O bê-á-bá de Judith Butler

 

Antes de começar este post li muitos textos de blogs sobre o que se denomina hoje a „questão de gênero“. Uns muito bons, alguns bem extensos, outros com pretensão erudita e nenhum deles fácil de ler; todos apresentaram dificuldades de compreensão por serem complicados, e até melhor dizendo herméticos. Como poder abordar de forma concisa o que não pode ser conciso? Perguntei-me várias vezes onde se assentava esse caráter abstruso, fechado, não proporcionando um prazer na leitura pela sua inteligibilidade, nem podendo ser absorvido pela mente de quantos tantos leitores interessados, fazendo o texto renascer ao ser captado. O que passa é que explicar o que é o gênero, e o que dele precede é difícil pelo complexo que é o seu entrelaçamento com diversas disciplinas, também difíceis, exigindo entrar em ramos do conhecimento, como a antropologia, a linguística, a filosofia e a psicanálise, onde nelas o lugar comum da expressão é incabível; e falar de gênero hoje em dia é quase impossível sem mencionar Judith Butler.

Quem conhece Judith Butler? Nos meios acadêmicos e feministas, ditos intelectuais, ela é conhecida, fora disso não é acessível. Soube de sua importância já tarde, há uns anos atrás; primeiro quis ler algo sobre ela e sua obra, então procurei a Wikipedia como primeiro passo – foi horrível, não entendi nada – e, para não achar-me ignorante, resolvi pôr a culpa no autor do texto da Wikipedia dizendo para mim mesma que ele, para disfarçar sua falta de conhecimento no assunto, abusou de estruturas sintáticas complicadas. Desisti, mas sem que ela tivesse saído de minha cabeça não só como autora de uma obra relevante, da qual eu devia me inteirar, mas como aquela que tinha provocado uma intensa discussão exigindo uma revisão do pensamento sobre os determinantes da sexualidade no social e cultural – foi assim como primeiramente a captei; outrossim sua presença constante em textos e bibliografias de teorias feministas, me forçava a tomar conhecimento de sua teoria, pois sem ele pagaria nos dias atuais um preço muito alto, ou seja, sem Judith Butler é inconcebível querer entender as novas tendências do feminismo; assim resolvi comprar um dos seus livros mais importantes, cujo título em português é: Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Publicado nos Estados Unidos em 1990, no qual ela apresenta a sua teoria sobre o gênero, fazendo parte essencialmente dos Gender Studies. Esta obra é bastante complexa e coberta por um conhecimento amplo que exige tempo prolongado de leitura, por não ser nada fácil de entender as suas idéias entravadas nos pensamentos de autores de grande erudição como Michel Foucault, Jaques Lacan, Julia Kristeva e outros. Que fazer? Senti que estava frente a um desafio com a minha própria capacidade intelectual – eu que não pertenço a nenhuma das áreas do conhecimento antes mencionadas, sou apenas formada em letras, sem mestrado e sem „os doutorados da vida“ – perguntei-me como escrever sobre sua teoria – desde já estava claro para mim que não seria uma resenha, pois esta não era a minha intenção – e se só o fato de ser curiosa e interessada por algumas tantas coisas que me rodeiam fossem suficientes para tal ousadia. Também temia não compreendê-la, mas isto se desfez quando se abriu para mim alguns de seus interesses e propostas – claro que suas pretensões vão além deste pobre texto – e também por ter-me perguntado a priori o que era importante para ela. O que queria ou aonde queria chegar? Estas perguntas me levaram a estar aqui e tentar de forma o mais pessoal possível escrever sobre o que tenho entendido de Judith Butler. Ainda assim me sinto sob uma alerta que me diz: Cuidado! Você está pisando numa areia movediça.

Judith Butler é uma erudita de primeira mão; o que mais me chamou atenção nela foi a sua coragem de abrir de maneira tão intransigente um tema tão arraigado na nossa vida como o gênero; contudo ela não é pioneira, o tema, de maneira crítica ou não, já tinha começado a ser abordado por outros já nos anos 60. No entanto ela questiona tudo, é mais rígida que Simone de Beauvoir no „Segundo Sexo“ e se ocupa do tema como uma forma de conhecimento e não como uma doutrina.

Quem não aprendeu a categorizar o gênero e determiná-lo sem pestanejar em masculino e feminino, assumindo-o assim inalterável e padronizado como uma bipartição natural? Esta é a idéia que temos dele e estamos acostumados a pensar assim, no entanto esta concepção, adaptada a isto ou aquilo, é reduzida demais com respeito a ele, e sair deste foco binário, é „abrir-lhe possibilidades“. Butler acha que a noção que temos de gênero como algo fixo e categórico e, ainda mais, tomado como natural é falsa. Em vez disso afirma que ele foi construído socialmente, usando o termo „performatividade“ , como resultado de uma série de repetições discursivas (através da fala e do imaginário) criando assim uma estabilidade de caráter normativo, e mais, fazendo prevalecer uma hierarquia – o que, quem está em cima ou está em baixo na escala social – e impondo um modelo de sexualidade, tido como correto, ou seja, o heterossexual.

Basicamente falando, a nossa língua portuguesa em comparação com outras línguas dispõe de uma facilidade aparente ao distribuir certas classes de palavras em apenas dois gêneros. Esta redução binária, porém, não suporta certas vicissitudes ao ter que representar seres, mesmo estando eles marcados pelo sexo biológico. Um exemplo disto é o que a gramática denomina de comum de dois um substantivo atribuído aos dois gêneros ao mesmo tempo: “a testemunha”, por exemplo é quem é chamado para depor, etc., podendo ser um homem ou uma mulher; ao passo que “o testemunho” é um ato ou uma ação. Outra coisa no português vista por alunos estrangeiros como uma imposição gratuita é a prioridade que se dá ao masculino no plural para um grupo misto. Estas incongruências não foram, e talvez nem sejam ainda, observadas na escola como imposições de um discurso marcador de relevância, e mostram como o gênero não tem que ver com o sexo do substantivo. Quem é a criança? Um menino ou uma menina? Para Judith Butler a partir daí, já nesta distinção o sujeito é levado a identificar-se com a sua identidade sexual e de gênero, crendo que ela “responde a sua essência interior”, o que para Butler é uma ilusão. Neste ponto muitas pessoas ficam perdidas, como foi o que passou quando quis falar sobre isso com algumas mulheres: a primeira reação foi de espanto, quando não de desespero – então devo criar minha filha como um menino e meu filho como uma menina? – O temor de perder a identidade é o mesmo que, segundo Butler, têm homossexuais de se assumirem publicamente como são, e assim perderem o lugar que ocupam ao pertencerem a um gênero estabelecido, mesmo sendo gays ou lésbicas. O controle social não se retrai, usa um vocabulário que ofende a reputação ao divulgá-los como maricas ou sapatão, palavras que só de forma oblíqua se reconhece o que significam: maricas, por exemplo, perde seu sentido carinhoso e familiar de ser Maria (Maria+ica) e passa negativamente a referir-se a homossexuais. Sapatão passa pelo mesmo processo: homens geralmente calçam sapatos grandes e não mulheres. Assim uma das intenções modestas de Judith Butler, como ela mesma diz, ao querer dar chances possíveis ao gênero, mesmo sem mencioná-las quais, pois é suficiente que aqueles que vivem num mundo, no qual conhecem o que é ilegítimo, sabem quais são.

Então o que se opõe ao modelo binário é a diversidade, a possibilidade de existir naturalmente outros modelos, outros contextos, a livre opção. Fui educada, como nós todos e todas, sob o velho pressuposto de que a naturalidade do sexo biológico era tudo, pois nos concluía materialmente como macho ou fêmea. Tudo bem, mas não é tudo, diz Butler, porque impõe exclusões e não vai mais além das fronteiras do social. Deste modo, para ela, o sexo também é algo construído assim como o desejo. Que diferença faz ele ter um pênis e ela ter uma vagina? Sem pensar se responde: muita diferença. Certo. Contudo a diferença que daí resulta foi dada em nome de uma supremacia dada a uma das partes, ou seja, as diferenças nítidas são a causa de fixar o que é melhor ou mais forte, ou o que é importante ou não. Judith Butler diz que assim nos fazemos sujeitos ao assumirmos o sexo e o gênero como identidades fixas, criadas e construídas para nós e também por nós, dentro das quais existem estruturas de poder.

