FALAR É PRECISO, CALAR NÃO É PRECISO

(„EuTambém“ faço a minha contribuição contra sexismo e assédio)

 

O panorama dos assédios sexuais está mudando, rompendo com o silêncio, a vergonha e a culpa para as acusações em massa através das redes sociais e, principalmente, por meio do hashtag #MeToo, mulheres famosas – primeiro as americanas puxando o cordão para outras mulheres – resolveram abrir a boca e divulgar para o mundo suas experiências de terem sido assediadas sexualmente. O bloco das assediadas é grande e „eu também“ é o seu lema que fez com que tantas mulheres tomassem coragem e, finalmente, pudessem contar o que tinham guardado por tanto tempo. Mas por que só isto agora, levando em conta que o assédio sexual já é bastante conhecido numa sociedade regida por princípios não igualitários? Por que esse fenômeno? Por um lado graças à força e ao alcance das redes sociais que conseguem dar aos fatos uma amplitude internacional, tornando-os mastigáveis, e mais, imprimindo a livre iniciativa de muitas mulheres em também querer seguir o exemplo, e por outro lado como uma mostra do quanto as mulheres têm se conscientizado desde as últimas décadas. A divulgação do #MeToo pela internet é uma forma encadeada de assegurar que as mulheres em questão não estão sozinhas, é só juntar-se às outras para formar uma grande campanha. O que vemos é que desta vez as consequências de assédios, mesmo os praticados há vários anos atrás, são outras, são enormes. Enquanto escrevo este texto, tenho o rádio ligado e ouço notícias sobre famosos ameaçados de consequências jurídicas, não esquecendo as demissões já ocorridas.

Tudo começou com um Tweet de Alyssa Milano, uma atriz americana da série de televisão „Charmed“. Ela fez reaparecer um hashtag de mais de dez anos atrás de Tarana Burke, uma afro-americana, no qual Burke tentou atrair atenção internacional para o grande número de abuso sexual praticado contra meninas. A reação de Aliyssa Milano apareceu em outubro deste: #MeToo – eu também – como uma declaração de suas experiências passadas com assédios sexuais. A partir daí, no mesmo dia apareceram mais de dez mil reações ao hashtag de Milano e continuaram a aparecer durante toda a semana – uma campanha de denúncias tinha se formado – com a maior parte das declarações vindas de mulheres, com a maior parte das acusações feita a homens bem sucedidos profissionalmente – chefes, diretores, políticos, professores universitários …

Harvey Weinstein já não é mais forte, apesar do seu excesso de quilos e da carreira que fez no show business em Hollywood como produtor de filmes famosos – até Michelle Obama já tinha se referido a ele como „um ser humano maravilhoso, um grande amigo“ – perdeu todos seus postos elevados e até a esposa, que se separou dele após ter-se inteirado das acusações de assédio, sexismo e até de violações, feitas por estrelas de cinema e publicadas pelo New York Times também o mês passado. Um escândalo alastrante se formou em volta do tão simpático e bonachão Harvey desde que a cortina despencou e mostrou – e ainda mostra – o que estava por trás de seus plissados: um Harvey como protagonista de um filme real, onde mulheres, geralmente jovens, eram apalpadas, sem que tivessem querido, forçadas a vê-lo masturbar-se ou tomar banho, ou a dar-lhe massagens … mesmo as suas doações ao partido democrata não o impediram de revelá-lo como um tipo levado a indecências extremas. Se faz crer que através do caso Harvey Weinstein se paga uma velha dívida, porque agora foi devidamente cobrada. Hollywood sabe que Harvey não é um caso isolado, mas um problema de abuso de poder daqueles que em altas posições acham ter direitos sobre o corpo de mulheres e comprar seu silêncio em troca de promessas e favores profissionais, sem se interessar pelas consequências psíquicas de suas vítimas. No fundo estes cínicos estão convencidos de que uma fachada bem apresentável e o êxito comercial são suficientes para cobrir o horror. Por que se calavam ou faziam vista grossa muitos dos que sabiam o que se passava atrás das cortinas até de forma já organizada? Só encontro duas palavras para a pergunta: a indiferença e o medo. A indiferença por não achar que os fatos sejam relevantes, uma vez que o sucesso e o êxito financeiro são o que contam; e o medo de poder perder oportunidades de trabalho lucrativas, e que trarão o êxito com certeza, ou seja, o silêncio pelos valores que ele representa. Harvey Weinstein se encontra agora numa clínica, talvez mais para provar sua anormalidade psíquica do que para comprovar uma estrutura social dominante que no fundo discrimina e assedia. Mas ele, claro, não sendo o único, não pode ser responsável por todos; a solução de se precisar de Harvey como bode expiatório não combina com o fenômeno atual das acusações de sexismo, assédios e violações – o barco leva mais do que só os empresários americanos, também aparecem mulheres acusadas de sexismo a homens e homens como vítimas de outros homens.

O sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu, falecido em 2003, escreveu um livro importantíssimo em 1998 – La domination masculine – que pelo título se deduz sem demora o quanto o feminismo seria fruto da dominação do homem – contudo para Bourdieu o que mais interessava da dominação masculina eram os seus mecanismos invisíveis e dispostos para mostrar que ela é uma forma simbólica de representação, principalmente em termos políticos e econômicos, ou seja, esta dominação se estende por toda parte e por todos setores – um paradigma representativo da visão fálico-narcisista; onde a diferença marcante entre os sexos parece residir simplesmente na „natureza das coisas“. Neste modelo social a mulher está submetida ao homem, e o poder deste em pôr ordem se vê em situações, sem que ele tenha de se justificar, disse Bourdieu.
Ele retomou os modelos de dominação dos berberes, grupos étnicos do norte da África, trazendo-os até a atualidade das sociedades ocidentais; os padrões antigos estão hoje só sutilmente e de forma refinada encobertos, todos tinham que ver com a desigualdade entre homens e mulheres em favor dos primeiros, claro. Assim hoje a chamada igualdade de direitos promulgada nas leis pode ser posta em questão e vista como um engano. Seu livro não é só uma crítica ao patriarcalismo mas também uma expressão de cepticismo ao feminismo ilusionista que fracassa ao procurar banir essa dominação em vez de desenvolver um caráter próprio de autodeterminação.

As referências a Pierre Bourdieu com relação aos acontecimentos de outubro não são gratuitas, pelo contrário – embora ele tenha insistido num tipo de „violência simbólica“ exercida pela dominação masculina, na qual os danos legitimados no meio social não são físicos, porém sutis: discriminações, humilhações, desrespeitos … mas alcançando ferir moralmente, deixando marcas psíquicas profundas, e os assédios sofridos e declarados são formas bem concretas de violência física – pode-se mesmo assim responder perguntas pertinentes sob a luz de sua teoria: como é possível que o domínio masculino se preserve ainda hoje sem esforço e até contra resistências? Como foi possível que um homem como Donald Trump – também há acusações de assédios contra ele – chegasse ao poder político? Por que mesmo com a existência de leis contra agressões sexuais em muitos países, a maioria dos agressores conseguem facilmente impunidade? Por que é tão difícil recrutar provas? Para Bourdieu existem forças na sociedade que estabilizam a desigualdade entre os sexos e elas encontrando passagem livre, tornam-se legítimas, como o silêncio; o medo; o estar de acordo, mesmo não estando, só para evitar conflitos; a falta de interesse; o esquecimento … Tomar atitudes contra elas é muito difícil, mas muito importante, como primeiro, ater-se aos exemplos mais visíveis, para chegar a compreender os mais sutis: Que função têm calendários de mulheres nuas pendurados nas paredes? Por que aguentar ouvir em casa ou no trabalho que homens falem alto, como se estivessem gritando? – isso também dói nos ouvidos – Por que ter contato sexual com o parceiro mesmo sem querer? – É o que muitas mulheres, infelizmente, fazem – só para comprazê-los? – Por que calar frente a palavras, gestos, ações indesejados, admitindo que tudo isso é normal, porque homem é assim mesmo e eu, de certo modo, tive a culpa? Muitas mulheres têm problemas com piadinhas inocentes ou até com elogios por não saberem distinguir um cumprimento simpático do que não o é, e por isso não reagem devidamente. O sexismo é uma forma de discriminar, reside onde não existe igualdade de direitos e vive de não reconhecer seus limites, ultrapassando as fronteiras do até aqui é querido e aceitável.  Assim o ambiente de trabalho é o palco ideal para tais ataques, sendo aí preciso aprender a barrar, a dizer firmemente um não olhando nos olhos. Por outro lado, deve ser da competência do empregador proteger, através de medidas concretas, a segurança de seus empregados: Não admitimos aqui nenhum tipo de assédio nem formas sexistas.

