a cara do macho brasileiro, e fiquei horrorizada com a falta de escrúpulo e principalmente com a baixeza de suas declarações quando referidas a mulheres.

O feminismo em muitos países como o Brasil é o que faz com que mulheres possam se levantar, quando caem por pancadas recebidas e não são devidamente acolhidas por leis. Mulheres que se deixam ser surradas por fraqueza ou por estarem em total dependência de seus vilões, precisam de leis que as protejam e precisam do feminismo como aparato social capaz de esclarecer-lhes as raízes de suas desventuras. Homens precisam aprender que uma mini-saia ou mesmo uma parte do corpo à mostra não é um convite para o ato sexual; a crença de que mulheres podem estar à sua disposição gera equívocos incabíveis: um sorriso pode ser entendido como um consentimento, um silêncio como um sim e o encontrar-se sozinha pode conduzir ao estupro. Como apelar para o bom senso? Como defender-se? A missão do feminismo é encontrar essas respostas e muitas outras urgentes, antes que os ataques e a violência contra mulheres sejam mais rotina do que já é. E…
“Que fique claro. Se você demoniza feministas, se você ataca feministas,
se você chama talvez o maior movimento revolucionário do século XX
de “modinha da internet”, se você faz graça com estupros e violência
doméstica, não tem jeito: você é misógino. E você é acima de tudo
ignorante, porque você também se beneficiaria de viver num mundo
sem violência contra as mulheres.”  (22-2-16)

LICENÇA PARA MATAR

Há exatamente um mês passou em Campinas a morte de doze pessoas enquanto comemoravam a entrada do ano novo. Este post é uma forma de lembrar esta tragédia. Também  pretendo com ele promover uma reflexão mais aberta, aproveitando a vantagem que uma certa distância de tempo nos dá para entender melhor este sucedido já tão discutido.

“Agora na rua onde moro / há uma mulher sentada / e enquanto a noite vai entrando calmamente / ela diz: quem vai tirar dele a licença para matar? “ („Now, there’s a women on my block/ She just sit there as the night grows still./ She say who gonna take away his license to kill?)
São palavras que descrevem um quadro difícil, abstruso, como se fosse um sonho, que nos deixa sem saber o que dizer diante de formas que por serem tão insociáveis, se tornam tão incompreensíveis. Este quadro insólito e onírico está expresso nos versos de Bob Dylan da canção “License To Kill”. Ele os escreveu compondo um ambiente vago, minimalista, formado por poucos elementos – por mais que as palavras tenham conteúdo concreto, ainda assim nos é difícil abarcar o que significam – como ao mesmo tempo irritante, porque não sabemos quem é essa mulher que fala, sentada lá. O título da letra já nos incomoda pela audácia e pela falta de um dispositivo moral – matar pode ser justificado por uma licença? Com esta pode-se matar pura e simplesmente, o que falta é só um motivo, não importando este qual seja? – o que nos leva até a pensar que assim o título seja uma confirmação ou mesmo uma ordem de matar, sem a leitura e a compreensão do poema.
Neste poema Bob Dylan se refere ao orgulho desmesurado numa sociedade materialista e dirigida ao egocentrismo, onde as pessoas foram preparadas desde cedo para seguirem um caminho destrutivo que, com certeza, lhes trará danos futuros, ou seja, uma sociedade, na qual o homem está condenado a ser destruído por ele mesmo, mas bem por não ter podido ver além de si mesmo: “ele se venera num altar de uma piscina inerte/ e quando vê seu reflexo, sente-se realizado”: („Now he workships at an altar of a stagnant pool/ And when he sees his reflection , he’s fulfilled.“);  por não ter podido ouvir palavras que não tenham sido as suas: “Ele só acredita nos seus olhos/ E seus olhos só dizem mentiras”: („ All he belives are his eyes/ And his eyes, they just tell him lies.“);  e assim por não possuir outro mundo fora este, onde já se sente ameaçado e em vez de ir para o céu, vai ser enterrado com estrelas: “Aí o conduzem para um caminho que só lhe trará danos/ Aí o enterram com estrelas”/: („And they set him on a path where he’s bound to get ill,/Then they bury him with stars,“ …).