Segundo Michel Foucault, o poder do discurso e da fala é o princípio de construção fundamental formador da realidade, assim como esta realidade é representada pelo discurso culturalmente construído. Deste modo o sujeito, manifesto pelo discurso, é o fazedor da realidade. Acho que Judith Butler parte exatamente do momento em que o sujeito se confronta com o poder – o poder de discursar: influindo, incluindo,excluindo, afirmando, negando, em fim produzindo categorias de conhecimento. Já muitos anos antes de Michel Foucault, John Langshaw Austin disse que as palavras e o que elas dizem são mais do que sua matéria acústica – o som – elas são fatos, declarações que fundam uma realidade nova.
Daí apresenta Judith Butler sua famigerada e terrível tese que no fundo se pode resumir de forma básica em: homem e mulher são construções sociais e não naturais. Por exemplo, as mulheres menstruam. Esta declaração é a descrição de algo natural na fisiologia das mulheres, investigado e provado na biologia, quer dizer, um conhecimento empírico; mas por que fazer de diferenças uma ideologia? Que importância tem isso como fator para estabelecer desigualdades? Nós mulheres ficamos guardadas por muito tempo à mercê de segregações no trabalho, como incapazes de participar em setores que envolvem precisão e força de raciocínio – foi por causa do ciclo menstrual? – É a capacidade de parir que nos impede de ser ativas e por isso ser mal vistas pelos empregadores? Por que só a mãe tem a exclusividade de garantir melhor educação aos filhos? Hoje se vê numa família patchwork que o papel do pai ou da mãe em substituição é mais importante que o biológico. Hoje também se vê – e está provado empiricamente – que mulheres podem ser engenheiras, físicas, astronautas … Não existe uma incompatibilidade em ser mulher e exercer uma profissão, seja ela qual for.

Judith Butler acha que pertencer a um gênero não significa se identificar com as características primárias deste gênero, mas sim manter-se num processo interativo ao longo da vida, o qual pode trazer mudanças ou renovar-se. Ao ouvir isto uma das mulheres, antes mencionadas, me interrogou perplexa: „então já amanhã poderia me tornar uma lésbica?“ Isto nos mostra até onde podemos ir e define o estado de nossa subjetividade: até que ponto nossa segurança e integridade podem vacilar? A mulher teve medo de ser posta em questão naquilo que ela tanto se apega, naquilo que se passa por uma essência, mas que no fundo não é. Ela não entende que, na estrutura binária, pertencer ao gênero feminino não é uma coisa independente porque coincide com o seu sexo biológico, pelo contrário, segundo Butler não existe ligação entre sexo e gênero; a característica homem não reside só no corpo do homem, assim como a de mulher, e a diferença entre eles se origina de formas de pensar , as quais são uma representação em favor de uma pretensa norma de sexualidade. Por outro lado como esperar que a tal mulher entenda isso? Como esperar que todos entendam? Propor uma sexualidade baseada numa multiplicidade de identidades de gêneros é para muitos uma utopia ou um dilema, e assim não pode ela contar com o apoio de outros. Acho que no fundo ela tem razão, mesmo sendo uma crítica ao estado da nossa subjetividade atual.

Butler, como filósofa pós-estruturalista, quer desfazer, ou melhor „desconstruir“ esses padrões de pensamentos geradores de conceitos que por força do hábito se instituíram sem que fossem questionados. Em contrapartida, oferece uma possibilidade nova de pensar ao pôr em questão as categorias de corpo e de identidade, que também são categorias da teoria feminista; só que, enquanto o feminismo se limite a imprimir uma única identidade da mulher – idealizando um grupo homogêneo e não se dando conta de outros matizes, como raça, cor, religião, opção sexual, etc. – também favorece o binarismo e „deixa transparecer“ o modelo heterossexual como único e aceitável, como também „deixando marcas homofóbicas“. Mas como desconstruir esse imenso círculo vicioso fundador da realidade? Para Butler destruí-lo não é possível, uma vez que se destrui o próprio sujeito, mas bem de modo a multiplicá-lo, ampliando-o em muitas outras possibilidades. Um exemplo ilustrativo seria para um discurso como “só o sexo entre um homem e uma mulher é correto e aceitável”. Um modo de desconstruir é juntar a esta performatividade outras possibilidades, tais como o sexo entre homens, o sexo entre mulheres, o sexo entre travestis são corretos e aceitáveis. A partir daí estes performativos rompem com o contexto anterior e passam, na linha do tempo, a rescreverem outros significados. Claro que aqui o papel da ética é inevitável para não incluir práticas inaceitáveis. Para ela é melhor analisar, antes de concluir o que é bom e o que não é, e tirar desta confrontação material para abordagens.

É verdade mesmo que a nossa identidade de gênero poderia mudar no transcurso da história? Por outro lado nada mais frágil do que a sexualidade. Minha mãe sempre dizia que „a carne é fraca“; claro que ela se continha no fato de uma mulher se guardar íntegra e não „se entregar a qualquer um“, pois até em nome do amor, a carne podia ser fraca. Também as eventualidades da sexualidade nos prendem a uma identidade rígida? Já tomei conhecimento de mulheres que foram lésbicas só por uma noite. Outras deixaram seus parceiros por outra mulher. Estes acontecimentos não são mais escandalosos, fazem parte já do rol de renovações existentes na história, por força de lutas, gritos, pressões sociais, riscos, reconhecimentos, punições … Judith Butler diz que o sujeito é como um discurso que está sempre em um “processo interminável do vir“, a subjetividade é uma construção e o fato de se apegar a uma identidade pode ser uma forma de fugir das complexidades da vida, pois a vida não é a identidade, e assim fala de identidades nômades, porque temos que admitir que há ambigüidades, mesmo sendo o mundo heterossexual demais. E assim ela propõe um mundo queer.

 

 

 

 

 