Quase todas as mulheres – ou todas? – já sofreram algum tipo de assédio ou sexismo e têm o que contar – eu também:

Nos anos 80 fui à Cidade do México para trabalhar e lá passei quase três anos. Numa das vezes quando voltava para casa de metrô – e em pé, porque o metrô mexicano anda sempre cheio – faltou a eletricidade e parou entre estações numa escuridão total. Neste momento fui apalpada na nádega por muitas mãos ao mesmo tempo – mãos masculinas, porque eu sabia que ao meu lado havia homens – a minha primeira reação foi de assombro, não sabia nem o que fazer, nem dizer, fiquei paralisada. Por sorte tudo foi muito rápido, segundos apenas; a eletricidade voltou e o metrô seguiu funcionando, mas eu ainda estava imóvel sem poder crer no que tinha acontecido, apenas olhei para os homens ao meu redor, e todos estavam tranquilos, como se não tivessem feito nada, mas eu, ao contrário, já me sentia inferiorizada, tinha raiva, vergonha e culpa ao mesmo tempo. Em comparação com outras formas de sexismo, o que passou comigo foi muito leve, mas não ao ponto de justificá-lo e enquadrá-lo como normal numa sociedade machista como a mexicana. Não.
Hoje quando relembro a situação, vejo que tive sorte: que teria acontecido mais se a eletricidade não tivesse voltado rapidamente? Como eu teria reagido se os ataques tivessem ultrapassado os apalpos da nádega? Teria gritado? Acho que sim.

Talvez #MeToo seja uma tentativa de muitas mulheres de tomar nas próprias mãos as discriminações, as humilhações, o sofrimento, uma vez que a apelação à justiça infelizmente fracassa na maioria das vezes. #MeToo não é uma campanha em contra de homens, e mais do que só denúncias, mostra claramente o estado de saúde de nossa sociedade com respeito a homens e mulheres, e as mulheres sabem que mesmo reagindo contra as agressões, não significa isto que as investidas parem. É hora de começar a valer-se e não deixar que o #MeToo seja uma moda a mais que passa ou esfria; para que Pierre Bourdieu pudesse ver – se estivesse vivo – que passam mudanças na sociedade e não se tem de ser tão céptico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem é Melania Trump?

 

 

 

Para escrever este texto baseei-me em textos jornalísticos e alguns, claro, tirados da internet, e sobretudo no que observei nas fotografias de Melania Trump e da família Trump. Apesar de ter citado fatos de sua vida, não queria só prender-me a eles, por já serem bastante conhecidos. Muito do que eu aqui afirmo sobre ela é resultado destas observações, ou seja, são conjeturas fundadas na minha forma de querer compreendê-la. Também fiz citações de outras pessoas, mas sem deixar de mencionar seus nomes.

A Eslovênia durante os anos do regime socialista iugoslavo era uma região pequena, pacata, segura e rica; uma paisagem maravilhosa formada de tudo o que a natureza viva pode oferecer como beleza: florestas verdíssimas, montanhas dos Alpes, rios e o mar Adriático, que faz parte do mar Mediterrâneo, embora lhe dando uma costa bastante reduzida de 40 quilômetros entre a Croácia e a Itália sempre foi querida por turistas. Hoje como um país independente, continua lindo, um dos países mais pacíficos do mundo, não pertence ao terceiro mundo, tem um PIB bastante alto para um país recente, pois a sua independência da velha Iugoslávia socialista em 1991 deu-se em apenas dez dias, numa guerra para defender suas fronteiras, quando finalmente triunfou.

Melania Knavs viveu nesse idílio até os dezoito anos, abandonando esse paraíso e rompendo com uma sociedade politicamente igualitária – como a que um regime socialista pode oferecer aos seus habitantes – no fundo uma dissidente – para ir tentar exatamente o contrário: uma vida movida por princípios individualistas como modelo. Ela sabia, desde pequena, que tinha dotes para mostrar; sua mãe que trabalhava numa fábrica têxtil, conseguia que sua filha de cinco anos desfilasse para a moda infantil local. Não se sabe bem se com 17 anos ou menos foi finalmente descoberta por um fotógrafo, o que é a prova de que ela apenas tinha começado o curso de arquitetura para trocá-lo pelas passarelas – e quem sabe fisgar um milionário? – a Eslovênia socialista devia ser uma sociedade onde mulheres punham muita expectativa num futuro promissor com um homem rico, claro.

Não é de estranhar que desde cedo ela já perseguia uma saída individual, totalmente contraditória ao sistema de base: vencer por conta própria, primeiro em Paris e Milão, pois estas cidades não ficavam longe de sua terra natal e o contato com Sevnica, onde cresceu e ainda moravam seus pais era mais fácil; contudo a jovem Melania queria mais que estes dois centros e tentou ser famosa no cume da moda internacional – Nova York – isto foi em 1996 e Melania já tinha 26 anos, uma idade um tanto já avançada para começar uma carreira de modelo nas passarelas, outrossim a cidade de Nova York como sempre se esgotava de jovens lindas, esbeltas, de todas as partes, em busca frenética do êxito como modelos, o que tornava a demanda de trabalho insuficiente. Ela conheceu estas dificuldades e teve que pousar para publicidades de cigarros e bebidas alcóolicas, pois para isto já tinha idade suficiente, como também para pousar nua. Sua vida se transformou, porém, quando apareceu fotografada para um cartaz da Camel na Time Square.

Quando vi pela primeira vez uma foto de Melania, ela já era uma Trump. Assustei-me com o seu semblante; seu rosto ressumava uma dureza plástica como um manequim de vitrine, uma fisionomia impenetrável. Na fotografia pousavam o casal Trump e o filho circundados por um cenário de luxo palaciano numa cobertura nova-iorquina, onde toda essa pompa não parecia ser de um lar, mas bem derramava-se em hostilidade. Barron, de dez anos, montado num leão artificial, enquanto sua mãe, tão inexpressiva como uma estátua, exibia um vestido que dava a impressão de flutuar ao vento – embora as janelas estivessem fechadas – e o Senhor Trump sorria afeito, claro, a esse ambiente. Não parecia uma foto normal de uma família, bem sim uma ostentação fútil da riqueza. Era esta mulher a futura primeira dama dos Estados Unidos depois de uma da natureza de Michelle Obama? Perguntei-me. E foi quando comecei a inquietar-me com essa eventualidade do destino americano, com o destino do mundo. Até então Melania Trump me era totalmente desconhecida, mas não foi essa ignorância que me conduziu a ter interesse em escrever sobre ela, mas sim sua expressão gélida e enigmática. Não fosse Donald Trump seu marido, teria Melania outra expressão? Não quero vê-la como um clichê, resumindo-a em poucas palavras, assim seria muito fácil, por outro lado, por que não confrontá-la com aquilo que ela expressa? A partir daí não me interessei por quantas cirurgias plásticas ela passou, ou pela sua dieta e pelos segredos de sua maquiagem ou mesmo pelo seu guarda-roupa; meu interesse se debruçou nela, a mulher que era mãe, esposa de um homem tão incalculável como controverso, e por fim primeira dama de uma superpotência. E ainda mais: tudo isso começara só com a sua vontade e realização de ser modelo? Assim os americanos deviam estar contentes com a confirmação de que Melania lhes deu: na sociedade americana pode-se subir na vida: ela subiu e chegou ao ponto mais alto que uma mulher pode galgar: ser uma First Lady – mais do que isso, só sendo a presidente do país.

O seu curriculum vitae é o que comprova seu êxito; mas que êxito? O de ser a esposa de Donald Trump? Ou o de ser a primeira dama do país? Para mim as duas coisas, separadas ou não, são por demais pesadas de carregar. David Cay Johnston acompanhou e entrevistou Trump por quase trinta anos para escrever o livro The Making Of Donald Trump, 2016 e disse claramente que para o tal o que conta é o dinheiro, o poder e a fama – e todos nós vimos durante a sua campanha o quanto ele pode ir longe ofendendo as pessoas com as suas palavras – é inconstante, contraditório e cria sua própria realidade, entre outros atributos mais pesados, segundo Johnston. Como viver com um homem com tais características? Existe um amor entre os dois? Em comparação com o casal Obama, os Trump não demonstram estarem satisfeitos um com o outro, pelo contrário, um parece ser a carga do outro.

Melania Trump não se revela, não se dá, falta-lhe o sentido de humor próprio dos americanos, o qual os jornalistas tanto lhe cobram; preserva uma postura austera e assim perde em ser natural e estar relaxada – mas tudo isso não é uma fachada? Acho que sim. Existe uma Melania que sabe sorrir tão naturalmente como a Júlia Roberts, contudo são momentos raros – observei – quando, na maioria das vezes, não está sob pressão, então aí ela não esconde seu contentamento e sorri divinamente; aliás parece-me que existe um paradoxo em Melania: é como se ela exibisse uma fachada e ao mesmo tempo não escondesse nada. Ela não tem medo dos fotógrafos – como uma modelo pode ter medo do seu meio de trabalho? – e mostra abertamente seu desgosto e, pior do que isto, o mostra como um fardo. Muitos falam de seu aborrecimento por ter de acompanhar situações solenes. Não creio. Acho até que, no fundo, gostaria de participar delas de corpo e alma. Mas o que a impede? A meu ver ela ainda não encontrou seu lugar como primeira dama, o que é diferente de ser Mrs Trump. Mr Trump domina tudo, rouba-lhe espaço, a põe em segundo plano; falta a ele a espontânea cordialidade de Barrack Obama para a sua mulher, refletida até com humor quando se referiu à „horta de tomates de Michelle“ posta em perigo pela chegada de um filhote à Casa Branca. Via-se um elo entre os dois, um forte sentido de parceria; com Melania e seu marido porém, é diferente.