Bob Dylan, que ganhou o prêmio Nobel de literatura de 2016, veio-me à tona com este
poema, exatamente pelo título “Licença Para Matar”, quando horrorizada me inteirei do terrível ocorrido em Campinas na noite da passagem para o ano novo. As feministas brasileiras têm razão: é o momento de gritar, acusar e reivindicar direitos que permitam às mulheres, em suas últimas instâncias, pelo menos o direito à vida. Quem lhe deu licença para matar a sua ex-mulher, seu próprio filho, mais dez pessoas e depois a si mesmo?  Infelizmente é verdade dizer que licença para matar, a receberam e ainda a recebem muitos, se lhes convêm que crimes sejam praticados. No entanto se procurarmos as fontes deste homicídio nas páginas da bíblia, podemos explicar esta chacina pela falta de fé em Deus? E com tudo o que a falta de um discernimento espiritual pode ser maléfico na nossa vida? Não quero me prender a questões de fé religiosa, pois até em nome de Deus ou de Cristo ou de Alá muitas pessoas foram mortas, e já se fizeram muitas guerras como ainda se fazem, embora suas causas no fundo, dizem muito mais respeito a outras questões: ideológicas por exemplo. E também porque tal explanação não caberia dentro dos ditames feministas, ora fortemente removidos e empregados com razão a defender suas causas, o que torna este crime  em nossos dias tomar outra dimensão com respeito a ser questionado. No século passado teria sido diferente… o ocorrido teria ficado nas mãos da polícia; o povo teria estado mais assustado e menos aclarado; a opinião pública teria estado mais dividida – não escapando as acusações à mãe: “como é possível que uma mulher impeça o pai de ver o seu filho!” – E as mulheres? Mais vulneráveis e mais temerosas. Entretanto não estamos mais no século passado, já estamos esclarecidas de muitas coisas e aprendemos com nossas próprias experiências para afirmar que o trabalho e a luta de conscientização da mulher no seu papel de esposa, mãe, companheira, trabalhadora, amante …  foi e é produtivo; mas nem por isso deixa-lhe incólume à ataques e até riscos de vida. É quando nos perguntamos se o fato de termos lutado para estar mais conscientes e seguras do que queremos  é suficiente para nos garantir um futuro promissor. Não é. E pode até ser perigoso, porque toda luta implica em combater os inimigos, e estes tendem a se revoltarem.
O machismo como ideologia  é uma afronta narcisista, não só contra as mulheres, mas também  a outros seres considerados pelo machista como inferiores, e crianças também podem ser um exemplo disso. Já sabemos que ele é despótico; tanto abusa, principalmente das mulheres, como as oprime por não aceitar que junto com elas poderia ser criada uma relação fundada no amor e em valores morais, tais como, o respeito, a lealdade, a fidelidade, a confiança, a justiça e outros mais. É neste ponto onde o machista mais fracassa, pois considerando o seu comportamento como um lema institucionalizado de vida, carece por isso mesmo da capacidade de amar, como bem diz Rómulo Sánchez Leytón no seu artigo “Machismo na América Latina”: “Como o machismo menospreza o amor natural, abre assim o caminho para violação ou gravidez indesejável” … , ou seja, todo ato de violência de um homem contra uma mulher tem como princípio a sujeição dela a ele, como necessidade de provar seu domínio e autoridade frente a ela. Como todavia esperar que ele a ame ou que ela o ame?
As feministas ainda têm razão quando denunciam essa pretensa superioridade do machismo, com o fim de deslegitimar  a discriminação contra as mulheres, como também com o fim de parar com coações, humilhações e mortes, como vemos no Brasil em proporções consideradas bem avançadas.
Por outro lado como reagem  machistas frente ao empenho sem pausa de feministas em acusá-los de seus atos infames? Em confrontá-los com a sua tirania e em mostrar-lhes seu caos interior? Sob a influência da emancipação da mulher numa sociedade, como a brasileira, por exemplo,  e a consequente aquisição de mais direitos em seu favor – embora alguns destes ainda não funcionem de forma integral – muitos homens podem descambar numa total desorientação, e em se tratando de machos, podem reagir ainda com mais violência por se sentirem fortemente atacados. É o nosso caso em questão?  Ele – que ao sentir-se desamparado, excluído de um mundo em vias de rebelar-se contra às suas convicções, fazendo suas colunas estremecerem – procurou com as suas próprias mãos „fazer justiça“: no fundo um ato solitário e cruel de um macho indignado, movido pelo medo e desespero de perder seus direitos, e também seu trono? Não sei. No entanto ao ler trechos de sua carta esclarecedora dos motivos do seu crime, não me pareceu que ele tivesse tido um, mas bem dei-me conta de um homem extremamente revoltado, isolado e fechado em si mesmo, encontrando na vingança o meio de descarregar seu ódio contra familiares de sua ex-mulher, na maioria mulheres, que para ele, eram elas a causa de seu desespero pela separação do seu tão”amado” filho. A meu ver no convívio entre pai e filho se encontra o que ainda não temos conhecimento ou nunca vamos tê-lo: que tipo de relação, na verdade, tinham os dois, chegando o filho a afirmar que quando crescesse mataria o pai? E embora nutrindo grande afeto pelo filho, por que escolheu o pai como forma de matá-lo uma verdadeira execução?