Mulher que sabe latim


⁃ De vez em quando dou uma olhada nos meus livros, principalmente naqueles que estão colocados na estante por trás dos que estão na frente – são os que eu já li. Num desses passeios de olhos encontrei um que há muito tempo não o tinha nem tocado mais: „Mujer que sabe latim …“. É um livro que tinha lido nos anos 80 quando morava no México, de uma escritora mexicana, infelizmente falecida ainda jovem, Rosario Castellanos. Sua morte trágica se deu em Israel em 1974 quando era lá embaixadora de seu país, e seu dito livro apareceu em 1973, ou seja, seu último livro publicado em vida, uma coletânea de ensaios inteligentes sobre literatura e feminismo através de retratos de suas representantes mais notáveis. Na época li seu livro com prazer; ele encheu do que necessitava a jovem de outrora, recém saída do curso de letras – eu – ainda faminta de leituras e conhecimentos gerais, em busca de exemplos que satisfizessem meus desejos intelectuais. Seus ensaios, só pelos títulos, exerciam um poder irresistível sobre mim, me abrindo a vontade de ler: „Virginia Woolf y el vicio impune“, Simone Weil, la que permanece en los umbrales“, „Betty Friedan: análises y praxis“, „Violette Leduc: la literatura como via de legitimación“ e a nossa „Clarice Lispector: la memória ancestral“ e outros mais.
⁃ Não venho de uma família que nutrisse o gosto pela leitura, salvo minha mãe que chegou a ler alguns romances em toda sua vida, e a bíblia, claro, mas mesmo assim acho que foi ela quem me serviu de modelo de aspiração a procurar na leitura um refúgio deleitoso. Bem no fundo porém, ler para mim significava adentrar-me por caminhos desconhecidos, uma forma de encontrar a liberdade; era como fazer da leitura uma viagem e um pré-requisito para a minha auto-determinação, um meio de superar-me e de superar restrições, mas não só isto, envolvia um ritual de procedimentos impostos pelo mero prazer de sentir-me ativa e consequente, repetindo esse ritual no meu dia a dia. Essa necessidade de ler, de inteirar-me e de saber das coisas era inevitável e reclamada outrossim pelo nível de discussões prestadas ao momento – por sorte tive colegas de universidade que escapavam da mediocridade intelectual e liam mesmo – e sem esquecer que vivíamos em plena ditadura militar; livros julgados de esquerda, exatamente aqueles que fundamentavam nossa ideologia, estavam proibidos ou eram mal vistos – só vim ver de perto um exemplar de “O Capital” de Karl-Marx anos depois de sair da universidade e quando já estava fora do Brasil. Sem embargo nos contentávamos em ler ensaios, interpretações, artigos sobre o marxismo, e lembro-me de que sem um certo conhecimento dele não se tinha chance de argumentar algo nas discussões políticas. Pertenço a uma geração de antes da internet, a chamada geração „Baby Boomer“ sem os vídeos, as fotos imediatas e a correspondência eletrônica de todos os dias; quando a vida nos privava de constância para aquilo que podia ser acessível sem demora: a informação como via para o conhecimento. As notícias nos davam os jornais, o rádio e a televisão, que tecnicamente estava muito longe da atual; até chegar a um livro, por exemplo, desejado ou necessitado era um fato de importância espacial e temporal: as visitas às bibliotecas levavam tempo; pegar um livro emprestado ou devolvê-lo, exigia, às vezes, tomar um ônibus para outro bairro. Esse emprego de distância e tempo que nos fazia esperar – o que não considero hoje como negativo – além de incitar mais a vontade de ler e a imaginação, nos ensinava a tolerar a frustração na falta da acessibilidade imediata. O idealismo era um valor para essa geração.
⁃ Não é assim que hoje em dia não precisemos mais comprar livros. Não. Mas à parte da literatura, já com bastante exceções, podemos recorrer à internet sem perda de tempo e in loco para obter as informações que queremos – eu também faço isso – e assim estamos inundados de informações, e estas estão à nossa disposição quase sempre a qualquer momento, mas também estamos à mercê delas. Imaginar uma vida sem acesso à internet hoje em dia, seria quase inviável mesmo para pessoas de gerações anteriores a ela. E tirar a internet daquelas que nasceram com ela já na mesinha de cabeceira, seria como mutilá-las socialmente – melhor não, pois elas pertencem a uma geração que não conhece um mundo sem a tecnologia digital.
⁃ Perguntar em que as gerações se diferenciam e o que elas têm em comum leva a considerar características, valores, objetivos, motivações e, hoje muito importante, os meios de comunicação. Como as gerações têm as suas peculiaridades marcadas pelo contexto histórico e social, também fortes disposições as conduzem a serem definidas como isso ou aquilo; é o que vemos nas restritas designações como “geração smartphone”, “geração facebook” ou “geração google“, ou seja, são descrições concernentes ao grau de avanço tecnológico que essas gerações podem usufruir dele. Com isso, para falar de gerações hoje é preciso considerar uma ou mais perspectivas, que sejam histórica, econômica e cultural.
⁃ Sei que posso reler „Mujer que sabe latín …“ no monitor do meu notebook; não foi difícil encontrá-lo pela google, só alguns minutos, sem precisar sair do lugar onde estava, e foi bastante dirigir com o dedo uma flecha que se transforma numa mão quando chega ao lugar onde o título está indicado, e depois pressionar o mesmo dedo aí. Pronto. Como num ato de mágica tenho diante de mim o objeto do meu desejo. Contudo não o quero, rejeito-o. Prefiro ir até a minha estante e pegar o livro amado, tê-lo nas mãos, sentir a dureza do papel, folheá-lo e deliciar-me com a edição velha de 1984.
⁃ De todos os modos também recorro a internet e vivo conectada com ela através deste blog, usufruindo de ter meu próprio espaço na web e com ele poder me comunicar com pessoas, ler e ser lida. Por outro lado, mesmo estando dentro dessa coisa, sinto-me à parte dela e insegura, como se tivesse pisando num chão que treme debaixo dos meus pés. Esse incômodo não é por não ser uma experta no assunto, mas sim por não saber vibrar com ela. Não uso a internet entusiasmada com os seus milagres, muito menos a considero tão normal quando antes eram os tomos de uma enciclopédia; na melhor das hipóteses não tenho nenhuma fascinação por ela.
⁃ Já a geração Z, ou seja, aqueles nascidos a partir de 1995 têm uma relação de bem-estar, fazendo da disponibilidade imediata algo natural, o que é normal. Eu, pelo contrário, apesar das facilidades e conforto que um PC trouxe a minha vida, podendo estar conectada com o mundo, ainda olho esta coisa com uma certa distância e desconfiada também; entretanto a geração Z está dotada para receber muitas informações de uma vez através das redes sociais; mas será que todas essas informações são absorvidas sem detrimento da concentração? Será que a atenção pode abarcar todas elas? No meu caso, essa avalancha de informações me leva, muitas vezes a perder-me, e preciso de tempo para filtrar o que é relevante para mim.
⁃ A eficácia do acesso à informação foi permitida pela velocidade de tempo dos meios digitais que se acelerou demais. Esse tempo diminuto usado para se chegar à informação de forma tão fácil e rápida é, a meu ver, responsável pela sua decodificação: perde assim a informação importância no seu conteúdo ao ter que ser compreendida rapidamente para se dar lugar a outra já a caminho? Se tudo que quero, o recebo sem esforço, então não existe mais a ânsia e a espera, que são responsáveis pelo sonho de se obter o que se deseja, passando a valorizar menos o objeto desejado. Assim se perde um elemento essencial na carreira do conhecimento que é o gosto e o prazer pelo conhecimento mesmo? São perguntas que me faço, as quais devem ser incompreensíveis para os das gerações Y, Z; são perguntas de quem leu „Mujer que sabe latin…“ e vibrou pelo seu conteúdo, mas que também procura compreender que as diferentes gerações têm suas formas de assimilar as coisas e estas são assentadas no solo dos valores culturais. Porém quem melhor falou sobre isso foi Voltaire: „Todas as pessoas são inteligentes; umas antes, outras depois.“










Mudanças

A palavra “mudança” tem uma variedade de usos: podemos mudar de casa, de trabalho, de cidade ou de país, de parceiro, de partido político ou de religião e, até é possível hoje em dia, mudar de sexo, o que é um tema bastante abrangente e delicado. Contudo a que me refiro é a outro tipo de mudança, ou seja, aquela que passa no nosso interior quando nos decidimos a agir e a reagir diferente frente a situações conflituosas. O que quer dizer isto? As mudanças têm muito que ver com nossos costumes, ou melhor, costumes ou padrões de comportamento negativos que são aquelas reações impensadas e automatizadas sem que nos dê tempo para refletir, mas deixando um sentimento de insatisfação, pelo qual sabemos que alguma coisa não anda bem conosco. Então essa é a oportunidade que a vida mais uma vez nos oferece para mudar alguma coisa no nosso comportamento, o que não é fácil e exige coragem porque requer um reconhecimento honesto de como somos realmente, seguido de uma autoaceitação incondicional. Eu só cheguei a compreender o que no fundo “mudar” significa, quando comecei a aceitar-me de verdade como sou e vi que na aceitação o processo de mudança já estava incluído. Além disso, o aforismo “tudo muda nessa vida” confirma o que as pessoas que não aceitam as mudanças, não podem reconhecer: nós mudamos todos os dias, nos tornando mais velhos: não somos mais a criança de outrora.
Segundo o que diz o dicionário, “mudança” é a modificação do estado normal de qualquer coisa; uma alteração; uma troca, sempre de uma coisa por outra. Mudar é uma dinâmica que implica levar uma coisa para outro lugar, dar uma outra direção e finalmente renovar. Se pensamos em um fato concreto como mudar de casa, por exemplo, é muito fácil aplicar as definições acima, pois podemos imaginar claramente o que as palavras expressam quanto a deslocar, substituir, renovar, etc. Mas quanto à mudança interior não é fácil nem trocar nem substituir formas de comportamento por outras.
Então podemos mudar mesmo? A partir daí dividem-se as correntes entre os que creem que as mudanças são possíveis, se realmente queremos mudar, bastando tão somente agir, e assim pensa o Dalai Lama; e há aqueles que pelo contrário defendem o dito popular: “o pau que nasce torto não tem jeito morre torto” e ainda há aqueles, para os quais as mudanças são o que eles mais temem. Não importando as posições, as mudanças podem acontecer para o bem ou para o mal. Aqui não quero entrar em aspectos morais, mas sobretudo sobressaltar as mudanças positivas como resultadas de um esforço consciente de nossa vontade. Não é que passamos a ser outra pessoa, mas sim que passamos de algum modo a agir diferente e até a usar outro vocabulário. Essas mudanças geralmente causam surpresa nas pessoas, já de antemão familiarizadas com o nosso modo velho de reagir, sendo comum ouvir: “Como você está diferente, até parece outra pessoa!” Ou a nos olhar um tanto desconfiadas. Que maravilha ter essa possibilidade de reagir diferente, de não mais repetir velhos argumentos só para defender uma parte de si, que no fundo está irada, descontente e desamparada! É finalmente a verdadeira liberdade de ser como se é e não mais abusar de recursos injustos e incabíveis só para sair como vitoriosos de uma situação sem ter respeitado a posição do outro e, com certeza, em outra ocasião, repetir o mesmo por falta de reflexão e, sobretudo, por falta da necessidade de mudar algo em si mesmo.
No meu relacionamento, precisei de muito tempo para reconhecer que o que me impedia de mudar era estar fixada na relação ou no parceiro, como se dele devesse partir tudo para que eu finalmente pudesse me sentir bem e cômoda. Ainda não captava que essa condição prévia e imposta por mim era o que impedia de ver-me como ponto de partida e só me enchia mais e mais de sentimentos negativos.