jacqueline Kennedy, que junto com Betty Ford seria um modelo para Melania, afirmou que primeiro ela era esposa e mãe, para depois ser primeira dama. E Melania? O que é primeiro para ela? Já demonstrou que em primeiro lugar é mãe ao preferir ficar em Nova York até que acabasse o ano letivo do filho, apesar disso ter custado muito caro à cidade através daqueles que pagam impostos. Entretanto Melania pareceu não ouvir as críticas, só ouve a si mesma: „Ninguém me controla“ são suas palavras, o que para mim significam: ninguém pode comigo. Ou „eu sei me arranjar com tudo“, disse à CNN ao ser criticada por ter repetido as palavras de Michelle Obama no seu discurso pela Convenção Nacional do Partido Republicano, o que a frase pode significar: nada me põe abaixo. Melania vem de uma cultura igualitária, de um círculo familiar de classe média padronizada pelo convívio socialista, sem chance de subir financeiramente – o que não tem nada que ver com a cultura americana – sabe o que é trabalhar sem simulações e aguentar sem se dobrar. Embora a Ioguslávia tivesse um dos regimes socialistas mais livres, mesmo assim era uma ditadura, e as carências produzidas por uma ditadura produzem, a sua vez „almas escuras“. E eu acho que Melania sofre, mas não se entrega porque sabe lutar e ao mesmo tempo estabelecer limites. Numa das fotos da posse do marido à presidência, ela aparece ao lado de sua enteada, Ivanka Trump, e, com uma expressão rígida, faz um gesto com uma das mãos levantada significando stop, ou seja, pare. Para mim um gesto de exigir respeito do outro, o que não deixa de ser nobre. Lauren A. Wright, do jornal Washington Post, disse que Melania não quer se comportar segundo o modelo de uma clássica First Lady, e „melhor para ela“ diz a colunista. Wright diz que uma possibilidade para Melania seria romper com o preconceito de como uma primeira dama deve ser vista e o que tem que fazer, e daí ganhar reconhecimento da sociedade. Também a sua imagem como ex-foto modelo não combina com a imagem que Michelle Obama deixou atrás de si. Para Wright Melania se preocupa com ela mesma, e este „ egoísmo saudável“ é um passo a frente para as primeiras damas do futuro. De todos os modos acho que Melania já está na mira de feministas que se perguntam por quê ela se deixa ficar em segundo plano frente a seu marido; mas mesmo sendo assim, já o ultrapassou em popularidade sem empreender muito para isso. Ela não presta favores à imprensa em aparecer aqui e ali, o que deixa os jornalistas e fotógrafos a esperá-la – Cadê dona Melania que não aparece? – Mesmo durante a campanha eleitoral de seu marido, sua presença foi resumida ao mínimo, a não ser quando teve de proteger sua vida privada contra boatos maldosos. „Não procuro atenção“, disse uma vez. Talvez Melania prefira que a vejam de longe como se vê uma modelo que passa deixando apenas uma fachada: uma modelo não precisa falar, é suficiente o que tem para mostrar – mas quem é a modelo no fundo? – mesmo assim ela personifica o desejo de tantas mulheres em crer que a beleza do corpo é responsável pelo sucesso na vida.

Helen Mirren, atriz inglesa, mas cujo pai era russo, leu o livro de Ivanka Trump, no qual ela diz ser uma feminista. Mirren afirmou que não encontrou no tal livro nada que sustentasse a tese de Ivanka, pelo contrário, o que faltava no livro era essência de conteúdo. Quanto a Melania, refere-se a ela com sensibilidade por também ter sua origem num país do leste socialista e conhecer „essa alma escura“: „dela ainda podemos esperar“, disse.

 

 

 

UM ANO DE BLOG E OUTROS BLOGS

 

Este blog E Agora Mulher? está de aniversário, completa hoje um aninho de existência: „Pois é, como o tempo passa rápido!“; „parece que foi ontem“; „nem me dei conta que já faz um ano“. Estas expressões são usuais quando mesmo não notamos que o tempo passa depressa; eu as ouvi de pessoas e de mim mesma ao surpreender-me com a aproximação da data comemorativa. Mas como comemorar, se eu não sou adepta às celebrações de aniversário? Melhor seria estar junta com outros blogueiros que conheci ao longo deste ano: impossível, porque o que temos é um contato virtual – o que também não deixa de ser uma cruel realidade, pois através desta virtualidade cheguei a conhecer pessoas tão interessantes que junto com elas teria gostado de apagar uma velinha. Então na falta de um bolo com uma vela, quero expressar aqui um pouco minhas experiências com o blog durante o primeiro ano.

Relutei muito antes de iniciar minha atividade como blogueira; apesar de já saber que não queria escrever sobre mim, fazendo do blog um diário de acontecimentos de minha vida ou uma biografia, contudo ainda não me estava claro sobre o que escrever exatamente. Tinha muitas idéias e alguns interesses, o que só me faziam adiar mais a minha resolução de começar com o blog – é que no fundo sou lenta – mas entre todas as idéias dei prioridade a minha opinião sobre o que observo, o que penso e o que acho de coisas que para mim têm importância. Escrever sempre foi a minha paixão depois de ler; adorava escrever redações na escola, e na faculdade não tinha problemas com os trabalhos escritos e até já participei de um workshop de escrita criativa quando acreditava que poderia escrever ficção – nesta altura Clarice Lispector com seus contos era o meu ideal como representante de um estilo ímpar; adorava sua introspecção inteligente – graças a Deus esta crença durou pouco tempo, porque logo me dei conta de que não tinha a capacidade para isso. Restavam-me então o estilo de ensaio de opinião ou o jornalístico que também me fascinavam e eles me guiaram a publicar o meu primeiro post. Também ter tomado conhecimento de outros blogs antes de publicar, me ajudou muito a avaliar como estava a situação no Brasil no âmbito blogueiro. Encontrei muitos blogs interessantes e bons, blogs sérios e dignos de credibilidade, abrangendo conhecimentos e críticas alusivas à situação social e política do Brasil; entretanto o meu interesse foi atraído e guiado pela existência em grande número de blogs, cujo tema principal era a mulher no seu processo de emancipação – gostei e comecei a procurar estes blogs – eu que não vivo no meu país há muitos anos e que passei por mudanças na minha vida, pensei que este também poderia ser o meu tema, sobretudo como meio de entrar em contato, principalmente com outras mulheres. Sem esperar e ao contrário do que eu pensava, quem primeiro me fisgou foi um blogueiro, ou seja, o autor do blog Satãnatório. Ele foi o meu primeiro feedback e a ele tanto devo a minha primeira alegria por saber que tinha sido lida, como dicas importantes sobre como seguir com o blog, sem faltar um consolo amigo a uma blogueira principiante. Satãnatório é um blog especial, isto percebi logo no primeiro contato, seu autor é cineasta, mas não se limita só a escrever sobre cinema; é diversificado, dono de um humor próprio e capaz de ressaltar momentos em seus textos que me surpreendem sempre. É para mim como deve ser um autor de crônicas, apesar de que ele mesmo ter-me dito que não quer escrever crônicas, eu já o tomo como um bom cronista.

Elza Soares veio à Europa e deu um show na cidade onde moro: fui com o meu marido lá e teria querido ouvi-la responder as minhas perguntas sobre o seu engajamento com mulheres negras no Brasil e a sua mensagem de força e coragem às novas gerações para poder escrever um texto mais e vivo e menos teórico. Infelizmente não foi possível falar com ela, e assim escrevi o post „Sempre Elza“ com base em observações no concerto e lembranças da Elza de outrora. Também valeu a pena e senti-me orgulhosa de ter escrito algo sobre ela.

Na minha busca de blogs brasileiros encontrei o Escreva Lola Escreva, da Lola Aronovich – excelente blogueira. Seus textos com acusações fortes ao machismo me levaram a concentrar-me no tipo de comentários que o seu blog recebia, e aí me deparei com uma realidade que me chocou de frente ao verificar o nível grosseiro e até indecente desses comentários, constatando em que estado o macho brasileiro se encontrava: bem primitivo. Daí quis fazer alguma coisa para mostrar a minha indignação, e assim o post A Susceptibilidade de Escreva Lola Escreva foi escrito desta necessidade e como uma prova de atenção a uma das melhores blogueiras do Brasil. Seu blog, além de ser político, também é um arquivo de denúncias às arbitrariedades injustas contra mulheres, igualmente que um incentivo a mudanças. Que bom existir um blog como o da Lola no Brasil, que bom existir a Lola Aronovich .

À parte do post sobre o blog da Lola Aronovich mais dois textos foram importantes para mim:
1. Licença para matar;
2. Quando homens me esclarecem o mundo.
O primeiro também foi escrito por uma necessidade, a de exprimir a minha revolta e fazer dela uma forma de reflexão sobre o homicídio passado na noite da virada de ano em Campinas. Esta notícia foi a primeira que tive do Brasil no 1. de janeiro deste ano: assassinatos, mortes, luto. Que dor! Comecei a ler tudo que encontrei sobre o caso, principalmente o que condizia com a descrição do autor do crime; sua incapacidade de aceitar a separação e o ódio consequente por seu fracasso foram o que o levaram a exprimi-los de forma fatal, matando pessoas e a si mesmo – era como se tivesse tido o direito de matar? Ao perguntar-me isto, lembrei-me logo do poema de Bob Dylan – License To Kill  – título forte e duvidoso, acarretando suspeitas, mas levando a refletir; era exatamente do que eu precisava como alusão direta às mortes em Campinas, e daí nasceu o Licença para matar.

