A DAMA DO MESSIAS

 

Entre o que Michele Bolsonaro diz sobre o seu marido, Jair Messias Bolsonaro – ora presidente do Brasil – e o que ele fala, sua atuação como político e como se mostra publicamente – há um abismo. É que são duas coisas tão diferentes que elas não se unem como a água e o óleo.

O antagonismo entre essas duas retóricas me irritou desde o início, raiva mesmo, até ficar indignada quando vi a Michele – na sua primeira entrevista logo após a vitória dele nas eleições – negando o que o Brasil todo já conhecia: não só o discurso racista e homofóbico de Jair Bolsonaro, como também seu potencial de agressividade quando se enfrentou, por exemplo, com a deputada Maria do Rosário frente às câmaras. É claro que ela não podia estar contra o marido já eleito, mas não pude crer que estivesse de acordo com a sua falta de compostura, disparates agressivos e desrespeito, sobretudo às mulheres, apesar de os vídeos de direita dizerem que o casal vivia em clima de harmonia e compreensão, como num deles, no qual Bolsonaro falava num comício enquanto Michele, a uma discreta distância, alisava suas costas – uma medida de controle para acalmá-lo, apaziguá-lo e freá-lo se possível.

Foi daí que comecei a entender o casal: ele precisava dela, e sua função como esposa era a de protegê-lo como um anjo da guarda, pois ela conhece seu gênio impulsivo, seu potencial agressivo, e mesmo assim sabe exercer um poder sobre ele – o que a faz forte – deixando sobressair uma bondade imensurável, um coração devoto e uma disciplina bíblica, ingredientes essenciais para se complementarem numa união duradoura.

Michele Bolsonaro sabe o que quer e do que precisa. Se Jair Bolsonaro não fosse bom e generoso, ela não estaria com ele, pelo menos é o que deixa claro quando o cobre de qualidades positivas, banindo dele o racismo, a misoginia, e a homofobia. Não. Ele não é assim como o acusam, só os que convivem com ele sabem que ele tem „um brilho no olhar diferenciado“. O cara, como ela o denomina, „é humano, um cara que se preocupa com as pessoas“ – são suas palavras. Por outro lado sabemos que sua preocupação e generosidade é intencionada e de ordem nepotista – o artigo „A „parentaia“ empregatícia dos Bolsonaro“, do jornalista Fernando Brito do Tijolaço, diz que são 102 o número de empregos dados a familiares pelos Bolsonaros, não importando se esses postos foram ocupados ou não. Contudo para Michele „ele é um homem ético, um homem brilhante que com tantos anos no Congresso não negociou seus valores“. Não é possível que Michele seja uma ingênua pura a ponto de não se dar conta do que passa ao seu redor. É que a sua defesa é blindar-se: „Eu me blindo para não sofrer porque eu sei que ele não é o que as pessoas falam.“, ao ver que ele é falsamente tachado e mal interpretado. Mas ela também se blinda quando é ele quem vai além do pudor, é indiferente ao sofrimento dos demais, carece de empatia. Blindar-se é o seu mecanismo de defesa, uma forma de renuir a realidade, escapar dos fatos para poder não deixar sucumbir o mito do Jair Messias Bolsonaro.

Defender também é proteger, e esta é a função dos anjos da guarda do Senhor, mas também de mulheres obstinadas que aferradas ao papel absoluto de esposas, têm vocação para salvar seus homens, dar-lhes créditos e viver da idéia de que vão poder mudá-los; são mulheres que tomam para si a responsabilidade da existência da relação, e até há aquelas que buscam seus maridos em lugares impossíveis de convivência matrimonial – as prisões, por exemplo – o importante e seguro, porém, é o fato de crerem na humanidade deles e poder salvá-los – no fundo também são missionárias.

Para mim esse cara, ao qual Michele se refere, é mesmo diferenciado e tem um olhar frio, pesado e calculista. – Mas a Michele não o vê como eu o vejo, pois ele não é o meu amor. Ele é o seu amor, é aquele que lhe deu um emprego como secretária dele e bem aumentou seu salário; a esposou, deu-lhe uma filha e formou uma família com ela. Seu estado civil antes das núpcias com Jair Bolsonaro vacila na mídia: às vezes o pai da sua primeira filha foi seu ex-marido, outras foi só o seu primeiro relacionamento – o que para mim não tem importância se isso ou aquilo – só me irrita o tratamento moral dado ao fato. Também não se sabe muito sobre a Michele de Paula Firmo Reinaldo; ela mesma não fala como foi a sua vida em Ceilândia, cidade satélite de Brasília onde se criou e que tanto a ama, mas sem fazer referências e descrições, sem contar acontecimentos que lhe marcaram, a não ser os que tenham que ver com a sua vida religiosa. A revista Veja foi a Ceilândia e estampou fatos desconhecidos sobre sua família, a denunciou tanto de negligenciar sua avó materna de 79 anos e de muletas – ainda recebendo a cesta básica de alimentos – como o seu afastamento dos parentes mais próximos. O Correio Braziliense, mais condescendente, entrevistou a mãe, a avó e a tia de Michele; mostrou a rua e o lugar onde era a casa que ela cresceu, a vizinhança, a estrutura urbana local e contou sem detalhes a história da família de origem nordestina, do Ceará por parte do pai, e mineira do lado da mãe, que se mudaram para a recém-construída Brasília como tantos outros. Parece que Michele Bolsonaro encobre fatos de sua vida; é verdade mesmo que seus parentes devem evitar contato com a imprensa? Onde mesmo ela nasceu, também não está claro. Michele disse numa entrevista para o Sempre Feliz que nasceu na capital do país; a Wikipedia diz que foi nascida e criada em Ceilândia, que fica a 26 km de Brasília. Para uma moça com apenas o ensino médio, filha de um motorista de ônibus e que cresceu num lugar carente, desprovido de conforto e de estruturas satisfatórias a uma menina que já queria transcender ao seu ambiente e ter chegado além disso ao ser a primeira da dama do país, não é para mim uma obra de Deus ou uma casualidade, mas sim um esforço para vencer suas condições sociais. Desde cedo ela entrou para trabalhar passando por diversos empregos – em supermercado, em festas infantis, como promotora de alimentos – mas como ter chegado a ser secretária de parlamentares, também não está claro.

Como eu gostaria de ver uma Michele Bolsonaro aberta, fiel e testemunha da classe social de suas origens! Michele Obama deixou que escrevessem sua biografia, deixando claro as origens humildes de sua família em Chicago, o trabalho de seu pai como funcionário responsável pela limpeza de banheiros públicos da cidade – tudo isso sem vergonha, mas com orgulho de sua história, de seus antepassados.
Por que só posso associar à primeira dama seu histórico religioso? É que Michele Bolsonaro, a meu ver, é mais uma missionária do que uma ativista, segundo a Wikipedia. E com esta habilidade ela quer „fazer a diferença“ como primeira dama do país. Sua retórica é evangélica, e ela sem vacilar torna isso um instrumento político poderoso em favor do seu „amado marido“. Não acho que Michele tenha necessidade de glória como o Bolsonaro – apesar de se apresentar em público melhor do que ele – e se a tem, deve ser a do reino de Deus; seu discurso é repetido de palavras que reforçam sua fé: Deus, Senhor, Amém … marcadoras do seu intuito caritativo – é que Michele quer ajudar os necessitados brasileiros, fazer obras caritativas como um trabalho social „diferenciado“, tiradas do desejo, do amor do seu coração, da sua „sensibilidade que vem de Deus“, da bondade que Deus lhe deu. Palavras bonitas e confortadoras, porém mais aliadas a ter pena dos outros do que a um trabalho de conscientização e iniciativa própria. Contudo a bondade também pode ser calculista, e assim faziam e ainda fazem as missões. Os missionários trabalham com sentimentos de culpa e apresentam ao mesmo tempo condições de vida superiores – trabalham para juntar ovelhas que trabalhem para eles.