Também observei sua incapacidade de refletir sobre a situação, a que o conduziu a estruturas reduzidas de pensamento, formulando-as em categorias de causa e efeito ou de bem e de mal. É o que vemos em suas frases quando divide as mulheres entre boas e más, sendo estas tachadas de vadias; quando as vadias são feministas e ardilosas, ou quando diz que o feminismo é um sistema – desconhecendo assim de fato que esse „sistema“ é um movimento político e social? – Não importa se a sua definição de feminismo esteja correta ou não, e aqui não pretendo julgá-lo, mas sim ressaltar uma expressão movida por sentimentos de inferioridade, ira e vingança: uma vingança que o levou a sacrificar não só a sua vida, como também a de outras pessoas . Para mim sua falha trágica foi a de não ter sabido usar suas fronteiras. Mas isto não é o que implica o fenômeno da violência machista?
Levando em conta que a violência – também existindo entre as mulheres, embora em  proporções menores – é um fenômeno muito complexo hoje em dia, pergunto-me o que nos falta acrescentar a mais à parte das acusações, das denúncias e até das leis às arbitrariedades do machismo? Está a nossa linguagem já equipada suficiente de intenções que favoreçam um diálogo? Ou, como muitos acreditam, é impossível homens e mulheres dialogarem? Acho que não, mas para isto é imprescindível que as duas partes estejam preparadas, e foi o que faltou a Isamara Filier e a Sidnei Ramis de Araújo.

Um Natal Diferente

Desde setembro já sabia que iria passar este ano um Natal diferente. Esta claridade rápida como um relâmpago não me veio nem como um protesto, nem por aborrecimento ou preguiça, mas bem por uma forte intenção, desencadeando  em mim atitudes e decisões claras que me levaram já em pleno mês de dezembro, mês de estresse pelas super-compras, a sentir-me aliviada e leve, sem a pressão das listas de presentes de antes, das várias idas ao supermercado -porque sempre se esquece de algo – e da obsessão pela ceia de Natal. É que vivo num país, no qual o Natal é uma grande celebração familiar onde as comidas e os presentes estão no centro e são até mais importantes do que o seu próprio sentido cristão. Considerando    isto, parti não querendo desejar nada: roupa nova, sapatos da moda, um perfume sedutor, a bolsa que sempre quis ter… “Nada disto”, disse-me categórica, sem medo de assumir o meu novo “outfit”, cujo modelo me cabia muito bem pelo momento e continuei assim segura de minha decisão até ao ponto em que comecei a perguntar-me inquieta: “mudei tanto assim que cheguei ao ponto de não querer saber nada de Natal?”, “É o peso da idade ou não estou mais segura?”
Toda decisão envolve tanto aspectos emocionais como racionais, podendo ser os primeiros até bem mais fortes do que a imposição de uma cabeça fria. Para reiterar isto posso lembrar o caso de Elliot, um paciente do famoso neurologista e neurocientista português Antônio Damásio, que o operou de um tumor na parte pré-frontal do córtex, ou seja, bem atrás da testa nos anos 80. Após inúmeras conversações com o seu paciente, Damásio verificou que Elliot, apesar de não ter perdido a memória nem a inteligência, não nutria sentimentos; tudo lhe dava a mesma impressão e não podia tomar decisões: „Não captei emoções e sentimentos nele, como tristeza, frustração e impaciência“, afirmou. Era que o tumor de Elliot, embora pequeno, estava localizado na parte do cérebro responsável pelos sentimentos e pelas emoções. Damásio deu-se conta de que o problema de Elliot em não poder decidir era porque lhe faltava  a capacidade de sentir, ou seja, ele precisava de um tempo quase interminável só para escolher um prato do cardápio.