O segundo post – Quando homens me esclarecem o mundo – veio à tona pela leitura do livro, com o mesmo título, de Rebecca Solnit. Foi amor à primeira vista, senti-me não só identificada, mas também comprovada de já ter tido experiências semelhantes, o que não é nada individual, mas uma realidade constatada pela maioria das mulheres neste planeta, a ousadia arbitrária de muitos homens de querer falar mais alto, de impor definições como se fossem as únicas verdadeiras e viáveis, e mais, não levando em conta os efeitos deprimentes deste atrevimento sobre as mulheres. Ter escrito este post foi um grande alívio para mim, por ter tido de uma vez a oportunidade de exprimir-me em nome de muitas mulheres que nunca lhes foram possível expressar-se, ou por falta de clareza, ou por conformação, ou mesmo por medo.

O meu último post foi O bê-á-bá de Judith Butler, um texto que me custou muito esforço porque teve como base um de seus livros mais importantes, mas também muito difícil e denso: Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Senti que devia escrever este texto pelo fato de ser um desafio às minhas próprias limitações – é que gosto desses tipos de desafios, eles são como motores que me levam a gerar algo ou a criar – uma aventura num terreno difícil de calcar, mas trazendo também a satisfação de ter passado por essa experiência, quando o texto está terminado. Aliás, as dificuldades são na verdade estímulos a desafiá-las e chances de superá-las. Esta forma de pensar também tem me ajudado na vida a superar alguns problemas.

No exercício de escrever para o blog dei-me conta de minhas limitações com a língua portuguesa – sou brasileira, mas já não vivo no Brasil desde a década de 80 – e o fato de não falá-la com prioridade, leva-me a uma posição passiva nomeadamente quanto ao vocabulário. É que me esqueci de palavras – e eu que amo infinitamente as palavras – isto se torna às vezes fatigante quando escrevo, tentando lembrar o que esqueci ou recorrendo ao dicionário. Por outro lado isto também tem uma boa vantagem, a de encontrar outras palavras nessas buscas constantes. Às vezes passa que sei exatamente a palavra que quero escrever, mas não estou certa como se escreve e o meu programa de texto rejeita a palavra mal escrita, estando aí a indicação de que cometi um erro. De tanto ter passado por tais experiências, já tenho um caderno exclusivo só para anotar as palavras que foram abandonadas pelo esquecimento – quando as reencontro é um momento de alegria.

Quem tem um blog sabe que o fato de que será lido não é nenhuma garantia, assim como para muitos escritores relativamente. Tive momentos de tristeza a princípio porque não recebi suficientes feedbacks e por sentir-me isolada em meio de tantos blogueiros, perguntando-me até se valia mesmo a pena continuar. Foi aí quando o meu querido amigo do Satãnatório apareceu mais uma vez para recuperar-me dos mal- entendidos. A partir daí tomei conhecimento de outros blogueiros que sentiam a mesma insatisfação pela hipótese de não terem sido lidos o bastante e o quanto isto era deprimente, ao mesmo tempo que, com ar de consolação, ainda assim estavam contentes e orgulhosos de terem alguns seguidores. A minha sensação de isolamento passou e senti-me integrada a uma grande comunidade: a comunidade dos blogueiros. Neste entremeio alguns blogs, para a minha surpresa, começaram a me seguir e eu comecei a interagir com eles recebendo feedbacks alentadores. Entre todos devo salientar que alguns foram especialmente positivos quanto aos meus textos e aqui fica o meu agradecimento de coração.

A alegria de ter chegado a um ano me faz sentir-me segura e querer prosseguir escrevendo. Pergunto-me se isto é por um mero prazer à escrita ou a ilusão de que os meus textos poderiam servir realmente de reflexão para alguma coisa relevante. Ao abandonar esta última exigência, acredito que sim, e já fui de certa forma comprovada, o que me deixa feliz saber que entre uma imensidão de textos, os meus também têm um lugar. E aqui fica o meu apelo à comunidade blogueira em geral, tendo observado uma certa falta de coleguismo e até indiferenças: devemos nos respeitar com apoio e incentivo positivos, pois estes são, na maioria das vezes, os que nos levam a continuar. Obrigada a todos.

 

 

 

 

 

 

O bê-á-bá de Judith Butler

 

Antes de começar este post li muitos textos de blogs sobre o que se denomina hoje a „questão de gênero“. Uns muito bons, alguns bem extensos, outros com pretensão erudita e nenhum deles fácil de ler; todos apresentaram dificuldades de compreensão por serem complicados, e até melhor dizendo herméticos. Como poder abordar de forma concisa o que não pode ser conciso? Perguntei-me várias vezes onde se assentava esse caráter abstruso, fechado, não proporcionando um prazer na leitura pela sua inteligibilidade, nem podendo ser absorvido pela mente de quantos tantos leitores interessados, fazendo o texto renascer ao ser captado. O que passa é que explicar o que é o gênero, e o que dele precede é difícil pelo complexo que é o seu entrelaçamento com diversas disciplinas, também difíceis, exigindo entrar em ramos do conhecimento, como a antropologia, a linguística, a filosofia e a psicanálise, onde nelas o lugar comum da expressão é incabível; e falar de gênero hoje em dia é quase impossível sem mencionar Judith Butler.

Quem conhece Judith Butler? Nos meios acadêmicos e feministas, ditos intelectuais, ela é conhecida, fora disso não é acessível. Soube de sua importância já tarde, há uns anos atrás; primeiro quis ler algo sobre ela e sua obra, então procurei a Wikipedia como primeiro passo – foi horrível, não entendi nada – e, para não achar-me ignorante, resolvi pôr a culpa no autor do texto da Wikipedia dizendo para mim mesma que ele, para disfarçar sua falta de conhecimento no assunto, abusou de estruturas sintáticas complicadas. Desisti, mas sem que ela tivesse saído de minha cabeça não só como autora de uma obra relevante, da qual eu devia me inteirar, mas como aquela que tinha provocado uma intensa discussão exigindo uma revisão do pensamento sobre os determinantes da sexualidade no social e cultural – foi assim como primeiramente a captei; outrossim sua presença constante em textos e bibliografias de teorias feministas, me forçava a tomar conhecimento de sua teoria, pois sem ele pagaria nos dias atuais um preço muito alto, ou seja, sem Judith Butler é inconcebível querer entender as novas tendências do feminismo; assim resolvi comprar um dos seus livros mais importantes, cujo título em português é: Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Publicado nos Estados Unidos em 1990, no qual ela apresenta a sua teoria sobre o gênero, fazendo parte essencialmente dos Gender Studies. Esta obra é bastante complexa e coberta por um conhecimento amplo que exige tempo prolongado de leitura, por não ser nada fácil de entender as suas idéias entravadas nos pensamentos de autores de grande erudição como Michel Foucault, Jaques Lacan, Julia Kristeva e outros. Que fazer? Senti que estava frente a um desafio com a minha própria capacidade intelectual – eu que não pertenço a nenhuma das áreas do conhecimento antes mencionadas, sou apenas formada em letras, sem mestrado e sem „os doutorados da vida“ – perguntei-me como escrever sobre sua teoria – desde já estava claro para mim que não seria uma resenha, pois esta não era a minha intenção – e se só o fato de ser curiosa e interessada por algumas tantas coisas que me rodeiam fossem suficientes para tal ousadia. Também temia não compreendê-la, mas isto se desfez quando se abriu para mim alguns de seus interesses e propostas – claro que suas pretensões vão além deste pobre texto – e também por ter-me perguntado a priori o que era importante para ela. O que queria ou aonde queria chegar? Estas perguntas me levaram a estar aqui e tentar de forma o mais pessoal possível escrever sobre o que tenho entendido de Judith Butler. Ainda assim me sinto sob uma alerta que me diz: Cuidado! Você está pisando numa areia movediça.

Judith Butler é uma erudita de primeira mão; o que mais me chamou atenção nela foi a sua coragem de abrir de maneira tão intransigente um tema tão arraigado na nossa vida como o gênero; contudo ela não é pioneira, o tema, de maneira crítica ou não, já tinha começado a ser abordado por outros já nos anos 60. No entanto ela questiona tudo, é mais rígida que Simone de Beauvoir no „Segundo Sexo“ e se ocupa do tema como uma forma de conhecimento e não como uma doutrina.

Quem não aprendeu a categorizar o gênero e determiná-lo sem pestanejar em masculino e feminino, assumindo-o assim inalterável e padronizado como uma bipartição natural? Esta é a idéia que temos dele e estamos acostumados a pensar assim, no entanto esta concepção, adaptada a isto ou aquilo, é reduzida demais com respeito a ele, e sair deste foco binário, é „abrir-lhe possibilidades“. Butler acha que a noção que temos de gênero como algo fixo e categórico e, ainda mais, tomado como natural é falsa. Em vez disso afirma que ele foi construído socialmente, usando o termo „performatividade“ , como resultado de uma série de repetições discursivas (através da fala e do imaginário) criando assim uma estabilidade de caráter normativo, e mais, fazendo prevalecer uma hierarquia – o que, quem está em cima ou está em baixo na escala social – e impondo um modelo de sexualidade, tido como correto, ou seja, o heterossexual.