Então como mudar algo em nós? Primeiro precisamos estar conscientes do que mudar, nos concentrando nisso e segundo, querer mudar e fazer possível a mudança acontecer.
Nem sempre há vitórias, também há os chamados fracassos, mas estes são devidos geralmente a algumas inverdades com relação às mudanças, por exemplo, querer mudar rapidamente só para resolver uma situação conflituosa, não ocasiona uma mudança profunda porque está dirigida a algo fora de nós e algum dia os sentimentos mandam a conta por não mais aguentarem tanta oposição. Transferir ao outro a causa dos problemas é cair na ilusão de que se ele mudasse tudo estaria bem. Isto não só é um grande erro, mas também uma desculpa por não querer se enfrentar com os próprios problemas, o que no fundo é o medo de estar em união com o outro. Também há pessoas que creem que não podem mudar, estas são geralmente inflexíveis e fechadas a novas alternativas e possibilidades. No fundo são pessoas que não veem outras saídas, a não ser guardar e defender seus próprios interesses repetindo o mesmo comportamento já tão incrustado. Temos medo de mudar porque pensamos que a mudança tem de passar de repente, como se fosse um pulo num abismo escuro; um pulo fatal e sem retorno. Por outro lado a mudança é um processo consciente e paulatino, partindo de uma disposição interior que nos leva a pensar ou a agir diferente. Outro equívoco é querer que o outro mude primeiro: “Por que tenho que mudar primeiro?” “Quando ele mudar, eu mudo também.” No fundo, por orgulho ou por medo, esta é uma posição bastante rígida que não leva a lugar nenhum. Mudar é um ato livre, sem exigir condições do outro e sem que a mudança do outro seja tomada como pré-requisito. E por fim o maior erro com relação à mudança é insistir em querer mudar o outro como se isto fosse a solução dos problemas. O outro tem que ser como eu quero ou estar feito segundo as minhas medidas. Eu também pensava assim, e na minha ânsia de querer mudar o outro como condição preliminar para acabar com os nossos conflitos, não via que eu era a que devia mudar. Quando me dei conta de que o outro jamais iria mudar só para satisfazer os meus desejos, foi quando entrei no processo de mudar eu mesma e comecei a perguntar-me: mudar o quê? Como? Pouco a pouco fui compreendendo que primeiro de tudo precisava aceitar-me; aceitar-me e fazer dessa aceitação uma liberação para por fim também poder aceitar o meu parceiro. Muitos casais passam a vida brigando por tudo ou por nada, repetem as mesmas reações, um acusando o outro e dando-lhe a culpa dos problemas e não veem que cada um é igualmente responsável. Mudar é uma ação solitária, de um sujeito consigo mesmo, cujo efeito chega ao outro e também o faz mudar. E este é o maior e o melhor paradoxo da mudança: o outro, como resultado de nossa mudança, também muda sua forma de ver as coisas, ou seja, uma mudança leva a outra mudança, porque no fundo as coisas não mudam, somos nós que mudamos a forma de encarar as coisas.
Contudo há coisas que não podemos mudar, elas existem ou existiram independentes de nosso campo de ação, como por exemplo, uma infância infeliz e cheia de carência, um acontecimento traumático ou a perda de um ser querido. Estes fatos pertencem a nossa vida e ao passado, existindo nas nossas lembranças e reações sem que possamos excluí-los de nossas experiências; entretanto uma pessoa que teve uma infância infeliz não deve ter necessariamente uma vida infeliz, mas se continua sendo infeliz é porque não consegue mudar a perspectiva de encarar esse passado e permite que ele a persiga por toda parte. Isto é o tema de um livro interessantíssimo que li, cujo título, mais ou menos em português seria – Nunca é tarde para se ter uma infância feliz – o que já soa bastante promissor para se crer nele. Seu autor, sem embargo, o Dr. Ben Furman, psiquiatra e psicoterapeuta finlandês, crê que podemos viver sem o determinismo da infância e questiona a crença de que toda nossa vida é, sem dúvida, dependente de como foi essa infância. Sua terapia ajuda pessoas a compreenderem o passado como uma fonte de forças – e não fatalmente como a origem de todos os problemas – reforçando as razões para se crer na possibilidade de uma vida promissora e assim fazendo que pessoas usem suas forças e criatividade para dar a volta por cima, tendo controle sobre seus traumas. Por outro lado falar é sempre fácil; árduo ainda é entrar consciente no processo mesmo de mudar que requer muita força de vontade. Muitos se valem de pedir a Deus essa força mesmo que ela leve ao contrário, ou seja, a não poder mudar: “Senhor, dê-nos forças para mudar o que podemos mudar, como também forças para aceitar aquilo que não podemos mudar.” É um pedido feito com humildade e extremamente conciliador com a realidade, mas fazendo crer que aquilo que não podemos mudar, não mudará nunca? Na verdade, o que podemos mudar é a nossa perspectiva ou atitude frente ao problema, e isto já é uma grande mudança.

 

Sobre o amor e alguns equívocos

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Fotografia da ChristinArt (todos os direitos reservados)

Não é a minha intenção aqui resolver problemas de amor, nem dar conselhos de como se deve amar ou consegui-lo, já é demais querer falar de amor por ser um tema tão vasto e possuir tantas abordagens, outrossim pela sua natureza abstrata ser impossível de encaixá-lo em planos ou projetos para o futuro. É também entrar num mundo composto de sentimentos, paixões e muitas histórias. O amor tem a sua presença em todas culturas e o seu lugar na história da humanidade pela sua força criadora e sua capacidade de provocar mudanças.

Muitas pessoas falam do amor só como uma experiência que seja, fantástica, absurda ou dolorosa; nunca um tema foi tão abordado quanto este, nunca uma frase foi tão repetida como “eu te amo”, “I love you”, “ j’taime”,  e em outras línguas. A literatura, a música, o cinema, o teatro são formas artísticas cheias de exemplos de amores, tais como os correspondidos ou não; os realizados e os malogrados; os ilusórios, complicados, tempestuosos, cruéis e, sobretudo, os infelizes. Infelizes porque se fala melhor do amor quando ele faz sofrer? A dificuldade reside em encontrar um equilíbrio entre a dor e o
prazer de amar, de poder desfrutar estar junto com o outro, mesmo sabendo que este momento não fica para sempre. Esta descrição está nos versos de Ira Intsch de forma belíssima:

Meu rosto se apóia em tuas mãos.
Sentir-te, absorver teu perfume e unir-me a ti.
Contigo falar de Deus e de tudo que o mundo
nos mantém juntos.
És tu que te expandes em mim.
E eu faço o mesmo em ti.
Resistiremos a tudo isso?

Ainda há aqueles que negam a sua existência, e falar de seus insucessos é um bom argumento para afirmar que ele é impossível de forma erótica. Ou melhor: no desejo sexual, cuja energia é a libido, simbolizados por Eros, não há amor, já o amor a Deus seria a única forma cabível de amar, do mesmo modo que o amor entre pais e filhos. Assim o amor erótico se diferencia do amor filial e do fraterno e estes do amor voluntário a Deus. Estas distinções tanto nos ajudam como dificultam a entender este sentimento tão desejado, mas também temido porque ao mesmo tempo que é um componente tão decisivo para a nossa felicidade, também é uma parte difícil de nossas experiências. No fundo, como um sentimento, é nobre, o maior entre todos os outros, e que sem ele não há chance de uma vida plena; basta pensar nos casos de crianças órfãs ou abandonadas e nos meninos de rua: se as condições materiais de uma família se encontram abaixo do mínimo aceitável de existência, não há mais espaço para o amor como fator de união e segurança; a família carece da coluna que sustenta a confiança e previne-a de perigos, garantindo tranquilidade de espírito para o seu bem-estar.

Com relação ao amor erótico, este é o mais complicado e fornecedor de equívocos por ser exclusivo e estar centrado em nós mesmos, na nossa necessidade de fundir-nos com o outro intimamente. Este aspecto do amor se confunde com a fase mágica da paixão, movida pela atração física, pela energia da libido que nos empurra até o outro para formar uma nova união. Está poeticamente mencionada no Velho Testamento:

„Eu sou para o meu amado
o objeto de seus desejos.
Vem, meu bem amado,
saiamos ao campo,
passemos a noite nos pomares;
pela manhã iremos às vinhas,
para ver se a vinha lançou rebentos,
se as suas flores se abrem,
se as romãzeiras estão em flor.
Ali te darei minhas carícias.
As mandrágoras exalam o seu perfume;
temos à nossa porta frutos excelentes.
novos e velhos
que guardarei para ti meu bem-amado.“
(Cântico dos Cânticos, 7,11-14)

O Novo Testamento não cita o amor erótico, mas sim o amor a Deus e o fraternal que é uma forma de amor universal e está centrado no outro, no coração e na benevolência „Amar ao próximo como a si mesmo“ é a prova do êxito social do cristianismo e do seu caráter revolucionário, pois até então o perdão era tido como uma prática da bondade de Deus aos homens e não como uma determinação moral do homem – o homem perdoa ao seu semelhante e com isso assume uma posição de liberdade – pois perdoar também significa soltar, liberar – o que não deixa de ser um componente do amor.