Até então, ainda o século vinte, dominava o pensamento cartesiano que separava corpo e mente; se julgava que a nossa capacidade de decidir com acerto residia na razão; as emoções e os sentimentos só atrapalhavam; mas não para  Damásio que já pensava o contrário: „sem sentimentos estamos desamparados“ e escreveu um livro que o deixou famoso internacionalmente em 1995: O Erro de Descartes – Emoção, Razão e o Cérebro Humano.
Voltando a mim e as perguntas que me fiz quanto à minha resolução, elas só me ajudaram a contemplar melhor a minha situação e ver-me como agente de uma decisão bem devida, mas que tomada a priori, só pelo lado da vontade. O fato de que as perguntas me inquietaram foi porque faltaram na minha decisão os elementos racionais e de conhecimento; no fundo eu não sabia bem em que iria resultar esse boicote, apesar de ele só me favorecer em poupar-me  estresse. „Então, por que é  que estou boicotando as festas natalinas?“ „ Acho que você está muito negativa.“, me disse uma pessoa ao acabar de ouvir o som de minha trombeta, sem que esta tivesse anunciado a entrada do Natal. Boicotar ou estar negativa são etiquetas que nada valem se não procuramos a razão da nossa insegurança. Acho que não sou a única „neste mundinho de meu Deus“, como canta a Rita Lee, procurando outra alternativa, tentando encontrar-me a mim mesma sem ferir os outros – o que é muito difícil – usando a intenção para explorar outras vivências; e não por estar envelhecendo – como pensei – pois isto é algo natural, acontece independentemente do meu querer. O que tentava era, por outro lado, algo individual, dependente de um processo consciente. Queria amadurecer. E para amadurecer é preciso fazer alguma coisa, concluí.
Festejar o Natal é um fato; deixar de fazê-lo como é mister, também é um fato, e mesmo assim o Natal não deixa de existir para aqueles que o boicotam; continua existindo sim,  mas fora da onda, e esta, impregnada de apelos do comércio, leva as pessoas a cumprir o que a publicidade manda, instituindo uma fórmula de como ter boas festas. Dar ao Natal, hoje em dia, seu tom religioso não é mais natural; esta festa cristã foi transformada em festa do consumo que já  traz de ante-mão um modelo estilizado de alegria, quanto ao que se deve cumprir para encaixar-se bem no espírito dele. Normalmente as mulheres estão no centro desta festa e sentem-se responsáveis, às vezes sozinhas, por toda a festividade, incluindo as comidas, a decoração… Quem pensa melhor do que elas na roupa das crianças e nos presentes? E não só isso, embrulhá-los também.
Como tradição o Natal é antônimo de solidão e querer afastar-se de tudo aquilo que o compõe como uma festividade forçada é difícil e pode até ser visto isto como uma traição, pois a sua celebração é um ritual que implica sobretudo em estar em harmonia com o outro – é a festa do amor – mas que também pode ser um suplício para muitos  -ou a data ideal para provocar brigas entre  as pessoas, talvez por se dar à harmonia mais um sentido de imposição do que deixá-la fluir naturalmente.
E agora conforme às minhas intenções e fiel à minha decisão o meu Natal vai ser ir à missa às 22 horas – que nem é a missa do galo, pois este não canta tão cedo assim – e ainda mais: sem pôr roupa nova e sem ter ido ao cabeleireiro, mas segura de que é assim que quero passá-lo.

Sempre Elza

Imóvel como uma rainha no seu trono, as luzes refletiam sobre a sua cabeça majestosa, ” à la Black Power”, dando-lhe cores cintilantes entre o azul e o rosa. Os lábios cobertos por uma cor escura, bem pintados, salientavam uma expressão altiva de “femme fatale”; as mãos e os braços enluvados por um material brilhante – latex? – ela movia com cuidado só a mão que segurava o microfone. Séria, imponente, nos seus quase 80 anos de idade, assim encontrei a Elza Soares no palco, cantando sentada, a voz já gastada, sem os gritos rasgados de antes, quando ela já deixava louco o Brasil com o seu gingado.  Lá no palco a vi como uma soma de presenças fortes:  como uma política, uma dominadora, uma ativista … no entanto era só ela, a Elza sentada e cantando, exuberante, como disse o Lenine.
Este show fora do Brasil levou muitos brasileiros, como eu fora do país, a querer reviver o que faz parte do nosso patrimônio cultural – a música, a nossa MPB, o samba – e Elza Soares é uma divulgadora deste patrimônio, mas não só isto, ela é a voz negra, gritante e acusadora, que não deixa escapar a verdade – uma verdade cruel, mas que também encoraja o público a cantar repetidas vezes até que o refrão fique na memória de cada um como emblema de uma denúncia:Elza Soares,jpg.jpg
“ A carne mais barata do mercado é a carne negra / A minha carne é negra.”