Basicamente falando, a nossa língua portuguesa em comparação com outras línguas dispõe de uma facilidade aparente ao distribuir certas classes de palavras em apenas dois gêneros. Esta redução binária, porém, não suporta certas vicissitudes ao ter que representar seres, mesmo estando eles marcados pelo sexo biológico. Um exemplo disto é o que a gramática denomina de comum de dois um substantivo atribuído aos dois gêneros ao mesmo tempo: “a testemunha”, por exemplo é quem é chamado para depor, etc., podendo ser um homem ou uma mulher; ao passo que “o testemunho” é um ato ou uma ação. Outra coisa no português vista por alunos estrangeiros como uma imposição gratuita é a prioridade que se dá ao masculino no plural para um grupo misto. Estas incongruências não foram, e talvez nem sejam ainda, observadas na escola como imposições de um discurso marcador de relevância, e mostram como o gênero não tem que ver com o sexo do substantivo. Quem é a criança? Um menino ou uma menina? Para Judith Butler a partir daí, já nesta distinção o sujeito é levado a identificar-se com a sua identidade sexual e de gênero, crendo que ela “responde a sua essência interior”, o que para Butler é uma ilusão. Neste ponto muitas pessoas ficam perdidas, como foi o que passou quando quis falar sobre isso com algumas mulheres: a primeira reação foi de espanto, quando não de desespero – então devo criar minha filha como um menino e meu filho como uma menina? – O temor de perder a identidade é o mesmo que, segundo Butler, têm homossexuais de se assumirem publicamente como são, e assim perderem o lugar que ocupam ao pertencerem a um gênero estabelecido, mesmo sendo gays ou lésbicas. O controle social não se retrai, usa um vocabulário que ofende a reputação ao divulgá-los como maricas ou sapatão, palavras que só de forma oblíqua se reconhece o que significam: maricas, por exemplo, perde seu sentido carinhoso e familiar de ser Maria (Maria+ica) e passa negativamente a referir-se a homossexuais. Sapatão passa pelo mesmo processo: homens geralmente calçam sapatos grandes e não mulheres. Assim uma das intenções modestas de Judith Butler, como ela mesma diz, ao querer dar chances possíveis ao gênero, mesmo sem mencioná-las quais, pois é suficiente que aqueles que vivem num mundo, no qual conhecem o que é ilegítimo, sabem quais são.

Então o que se opõe ao modelo binário é a diversidade, a possibilidade de existir naturalmente outros modelos, outros contextos, a livre opção. Fui educada, como nós todos e todas, sob o velho pressuposto de que a naturalidade do sexo biológico era tudo, pois nos concluía materialmente como macho ou fêmea. Tudo bem, mas não é tudo, diz Butler, porque impõe exclusões e não vai mais além das fronteiras do social. Deste modo, para ela, o sexo também é algo construído assim como o desejo. Que diferença faz ele ter um pênis e ela ter uma vagina? Sem pensar se responde: muita diferença. Certo. Contudo a diferença que daí resulta foi dada em nome de uma supremacia dada a uma das partes, ou seja, as diferenças nítidas são a causa de fixar o que é melhor ou mais forte, ou o que é importante ou não. Judith Butler diz que assim nos fazemos sujeitos ao assumirmos o sexo e o gênero como identidades fixas, criadas e construídas para nós e também por nós, dentro das quais existem estruturas de poder.

Segundo Michel Foucault, o poder do discurso e da fala é o princípio de construção fundamental formador da realidade, assim como esta realidade é representada pelo discurso culturalmente construído. Deste modo o sujeito, manifesto pelo discurso, é o fazedor da realidade. Acho que Judith Butler parte exatamente do momento em que o sujeito se confronta com o poder – o poder de discursar: influindo, incluindo,excluindo, afirmando, negando, em fim produzindo categorias de conhecimento. Já muitos anos antes de Michel Foucault, John Langshaw Austin disse que as palavras e o que elas dizem são mais do que sua matéria acústica – o som – elas são fatos, declarações que fundam uma realidade nova.
Daí apresenta Judith Butler sua famigerada e terrível tese que no fundo se pode resumir de forma básica em: homem e mulher são construções sociais e não naturais. Por exemplo, as mulheres menstruam. Esta declaração é a descrição de algo natural na fisiologia das mulheres, investigado e provado na biologia, quer dizer, um conhecimento empírico; mas por que fazer de diferenças uma ideologia? Que importância tem isso como fator para estabelecer desigualdades? Nós mulheres ficamos guardadas por muito tempo à mercê de segregações no trabalho, como incapazes de participar em setores que envolvem precisão e força de raciocínio – foi por causa do ciclo menstrual? – É a capacidade de parir que nos impede de ser ativas e por isso ser mal vistas pelos empregadores? Por que só a mãe tem a exclusividade de garantir melhor educação aos filhos? Hoje se vê numa família patchwork que o papel do pai ou da mãe em substituição é mais importante que o biológico. Hoje também se vê – e está provado empiricamente – que mulheres podem ser engenheiras, físicas, astronautas … Não existe uma incompatibilidade em ser mulher e exercer uma profissão, seja ela qual for.

Judith Butler acha que pertencer a um gênero não significa se identificar com as características primárias deste gênero, mas sim manter-se num processo interativo ao longo da vida, o qual pode trazer mudanças ou renovar-se. Ao ouvir isto uma das mulheres, antes mencionadas, me interrogou perplexa: „então já amanhã poderia me tornar uma lésbica?“ Isto nos mostra até onde podemos ir e define o estado de nossa subjetividade: até que ponto nossa segurança e integridade podem vacilar? A mulher teve medo de ser posta em questão naquilo que ela tanto se apega, naquilo que se passa por uma essência, mas que no fundo não é. Ela não entende que, na estrutura binária, pertencer ao gênero feminino não é uma coisa independente porque coincide com o seu sexo biológico, pelo contrário, segundo Butler não existe ligação entre sexo e gênero; a característica homem não reside só no corpo do homem, assim como a de mulher, e a diferença entre eles se origina de formas de pensar , as quais são uma representação em favor de uma pretensa norma de sexualidade. Por outro lado como esperar que a tal mulher entenda isso? Como esperar que todos entendam? Propor uma sexualidade baseada numa multiplicidade de identidades de gêneros é para muitos uma utopia ou um dilema, e assim não pode ela contar com o apoio de outros. Acho que no fundo ela tem razão, mesmo sendo uma crítica ao estado da nossa subjetividade atual.

Butler, como filósofa pós-estruturalista, quer desfazer, ou melhor „desconstruir“ esses padrões de pensamentos geradores de conceitos que por força do hábito se instituíram sem que fossem questionados. Em contrapartida, oferece uma possibilidade nova de pensar ao pôr em questão as categorias de corpo e de identidade, que também são categorias da teoria feminista; só que, enquanto o feminismo se limite a imprimir uma única identidade da mulher – idealizando um grupo homogêneo e não se dando conta de outros matizes, como raça, cor, religião, opção sexual, etc. – também favorece o binarismo e „deixa transparecer“ o modelo heterossexual como único e aceitável, como também „deixando marcas homofóbicas“. Mas como desconstruir esse imenso círculo vicioso fundador da realidade? Para Butler destruí-lo não é possível, uma vez que se destrui o próprio sujeito, mas bem de modo a multiplicá-lo, ampliando-o em muitas outras possibilidades. Um exemplo ilustrativo seria para um discurso como “só o sexo entre um homem e uma mulher é correto e aceitável”. Um modo de desconstruir é juntar a esta performatividade outras possibilidades, tais como o sexo entre homens, o sexo entre mulheres, o sexo entre travestis são corretos e aceitáveis. A partir daí estes performativos rompem com o contexto anterior e passam, na linha do tempo, a rescreverem outros significados. Claro que aqui o papel da ética é inevitável para não incluir práticas inaceitáveis. Para ela é melhor analisar, antes de concluir o que é bom e o que não é, e tirar desta confrontação material para abordagens.

É verdade mesmo que a nossa identidade de gênero poderia mudar no transcurso da história? Por outro lado nada mais frágil do que a sexualidade. Minha mãe sempre dizia que „a carne é fraca“; claro que ela se continha no fato de uma mulher se guardar íntegra e não „se entregar a qualquer um“, pois até em nome do amor, a carne podia ser fraca. Também as eventualidades da sexualidade nos prendem a uma identidade rígida? Já tomei conhecimento de mulheres que foram lésbicas só por uma noite. Outras deixaram seus parceiros por outra mulher. Estes acontecimentos não são mais escandalosos, fazem parte já do rol de renovações existentes na história, por força de lutas, gritos, pressões sociais, riscos, reconhecimentos, punições … Judith Butler diz que o sujeito é como um discurso que está sempre em um “processo interminável do vir“, a subjetividade é uma construção e o fato de se apegar a uma identidade pode ser uma forma de fugir das complexidades da vida, pois a vida não é a identidade, e assim fala de identidades nômades, porque temos que admitir que há ambigüidades, mesmo sendo o mundo heterossexual demais. E assim ela propõe um mundo queer.