O que torna o amor erótico mais enganador é o seu caráter de imediatez que faz romper a distância entre os dois através da consumação do desejo no contato sexual, como se este – não importando o que o estimula – fosse suficiente para unir profundamente duas pessoas. Aí está o equívoco de crer que se há atração sexual, ela é responsável para garantir o amor e fazer durar o relacionamento. Para sempre? O que não se vê é que a sexualidade e o amor, apesar de poderem conviver juntos, são duas coisas distintas. Aquela pode ser vivida sem amor, e este pode ser expresso ou desenvolvido sem aquela. Homens, melhor que mulheres, usufruem desta dualidade de forma confortável sem se sentirem culpados; muitas mulheres, pelo contrário, ainda não admitem viver sua sexualidade sem amor, o que é um equívoco, mas também não deixa de ser equivocada a grande importância que se dá a ela, sem vê-la apenas como uma parte de nós, mesmo podendo ser ela até mais dominante que o amor.

Todos nós queremos o amor, e já fomos exortados a amar desde a idade infantil – a Deus, à Virgem, aos irmãos, aos avós, e assim ia. Hoje somos exortados a seguir os apelos da publicidade, da internet e sobretudo dos especialistas do assunto que nos prometem encontrar o amor ideal e eterno, bastando para isso seguir seus mandamentos, esquecendo, porém, que as duas pessoas têm a sua própria história, e esta é a que, na maioria das vezes, determina o potencial e a capacidade de amar de cada uma. A figura de um coração que palpita, duas mãos dadas, rosas vermelhas, todos estes símbolos invocam o amor, mas no fundo sabemos que não é fácil amar, talvez por estarmos centrados em outras necessidades, deixamos de consultar o nosso próprio coração. E aqui reside outra equivocação em querer experimentar o amor: ele passa a se centrar mais no ser amado por alguém do que no amar este alguém; tirando do amor o caráter de poder ser produtivo e causar mudanças. Erich Fromm já falou sobre isso no seu famoso livro „A arte de amar“ ao deixar claro que o amor „é uma capacidade de um caráter maduro e produtivo“, mas não abstraindo disto a parte de influência que uma cultura (seja ela qual for) tem sobre o caráter de um indivíduo, e enfatiza a estrutura da cultura ocidental e o espírito que dela resulta como incapazes de desenvolver o amor. Fromm escreveu isto nos anos 50 e o modelo capitalista abundava nos Estados Unidos do pós-guerra. Não é que ele via neste sistema um impedimento ao amor – sabia muito bem que „o capitalismo moderno precisa de homens que se sintam livres e independentes“, mas que, ao mesmo tempo e paradoxalmente”estejam dispostos a ser manejados e a fazer o que se espera deles“ – mas bem Fromm tinha uma fé na capacidade do homem em fazer possível o amor como um fenômeno social; neste ponto ele se diferenciava fundamentalmente de Freud que entendia o amor como basicamente sexual, incluindo até o amor fraterno como um resultado dele, onde o instinto sexual, porém é transformado num „impulso inibido“. Assim Freud não dava ao amor um atributo racional, nem via nele o resultado maduro de um processo consciente.

E no entanto o “grande amor” continua a ser ansiado e esperado – aquele, alimentado por palavras ou por momentos felizes, aquele que é mais bonito quando escrito ou encenado nos filmes e nas telenovelas, cuja beleza é mais um produto de um conto que vive na ânsia de ser realizado, e assim passamos a querer esses amores por serem mais belos que reais, mas que por outro lado nos enchem de esperança: a de não estar mais só e poder compartir a vida com o outro. Por ele ou em seu nome tudo é possível entre a vida e a morte: abandona-se a família, contraí-se dívidas, sofre-se maus-tratos, morre-se e até mata-se o objeto do amor – o ser amado. O amor como fator de sofrimento antes era encarado por muitos como fazendo parte do grande sofrimento da humanidade; hoje esse padecimento ou tortura levaram ciências como a psicologia e a sociologia a procurar as raízes desses martírios até tentar eliminá-las.

Até em sociedades avançadas da Europa, para muitas mulheres uma prova de amor ainda seria ganhar num dia não especial um buquê de rosas vermelhas ou um jantar especialmente preparado pelo amado e ainda ouvir à luz de velas um “eu te amo”. Para outras mulheres as flores também fazem esquecer os maus-tratos e até mesmo atos violentos do parceiro, levando-lhes à submissão: “ele me bateu ontem, mas hoje me trouxe rosas; no fundo ele me ama.” São estas formas simbólicas já consagradas de provar o amor o que ainda o define? Claro que não. Detrás delas está a necessidade premente de experimentá-lo como um direito natural que se deve ter na vida, igual a gozar de saúde ou ter uma família e uma moradia; e assim justificam-se as cobranças que se faz do amor. Contudo homens são diferentes e têm na cabeça outros pensamentos como a intolerável e irritante pergunta: „O que ela quer mais, se faço tudo por ela?“, exprimindo mais um ajuste de contas indiferente, do que a expontânea expressão de um tão esperado: „Te amo“. Por que é tão importante repetir esta frase? Mulheres a necessitam mais ouvi-la porque homens se sentem menos masculinos ao pronunciá-la? Os filmes típicos americanos de amor me irritam quando abusam dela como uma elocução gratuita adornando um cenário fantasioso, mas que me fascina quando tirada da realidade, mesmo sendo pronunciada dentro de um cenário fictício.

Os símbolos que se referem ao amor se dividem entre mulheres e homens; esta separação leva mais a perpetuar os clichês em torno do amor e só nos separam excluindo do „sexo forte“ até a capacidade de amar por não se ver esta representada através de formas usuais e repetidas nos cartões de felicitações e na publicidade como um coração, a mãe e seus filhos ou o ato de amamentar, símbolos sumamente femininos. Por que não se vê representado o amor paterno ou o amor masculino sem precisar estar envolto de   virilidade?

Por mais que o papel do segundo sexo hoje assuma mais responsabilidade dentro da família, do trabalho, etc., ainda esperam mulheres a sua salvação pelo lado do amor, como sendo este uma garantia para durar toda a vida ou „até que a morte os separe“. No entanto, quem ainda acredita que o amor se conserva inalterado para sempre? Esta estagnação não pertence ao amor, mas sim atividade para desenvolver-se. Casais que permanecem juntos até o fim de suas vidas, não justifica isto a idéia de que foi por conta do amor fazer possível esta união até a morte. Outros fatores mantêm uma relação, fazendo-a conservar-se, mesmo estando esta submetida à dominação ou ao sacrifício. Como também há muitas outras coisas que unem um casal, sendo muito mais reais e viáveis do que a perseguição de uma velha aspiração, de um sonho, ou seja, de um ideal.