Os projetos da primeira dama estão só dirigidos aos surdos, deficientes e portadores de doenças raras? Não ficam outros carentes de certa forma excluídos, uma vez que seu lema é incluir? Parece-me que há uma preponderância no uso de libras em detrimento de outras coisas também importantes; é que o Brasil só precisa de libras? Onde está Michele Bolsonaro num jardim ou numa horta plantando tomates com crianças pobres da escola? Onde está ela incentivando a leitura nas escolas? Ela lê além da bíblia? Que diz sobre o feminicídio? E o estupro de crianças e mulheres? Tudo isso, e mais, só encontra respostas no livro sagrado?

Uma amiga me perguntou o que eu diria a Michele Bolsonaro, se estivesse em sua presença. Respondi-lhe que lhe perguntaria se ela realmente é feliz com seu marido e por que persiste em apresentá-lo como bom e honesto, se suas atitudes mostram o contrário, pois uma coisa é ela se esforçar para que os brasileiros acreditem que o Jair Bolsonaro é bom e humano, outra coisa é que o mundo acredite nisso.

A vez do coração

                  

Quando fui vítima de um assalto no Brasil há mais de dez anos, no exato momento em que o assaltante me empurrava uma pistola contra o meu corpo, a única coisa que pensei de um relâmpago foi: „agora chegou a minha vez.“ Outros pensamentos não tive, a não ser que perguntei-lhe como uma autômata o que ele queria enquanto lhe oferecia minha bolsa linda, novíssima e cara – comprada só para a viagem – pendurada no ombro e ainda com o meu passaporte brasileiro dentro. „A gente quer o carro“, respondeu-me ele. Neste momento vi que seu colega assaltante empunhava uma pistola contra o peito do meu marido, tentando arrancar as chaves do carro de sua mão. Tudo isso foi em segundos até que alguém – um anjo talvez – passasse num carro por nós mostrando coragem e dissolvendo a situação, desfazendo o assalto. Não sei o que esse anjo falou ou fez para que os dois homens armados fossem embora.

Por que me lembro disso agora quando o que quero tão somente é esclarecer aqui o porquê não tenho escrito mais posts? Minha última publicação do blog foi há quase três meses, no seis de março com o texto „Essas meninas …“ E mais: o que estes dois fatos têm em comum? É que de novo chegou a minha vez, sem que eu tenha passado por outro assalto. Há coisas que chegam ou que passam na nossa vida, sem que tenhamos contado com elas – a vida é quando não a planejamos, diferente de como a queríamos que fosse. Nunca tinha sequer imaginado que iria ter problema de coração. Desde criança já ouvia deles, minha mãe falava das pessoas que sofriam do coração, usando bem os verbos sofrer ou ser já como prenúncio de morte, e com uma cara e um tom de voz que já deixava antever o enterro. Aqueles seus agouros estavam muito longe de mim, mas como criança não deixei de interiorizá-los para, como um paradoxo, defender-me deles mais tarde, afugentando-os de mim na idade adulta: nunca sofrerei ou serei doente do coração foi o meu lema para a vida.

Mesmo com esse mecanismo de defesa, não escapei. É claro que havia um medo latente, incubado pelos presságios de minha mãe contra ela mesma – era um tanto hipocondríaca, seu coração, porém, não foi o que pôs fim a sua vida, como ela acreditava. É que o medo para os hipocondríacos também tem a função de com ele e de antemão livrá-los do mal pressentido, apesar de que este uso não garanta nada. O medo, porém, não me incomodou com maus pressentimentos quanto ao meu órgão vital, o qual chamava e ainda o chamo de meu príncipe; até que ele, o meu príncipe forte e amado começou a sofrer, precisando de ajuda e pedindo socorro que foi além de minha capacidade. Assim fui parar num hospital para fazer uma tal de ablação cardíaca. Esta é tanto um procedimento como um tratamento, que a grosso modo, sob uso de sedativo, e por meio de um cateter, que é um fio fino e flexível, transportador de energia e que tem na sua ponta um elétrodo capaz de liberar energia fria ou de calor, esta última chamada radiofrequência. O cateter é introduzido numa veia da virilha, e daí ele chega ao coração para localizar as regiões onde impulsos elétricos indevidos são a causa da arritmia. A função dele – por meio de energia – é deixar um círculo de cicatrizes no tecido como um muro que impede a entrada daqueles impulsos elétricos danosos ao átrio, causadores de um tipo de arritmia chamada fibrilação atrial, que se não for tratada pode causar um AVC – um Acidente vascular cerebral. A arritmia cardíaca já é uma doença generalizada, o número dos que a padecem é de milhões e cresce, principalmente na idade avançada.

Assim sendo não faço parte de uma minoria, mas nem por isso sinto-me consolada, ao contrário, sinto-me retraída, e dou-me conta de que estou mais precavida e atenta, o que também é positivo. Em vez de correr para as atividades para economizar tempo, dou-me mais tempo para elas, procuro ser flexível e usufruo com isso. A minha vida mudou? Coisas mudaram no meu modo de viver; agora pertenço a uma grande maioria que por motivo de doenças cardíacas, toma medicamentos – só eu tenho que tomar três diariamente: pra isso, pra aquilo e aquilo outro que resguardam a minha convalescença. Sim, estou de resguardo sem ter parido, esperando que ele não seja pra toda a vida. O fato de ter ficado interna no hospital por dois dias, não me garante uma cura; não é verdade o que muitos médicos dizem sobre a eficácia imediata de uma ablação – há pessoas que já passaram por ela até três vezes sem que o procedimento tivesse tido sucesso; é bem provável que com a idade avançada o mal volte. Mas é possível evitar esse mal se ele não é hereditário ou uma falha orgânica? Como? Nem sempre, por mais que os médicos digam: viva mais devagar; faça exercícios físicos ou caminhadas, não engorde, evite café, chocolates e estresses – aqueles que levam o coração a galopar e a bater mais do que devia – os tais batimentos extras. Por outro lado, viver sem estresse não é possível e seria até monótono, pois até precisamos de alguns deles, que nos dê impulso, ou nos tire de um atoleiro, sobretudo durante o trabalho. Este é o bom estresse, aquele que quando já passado nos deixa satisfeitos, gratos e podemos relaxar bem.

Preparar-se para que o estresse atue positivamente é uma estratégia nova no dia a dia de trabalho em grande empresas: agendas cheias, pressão de colegas e chefes, tomar decisões, lidar com o público, etc.. requerem nervos fortes e um corpo ativo. Eu já passei por situações de estresse, nas quais pude concentrar-me, raciocinar e encontrar soluções. Por quê? É que de alguma forma estava preparada e ativa, por isso não fugi da situação, pelo contrário, pude pensar melhor e estar absorvida nela. Contudo esse modelo não pode funcionar sem margens de dúvidas; depois me senti exausta – não somos uma máquina.