 

 

 

 

 

Mulher que sabe latim


⁃ De vez em quando dou uma olhada nos meus livros, principalmente naqueles que estão colocados na estante por trás dos que estão na frente – são os que eu já li. Num desses passeios de olhos encontrei um que há muito tempo não o tinha nem tocado mais: „Mujer que sabe latim …“. É um livro que tinha lido nos anos 80 quando morava no México, de uma escritora mexicana, infelizmente falecida ainda jovem, Rosario Castellanos. Sua morte trágica se deu em Israel em 1974 quando era lá embaixadora de seu país, e seu dito livro apareceu em 1973, ou seja, seu último livro publicado em vida, uma coletânea de ensaios inteligentes sobre literatura e feminismo através de retratos de suas representantes mais notáveis. Na época li seu livro com prazer; ele encheu do que necessitava a jovem de outrora, recém saída do curso de letras – eu – ainda faminta de leituras e conhecimentos gerais, em busca de exemplos que satisfizessem meus desejos intelectuais. Seus ensaios, só pelos títulos, exerciam um poder irresistível sobre mim, me abrindo a vontade de ler: „Virginia Woolf y el vicio impune“, Simone Weil, la que permanece en los umbrales“, „Betty Friedan: análises y praxis“, „Violette Leduc: la literatura como via de legitimación“ e a nossa „Clarice Lispector: la memória ancestral“ e outros mais.
⁃ Não venho de uma família que nutrisse o gosto pela leitura, salvo minha mãe que chegou a ler alguns romances em toda sua vida, e a bíblia, claro, mas mesmo assim acho que foi ela quem me serviu de modelo de aspiração a procurar na leitura um refúgio deleitoso. Bem no fundo porém, ler para mim significava adentrar-me por caminhos desconhecidos, uma forma de encontrar a liberdade; era como fazer da leitura uma viagem e um pré-requisito para a minha auto-determinação, um meio de superar-me e de superar restrições, mas não só isto, envolvia um ritual de procedimentos impostos pelo mero prazer de sentir-me ativa e consequente, repetindo esse ritual no meu dia a dia. Essa necessidade de ler, de inteirar-me e de saber das coisas era inevitável e reclamada outrossim pelo nível de discussões prestadas ao momento – por sorte tive colegas de universidade que escapavam da mediocridade intelectual e liam mesmo – e sem esquecer que vivíamos em plena ditadura militar; livros julgados de esquerda, exatamente aqueles que fundamentavam nossa ideologia, estavam proibidos ou eram mal vistos – só vim ver de perto um exemplar de “O Capital” de Karl-Marx anos depois de sair da universidade e quando já estava fora do Brasil. Sem embargo nos contentávamos em ler ensaios, interpretações, artigos sobre o marxismo, e lembro-me de que sem um certo conhecimento dele não se tinha chance de argumentar algo nas discussões políticas. Pertenço a uma geração de antes da internet, a chamada geração „Baby Boomer“ sem os vídeos, as fotos imediatas e a correspondência eletrônica de todos os dias; quando a vida nos privava de constância para aquilo que podia ser acessível sem demora: a informação como via para o conhecimento. As notícias nos davam os jornais, o rádio e a televisão, que tecnicamente estava muito longe da atual; até chegar a um livro, por exemplo, desejado ou necessitado era um fato de importância espacial e temporal: as visitas às bibliotecas levavam tempo; pegar um livro emprestado ou devolvê-lo, exigia, às vezes, tomar um ônibus para outro bairro. Esse emprego de distância e tempo que nos fazia esperar – o que não considero hoje como negativo – além de incitar mais a vontade de ler e a imaginação, nos ensinava a tolerar a frustração na falta da acessibilidade imediata. O idealismo era um valor para essa geração.
⁃ Não é assim que hoje em dia não precisemos mais comprar livros. Não. Mas à parte da literatura, já com bastante exceções, podemos recorrer à internet sem perda de tempo e in loco para obter as informações que queremos – eu também faço isso – e assim estamos inundados de informações, e estas estão à nossa disposição quase sempre a qualquer momento, mas também estamos à mercê delas. Imaginar uma vida sem acesso à internet hoje em dia, seria quase inviável mesmo para pessoas de gerações anteriores a ela. E tirar a internet daquelas que nasceram com ela já na mesinha de cabeceira, seria como mutilá-las socialmente – melhor não, pois elas pertencem a uma geração que não conhece um mundo sem a tecnologia digital.
⁃ Perguntar em que as gerações se diferenciam e o que elas têm em comum leva a considerar características, valores, objetivos, motivações e, hoje muito importante, os meios de comunicação. Como as gerações têm as suas peculiaridades marcadas pelo contexto histórico e social, também fortes disposições as conduzem a serem definidas como isso ou aquilo; é o que vemos nas restritas designações como “geração smartphone”, “geração facebook” ou “geração google“, ou seja, são descrições concernentes ao grau de avanço tecnológico que essas gerações podem usufruir dele. Com isso, para falar de gerações hoje é preciso considerar uma ou mais perspectivas, que sejam histórica, econômica e cultural.
⁃ Sei que posso reler „Mujer que sabe latín …“ no monitor do meu notebook; não foi difícil encontrá-lo pela google, só alguns minutos, sem precisar sair do lugar onde estava, e foi bastante dirigir com o dedo uma flecha que se transforma numa mão quando chega ao lugar onde o título está indicado, e depois pressionar o mesmo dedo aí. Pronto. Como num ato de mágica tenho diante de mim o objeto do meu desejo. Contudo não o quero, rejeito-o. Prefiro ir até a minha estante e pegar o livro amado, tê-lo nas mãos, sentir a dureza do papel, folheá-lo e deliciar-me com a edição velha de 1984.
⁃ De todos os modos também recorro a internet e vivo conectada com ela através deste blog, usufruindo de ter meu próprio espaço na web e com ele poder me comunicar com pessoas, ler e ser lida. Por outro lado, mesmo estando dentro dessa coisa, sinto-me à parte dela e insegura, como se tivesse pisando num chão que treme debaixo dos meus pés. Esse incômodo não é por não ser uma experta no assunto, mas sim por não saber vibrar com ela. Não uso a internet entusiasmada com os seus milagres, muito menos a considero tão normal quando antes eram os tomos de uma enciclopédia; na melhor das hipóteses não tenho nenhuma fascinação por ela.
⁃ Já a geração Z, ou seja, aqueles nascidos a partir de 1995 têm uma relação de bem-estar, fazendo da disponibilidade imediata algo natural, o que é normal. Eu, pelo contrário, apesar das facilidades e conforto que um PC trouxe a minha vida, podendo estar conectada com o mundo, ainda olho esta coisa com uma certa distância e desconfiada também; entretanto a geração Z está dotada para receber muitas informações de uma vez através das redes sociais; mas será que todas essas informações são absorvidas sem detrimento da concentração? Será que a atenção pode abarcar todas elas? No meu caso, essa avalancha de informações me leva, muitas vezes a perder-me, e preciso de tempo para filtrar o que é relevante para mim.
⁃ A eficácia do acesso à informação foi permitida pela velocidade de tempo dos meios digitais que se acelerou demais. Esse tempo diminuto usado para se chegar à informação de forma tão fácil e rápida é, a meu ver, responsável pela sua decodificação: perde assim a informação importância no seu conteúdo ao ter que ser compreendida rapidamente para se dar lugar a outra já a caminho? Se tudo que quero, o recebo sem esforço, então não existe mais a ânsia e a espera, que são responsáveis pelo sonho de se obter o que se deseja, passando a valorizar menos o objeto desejado. Assim se perde um elemento essencial na carreira do conhecimento que é o gosto e o prazer pelo conhecimento mesmo? São perguntas que me faço, as quais devem ser incompreensíveis para os das gerações Y, Z; são perguntas de quem leu „Mujer que sabe latin…“ e vibrou pelo seu conteúdo, mas que também procura compreender que as diferentes gerações têm suas formas de assimilar as coisas e estas são assentadas no solo dos valores culturais. Porém quem melhor falou sobre isso foi Voltaire: „Todas as pessoas são inteligentes; umas antes, outras depois.“










