Um Natal Diferente

Desde setembro já sabia que iria passar este ano um Natal diferente. Esta claridade rápida como um relâmpago não me veio nem como um protesto, nem por aborrecimento ou preguiça, mas bem por uma forte intenção, desencadeando  em mim atitudes e decisões claras que me levaram já em pleno mês de dezembro, mês de estresse pelas super-compras, a sentir-me aliviada e leve, sem a pressão das listas de presentes de antes, das várias idas ao supermercado -porque sempre se esquece de algo – e da obsessão pela ceia de Natal. É que vivo num país, no qual o Natal é uma grande celebração familiar onde as comidas e os presentes estão no centro e são até mais importantes do que o seu próprio sentido cristão. Considerando    isto, parti não querendo desejar nada: roupa nova, sapatos da moda, um perfume sedutor, a bolsa que sempre quis ter… “Nada disto”, disse-me categórica, sem medo de assumir o meu novo “outfit”, cujo modelo me cabia muito bem pelo momento e continuei assim segura de minha decisão até ao ponto em que comecei a perguntar-me inquieta: “mudei tanto assim que cheguei ao ponto de não querer saber nada de Natal?”, “É o peso da idade ou não estou mais segura?”
Toda decisão envolve tanto aspectos emocionais como racionais, podendo ser os primeiros até bem mais fortes do que a imposição de uma cabeça fria. Para reiterar isto posso lembrar o caso de Elliot, um paciente do famoso neurologista e neurocientista português Antônio Damásio, que o operou de um tumor na parte pré-frontal do córtex, ou seja, bem atrás da testa nos anos 80. Após inúmeras conversações com o seu paciente, Damásio verificou que Elliot, apesar de não ter perdido a memória nem a inteligência, não nutria sentimentos; tudo lhe dava a mesma impressão e não podia tomar decisões: „Não captei emoções e sentimentos nele, como tristeza, frustração e impaciência“, afirmou. Era que o tumor de Elliot, embora pequeno, estava localizado na parte do cérebro responsável pelos sentimentos e pelas emoções. Damásio deu-se conta de que o problema de Elliot em não poder decidir era porque lhe faltava  a capacidade de sentir, ou seja, ele precisava de um tempo quase interminável só para escolher um prato do cardápio.
Até então, ainda o século vinte, dominava o pensamento cartesiano que separava corpo e mente; se julgava que a nossa capacidade de decidir com acerto residia na razão; as emoções e os sentimentos só atrapalhavam; mas não para  Damásio que já pensava o contrário: „sem sentimentos estamos desamparados“ e escreveu um livro que o deixou famoso internacionalmente em 1995: O Erro de Descartes – Emoção, Razão e o Cérebro Humano.
Voltando a mim e as perguntas que me fiz quanto à minha resolução, elas só me ajudaram a contemplar melhor a minha situação e ver-me como agente de uma decisão bem devida, mas que tomada a priori, só pelo lado da vontade. O fato de que as perguntas me inquietaram foi porque faltaram na minha decisão os elementos racionais e de conhecimento; no fundo eu não sabia bem em que iria resultar esse boicote, apesar de ele só me favorecer em poupar-me  estresse. „Então, por que é  que estou boicotando as festas natalinas?“ „ Acho que você está muito negativa.“, me disse uma pessoa ao acabar de ouvir o som de minha trombeta, sem que esta tivesse anunciado a entrada do Natal. Boicotar ou estar negativa são etiquetas que nada valem se não procuramos a razão da nossa insegurança. Acho que não sou a única „neste mundinho de meu Deus“, como canta a Rita Lee, procurando outra alternativa, tentando encontrar-me a mim mesma sem ferir os outros – o que é muito difícil – usando a intenção para explorar outras vivências; e não por estar envelhecendo – como pensei – pois isto é algo natural, acontece independentemente do meu querer. O que tentava era, por outro lado, algo individual, dependente de um processo consciente. Queria amadurecer. E para amadurecer é preciso fazer alguma coisa, concluí.
Festejar o Natal é um fato; deixar de fazê-lo como é mister, também é um fato, e mesmo assim o Natal não deixa de existir para aqueles que o boicotam; continua existindo sim,  mas fora da onda, e esta, impregnada de apelos do comércio, leva as pessoas a cumprir o que a publicidade manda, instituindo uma fórmula de como ter boas festas. Dar ao Natal, hoje em dia, seu tom religioso não é mais natural; esta festa cristã foi transformada em festa do consumo que já  traz de ante-mão um modelo estilizado de alegria, quanto ao que se deve cumprir para encaixar-se bem no espírito dele. Normalmente as mulheres estão no centro desta festa e sentem-se responsáveis, às vezes sozinhas, por toda a festividade, incluindo as comidas, a decoração… Quem pensa melhor do que elas na roupa das crianças e nos presentes? E não só isso, embrulhá-los também.
Como tradição o Natal é antônimo de solidão e querer afastar-se de tudo aquilo que o compõe como uma festividade forçada é difícil e pode até ser visto isto como uma traição, pois a sua celebração é um ritual que implica sobretudo em estar em harmonia com o outro – é a festa do amor – mas que também pode ser um suplício para muitos  -ou a data ideal para provocar brigas entre  as pessoas, talvez por se dar à harmonia mais um sentido de imposição do que deixá-la fluir naturalmente.
E agora conforme às minhas intenções e fiel à minha decisão o meu Natal vai ser ir à missa às 22 horas – que nem é a missa do galo, pois este não canta tão cedo assim – e ainda mais: sem pôr roupa nova e sem ter ido ao cabeleireiro, mas segura de que é assim que quero passá-lo.

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