Já o mau estresse começa quando nos encontramos frente a um desafio, ou sentimo-nos ameaçados por algo que vem de fora e não sabemos como superá-lo, ou por fraqueza nossa, ou por falta de tempo ou competência, ou por não estarmos em condições adequadas, e muito mais que tudo isso, pois as causas do estresse também são individuais. O corpo responde em segundos entrando em alerta pela liberação de hormônios, como a adrenalina, produzida pelas glândulas supra-renais e responsável por reações, como fugir ou lutar. Além disso a frequência de batidas do coração dispara, mais glicose entra no sangue, as atividades do estômago e intestinos se reduzem e a pressão do sangue sobe. Passado o estresse o corpo e a mente estão esgotados e necessitando de uma longa fase de relaxação e repouso, que possa revitalizá-lo. Sem essa fase e a constância dos estresses, aparecem entre outros problemas o de coração e o burn out.

Chegou a vez de ampliar o respeito a mim mesma, valorizar e praticar a paciência, ser mais cordial comigo e com os outros. Não foi em vão que do século XVI ao XVIII em Portugal se chamava de cordiais um remédio em forma de pedrinhas para fortalecer e confortar o coração. Sua preparação por monges ficou em segredo mantido por muito tempo; hoje, claro, se conhece a sua composição exótica. A cordialidade vem mesmo do coração e é mais do que a cortesia convencional criada por regras de como conviver socialmente. A cordialidade é delicada e terna, paciente e bondosa, ela quer harmonia.

Agora deixo claro que não quis aqui nem fazer um texto científico sobre a arritmia – o que escrevi sobre ela e o estresse é básico e corrente – nem dar conselhos a aqueles que padecem deste mal – o que posso dizer é que estou consciente do meu problema, conheço minhas restrições, mas estou vivendo, e isto é mais eficaz do que o medo de morrer. Fui estritamente pessoal sem, contudo, entrar em detalhes de como a doença me chegou e como sofri com ela. o que quis foi justificar minha ausência como blogueira aqui nesta rede social. Espero publicar de novo o quanto antes, mas como disse, ainda estou convalescente.

Essas meninas!

                   

Greta Thunberg com sua mochila e boina de lã desceria de um trem despercebida se não fosse um grande cartaz que carrega escrito em sueco – Greve da escola pelo clima – e já um grupo de jornalistas e fotógrafos não a estivessem esperando, seja em Katowice, Davos, Bruxelas, Paris e Hamburgo. Mas nem por isso ela se considera uma estrela; o que a tornou assim foi a mídia em geral divulgando para o mundo sua obstinação persistente desde agosto de 2018: em vez de ir para a escola às sextas-feiras, sentar-se no chão com o seu cartaz em frente do parlamento sueco, enquanto o governo não tomar medidas locais para alcançar sua cota-parte dentro dos objetivos do Acordo de Paris em 2015, ou seja, a temperatura média da terra não deve aumentar mais de 2 graus centígrados por ano em relação aos níveis já existentes no período pré-industrial, e isto até o final deste século, ou as mudanças climáticas serão incontroláveis. O que muitos consideraram sua ação como absurda, infundada e até louca, não era para Greta uma brincadeira. Pouco a pouco foram se juntando outros alunos que também deixaram de ir às aulas para apoiá-la, e assim se formou o Friday For The Future – Sexta-feira para o futuro – também em outros países europeus e na Austrália. Crianças foram às ruas para protestar; e o que fez este movimento ser ainda mais especial é o de não estar trajado de estudantes universitários, nem ter sido começado por eles.

Como uma menina de 16 anos, que não viaja de avião por princípio – bastante pequena para a sua idade, com duas tranças longas que lhe caem ladeando suas bochechas salientes, parecendo mais ter entre 11 e 12 anos, e estando rodeada de pessoas é impossível vê-la pelos seus 1,53 de altura – é capaz de atacar políticos, empresários, banqueiros, todos aqueles que participam do poder e das grandes decisões? Estes são os responsáveis pela situação em que nos encontramos porque suas idéias são indiferentes à sobrevivência do nosso planeta, e nem adultos suficientes são para ao menos ter coragem de falar a verdade, disse Greta Thunberg em Katowice, Polônia, na última COP24, que é uma cúpula climática anual da ONU.

É que Greta foi tão somente uma alavanca, de comando e de velocidade para impulsionar novas direções. Se adultos tendem à resignação e indiferença, jovens começam a preocupar-se por anteverem insegurança quanto ao futuro. Ela tomou conhecimento do estado do planeta terra na escola; durante uma aula soube da verdade já constatada por científicos, para a qual os políticos querem fechar os olhos; por isso daí seu ataque a eles de não fazerem nada consequente, mesmo estando em postos de direção, e de não quererem ouvir nada que contrarie seus planos de crescimento global e poder monetário. E que verdade foi essa? O aquecimento da terra com as suas conseqüências fatais como: estiagem, calor alarmante, furacões, chuvas fortes, inundações, etc., causado pelo excesso de gases de efeito estufa na atmosfera, pois a concentração contínua destes gases retém altas temperaturas absorvidas pela superfície terrestre. Tudo isso, a grosso modo e à forma de clichê, pode-se explicar pelo abuso e desrespeito à natureza, pelo fascínio do poder, pela acumulação de bens materiais, pelo desmesurado crescimento do capital e pela ignorância que é uma forma de miséria. Estabelecer uma existência tendo como base o contrário destes critérios é tão difícil que para muitos é impossível, é uma utopia considerando o avanço científico, tecnológico e industrial a que chegamos – seria como parar tudo? Acho que Greta sabe disso, mas, a meu ver, ela crê mais em mudanças que possam garantir o futuro das novas e futuras gerações do que em revoluções políticas, porque estas se concentram mais em tomar e manter o poder político; sua visão é outra – a de não mais esperar que partidos políticos tomem a iniciativa de mudar algo: O verdadeiro poder tem o povo. – e ela tem razão. Sabemos que a maioria dos políticos não quer falar conosco. Tudo bem. Então nós também não queremos falar com eles. Disse.

Para diminuir as emissões de carbono na atmosfera, extinguir o desmatamento florestal, salvar as camadas de gelo nas zonas polares do derretimento constante, tudo isso implica em mudanças profundas nos padrões do que se chama desenvolvimento, pois nosso modo de vida está relacionado a esses modelos que se impõem na sociedade e na economia.

Não é fácil, reconheço, sair das bases energéticas tradicionais – as ditas fósseis – o petróleo, o carvão mineral, o gás natural – onde nelas estão assentadas bases culturais e de subsistência – e passar a formas de energia renováveis, como a solar, a eólica, etc. Por outro lado o mundo está saturado pelo poder da produção excessiva; acúmulo de produtos industrializados, dos quais não precisamos nem a metade, pois a maior parte dos produtos de consumo fica sem utilidade, amontoada em algum lugar ou queimada sem levar em conta a natureza da matéria prima, seja ela biológica ou não, e o quanto se violou a terra para a sua produção, o seu produto final exposto à venda. É quando reconheço a importância e o valor desses jovens em levar a sério as mudanças climáticas como uma questão urgente, e o fracasso dos adultos, estes sabedores de tudo, mas conformados com a ordem das coisas, como se o futuro não existisse. Para os jovens o futuro é algo que vai ser vivido, e nele deve-se depositar as expectativas e os projetos, a esperança de um mundo melhor. You Can Not Eat Money diz um cartaz que segura uma menina em Davos. Uma mensagem profunda e apocalíptica, pois se no fim das contas só restar o dinheiro, este não se pode comer.