Mudanças

A palavra “mudança” tem uma variedade de usos: podemos mudar de casa, de trabalho, de cidade ou de país, de parceiro, de partido político ou de religião e, até é possível hoje em dia, mudar de sexo, o que é um tema bastante abrangente e delicado. Contudo a que me refiro é a outro tipo de mudança, ou seja, aquela que passa no nosso interior quando nos decidimos a agir e a reagir diferente frente a situações conflituosas. O que quer dizer isto? As mudanças têm muito que ver com nossos costumes, ou melhor, costumes ou padrões de comportamento negativos que são aquelas reações impensadas e automatizadas sem que nos dê tempo para refletir, mas deixando um sentimento de insatisfação, pelo qual sabemos que alguma coisa não anda bem conosco. Então essa é a oportunidade que a vida mais uma vez nos oferece para mudar alguma coisa no nosso comportamento, o que não é fácil e exige coragem porque requer um reconhecimento honesto de como somos realmente, seguido de uma autoaceitação incondicional. Eu só cheguei a compreender o que no fundo “mudar” significa, quando comecei a aceitar-me de verdade como sou e vi que na aceitação o processo de mudança já estava incluído. Além disso, o aforismo “tudo muda nessa vida” confirma o que as pessoas que não aceitam as mudanças, não podem reconhecer: nós mudamos todos os dias, nos tornando mais velhos: não somos mais a criança de outrora.
Segundo o que diz o dicionário, “mudança” é a modificação do estado normal de qualquer coisa; uma alteração; uma troca, sempre de uma coisa por outra. Mudar é uma dinâmica que implica levar uma coisa para outro lugar, dar uma outra direção e finalmente renovar. Se pensamos em um fato concreto como mudar de casa, por exemplo, é muito fácil aplicar as definições acima, pois podemos imaginar claramente o que as palavras expressam quanto a deslocar, substituir, renovar, etc. Mas quanto à mudança interior não é fácil nem trocar nem substituir formas de comportamento por outras.
Então podemos mudar mesmo? A partir daí dividem-se as correntes entre os que creem que as mudanças são possíveis, se realmente queremos mudar, bastando tão somente agir, e assim pensa o Dalai Lama; e há aqueles que pelo contrário defendem o dito popular: “o pau que nasce torto não tem jeito morre torto” e ainda há aqueles, para os quais as mudanças são o que eles mais temem. Não importando as posições, as mudanças podem acontecer para o bem ou para o mal. Aqui não quero entrar em aspectos morais, mas sobretudo sobressaltar as mudanças positivas como resultadas de um esforço consciente de nossa vontade. Não é que passamos a ser outra pessoa, mas sim que passamos de algum modo a agir diferente e até a usar outro vocabulário. Essas mudanças geralmente causam surpresa nas pessoas, já de antemão familiarizadas com o nosso modo velho de reagir, sendo comum ouvir: “Como você está diferente, até parece outra pessoa!” Ou a nos olhar um tanto desconfiadas. Que maravilha ter essa possibilidade de reagir diferente, de não mais repetir velhos argumentos só para defender uma parte de si, que no fundo está irada, descontente e desamparada! É finalmente a verdadeira liberdade de ser como se é e não mais abusar de recursos injustos e incabíveis só para sair como vitoriosos de uma situação sem ter respeitado a posição do outro e, com certeza, em outra ocasião, repetir o mesmo por falta de reflexão e, sobretudo, por falta da necessidade de mudar algo em si mesmo.
No meu relacionamento, precisei de muito tempo para reconhecer que o que me impedia de mudar era estar fixada na relação ou no parceiro, como se dele devesse partir tudo para que eu finalmente pudesse me sentir bem e cômoda. Ainda não captava que essa condição prévia e imposta por mim era o que impedia de ver-me como ponto de partida e só me enchia mais e mais de sentimentos negativos.

Então como mudar algo em nós? Primeiro precisamos estar conscientes do que mudar, nos concentrando nisso e segundo, querer mudar e fazer possível a mudança acontecer.
Nem sempre há vitórias, também há os chamados fracassos, mas estes são devidos geralmente a algumas inverdades com relação às mudanças, por exemplo, querer mudar rapidamente só para resolver uma situação conflituosa, não ocasiona uma mudança profunda porque está dirigida a algo fora de nós e algum dia os sentimentos mandam a conta por não mais aguentarem tanta oposição. Transferir ao outro a causa dos problemas é cair na ilusão de que se ele mudasse tudo estaria bem. Isto não só é um grande erro, mas também uma desculpa por não querer se enfrentar com os próprios problemas, o que no fundo é o medo de estar em união com o outro. Também há pessoas que creem que não podem mudar, estas são geralmente inflexíveis e fechadas a novas alternativas e possibilidades. No fundo são pessoas que não veem outras saídas, a não ser guardar e defender seus próprios interesses repetindo o mesmo comportamento já tão incrustado. Temos medo de mudar porque pensamos que a mudança tem de passar de repente, como se fosse um pulo num abismo escuro; um pulo fatal e sem retorno. Por outro lado a mudança é um processo consciente e paulatino, partindo de uma disposição interior que nos leva a pensar ou a agir diferente. Outro equívoco é querer que o outro mude primeiro: “Por que tenho que mudar primeiro?” “Quando ele mudar, eu mudo também.” No fundo, por orgulho ou por medo, esta é uma posição bastante rígida que não leva a lugar nenhum. Mudar é um ato livre, sem exigir condições do outro e sem que a mudança do outro seja tomada como pré-requisito. E por fim o maior erro com relação à mudança é insistir em querer mudar o outro como se isto fosse a solução dos problemas. O outro tem que ser como eu quero ou estar feito segundo as minhas medidas. Eu também pensava assim, e na minha ânsia de querer mudar o outro como condição preliminar para acabar com os nossos conflitos, não via que eu era a que devia mudar. Quando me dei conta de que o outro jamais iria mudar só para satisfazer os meus desejos, foi quando entrei no processo de mudar eu mesma e comecei a perguntar-me: mudar o quê? Como? Pouco a pouco fui compreendendo que primeiro de tudo precisava aceitar-me; aceitar-me e fazer dessa aceitação uma liberação para por fim também poder aceitar o meu parceiro. Muitos casais passam a vida brigando por tudo ou por nada, repetem as mesmas reações, um acusando o outro e dando-lhe a culpa dos problemas e não veem que cada um é igualmente responsável. Mudar é uma ação solitária, de um sujeito consigo mesmo, cujo efeito chega ao outro e também o faz mudar. E este é o maior e o melhor paradoxo da mudança: o outro, como resultado de nossa mudança, também muda sua forma de ver as coisas, ou seja, uma mudança leva a outra mudança, porque no fundo as coisas não mudam, somos nós que mudamos a forma de encarar as coisas.
Contudo há coisas que não podemos mudar, elas existem ou existiram independentes de nosso campo de ação, como por exemplo, uma infância infeliz e cheia de carência, um acontecimento traumático ou a perda de um ser querido. Estes fatos pertencem a nossa vida e ao passado, existindo nas nossas lembranças e reações sem que possamos excluí-los de nossas experiências; entretanto uma pessoa que teve uma infância infeliz não deve ter necessariamente uma vida infeliz, mas se continua sendo infeliz é porque não consegue mudar a perspectiva de encarar esse passado e permite que ele a persiga por toda parte. Isto é o tema de um livro interessantíssimo que li, cujo título, mais ou menos em português seria – Nunca é tarde para se ter uma infância feliz – o que já soa bastante promissor para se crer nele. Seu autor, sem embargo, o Dr. Ben Furman, psiquiatra e psicoterapeuta finlandês, crê que podemos viver sem o determinismo da infância e questiona a crença de que toda nossa vida é, sem dúvida, dependente de como foi essa infância. Sua terapia ajuda pessoas a compreenderem o passado como uma fonte de forças – e não fatalmente como a origem de todos os problemas – reforçando as razões para se crer na possibilidade de uma vida promissora e assim fazendo que pessoas usem suas forças e criatividade para dar a volta por cima, tendo controle sobre seus traumas. Por outro lado falar é sempre fácil; árduo ainda é entrar consciente no processo mesmo de mudar que requer muita força de vontade. Muitos se valem de pedir a Deus essa força mesmo que ela leve ao contrário, ou seja, a não poder mudar: “Senhor, dê-nos forças para mudar o que podemos mudar, como também forças para aceitar aquilo que não podemos mudar.” É um pedido feito com humildade e extremamente conciliador com a realidade, mas fazendo crer que aquilo que não podemos mudar, não mudará nunca? Na verdade, o que podemos mudar é a nossa perspectiva ou atitude frente ao problema, e isto já é uma grande mudança.

 

Sobre o amor e alguns equívocos

einmal noch.png

Fotografia da ChristinArt (todos os direitos reservados)

Não é a minha intenção aqui resolver problemas de amor, nem dar conselhos de como se deve amar ou consegui-lo, já é demais querer falar de amor por ser um tema tão vasto e possuir tantas abordagens, outrossim pela sua natureza abstrata ser impossível de encaixá-lo em planos ou projetos para o futuro. É também entrar num mundo composto de sentimentos, paixões e muitas histórias. O amor tem a sua presença em todas culturas e o seu lugar na história da humanidade pela sua força criadora e sua capacidade de provocar mudanças.

Muitas pessoas falam do amor só como uma experiência que seja, fantástica, absurda ou dolorosa; nunca um tema foi tão abordado quanto este, nunca uma frase foi tão repetida como “eu te amo”, “I love you”, “ j’taime”,  e em outras línguas. A literatura, a música, o cinema, o teatro são formas artísticas cheias de exemplos de amores, tais como os correspondidos ou não; os realizados e os malogrados; os ilusórios, complicados, tempestuosos, cruéis e, sobretudo, os infelizes. Infelizes porque se fala melhor do amor quando ele faz sofrer? A dificuldade reside em encontrar um equilíbrio entre a dor e o
prazer de amar, de poder desfrutar estar junto com o outro, mesmo sabendo que este momento não fica para sempre. Esta descrição está nos versos de Ira Intsch de forma belíssima:

Meu rosto se apóia em tuas mãos.
Sentir-te, absorver teu perfume e unir-me a ti.
Contigo falar de Deus e de tudo que o mundo
nos mantém juntos.
És tu que te expandes em mim.
E eu faço o mesmo em ti.
Resistiremos a tudo isso?