Senti-me orgulhosa por estar no seu show, vê-la com respeito e admirá-la. Lembrei-me de que a minha mãe não gostava da Elza porque não a considerava uma mulher respeitável pelo fato de ter ido viver com Mané Garrincha – homem casado – e de ter destruído uma família. Eu ainda não tinha dez anos na época, minha mãe estava na faixa dos quarenta e mesmo com todo o seu conservadorismo e noção de pecado, ela não podia criticar o Garrincha por ter saído de casa, mas sim a Elza, como causadora do escândalo. Mulheres como a Elza Soares em experiências similares também sofreram acusações e insultos de forma unilateral, pois as convenções da sociedade por essa altura consistiam em não criticar o homem, não tocá-lo como guardador da tradição; à mulher, porém, não se evitavam as críticas, pois ela era o motivo de ele ter ferido essa tradição, o que no fundo a culpa era dela. Isto explica que a separação entre os papéis na sociedade, onde o lugar do homem visto como provedor era incólume às censuras, tendo a liberdade de poder dar escapadas fora do matrimônio, ficando assim tolerada a infidelidade masculina, mas nunca a da mulher por ser motivo de preconceitos e passá-la imediatamente a receber a insígnia de puta, não só de homens, como também de outras mulheres.
Mulheres contra mulheres quando estas quebravam convenções de uma herança cultural que lhes impunham aceitar, menos os determinados modos de guardar a dignidade, mas muito mais o peso de suportar o destino de ser mulher. Era dramático, mas apesar disso era o modo de minha mãe (a minha mãe aqui é só um exemplo para ilustrar o quadro da época) entender o seu lugar de mulher na sociedade, em vez de conceder apoio moral. Também o senso moral, contudo, que vincula as pessoas às suas causas não era de se esperar de uma sociedade já quase sucumbida no conservadorismo de uma ditadura, como a brasileira nos anos sessenta. Apesar de ter criticado a Elza Soares, acho que bem no fundo, minha mãe sentia-se solidária a ela, por ser mulher e poder compreender seu sofrimento, mas nunca defendê-la, pois isto supunha ter tido coragem de eleger a expressão em vez de calar-se – e isto era perigoso – como também proibido? –  Pois sim, nesta época a maioria das mulheres não pôde chegar a tanto, por não estarem ligadas pela responsabilidade social e os mesmos interesses. O silêncio ainda não tinha sido quebrado dando lugar à expressão e a solidariedade, muito mais, fazendo dessa experiência uma atitude política. Nem por isso culpo a minha mãe por não ter sido mais forte e corajosa, pelo contrário posso compreendê-la e aceitar suas restrições que também  foram as restrições de minha avó, de suas irmãs, de suas primas, de suas conhecidas, etc., etc..
Hoje ainda me pergunto até que ponto isso é coisa do passado? Certamente que sim. Assevero que sim. Levando em conta quando Elza e Garrincha começaram a ter uma relação – melhor do que a expressão “ter um caso” – em 1962, isto já faz 54 anos, ou seja, entre três ou quatro gerações estão formadas de lá para cá. Já superamos os séculos retrógrados de antes, quando o casamento era mais uma necessidade da mulher para não ficar solteira e a de ter um homem que a sustentasse em troca de dar-lhe filhos e conforto familiar. Esta estabilidade material era melhor do que ser vista socialmente como uma pessoa inútil e ser tratada com desdém por ter ficado sem casar. As mães instruíam as filhas para a vida sexual: “feche os olhos e não imponha resistência, com o tempo você se acostumará e não será mais penoso”. Abnegação ou uma chance ao desfrute? No fundo é uma forma de procurar o amor fora da regulamentação familiar pelo matrimônio e homens aproveitaram-se muito bem dessa brecha para o seu próprio bem-estar, passando a viver o amor de duas formas, uma dentro da relação oficial e a outra fora dela. Uma solução prática, mas cheia de hipocrisia e descaro que, infelizmente, ainda funciona.
Garrincha encontrou outra solução e casou-se com a Elza que ainda foi alvo de críticas, mesmo já estando casada com ele. Por que ainda a discriminação? No fundo ele foi o infiel e o que abandonou a família. É que a sociedade daquela época não estava esclarecida o suficiente para saber julgar formas de infidelidade masculina com o aparato da psicologia, como temos hoje, e isto é muito bom.