Lá de cima se vê a terra pequena, e a terra nunca foi tão pequena como hoje em dia. Esta perspectiva de modéstia nos diz que o que precisamos é de parcimônia. Assim viu Alexander Gerst(*) o planeta terra de uma estação espacial em órbita, onde ele comandou uma missão espacial internacional junto com outros astronautas. Um dia antes de sua volta a terra, ele mandou uma mensagem aos seus netos ainda não nascidos, na qual ele, em nome de sua geração, pede desculpas pelo global aquecimento da terra causado pela humanidade. Infelizmente a sua geração – e as passadas – não deixarão para as futuras gerações a terra em boas condições; e cada um de nós deveria refletir até onde nosso estilo de vida está danando o planeta. Ele ainda tem esperança de que se possa corrigir os erros, e espera que sua geração não fique na lembrança das futuras como aquela que com egoísmo e indiferença destruiu o fundamento de suas vidas.

Greta Thunberg fala para atingir o público, ela é implacável e até sarcástica às vezes; diz exatamente o que não é dito numa cúpula:

Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam medo como eu sinto todos os dias. Não rogamos aos políticos que simpatizem conosco. Eles nos ignoraram no passado e vão continuar nos ignorando. Mas as coisas vão mudar, mesmo se eles gostem ou não.

Os que se sentem responsáveis tentam desacreditá-la: Pobre Greta, se referiu a ela Paul Ziemiak, político da União Democrática Cristiana, que ora está no poder em coalizão com outros democratas. Christine Lagarde, diretora do FMI quis conhecê-la – O que você faz é muito importante. – e prometeu-lhe apoio no que for possível. Greta sabe o que são promessas, para ela agir e falar claro é mais importante.

As críticas a Greta Thunberg e ao movimento Friday For The Future são diversas, a começar pelo gazeio às aulas como fator de indisciplina. Diretores de escolas, pais e funcionários da educação sabem que é melhor não criticar o conteúdo do movimento para não aparecerem mais responsáveis, mas sim atacar em nome da ordem escolar. Como esperar dessas pessoas que elas possam promover mudanças, se suas atitudes não saem das ordens estabelecidas? Isto reflete na forma de criticarem o ativismo de Greta como produto de manipulações ou como resultado de sua síndrome de Asperger, um estado doentio com sintomas de depressão e leve autismo, e que causa nos pacientes dificuldades na área de interação social, e são levados a fixações de idéias ou de perseguir constantemente uma idéia. Mesmo sendo estes argumentos plausíveis, não quero crer neles. Prefiro crer na sua postura determinada, seu olhar direto, sua expressão séria. Quando a vejo nos vídeos, não capto dissimulação, mas uma convicção no que faz.

Enquanto isso o ativismo de Greta traz mais seguidores e gazeadores de aulas às sextas-feiras: Nós vamos seguir nossa greve até que eles façam alguma coisa. Eles não fizeram suas tarefas de casa, mas nós sim. Vamos continuar até que algo mude. Disse Greta no 1. de março em Hamburgo, pois O clima está mais em desespero do que as minhas notas de matemática. Não existe um planeta B. Salvem a terra, pois ela é o único planeta que tem chocolate.

(*) Alexander Gerst é um geofísico e astronauta alemão da Agência Espacial Europeia – ESA.

O Brasil à venda

                    O  Brasil à venda

Lá vem ele pra se apresentar – como a estrela deste ano do Fórum Econômico Mundial pela ausência de Donald Trump, mas julgado como capaz de brilhar no cenário político de Davos – aparecendo detrás de uma cortina, como se estivesse metido num lugar sem saída, deu-me a impressão de um menino forçado a representar no palco um papel incômodo, e ali já estando não tinha para onde correr. Assim foi ontem, 22 de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro em Davos na Suíça, onde fez a sua primeira apresentação pública internacional como recém eleito presidente do „paraíso“ Brasil, „mas” infelizmente „muito pouco conhecido.“ Eu não me surpreendi com a sua atuação, pelo contrário, ela foi o que eu já esperava daquele dito „mito“ falsamente construído antes de passar pela difícil prova de conhecimentos; Jair Bolsonaro, o homem que poderia passar despercebido e sem ser ouvido, se não tivesse virado presidente da república. É coisa mesmo de brasileiro dar tal atribuição a um simplesmente nada?

Bolsonaro nunca me enganou, já o aguardava exatamente fora da proteção do lar-Brasil – seu palco seguro – e vê-lo falar diante de um público internacional de políticos, intelectuais e jornalistas especializados, resolvendo os testes de retórica e conhecimentos e provando sua falta de preparação adequada ao evento. Contudo isso, se me limito só a ele não é justo, sabendo que o que ele disse em Davos foi resultado de sua „qualificada“ equipe de assessores, esta que o expôs assim incompetente frente a uma elite política; o que dá certo e existe no Brasil – sem incluir aqui aspectos culturais – não significa sempre aprovação em outros países – gestos, expressões, atitudes aprovados dentro do país, podem ser bem rejeitados lá fora.

Meu marido esteve no Brasil após as eleições com a vitória de Bolsonaro. Nesta ocasião um homem lhe perguntou de onde ele era, e ao ouvir do meu marido que ele era alemão, estirou um braço imitando o gesto fascista de saudação a Adolf Hitler e achando que ia ser bem recebido. Claro que não. Meu marido o rejeitou e afastou-se dele. Se no Brasil o „só não te estupro porque você não merece“ considera-se normal falar assim para uma grande maioria que dá de ombros ao que realmente significa a declaração, tem peso no estrangeiro. O jornal alemão Welt não esqueceu, e mencionou-a entre outras afirmações racistas e populistas de Bolsonaro, em primeiro lugar, antes de relatar sobre seu discurso em Davos. Dentro do Brasil ele pôde, durante a sua campanha, fazer uso de um vocabulário baixo: „tou me linchando pra você“ – quando discutiu com uma repórter jovem em Brasília – consciente de que mesmo chocando a uma parte do povo, podia impressionar e ser louvado por outros – ele estava „linchando“ uma parte do povo – só que no estrangeiro capitão, isso não passa despercebido. Aqui na Alemanha quando Bolsonaro é mencionado nos noticiários, primeiro e antes da notícia é referido como populista, direitista, e conhecido por suas declarações hostis e inimigas de movimentos progressistas de mulheres, homossexuais, negros e índios. Por que foi surpresa para muitos os efeitos de sua figura grotesca no estrangeiro? Se não foi grotesco falar que temos cidades e praias lindas, foi por outro lado banal como forma de convite aos presentes a irem ao Brasil e constatar in loco que é verdade o que ele diz. No entanto essa banalidade transportou as intenções de seu governo de tornar o Brasil sem complicações num país para futuros investimentos – era como dizer: venham ao Brasil, comprem nossas nacionais, façam seus negócios da China, para isto o Brasil é um paraíso de oportunidades lucrativas e flexíveis, e é, acima de tudo, seguro. Usou de generalizações superficiais e até mentirosas para falar da realidade brasileira – mas isso não era tudo que a sua super equipe governamental tinha para dizer? As estratégias, os projetos e passos de seu programa foram calados como para não responder perguntas fora do script ou levar os presentes a perguntar-lhe sobre a reforma da previdência, ou da oficial posse de armas pelos „cidadãos de bem.“ Nada sobre isso foi falado, salvo quando foi perguntado, a modo de cobrar dele o que tinha faltado no seu discurso: conteúdo. A pergunta era para saber que passos concretos o presidente daria para transformar o país. Também aí a sua resposta foi geral, promessas de um candidato prometendo trazer melhoras.