Ainda há aqueles que negam a sua existência, e falar de seus insucessos é um bom argumento para afirmar que ele é impossível de forma erótica. Ou melhor: no desejo sexual, cuja energia é a libido, simbolizados por Eros, não há amor, já o amor a Deus seria a única forma cabível de amar, do mesmo modo que o amor entre pais e filhos. Assim o amor erótico se diferencia do amor filial e do fraterno e estes do amor voluntário a Deus. Estas distinções tanto nos ajudam como dificultam a entender este sentimento tão desejado, mas também temido porque ao mesmo tempo que é um componente tão decisivo para a nossa felicidade, também é uma parte difícil de nossas experiências. No fundo, como um sentimento, é nobre, o maior entre todos os outros, e que sem ele não há chance de uma vida plena; basta pensar nos casos de crianças órfãs ou abandonadas e nos meninos de rua: se as condições materiais de uma família se encontram abaixo do mínimo aceitável de existência, não há mais espaço para o amor como fator de união e segurança; a família carece da coluna que sustenta a confiança e previne-a de perigos, garantindo tranquilidade de espírito para o seu bem-estar.

Com relação ao amor erótico, este é o mais complicado e fornecedor de equívocos por ser exclusivo e estar centrado em nós mesmos, na nossa necessidade de fundir-nos com o outro intimamente. Este aspecto do amor se confunde com a fase mágica da paixão, movida pela atração física, pela energia da libido que nos empurra até o outro para formar uma nova união. Está poeticamente mencionada no Velho Testamento:

„Eu sou para o meu amado
o objeto de seus desejos.
Vem, meu bem amado,
saiamos ao campo,
passemos a noite nos pomares;
pela manhã iremos às vinhas,
para ver se a vinha lançou rebentos,
se as suas flores se abrem,
se as romãzeiras estão em flor.
Ali te darei minhas carícias.
As mandrágoras exalam o seu perfume;
temos à nossa porta frutos excelentes.
novos e velhos
que guardarei para ti meu bem-amado.“
(Cântico dos Cânticos, 7,11-14)

O Novo Testamento não cita o amor erótico, mas sim o amor a Deus e o fraternal que é uma forma de amor universal e está centrado no outro, no coração e na benevolência „Amar ao próximo como a si mesmo“ é a prova do êxito social do cristianismo e do seu caráter revolucionário, pois até então o perdão era tido como uma prática da bondade de Deus aos homens e não como uma determinação moral do homem – o homem perdoa ao seu semelhante e com isso assume uma posição de liberdade – pois perdoar também significa soltar, liberar – o que não deixa de ser um componente do amor.

O que torna o amor erótico mais enganador é o seu caráter de imediatez que faz romper a distância entre os dois através da consumação do desejo no contato sexual, como se este – não importando o que o estimula – fosse suficiente para unir profundamente duas pessoas. Aí está o equívoco de crer que se há atração sexual, ela é responsável para garantir o amor e fazer durar o relacionamento. Para sempre? O que não se vê é que a sexualidade e o amor, apesar de poderem conviver juntos, são duas coisas distintas. Aquela pode ser vivida sem amor, e este pode ser expresso ou desenvolvido sem aquela. Homens, melhor que mulheres, usufruem desta dualidade de forma confortável sem se sentirem culpados; muitas mulheres, pelo contrário, ainda não admitem viver sua sexualidade sem amor, o que é um equívoco, mas também não deixa de ser equivocada a grande importância que se dá a ela, sem vê-la apenas como uma parte de nós, mesmo podendo ser ela até mais dominante que o amor.

Todos nós queremos o amor, e já fomos exortados a amar desde a idade infantil – a Deus, à Virgem, aos irmãos, aos avós, e assim ia. Hoje somos exortados a seguir os apelos da publicidade, da internet e sobretudo dos especialistas do assunto que nos prometem encontrar o amor ideal e eterno, bastando para isso seguir seus mandamentos, esquecendo, porém, que as duas pessoas têm a sua própria história, e esta é a que, na maioria das vezes, determina o potencial e a capacidade de amar de cada uma. A figura de um coração que palpita, duas mãos dadas, rosas vermelhas, todos estes símbolos invocam o amor, mas no fundo sabemos que não é fácil amar, talvez por estarmos centrados em outras necessidades, deixamos de consultar o nosso próprio coração. E aqui reside outra equivocação em querer experimentar o amor: ele passa a se centrar mais no ser amado por alguém do que no amar este alguém; tirando do amor o caráter de poder ser produtivo e causar mudanças. Erich Fromm já falou sobre isso no seu famoso livro „A arte de amar“ ao deixar claro que o amor „é uma capacidade de um caráter maduro e produtivo“, mas não abstraindo disto a parte de influência que uma cultura (seja ela qual for) tem sobre o caráter de um indivíduo, e enfatiza a estrutura da cultura ocidental e o espírito que dela resulta como incapazes de desenvolver o amor. Fromm escreveu isto nos anos 50 e o modelo capitalista abundava nos Estados Unidos do pós-guerra. Não é que ele via neste sistema um impedimento ao amor – sabia muito bem que „o capitalismo moderno precisa de homens que se sintam livres e independentes“, mas que, ao mesmo tempo e paradoxalmente”estejam dispostos a ser manejados e a fazer o que se espera deles“ – mas bem Fromm tinha uma fé na capacidade do homem em fazer possível o amor como um fenômeno social; neste ponto ele se diferenciava fundamentalmente de Freud que entendia o amor como basicamente sexual, incluindo até o amor fraterno como um resultado dele, onde o instinto sexual, porém é transformado num „impulso inibido“. Assim Freud não dava ao amor um atributo racional, nem via nele o resultado maduro de um processo consciente.

E no entanto o “grande amor” continua a ser ansiado e esperado – aquele, alimentado por palavras ou por momentos felizes, aquele que é mais bonito quando escrito ou encenado nos filmes e nas telenovelas, cuja beleza é mais um produto de um conto que vive na ânsia de ser realizado, e assim passamos a querer esses amores por serem mais belos que reais, mas que por outro lado nos enchem de esperança: a de não estar mais só e poder compartir a vida com o outro. Por ele ou em seu nome tudo é possível entre a vida e a morte: abandona-se a família, contraí-se dívidas, sofre-se maus-tratos, morre-se e até mata-se o objeto do amor – o ser amado. O amor como fator de sofrimento antes era encarado por muitos como fazendo parte do grande sofrimento da humanidade; hoje esse padecimento ou tortura levaram ciências como a psicologia e a sociologia a procurar as raízes desses martírios até tentar eliminá-las.

Até em sociedades avançadas da Europa, para muitas mulheres uma prova de amor ainda seria ganhar num dia não especial um buquê de rosas vermelhas ou um jantar especialmente preparado pelo amado e ainda ouvir à luz de velas um “eu te amo”. Para outras mulheres as flores também fazem esquecer os maus-tratos e até mesmo atos violentos do parceiro, levando-lhes à submissão: “ele me bateu ontem, mas hoje me trouxe rosas; no fundo ele me ama.” São estas formas simbólicas já consagradas de provar o amor o que ainda o define? Claro que não. Detrás delas está a necessidade premente de experimentá-lo como um direito natural que se deve ter na vida, igual a gozar de saúde ou ter uma família e uma moradia; e assim justificam-se as cobranças que se faz do amor. Contudo homens são diferentes e têm na cabeça outros pensamentos como a intolerável e irritante pergunta: „O que ela quer mais, se faço tudo por ela?“, exprimindo mais um ajuste de contas indiferente, do que a expontânea expressão de um tão esperado: „Te amo“. Por que é tão importante repetir esta frase? Mulheres a necessitam mais ouvi-la porque homens se sentem menos masculinos ao pronunciá-la? Os filmes típicos americanos de amor me irritam quando abusam dela como uma elocução gratuita adornando um cenário fantasioso, mas que me fascina quando tirada da realidade, mesmo sendo pronunciada dentro de um cenário fictício.

Os símbolos que se referem ao amor se dividem entre mulheres e homens; esta separação leva mais a perpetuar os clichês em torno do amor e só nos separam excluindo do „sexo forte“ até a capacidade de amar por não se ver esta representada através de formas usuais e repetidas nos cartões de felicitações e na publicidade como um coração, a mãe e seus filhos ou o ato de amamentar, símbolos sumamente femininos. Por que não se vê representado o amor paterno ou o amor masculino sem precisar estar envolto de   virilidade?

Por mais que o papel do segundo sexo hoje assuma mais responsabilidade dentro da família, do trabalho, etc., ainda esperam mulheres a sua salvação pelo lado do amor, como sendo este uma garantia para durar toda a vida ou „até que a morte os separe“. No entanto, quem ainda acredita que o amor se conserva inalterado para sempre? Esta estagnação não pertence ao amor, mas sim atividade para desenvolver-se. Casais que permanecem juntos até o fim de suas vidas, não justifica isto a idéia de que foi por conta do amor fazer possível esta união até a morte. Outros fatores mantêm uma relação, fazendo-a conservar-se, mesmo estando esta submetida à dominação ou ao sacrifício. Como também há muitas outras coisas que unem um casal, sendo muito mais reais e viáveis do que a perseguição de uma velha aspiração, de um sonho, ou seja, de um ideal.