Auto-ajuda e os livros

Tenho aprendido que quanto mais sou flexível comigo mesma, quando tenho reações indevidas – às vezes sou passiva demais, em outras reajo excessivamente – posso aceitar-me melhor e até manter uma atitude modesta e compenetrada. Nossas reações são como um motor que impulsiona energia, e essa energia, dependendo de sua força, que pode ser fraca ou forte, é a resposta que damos frente às peripécias da vida. No fundo podemos resumir que tudo, ou quase tudo, depende da forma de como reagimos aos problemas; tudo se resume em reações. É daí que vêm os livros de auto-ajuda, mentores exclusivos que nos ensinam o que é a vida e mostram-nos como devemos reagir frente às suas vicissitudes. Como é bom ler um livro assim capaz de nos dar receitas cabíveis e que nos deixa positiva, otimista e que nos faz acreditar ter encontrado soluções ideais para nossos problemas. Segundo seus ensinamentos, a vida parece ser encantadora, leve e fácil de viver. Contudo a vida é mais do isso e, por mais que o livro seja bom e sério, a nossa história particular e única falta no conteúdo dele. Um livro de auto-ajuda que bastante me impressionou foi o de uma mulher norte-americana famosíssima por ter vendido milhares de exemplares e já ter sido traduzida em muitas línguas, entre elas o português. A autora é extraordinária e benevolente, seus ensinamentos provêm de suas vivências, ou seja, sua história real é a base de onde sai seu conhecimento e sendo fiel a ela, como mesma escreve, acho que é séria. No fundo seus princípios podem ser reunidos num só livro – a sua extensa publicação tem que ver mais com as exigências da procura: uma vez que se obtém êxito de vendas, publica-se mais e mais para satisfazer às necessidades do mercado. Li o seu livro principal, fazendo anotações e marcando o que caía bem com as minhas fraquezas; tentei aplicar de cheio as suas instruções aos meus problemas, mas para o meu espanto, não funcionou: não me sentia verdadeira quando tentava me impor seus ensinamentos; parecia mais uma impostora, inimiga de mim mesma sob o esforço de querer me superar. Ao dar-me conta de minha decepção e incapacidade, parei farta, afastei-me da leitura e liberei-me da  pressão de querer repetir em mim o êxito dos outros. Foi o melhor que fiz e deu certo, pois adquiri mais clareza e auto-respeito; reconheci que a minha história não era a da autora e que a minha vida com acertos e desacertos estava nas minhas mãos a partir do momento em que eu mesma decidia como reagir. Resolvi então ser a minha própria autora, dando pequenos passos, mas significativos, concentrando-me mais em mim mesma  e aceitando-me tal e qual. Assim nesse processo de auto-ajuda me deparei com a pergunta capital: o que quero de verdade? Sabemos o que queremos? No fundo acho que sim, o que nos falta é querer acreditar nisso, pois até saber o que não se quer, já é um caminho para saber o que se quer. Mesmo assim para muitas pessoas responder esta pergunta chega a ser quase impossível, sobretudo para aquelas que nunca se perguntaram, apesar de que a vida já as tenha oferecido umas e outras vezes oportunidades convincentes de respondê-la.
Conheço pessoas que leem livros de auto-ajuda; leem e sentem-se bem e fortes os lendo, como se só o fato de lê-los fosse suficiente para resolver seus problemas e até acreditam  tê-los  resolvido, se não de repente não se deparassem com as velhas situações “críticas”. E? Os problemas ainda estão lá, intactos, à flor da pele. É um momento de decepção ao darem-se conta de que os seus problemas são maiores e mais fortes do que os ensinamentos dos livros e que muitas vezes nem cabem neles. Mesmo assim é aconselhável não resignar nem individualizar, pois se todo o esforço empregado não levou a resultados esperados, isto não é  prova de incapacidade, supondo que outras pessoas puderam ter sido ajudadas. É mais inteligente pensar que por mais que um livro de auto-ajuda ofereça soluções aos problemas, estas nunca são as únicas, há outros caminhos a encontrar, como fazendo uma pausa para se distanciar do problema e assim poder vê-lo com mais clareza ou procurando amigos ou mesmo buscando ajuda profissional. Entretanto o estar só comigo mesma e concentrada, procurando meu próprio caminho foi o que me levou a auto-ajudar-me, e … sem livros.