No fundo Jair Bolsonaro repetiu os discursos populistas de sua campanha, desta vez moderado, formal, pausado – para ser bem traduzido – e lavado da corrupção do ex-presidente Luís Inácio e da esquerda. Ele ofereceu e prometeu um Brasil sem esquerda e „sem ideologias,“ só a possibilidade neoliberal de fazer de um governo federal um puro negócio, sem interesse e responsabilidade de criar projetos sociais e diminuir as dificuldades de subsistência. Como senti vergonha, apesar de estar sozinha em frente ao youtube; tive vergonha, raiva e até uma inquieta satisfação porque o que vi foi uma confirmação do que é a boca grande de um homem explosivo e agressivo quando se expõe sem defesas. Aquele homem que deixava claro que tudo era possível pela força de chegar ao poder, porque achava que o Brasil era o centro do mundo, e o mundo iria se curvar ante sua megalomania – aquele homem foi almoçar sozinho num bandejão ontem; aí tive pena de sua aparência acuada, fraquejada, nem parecendo ser um chefe de Estado, mas parecendo ter buscado um retiro num restaurante popular. Onde estava sua equipe? Que estava sentindo no momento? Não quero fazer hipóteses – elas não são importantes – Na realidade aquele homem era o presidente de uma nação que até o ano passado ocupava o oitavo lugar entre as maiores economias do mundo.

O presidente Bolsonaro teve sorte ainda no mesmo dia: ele bateu o bingo de Davos usando a chance de poder corrigir suas limitações e sua falta de horizontes, quando à delegação brasileira foi oferecido um jantar. Mesmo assim ele não passou de levar o público a rir no início de seu discurso menos formal, confirmando a habilidade que o brasileiro tem, sem complicar, de tornar o formal em informal, e repetiu o que já tinha dito no discurso da manhã. Não trouxe nada novo que pudesse encher as expectativas dos presentes; só que desta vez Bolsonaro quis passar na prova oral de retórica, e falou sem ler. Foi então aplaudido cortesmente.

E o nosso feminismo daqui pra frente?

       

„Eu amo a senhora.“ Ao ouvir a frase que não era uma qualquer, mas uma declaração de amor vinda de um homem bem mais velho do que ela, o qual conhecia só há uns tantos, não teve nenhuma surpresa, infelizmente já a esperava, sabia que algum dia iria ouvir de malgrado o que era inevitável: „Eu amo a senhora, e com isso gostaria muito de tê-la ao meu lado; quero pedir-lhe que seja minha mulher, caso essa idéia também a encha de satisfação. Quero pedir-lhe Etna que se case comigo. Sei que o que estou pedindo não é uma surpresa para a senhora, mesmo assim peço-lhe que se dê tempo para decidir-se; saiba que um sim de sua parte, me faria o homem mais feliz desta terra.“

Esta cena eu não a vivi; ela tampouco cabe mais nos nossos dias atuais; ela não é real – apesar de ser convincente – ela foi tirada – sem ter sido traduzida – de um dos romances de Anita Shreve All He Ever Wanted – Tudo O Que Ele Queria – seria mais ou menos o título em português (eu o li, porém, em alemão), publicado pela primeira vez em 2003 nos Estados Unidos onde a escritora nasceu e faleceu aos 71 anos em março deste ano. No fundo Anita Shreve não é a minha escritora norte-americana predileta; o título me pareceu um tanto brega, como de um romance cor-de- rosa, melodramático, sem exigências e desafios; o que me levou a lê-lo porém, foi a curiosidade por se tratar de uma estória que se passa no século passado, focalizando um homem maduro e apaixonado, e uma mulher que de leve tateia sua emancipação pelo puro direito de poder escolher a quem amar, numa época em que os casamentos ainda eram obras de decisão dos homens. O livro é narrado em primeira pessoa, pelo homem, Nicolas Van Tassel – o que não foi uma escolha aleatória da escritora – descendente de holandeses, professor de literatura inglesa e retórica ele é quem conta a estória, a sua própria história entre os anos de 1899 e 1935, sua paixão, seu amor obsessivo, ciumento e calculista por Etna Bliss, uma mulher de uma beleza especial, jovem e que nunca chegou a amá-lo, apesar de ter se casado com ele, e com ele ter gerado dois filhos (depois o enredo me fez lembrar e encontrar paralelos com Machado de Assis em Dom Casmurro). Mesmo sendo ela, Etna Bliss, o centro das atenções do narrador, aparece na estória como em pano de fundo, como imaginada e conduzida por ele, com raras reflexões e voz própria, incapaz de expressar o que sente. Subordinada ao discurso do narrador, ela está em suas mãos, moldada à forma que ele lhe dá, e não a que ela mesma subscreveria – mas não é este o modelo convencional da mulher daquela época? – E assim está exposta Etna Bliss, apática e estagnada pelos seus sentimentos ocultos, confinada às tarefas de benfeitora do lar e da caridade – mas nem sempre leal, como era de se esperar – e mantendo uma relação com o marido que funciona bem durante o dia, mas tornando-se fria e distante de noite, no momento da intimidade do casal. Seus breves diálogos com o marido me deram raiva – como tive raiva dela pelas suas abstenções e pelo seu silêncio pesado e constrangedor. Não é que Nicolas Van Tassel se desenvolva como um macho tirano – ele é até certo ponto condescendente – seu intenso desejo sexual e de ser amado por ela não o permite extrapolar os limites de sua decepção, pois os desejos se transformam sempre em uma nova esperança.

A literatura do século XIX estava comprometida com a sociedade que era na época um palco extraordinário para os literatos: o crescimento da produção industrial, as aplicações monetárias, as drásticas diferenças entre as classes, e seus conflitos, as relações amorosas,  foram usados como temas que nos deram até hoje um retrato da sociedade em forma de romance social. Mesmo que um tema, como entre outros o amor, o dinheiro, a política, possa subsistir no tempo, ele não permanece invariável por mais que ele seja verdadeiro – e um tema tanto é verdadeiro, como é para todos – o que muda é a forma de reconhecê-lo e interpretá-lo num dado contexto social e político e numa dada época. As reações de uma jovem que leu o romance de Leon Tolstói, Anna karenina, quando ele foi publicado na Rússia entre 1877 e 1878 e com uma jovem também russa que o lê nos dias atuais é bem diferente; assim como se acontecer se a jovem que o lê é brasileira – o que não é muito frequente – ela vai reconhecer sobretudo o amor de forma malograda de Anna karenina e dar-lhe novos contornos segundo suas experiências e capacidade crítica ao confrontar a estória com a sociedade atual, apontando novas soluções e até levada a corrigir comportamentos se a leitura a estimula, ou poderá até se divertir com alguns personagens e costumes de então – mas não é isso também que faz uma obra subsistir, quando ela ganha novas interpretações através do tempo? Li num blog que Tolstói não sabia que a sua obra iria chegar até hoje e fazer pessoas „chorar, rir, e apaixonar-se pela vida“, como ele mesmo disse; se alguém lhe tivesse dito isso, ele teria dedicado a sua obra a toda sua vida e as suas forças, afirmou. Quando assisti ao filme Madame Bovary de Claude Chabrol – tendo Isabelle Ruppert no papel de Emma Bovary, reparei com espanto que mulheres riam com desdém da personagem, me deixando irritada no momento por não ter compreendido no momento o quanto ainda havia dogmatismo entre as mulheres nos anos 90, ditas feministas. Anos mais tarde a velha personagem de Gustave Flaubert foi atualizada em Little Children – em português Pecados Íntimos – dirigido por Todd Field. No filme Emma Bovary é apenas mencionada por uma mulher jovem, casada e mãe – Kate Winslet no papel – num grupo de leitura com outras mulheres de idades diferentes. A jovem se reconhece no drama da personagem por também estar vivendo no momento uma relação extraconjugal e, ao contrário das outras mulheres, sem fazer julgamento, ela avalia o comportamento de Bovary livre daquele carácter de mulher fácil e desmiolada de então. Novos valores geram novas interpretações, e quem diria que Madame Bovary não ganhasse por fim a marca de feminista? O filme não termina numa tragédia; a jovem não precisa suicidar-se, como Emma o fez por vingança, por desespero, ou mesmo por não ter podido suportar o excesso de narcisismo; pelo contrário, após esse reconhecimento, ela se afasta de qualquer intenção de culpa ou de justificar-se pela sua infidelidade, o que isto impede o suicídio e faz ganhar a reflexão.