Quando homens me esclarecem o mundo

É a minha tradução (só) do título do ensaio e livro de Rebecca Solnit, cujo original em inglês é Men Explain Things to Me. Já me referi a ele no meu último post “A Susceptibilidade de Escreva Lola Escreva” de forma apenas a introduzir meu texto sem aprofundar-me no seu conteúdo. Agora quero expor o que me parece este seu ensaio publicado em 2008. Ele foi inspirado por uma experiência vivida seis anos antes pela própria autora numa festa em companhia de uma amiga, quando o anfitrião, com ar arrogante, tentou esclarecer-lhe sobre um livro recém- publicado sem ter querido dar-se conta de que ela era a autora do livro em questão. Um sinal de que não tinha querido ouvi-la dizer que o tal livro era seu, e  assim presunçoso continuou palavreando até que, após várias incursões da amiga em tentar dizer-lhe que era o livro dela, deu-se conta em fim onde tinha se metido. Depois de saírem e já a uma certa distância, as duas amigas riram aliviadas do sucedido – como não rir do ridículo? O riso é uma reação que pode nos dar distância dos fatos e ajudar-nos a relaxar frente a situações que no momento não teríamos outra saída; rir como reação à prepotência ou como uma liberação. E Rebecca Solnit ainda ri deste fato, e sem ter rido de antemão, talvez não tivesse escrito um ensaio com tanta agudeza. Primeiramente foi publicado na Website de Tom Engelhardt – TomDispatch – com grande recepção: foi como beslicar uma corda de violão, disse, ou tocar numa ferida aberta; pois ela nunca tinha recebido antes tanta repercussão com um ensaio como com este . Mas por que um só ensaio, e além do mais curto, chegou a causar tanto impacto, não só entre mulheres, como entre homens também? Nós mulheres conhecemos muito bem o que significa o título deste ensaio em situações ou momentos onde sobretudo homens se impõem como donos da verdade em favor de sua pretensa sapiência ou conhecimento das coisas para poder estar no centro das atenções. São esses discursos soberbos carregados de explicações, definições, … por onde se deixam aparecer, muitas vezes só insinuando saber sobre isso e aquilo, mas que nos levam a calar como se fôssemos impedidas de abrir a boca – nem sempre por meios de imperativos, mas por reserva nos excluímos – confirmando uma insegurança ou o medo de sermos ouvidas. Rebecca Solnit fala do quanto é brutal fazer com que  mulheres se calem: „Eu sei do que estou falando.“ Uma frase agressiva como esta, e pelo seu conteúdo já podemos imaginar sem dificuldade como ela foi pronunciada – aos gritos – uma frase categórica de homens e sinônima de: „Você não sabe de nada“. Por que só ele sabe sobre o que fala, e ela não? A vivência deste fato brutal, não importando o contexto, se relacionado a uma discussão ou a uma simples conversa, perpetua nela o ódio e interrompe-lhe a claridade de pensar. Com esta tamanha tirania está explicado então porque mulheres não ousam ser ouvidas, e chegando esse silêncio a situações extremas, mostra até aonde vai a relação de poder entre os sexos existente na sociedade. Solnit não descreve o patriarcalismo como nascente do machismo para justificar este  comportamento específico, fala porém da hierarquia entre os dois gêneros como fundamento básico da sociedade, e enfoca bem sim essa habilidade secular que têm homens de fazer calar mulheres e de se fazerem escutados por elas. Será que são mesmo escutados como creem? (Podem continuar acreditando queridos!)
Nascida na Califórnia em 1961, Rebecca Solnit é dona de uma notável carreira intelectual, já tendo escrito mais de doze livros ligados a diversos temas desde política, história da cultura, arte, feminismo até meio ambiente, e embora estando seus livros fundamentados sobre uma pesquisa sólida, mesmo assim não passa a escritora incólume a situações como a experiência do início com o sr. importante, por ela assim batizado. Esta e outras são experiências que põem em questão suas certezas e podem avivar-lhe velhas inseguranças – experiências nada gratuitas como encontrar-se na presença do sr. importante que revestido de confiança na sua atuação, e também confiante que ela se deixará vacilar e intimidar-se frente à certeza dele. É com essa lealdade e coragem que fala de si mesma e lembra o que dia a dia enfrentam mulheres quando são expostas a situações sem terem o direito de exercer sua expressão, sendo esta o que lhes dá o direito de ser alguém.  Já fui muitas vezes testemunha de casos como este, e quem não foi? Homens também a mim já explicaram e querem explicar o mundo e o significado das coisas como se eu fosse uma colegial preguiçosa e desinteressada, e muito pior até, sem levarem em conta se eu conheço ou não o assunto sobre o que eles estão falando, ou se tenho ou não uma bagagem de conhecimento ou experiência de vida. Homens que não dão importância a esses pré-requisitos não querem ouvir, mas serem ouvidos e admirados – E como é irritante ter que ouvir um discurso sem fim!
Até hoje homens seguem esclarecendo o mundo a Rebecca Solnit, sem que nunca tenham lhe pedido desculpas por isso, ou por terem explicado errado, ou mesmo pelo fato de ela saber e eles não.
E mulheres por outro lado também não gostam de dar explicações, sobretudo a outras mulheres, muitas vezes sobre insignificâncias e até de forma desdenhosa como se fossem expertas no assunto? Sim, existem tais, como também em grande número e Rebecca Solnit não nega a existência delas, mas não que esse aspecto loquaz e maçante seja uma marca que especifique o gênero feminino; ao contrário uma atrevida exibição de confiança até na própria ignorância é para ela uma característica masculina – escondendo insegurança e imprestabilidade.
No meio político vemos com mais nitidez a inundação de discursos daqueles que sabem de tudo, e sabemos o como é difícil e fatigante para mulheres, as jovens principalmente, sobrepor-se e serem ouvidas com respeito até por seus colegas de partido. Solnit cita o caso de Coleen Rowley, uma agente do FBI durante a presidência de Bush, que não foi ouvida ao ter chamado com antecedência a atenção para o Al-Qaida. Não quiseram escutá-la, e isto é o mesmo que dizer: só escutaram o que estava conforme a seus conceitos. O fato de que a guerra foi resultado de um jogo  arrogante masculino, também leva-lhe a afirmar que há outras guerras, aquelas vividas no interior de quase todas as mulheres, por terem a convicção de poder ser dispensadas e atraídas a se calarem. Por que não devo me expor a falar sobre coisas que sei expor sabendo que tenho esse direito? E mesmo com uma certa insegurança sobre algo, isto pode ser útil e abrir caminho para corrigir-se: ouvindo, aprendendo e crescendo, mas quando essa insegurança é grande demais, pode conduzir a mudez e paralisações, do mesmo modo que uma excessiva autoconfiança pode demonstrar pura arrogância. Entretanto há um caminho entre esses dois pólos – diz Rebecca Solnit – onde os dois sexos podem conviver: a calorosa região do dar e do receber onde todos nós devemos nos encontrar. Uma metáfora nada proporcional à realidade da maioria dos diálogos entre homens e mulheres, mas otimista.
Se muitas mulheres, infelizmente, não ousam ser ouvidas, esconde-se por trás deste fato o quanto é importante ter credibilidade e até como um pré-requisito para sobreviver. Solnit escreve no seu ensaio que num Natal quando era muito jovem, e já tinha começado a entender o que era o feminismo e a sua importância, o tio de um amigo contou, como se fosse uma estória inventada, que a mulher de seu vizinho a altas horas da noite saiu despida de casa correndo e gritando que seu marido queria matá-la. Sem pestanejar acreditei na declaração da mulher, mas ao seguir lendo, defrontei-me com a pergunta da própria Solnit ao tal tio: Como o senhor sabia que isso não estava certo?  A explicação foi que o marido se tratava de um cidadão honrado e respeitado e que a acusação meu marido quer me matar não continha em si fator de credibilidade para que fosse tomada como verdade, embora ela tenha gritado na rua isso; mas que fosse uma louca, pelo contrário, foi levado a sério.
Em certos países do Oriente Próximo a falta de credibilidade às mulheres é comprovada em casos de violação sexual, nos quais a acusação da mulher não tem peso na justiça, a não ser que ela tenha um homem como testemunha, e que este queira confirmar sua acusação, o que só raramente acontece.  E Rebecca Solnit vai mais além destes fatos; ela que começou o ensaio por um incidente, foi mais adentro chegando a mencionar estupro e morte, o que para ela pode ser uma coisa de continuidade – um mal-entendido pode passar, de sua forma normal, ao abuso, à violência, intimidando mulheres a se calarem ou até as matando. É assustador ver o número de mulheres (incluindo meninas pequenas) reprimidas, abusadas, violentadas e mortas em quase todo o planeta – mulheres que são seres humanos e com direito à vida e a participar dela como um ser livre. Que este direito porém, deva ser conquistado, é uma luta, uma luta longa e amarga.
A ensaísta sabe disso e acha que a melhor maneira de compreender todas as formas de discriminação contra mulheres é dando-lhes uma expressão concisa, como abuso de poder, em vez de considerar em separado violência doméstica, assédio, estupro, etc., etc. e até morte: Tomando tudo junto, põe-se à luz o padrão de comportamento, evidenciando clareza e concisão.
Rebecca Solnit não se queixa de si mesma, está satisfeita com o seu próprio crescimento e desempenho e com ter encontrado na idade adulta a sua expressão. E como ela diz:
o direito de mostrar-se e de expressar-se é inevitável para a sobrevivência, para a dignidade e a liberdade. As circunstâncias me obrigaram a usar o direito de falar por aquelas que não têm voz.

 

(Próximo post: 19/4/2017)

A susceptibilidade de “Escreva Lola Escreva”

Este post é um comentário ao que captei como interessante para mim do blogspot escrevalolaescreva. Claro que este blog abrange mais temas que o referido aqui.
Não me prendi à variedade de interesses da autora, como política, cinema, viagens,
etc., nem a sua pessoa; tentei apenas ressaltar o papel feminista do seu blog dentro
do contexto brasileiro.
(As datas entre parênteses correspondem aos posts de onde os trechos citados foram retirados)
Nada mais comum do que duas amigas irem a uma festa para se divertirem, mesmo sendo uma delas uma escritora bastante tarimbada e diversificada em temas como meio ambiente, direitos humanos e feminismo – é que intelectuais também se divertem! –  No fim da festa quando as duas já queriam ir embora, interpôs-se entre elas o anfitrião apelando para que ficassem mais um pouco, pois ele ainda não tinha tido a oportunidade de conversar com elas, e dirigindo-se a nossa escritora em questão num tom desdenhoso, começou a falar de um livro muito bom e  recentemente publicado sobre o fotógrafo inglês já há muito tempo falecido Eadweard Muybridge.  Seu tom também arrogante acentuava uma presunção como se ele estivesse falando com “uma menina de sete anos na sua primeira aula de flauta”. No entanto não sabia o tal que ela era a autora do livro, o qual ele tentava explicar-lhe, e por mais que a sua amiga se esforçasse em dizer-lhe que ele estava falando com a própria escritora, ele não a escutava. Por fim se deu conta de sua desvantagem diante dela, até então julgada apenas como uma party girl, e claro, de nível intelectual inferior a ele, calou-se. Que cena grotesca! Esta experiência, nunca esquecida, levou-a anos mais tarde a escrever um ensaio, que se tornou famosíssimo, sob o título “Men Explain Things To Me”: Quando homens me esclarecem o mundo (a tradução é minha), primeiramente publicado numa plataforma dedicada a artigos de opinião crítica.