Etna Bliss não optou por se tirar a vida, preferiu abandonar o marido e os filhos – um ato impensado, movido pelo desespero, por vingança e por tantas abstenções e renúncias que no fundo não a favoreceram em nada. Ela não só foi vítima dela mesma, como também de sua época; seus anseios não eram tantos, e Etna se considerava com o devido direito de realizá-los – por quê não? – Etna nasceu um século depois da Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776 que promulgava entre outras verdades o direito à vida, à liberdade e a aspirar à felicidade, porque todos os homens são obras do Criador e por isso têm os mesmos direitos. São palavras tão abstratas como uma escultura que configurasse cada um dos termos evidenciados: vida, liberdade e felicidade – um idealismo – a quem „todos os homens“ está referido? Também às mulheres? Etna queria ser feliz vivendo o amor ideal, que para ela, era aquele desencadeado pela experiência erótica, e assim o experimentou intensamente, mas por infortúnio foi abandonada pelo amante – daí o casamento sem amor ao marido como uma vingança – a si mesma? Ao marido? A insatisfação de Nicolas com a frieza de Etna, ele aproveita para desviar a atenção de sua própria falta de habilidade na cama; seu desejo sexual não dá para acender uma chama de amor no corpo dela. Etna todavia ainda apelou à liberdade de possuir um bem, quando usou o dinheiro de um quadro herdado para comprar uma casa, um retiro, onde ela pudesse apenas experimentar estar livre através de atos simples: costurar à mão, tomar um chá, escrever cartas, ler, descansar. No entanto foi seguida pelo marido que a descobriu, desvendou seu refúgio e acusou-a de mentirosa e traidora. Depois só restou a Etna a vida – a vida pela vida – e por esta, para não morrer – por que teria que repetir a tragédia de Anna Karenina e Emma Bovary? – ela foi embora – abandonando tudo e todos – na esperança de ainda reencontrar-se naquele amor tão aspirado.

Por que as estórias de Anna karenina e Madame Bovary não passaram como erroneamente pensamos? Uma prova aparente são as refilmagens dos romances: Anna Karenina foi filmado onze vezes e Madame Bovary nove. Também as traduções são muitas, e cada uma que reaparece é uma tentativa de aproximar mais a linguagem do escritores aos nossos dias sem que os conteúdos sejam alterados e as sequências das ações sejam modificadas. Outra prova mais convincente é quanto o romance do século XIX é grandioso, e chegou a um auge talvez não alcançado e superado em outras épocas: o avanço técnico e científico não só favoreceram as guerras, mas também abriram as possibilidades de poder controlar tudo ou quase tudo; daí também se explica porque o papel do narrador do século XIX, sabedor de tudo e que controla tudo não é gratuito. E ainda mais: o fascínio que essas estórias nos exercem; além de serem os romances um espelho das relações sociais do século XIX somado à maestria estilística dos autores, também nos sentimos atraídos pelos seus dramas e tragédias, pelos amores e sofrimentos das personagens, porque tudo isto está dentro de nós desde muito cedo: o medo, o prazer ou os tabus, tanto a vida como a morte nos atraem, porque a vida não é somente os feitos, mas ela tem um fim. E por fim: Karenina e Bovary – Anna e Emma – não morreram para nós mulheres, suas tragédias também despertaram interesses nas feministas, como fonte de questionamento de como anda a consciência da mulher, a nossa consciência hoje.

Até as tragédias e os dramas nos mostram que nem tudo está perdido, resta sempre algo que daí pode ser um reinício; a memória, as experiências, os ganhos e as conquistas promovem os movimentos de mudança, mesmo quando estes parecem mais um retrocesso. Quando uma mudança social vem de um ato do legislativo, esperamos que os resultados dela sejam rápidos e evidenciados, para nos sentirmos seguras. Por outro lado passamos por situações diárias – em casa, no trabalho, nas aulas, em festas, na rua, etc. – que ainda estão longe de serem reconhecidas e classificadas como portadoras de agressões verbais, sexismo ou racismo. Para estas situações as mudanças são mais lentas e dependem sobretudo de nossas atitudes e reações. Um silêncio pode ser entendido como uma aprovação, e assim deixamos passar o momento de falar e atuar e acumulamos mais abstenções. Quantas vezes não voltei pra casa com raiva de mim mesma, decepcionada, porque me esquivei frente a outros e não disse o que queria e devia. Achava que se falasse, iria chocar o público, ofender pessoas e todos iriam presenciar minha fúria – uma vergonha, no fundo. É que eu não estava preparada para essas situações e tinha medo das confrontações. Quando eu fui votar no primeiro turno da última eleição para presidente, atrás de mim na fila estavam duas mulheres conversando; a que falava mais alto, reclamava da espera e da má organização das seções, usando uma forma mais negativa do que condizente com a realidade. Isto me molestou porque vi que se tratava de queixas infundadas, pois a espera era normal por conta de mais eleitores, e o processo de chegar até a cabine estava visivelmente organizado. Como podia me calar frente a mentiras? Falei calmamente, expus meus argumentos, e por fim disse-lhe que o seu negativismo era desagradável e chegava até mim influindo no meu bom humor. Ela calou-se de vez, e a outra olhou-me admirada exibindo um sorriso leve de confirmação. Senti-me satisfeita com a minha ação, pois no fundo o que eu fiz foi opor-me a suas palavras que não estavam certas, e estabelecer uma fronteira. Mulheres também se abstêm de situações por não se sentirem capazes e seguras de seus argumentos, ou por vergonha de terem uma posição. No Brasil os termos feminismo e feminista ainda têm um sentido negativo, algo como incabível, exagerado, inflexível, e mulheres têm medo de assumirem essa posição, que para elas seria como se estivessem revelando algo sem valor e até proibido.

Por mais que o governo de Jair Bolsonaro vá recuar as forças democráticas, fechar os olhos para o bem do nosso planeta terra em nome de um liberalismo desenfreado, e não apoiar as mulheres na luta pelos seus direitos e contra o despotismo masculino, mesmo assim não vamos voltar atrás – porque isto é impossível – já temos o legado de nossas pioneiras antepassadas, nossas próprias experiências e sabemos que os direitos não são dados de presente, mas sim conquistados com muita luta. Vamos seguir.