A autora a quem acabei de me referir é Rebecca Solnit, americana, nascida em 1961 na Califórnia . Seu texto, acima citado, foi como uma ferida aberta e ocasionou o aparecimento da expressão Mansplaining, até já usada por Hillary Clinton  – que em inglês é uma aglutinação do verbo explain (esclarecer) e man (homem), significando que o homem é quem melhor sabe das coisas e por isso tem a tutela do conhecimento – como também iniciou discussões quanto a quem pertence o saber, o conhecimento e o esclarecimento do mundo. Só aos homens? A partir daí as reações foram inúmeras, apareceram artigos de mulheres que passaram por experiências parecidas, como também cartas de homens que tentaram corrigi-la ou restringir o seu ensaio a uma experiência individual: “ Tem mais que ver com você que se deixa depreciar”…  Mas por outro lado, o que tudo isso tem que ver com o blog Escreva Lola Escreva? Muito.

Tanto Rebecca Solnit como Lola Aronovich, cada uma a sua maneira e vivendo em sociedades bem distintas usam seus meios de expressão para tocar bem no fundo uma ideologia já há muito tempo cristalizada como o machismo, e assim conseguem causar repercussão social atraindo, sobretudo, mulheres para um mesmo foco de interesse e abrindo discussões necessárias. E ainda mais: as duas conhecem as consequências do que
é mostrar claramente comportamentos masculinos autoritários frente às mulheres porque homens se dão conta dessas investidas, nomeadamente aqueles que se identificam com
elas e fazem de sua participação nas redes sociais um meio de deslegitimá-las.

No contexto de Solnit as reações masculinas marcaram não somente intenções de elucidá-la sobre o que ela “provavelmente” não conhece – acreditam eles – mas também dirigi-la em sua forma de comportar-se – no fundo eles queriam ensiná-la a ver o mundo segundo seus olhos.

Quanto a Aronovich, infelizmente uma parte das reações ao seu blog é de nível nitidamente inferior; as críticas a ela são agressivas e de forma a degradá-la moralmente, puni-la e até ameaçá-la de morte, como mesma constatei. É a expressão desesperada de homens “reaças”, “mascus” e “misóginos”; é o terror que ora se alastra por meio da internet. Como ela mesma escreveu: …” eu não sou ameaçada por ser Lola ou por meus lindos olhos verdes. Sou ameaçada por ter um blog feminista.” (30-12-14)

Cheguei casualmente ao “Escreva Lola Escreva” no ano passado quando estava à cata de blogs de opinião feminista para melhor conhecer o campo de ação onde eu estava prestes a entrar com o meu blog pessoal. O primeiro que vi foi uma fotografia de cores pardas de uma menina sorrindo – a própria Lola, pensei – enquanto tem cada uma das mãos ao lado da boca, num gesto de querer anunciar algo. De imediato pareceu-me acertada a escolha da fotografia com relação ao nome do blog, levando em conta seu próprio processo de amadurecimento: a infância, a fase onde a expressão é sobretudo oral até a idade adulta, caracterizada pela prioridade da expressão escrita. E assim estava justificado o nome do blog para mim. Gostei. Mas mesmo assim confesso que me choquei um pouco mais adiante com a crueza das palavras e de algumas fotos; as acusações diretas aos “reaças” e “mascus” que “não sabem nada de nada”; um vocabulário especial dirigido aos “caras” e uma série de comentários como água fervente, porque neles, como canais abertos, vê-se claramente os ataques “deles” ao conteúdo dos posts. Senti que o ambiente era quente em comparação com outros blogues feministas que também comecei a observar, e não demorou muito para que eu me acostumasse com a sua linguagem: “Eu sou mulher, sou feminista, tenho peito, não tenho medo. Pra mim “aquilo roxo”, balls, cojones, nunca foram sinônimo de coragem. Coragem é enfrentar todo um sistema que insiste em perpetuar preconceitos.” (2-6-11) e começasse a captar a importância dele atualmente no contexto social brasileiro: não vivia só de acusações ao machismo, mas também era um espaço aberto capaz de impulsionar um movimento já vigente no Brasil e de servir de voz – aquela voz penetrante que não tem medo das palavras, repetindo sem dó termos como “cultura de estupro”, “aborto legalizado”, “homofobia”, “ódio destilado” –  que incomoda, e sem usar frases complicadas, mas chegando a um nível ao qual os “sujeitos”, contras radicais entendam: “… mas é o que sempre digo: se rola resolvesse algum problema, homens reaças não seriam o fracasso ambulante que são.”(23-11-17)  Lola Aronovich não apela para a diplomacia, ela sabe muito bem que no estado das coisas é preciso combater com as mesmas armas ou retirar-se; mas ela não se retira, ou melhor, nenhuma se retira, e em vez disso Lola escreve como numa campanha elucidativa para mostrar que mulheres no Brasil são humilhadas, insultadas, espancadas, estupradas, mortas. Por homens. Nessa luta quem é mais inteligente e quem melhor argumenta sobre o que é verdade, ganha. Quem só exerce violência não vence, mas quer eliminar o outro em vez de deixá-lo viver. Lola sabe que com outro tipo de linguagem não teria o seu blog uma grande ressonância e até também por parte dos “reaças”: “Sou a única feminista que reaças conhecem em seu mundo falocêntrico.” (23-1-17)

É nesse espaço aberto que muitas mulheres podem declarar suas queixas, fazer confissões de fatos horrendos passados em suas vidas e ver que outras mulheres também passaram por situações semelhantes; é que muitas das quais, certamente, nunca tiveram a oportunidade ou a coragem de expressar-se de forma pública. O blog da Lola oferece esta oportunidade e mais, serve até de conselheiro, sendo necessário, a aquelas que necessitam ser ouvidas e receber apoio moral. É quando Escreva Lola Escreva cumpre sua função de utilidade pública (também reconhecida num dos comentários), antes realizada pelos velhos consultórios sentimentais de revistas exclusivamente femininas – mas não feministas – alentando para uma nova consciência e mostrando novas direções: “Nós estamos fazendo a nossa parte para mudar o mundo e não vamos parar. E você, R., faz parte desse nós.” (21-9-16)

A susceptibilidade desse blog que se confunde com a autora tem que ver mais com os  feedbacks negativos que recebe dos “caras” – às vezes até como perseguições – e isto foi o que me motivou a segui-lo e a perceber que esta tendência, mesmo mostrando-se negativa, tinha dois lados interessantes: sem esta susceptibilidade estaria o blog hoje na posição de ser o mais lido ou um dos mais lidos do Brasil? Através dele podemos ver caras, as dos “caras” e suas intenções – Lola as exibe sem sentir vergonha, pois esta só limitaria seus objetivos feministas. Esta qualidade susceptível, passível de receber ofensas é por outro lado também um meio de como se medir a temperatura do machismo local. Eu que vivo fora do país há muitos anos, foi lendo o blog da Lola que me dei com a cara do macho brasileiro, e fiquei horrorizada com a falta de escrúpulo e principalmente com a baixeza de suas declarações quando referidas a mulheres.

O feminismo em muitos países como o Brasil é o que faz com que mulheres possam se levantar, quando caem por pancadas recebidas e não são devidamente acolhidas por leis. Mulheres que se deixam ser surradas por fraqueza ou por estarem em total dependência de seus vilões, precisam de leis que as protejam e precisam do feminismo como aparato social capaz de esclarecer-lhes as raízes de suas desventuras. Homens precisam aprender que uma mini-saia ou mesmo uma parte do corpo à mostra não é um convite para o ato sexual; a crença de que mulheres podem estar à sua disposição gera equívocos incabíveis: um sorriso pode ser entendido como um consentimento, um silêncio como um sim e o encontrar-se sozinha pode conduzir ao estupro. Como apelar para o bom senso? Como defender-se? A missão do feminismo é encontrar essas respostas e muitas outras urgentes, antes que os ataques e a violência contra mulheres sejam mais rotina do que já é. E…
“Que fique claro. Se você demoniza feministas, se você ataca feministas,
se você chama talvez o maior movimento revolucionário do século XX
de “modinha da internet”, se você faz graça com estupros e violência
doméstica, não tem jeito: você é misógino. E você é acima de tudo
ignorante, porque você também se beneficiaria de viver num mundo
sem violência contra as mulheres.”  (22-2-16)

LICENÇA PARA MATAR

Há exatamente um mês passou em Campinas a morte de doze pessoas enquanto comemoravam a entrada do ano novo. Este post é uma forma de lembrar esta tragédia. Também  pretendo com ele promover uma reflexão mais aberta, aproveitando a vantagem que uma certa distância de tempo nos dá para entender melhor este sucedido já tão discutido.

“Agora na rua onde moro / há uma mulher sentada / e enquanto a noite vai entrando calmamente / ela diz: quem vai tirar dele a licença para matar? “ („Now, there’s a women on my block/ She just sit there as the night grows still./ She say who gonna take away his license to kill?)
São palavras que descrevem um quadro difícil, abstruso, como se fosse um sonho, que nos deixa sem saber o que dizer diante de formas que por serem tão insociáveis, se tornam tão incompreensíveis. Este quadro insólito e onírico está expresso nos versos de Bob Dylan da canção “License To Kill”. Ele os escreveu compondo um ambiente vago, minimalista, formado por poucos elementos – por mais que as palavras tenham conteúdo concreto, ainda assim nos é difícil abarcar o que significam – como ao mesmo tempo irritante, porque não sabemos quem é essa mulher que fala, sentada lá. O título da letra já nos incomoda pela audácia e pela falta de um dispositivo moral – matar pode ser justificado por uma licença? Com esta pode-se matar pura e simplesmente, o que falta é só um motivo, não importando este qual seja? – o que nos leva até a pensar que assim o título seja uma confirmação ou mesmo uma ordem de matar, sem a leitura e a compreensão do poema.
Neste poema Bob Dylan se refere ao orgulho desmesurado numa sociedade materialista e dirigida ao egocentrismo, onde as pessoas foram preparadas desde cedo para seguirem um caminho destrutivo que, com certeza, lhes trará danos futuros, ou seja, uma sociedade, na qual o homem está condenado a ser destruído por ele mesmo, mas bem por não ter podido ver além de si mesmo: “ele se venera num altar de uma piscina inerte/ e quando vê seu reflexo, sente-se realizado”: („Now he workships at an altar of a stagnant pool/ And when he sees his reflection , he’s fulfilled.“);  por não ter podido ouvir palavras que não tenham sido as suas: “Ele só acredita nos seus olhos/ E seus olhos só dizem mentiras”: („ All he belives are his eyes/ And his eyes, they just tell him lies.“);  e assim por não possuir outro mundo fora este, onde já se sente ameaçado e em vez de ir para o céu, vai ser enterrado com estrelas: “Aí o conduzem para um caminho que só lhe trará danos/ Aí o enterram com estrelas”/: („And they set him on a path where he’s bound to get ill,/Then they bury him with stars,“ …).
Bob Dylan, que ganhou o prêmio Nobel de literatura de 2016, veio-me à tona com este
poema, exatamente pelo título “Licença Para Matar”, quando horrorizada me inteirei do terrível ocorrido em Campinas na noite da passagem para o ano novo. As feministas brasileiras têm razão: é o momento de gritar, acusar e reivindicar direitos que permitam às mulheres, em suas últimas instâncias, pelo menos o direito à vida. Quem lhe deu licença para matar a sua ex-mulher, seu próprio filho, mais dez pessoas e depois a si mesmo?  Infelizmente é verdade dizer que licença para matar, a receberam e ainda a recebem muitos, se lhes convêm que crimes sejam praticados. No entanto se procurarmos as fontes deste homicídio nas páginas da bíblia, podemos explicar esta chacina pela falta de fé em Deus? E com tudo o que a falta de um discernimento espiritual pode ser maléfico na nossa vida? Não quero me prender a questões de fé religiosa, pois até em nome de Deus ou de Cristo ou de Alá muitas pessoas foram mortas, e já se fizeram muitas guerras como ainda se fazem, embora suas causas no fundo, dizem muito mais respeito a outras questões: ideológicas por exemplo. E também porque tal explanação não caberia dentro dos ditames feministas, ora fortemente removidos e empregados com razão a defender suas causas, o que torna este crime  em nossos dias tomar outra dimensão com respeito a ser questionado. No século passado teria sido diferente… o ocorrido teria ficado nas mãos da polícia; o povo teria estado mais assustado e menos aclarado; a opinião pública teria estado mais dividida – não escapando as acusações à mãe: “como é possível que uma mulher impeça o pai de ver o seu filho!” – E as mulheres? Mais vulneráveis e mais temerosas. Entretanto não estamos mais no século passado, já estamos esclarecidas de muitas coisas e aprendemos com nossas próprias experiências para afirmar que o trabalho e a luta de conscientização da mulher no seu papel de esposa, mãe, companheira, trabalhadora, amante …  foi e é produtivo; mas nem por isso deixa-lhe incólume à ataques e até riscos de vida. É quando nos perguntamos se o fato de termos lutado para estar mais conscientes e seguras do que queremos  é suficiente para nos garantir um futuro promissor. Não é. E pode até ser perigoso, porque toda luta implica em combater os inimigos, e estes tendem a se revoltarem.
O machismo como ideologia  é uma afronta narcisista, não só contra as mulheres, mas também  a outros seres considerados pelo machista como inferiores, e crianças também podem ser um exemplo disso. Já sabemos que ele é despótico; tanto abusa, principalmente das mulheres, como as oprime por não aceitar que junto com elas poderia ser criada uma relação fundada no amor e em valores morais, tais como, o respeito, a lealdade, a fidelidade, a confiança, a justiça e outros mais. É neste ponto onde o machista mais fracassa, pois considerando o seu comportamento como um lema institucionalizado de vida, carece por isso mesmo da capacidade de amar, como bem diz Rómulo Sánchez Leytón no seu artigo “Machismo na América Latina”: “Como o machismo menospreza o amor natural, abre assim o caminho para violação ou gravidez indesejável” … , ou seja, todo ato de violência de um homem contra uma mulher tem como princípio a sujeição dela a ele, como necessidade de provar seu domínio e autoridade frente a ela. Como todavia esperar que ele a ame ou que ela o ame?
As feministas ainda têm razão quando denunciam essa pretensa superioridade do machismo, com o fim de deslegitimar  a discriminação contra as mulheres, como também com o fim de parar com coações, humilhações e mortes, como vemos no Brasil em proporções consideradas bem avançadas.
Por outro lado como reagem  machistas frente ao empenho sem pausa de feministas em acusá-los de seus atos infames? Em confrontá-los com a sua tirania e em mostrar-lhes seu caos interior? Sob a influência da emancipação da mulher numa sociedade, como a brasileira, por exemplo,  e a consequente aquisição de mais direitos em seu favor – embora alguns destes ainda não funcionem de forma integral – muitos homens podem descambar numa total desorientação, e em se tratando de machos, podem reagir ainda com mais violência por se sentirem fortemente atacados. É o nosso caso em questão?  Ele – que ao sentir-se desamparado, excluído de um mundo em vias de rebelar-se contra às suas convicções, fazendo suas colunas estremecerem – procurou com as suas próprias mãos „fazer justiça“: no fundo um ato solitário e cruel de um macho indignado, movido pelo medo e desespero de perder seus direitos, e também seu trono? Não sei. No entanto ao ler trechos de sua carta esclarecedora dos motivos do seu crime, não me pareceu que ele tivesse tido um, mas bem dei-me conta de um homem extremamente revoltado, isolado e fechado em si mesmo, encontrando na vingança o meio de descarregar seu ódio contra familiares de sua ex-mulher, na maioria mulheres, que para ele, eram elas a causa de seu desespero pela separação do seu tão”amado” filho. A meu ver no convívio entre pai e filho se encontra o que ainda não temos conhecimento ou nunca vamos tê-lo: que tipo de relação, na verdade, tinham os dois, chegando o filho a afirmar que quando crescesse mataria o pai? E embora nutrindo grande afeto pelo filho, por que escolheu o pai como forma de matá-lo uma verdadeira execução?
Também observei sua incapacidade de refletir sobre a situação, a que o conduziu a estruturas reduzidas de pensamento, formulando-as em categorias de causa e efeito ou de bem e de mal. É o que vemos em suas frases quando divide as mulheres entre boas e más, sendo estas tachadas de vadias; quando as vadias são feministas e ardilosas, ou quando diz que o feminismo é um sistema – desconhecendo assim de fato que esse „sistema“ é um movimento político e social? – Não importa se a sua definição de feminismo esteja correta ou não, e aqui não pretendo julgá-lo, mas sim ressaltar uma expressão movida por sentimentos de inferioridade, ira e vingança: uma vingança que o levou a sacrificar não só a sua vida, como também a de outras pessoas . Para mim sua falha trágica foi a de não ter sabido usar suas fronteiras. Mas isto não é o que implica o fenômeno da violência machista?
Levando em conta que a violência – também existindo entre as mulheres, embora em  proporções menores – é um fenômeno muito complexo hoje em dia, pergunto-me o que nos falta acrescentar a mais à parte das acusações, das denúncias e até das leis às arbitrariedades do machismo? Está a nossa linguagem já equipada suficiente de intenções que favoreçam um diálogo? Ou, como muitos acreditam, é impossível homens e mulheres dialogarem? Acho que não, mas para isto é imprescindível que as duas partes estejam preparadas, e foi o que faltou a Isamara Filier e a Sidnei Ramis de Araújo.