Dois anos e um mês de blog

 

Este ano o aniversário do meu blog passou despercebido no primeiro de outubro; foram os acontecimentos de então no Brasil com as eleições que me tiraram a atenção, assim como a morte de um ser querido da minha família não me fizeram lembrar que já tinha dois anos de escrever num blog, por isso publico hoje somando mais um mês ao aniversário e continuo firme na minha intenção de mantê-lo, esperando que nenhuma vicissitude da vida venha por ventura impedir-me. Também sigo firme no meu propósito de ter como tema central o feminismo, ou seja, a mulher no seu processo de autodeterminação e descoberta.

A experiência de estar aqui é tão grande como quase propriamente a de escrever – é uma comunidade enorme a dos blogueiros; não seria possível só escrever e publicar sem passar pelos colegas – suas postagens, seus estilos, suas intenções, seus esforços também – tem de tudo – e é quando não me sinto isolada, pois, sei, a interação é muito importante. Conheci gente muito boa, blogueiros sérios e comprometidos com a verdade; também bons blogs continuam me seguindo, enquanto eu só sigo alguns poucos, o que isto não quer dizer que ignore outros blogs – pelo contrário – é porque leio outros blogs e faço-o para dar-me conta do que passa no momento: blogs podem ser bem mais rápidos do que outros meios de divulgação. No entanto há outro aspecto nas postagens que me salta aos olhos: o comentário que eventualmente se pode fazer após a leitura de um texto; no fundo um ato democrático ao abrir possibilidades à livre expressão, o que, infelizmente, muitos e muitos não compreendem assim, ao acharem que a livre expressão não tem limites nem regras, e chegam sem estes a alcançar um nível não só baixo, mas indecoroso também. Li comentários horripilantes, de darem nojo as expressões usadas, ficando deles como única coisa, o fato de que eles existem, e em grande quantidade; na verdade revelam a temperatura dos leitores e põem à mostra sua capacidade tanto de expressar-se, como expressar suas reações. Nós blogueiros temos a chance de moderar os comentários que nos enviam e removê-los se não nos parecem apropriados. Algumas pessoas entendem isso como apenas um controle de poder ao deixarmos aparecer só os comentários que convêm ao blog para promovê-lo. Não penso assim. Entre um comentário crítico, mesmo não estando de acordo com a opinião do texto, e outro que não diz nada, a não ser palavrões e ofensas – fico com o primeiro por rejeitar o desrespeito e as barbaridades gratuitas do segundo. Na verdade existem comentários que não devem ser publicados, pela mera falta de coesão, senso crítico e de não ser uma contribuição positiva ao público de leitores.

Duas coisas foram importantes nestes dois anos – primeiro: aprender para amadurecer, pois o pré-requisito de amadurecer é ter aprendido, sendo eu ainda às vezes nada condescendente comigo mesma ao achar que meu estilo é assim e não de outro modo; meu vocabulário é insuficiente; não sou precisa e, e, e … assim vou sem me levar a nada significativo, a não ser que comece a ser condescendente comigo mesma, – e segundo: o blog me deu oportunidade de saber mais do Brasil, pois como vivo fora do país há muitos anos, não acompanhei, a não ser a grosso modo, os acontecimentos em sua extensão. Um exemplo recente é o caso da Marielle Franco que só vim a conhecê-la quando ela já não vivia mais; e muitos outros casos e notícias que me chegam ao conhecimento através de postagens. Li, por exemplo, recentemente num blog, que uma criança foi baleada em Ponta Grossa, no Paraná, por ocasião das comemorações de uma família pela vitória do presidente eleito no passado 28 de outubro. Com o blog me sinto mais próxima do Brasil, embora a maioria das notícias que recebo de lá, não me agrade.

Se faço uma avaliação do que escrevi nesse segundo ano de blog, alguns textos em relevância me cobraram esforço, como o Já um mês sem Marielle Franco, o qual escrevi sob uma forte tristeza e com o coração pesado pela sua morte repentina. Outro, Que „coisa“ é essa Clarice? eu o escrevi com base numa leitura apurada do seu conto Mineirinho de 1962. Este conto, que me parece mais um plaidoyer, é denso, profundo, complexo como a própria Clarice era e assim também a sua expressão literária; é uma visão do que está atrás das aparências e para que nos salvemos dela significa que devemos nos abster daquilo que nos revela gente – mas que salvação é esta que nos torna inimigos, em vez de fraternos? Escrever sobre Mineirinho me custou menos trabalho do que elucidar as frases de Clarice, sair de sua superfície – às vezes aparentemente fácil – e passar a compreendê-las, não de forma acadêmica, mas como base existencial. E por fim a minha postagem de agosto É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos, a escrevi com base num caso real passado no sul da Alemanha e onde também este ano ocorreu o julgamento da mãe e de seu parceiro acusados de haverem abusado sexualmente de uma criança, o filho da mulher. Escrever sobre esse caso foi como um grito de alerta aos clichês que envolvem cuidado, amor, responsabilidade em volta do papel social e afetivo da mulher como mãe. Esses clichês nos impedem de encarar a mulher além do prescrito pela identidade de gênero e de tocar em tabus em volta do papel da mãe. A pergunta é até que ponto o feminismo também seria responsável por discriminações e separações, criando da mesma forma construções discursivas e culturais. São perguntas relevantes, são elucubrações pertinentes que fascinam meu espírito inquieto – daí o inevitável E Agora Mulher?

Pudesse escrever mais, publicar com mais frequência – faço-me mesma estas críticas ao não considerar que certas circunstâncias na minha vida não me permitem isso – por outro lado escrever para mim não é nada gratuito, tem que ver com estar convencida do que quero dizer e até de sofrer no ato da expressão – é um desafio e assim será.

Agradeço aos amigos que acreditam em mim, a meu marido, que mesmo sem saber português, procura entender a nada boa tradução do google – obrigada querido – e a todos aqueles que mesmo sendo de forma virtual, me ajudam a prosseguir.

Uma coisa boa

 

Desde o início dos debates públicos do #MeToo as mulheres têm avançado na luta contra o desrespeito, a discriminação e os abusos sexuais, demonstrando coragem, poder de decisão e tornando o movimento mais amplo, sobretudo quando homens também vítimas de investidas sexuais podem se juntar a elas e denunciar ataques sofridos não só de homens, mas também de mulheres. É quando o hashtag pode ir mais além de só querer ver as mulheres como vítimas – embora o número delas como vítimas seja extremamente desproporcional ao dos homens – e passar a ampliar seu teor democrático: todos têm voz e poder de expressão porque o mais importante é o que define o próprio movimento, ou seja, o hashtag MeToo tem que ver com, acima de tudo, denunciar os abusos de poder em forma sexista e discriminatória, como também fazer frente a aqueles que defendem a impunidade e rejeitam a credibilidade das vítimas num sistema que faz prevalecer o silêncio à denúncia e assegurar o comportamento abusivo como normal. Mas isto é tudo? Pelo menos parecia que era tudo até que o presidente americano Donald Trump começou a querer tirar vantagens do movimento para o seu próprio benefício. Isto passou numa de suas viagens pela sua recandidatura à presidência no Estado do Mississipi. Ele desacreditou da professora universitária Christina Blasey Ford por ter ela denunciado o juiz Brett Kavanaugh de uma tentativa de violação no início dos anos 80, quando tinha então 15 anos. Trump, que se pôs ao lado do juiz Kavanaugh – claro – usou de zombaria para qualificar a professora de mentirosa, enquanto procurava grotescamente imitá-la por um lapso de memória, uma hesitação – o que é de se esperar ao se expor num depoimento como esse:

Ele: – “Eu tomei uma cerveja, certo?
– „Como a senhora chegou em casa?“ „Não sei.“
– „Onde passou isso?“ „Não sei.“
– „ Há quanto tempo atrás passou isso?“ “Não sei mais.“
– „Não sei, não sei, não sei.“
Isto mostra até que ponto chega Trump para que o público ria junto com ele, aplauda-o, confirme-o, mesmo fomentando a desigualdade, o ódio, a indiferença. É também uma das mostras de quão polarizado se encontram os Estados Unidos; se por um lado o país é sede de iniciativas novas como o próprio MeToo – por outro lado é exatamente o contrário: seguidores do presidente encontram confortavelmente na sua gestão terreno propício para disseminar o desrespeito, o descaso e o menosprezo às mulheres, aos negros, aos estrangeiros; não lhes interessam nem a dignidade nem a coragem de Christina Blasey Ford ao deixar público um fato de sua vida, que a marcou para sempre, independente de que ela tenha tido culpa nele ou não, porque o papel da culpa foi o que menos valeu no show do depoimento, mas sim o que se pôde fazer para eliminar o inimigo – e ela era um inimigo em potencial – uma inimiga do conservadorismo.

A já mastigada pergunta do „por que só agora, depois de tantos anos ela faz a denúncia?“ falta raciocínio, não leva em conta o passado – ou por medo de encará-lo, ou por indiferença pelo que passou – estimula a repressão e faz da história um esquecimento, o qual este serve como tática para manipular o presente. Com tudo isto, as mulheres que sofreram, não importando a forma, se verbal ou física, investidas sexistas e discriminatórias não esquecem. Elas não esquecem porque sentem o que passou como uma ferida; para as que sofreram violentos ataques físicos – apalpações agressivas, e sobretudo violação – essa ferida sangra para sempre; traumatizadas essas mulheres não vivem com relaxo o seu dia-a-dia, pois as lembranças voltam e voltam, se não bem na memória, bem mais por sensações físicas de pânico, tremores e a terrível paralisação que impede reagir – momentos de alto grau de violência, como os de ser estuprada, por exemplo, podem provocar na vítima um mecanismo que faz escapar do presente como uma tática frente ao horror; futuramente esses momentos encontrarão, ao virem à memória, um certo filtro como algo nublado pela necessidade que a vítima teve de recorrer a esse mecanismo. E para nós todas que sabemos o que é ser verbalmente discriminadas pelo sexo ainda nos falta a medida certa de como reagir a esses ataques, a qual vem de uma consciente aprendizagem de como autodeterminar-se. A sociolinguista americana Deborah Tannen, conhecida em português pelo seu bestseller Você Simplesmente Não Me Entende – O Difícil Diálogo Entre Homens E Mulheres estabeleceu dois eixos na comunicação: vertical versus horizontal. O vertical tem que ver primeiro com o uso de poder – hierarquia, funcionalidade – já o horizontal, ao contrário, denota primeiro o conteúdo, a solidariedade, transmitindo a sensação de que o outro faz parte do diálogo – ele não é um estranho. Esperar uma mudança daqueles que pensam verticalmente usando o que se chama High Talk – conteúdos intelectuais, frases de sentido moral, etc. – como reação a uma ofensa ou insulto, não vai mudar nada, porque está visto que a vítima foi pega e dentro das relações de poder ela se encontra bem abaixo. Que fazer? Devolver na mesma moeda a ofensa? Bem melhor nunca perder os nervos, e para isso é preciso se conscientizar treinando formas de superar o ataque sem perder a sensação de sentir-se confortável e segura, ou seja, falar devagar e firme encarar o tal, o autor do ataque, olhando-o nos olhos e calmamente dar-lhe uma resposta. Nada de solidariedade, de confiança, pois a comunicação não se encontra no eixo horizontal, e o fato de que as situações são diferentes, o melhor é estar preparada para enfrentá-las. Pergunto-me se isso não parece mais um estado de guerra. É sim, uma guerra sem armas de fogo, mas com o uso da coragem, da perspicácia e da calma podemos fazer frente aos inimigos. Mulheres perdem inúmeras oportunidades de reagir à altura investidas sexistas – fazem vista grossa, se envergonham, não podem acreditar que tal absurdo possa acontecer com elas, ou se paralisam – machos sabem como investir em mulheres a durabilidade de suas posições de poder; eles não agem por brincadeira – como deixam transparecer – eles as observam, as testam para saber até onde podem chegar. Eu que não trabalho com um grupo de pessoas, posso porém imaginar a insegurança, a falta de conforto e o mal-estar daqueles e daquelas que são levados a ser alvos de brincadeiras maliciosas e até ao ridículo ou ao escárnio. Até onde ou até quando vai isso? Até quando as sociedades tiverem superado „as coisas ruins“ através de esclarecimentos, de educação para o sentido de respeito e igualdade como também de lutas? Também me pergunto assustada se por um modelo reduzido e simplista não seriam essas lutas assim como lutas entre o bem e o mal? Não creio. A História toma dialeticamente seus rumos; há sempre um desenvolvimento histórico nas lutas de classes, o qual não sabemos para onde vai, mas uma coisa é certa: se não lutamos estamos perdidos. E se pensarmos se o fim „das coisas ruins“ seria correspondente ao fim do patriarcalismo, chegaríamos a pertinente pergunta dentro do próprio feminismo: teve o patriarcalismo um início numa época tal? Então se houve um início, também terá um fim? Como no ciclo vital? (1)

É certo que o MeToo desencadeou outros hashtags, uma forma de organizar mulheres através de uma chamada capaz de ser comum a todas elas; o #EleNão no Brasil, por exemplo, o qual considero ímpar no desenvolvimento de uma consciência política das mulheres brasileiras. A necessidade de ter sido criado foi oportuna dentro do contexto político do momento, apesar de ter sido tachado como um movimento de elite branca, da esquerda, claro, ou como uma ação petista contra o petismo (*) – para mim as duas alternativas são falsas. „O EleNão vai muito além do PT“ (2), vejo-o como resultado de uma polarização, pois o momento de decidir sim ou não ao fascismo falou mais alto, daí a chamada das mulheres unidas contra um candidato à presidência que personifica a coisa ruim – a misoginia, a discriminação pelo sexo, pela cor e origem, o caráter ditatorial e o emprego da violência – fez surgir o EleNão, assim como a necessidade das mulheres de usarem a expressão e de tornarem-se estratégicas e consequentes, e principalmente serem ativas expondo-se e saindo às ruas. O movimento teve muita repercussão positiva no estrangeiro – foi melhor entendido, digo eu – e mesmo que o objetivo imediato não vingue, não é isso nenhum fracasso. O passo em direção à autodeterminação já foi dado e só o futuro mostrará isso com certeza, o que será uma coisa boa – assim espero – EleNão.
(1): Esta pergunta me veio por ter lido Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade de Judith Butler, no segundo capítulo.
(2): Parte do título de uma postagem de Raquel Rolnik em Blog da Raquel Rolnik,

(*): lêa-se antipetismo

 

 

Próximo post: 1/11/2018