A susceptibilidade de “Escreva Lola Escreva”

Este post é um comentário ao que captei como interessante para mim do blogspot escrevalolaescreva. Claro que este blog abrange mais temas que o referido aqui.
Não me prendi à variedade de interesses da autora, como política, cinema, viagens,
etc., nem a sua pessoa; tentei apenas ressaltar o papel feminista do seu blog dentro
do contexto brasileiro.
(As datas entre parênteses correspondem aos posts de onde os trechos citados foram retirados)
Nada mais comum do que duas amigas irem a uma festa para se divertirem, mesmo sendo uma delas uma escritora bastante tarimbada e diversificada em temas como meio ambiente, direitos humanos e feminismo – é que intelectuais também se divertem! –  No fim da festa quando as duas já queriam ir embora, interpôs-se entre elas o anfitrião apelando para que ficassem mais um pouco, pois ele ainda não tinha tido a oportunidade de conversar com elas, e dirigindo-se a nossa escritora em questão num tom desdenhoso, começou a falar de um livro muito bom e  recentemente publicado sobre o fotógrafo inglês já há muito tempo falecido Eadweard Muybridge.  Seu tom também arrogante acentuava uma presunção como se ele estivesse falando com “uma menina de sete anos na sua primeira aula de flauta”. No entanto não sabia o tal que ela era a autora do livro, o qual ele tentava explicar-lhe, e por mais que a sua amiga se esforçasse em dizer-lhe que ele estava falando com a própria escritora, ele não a escutava. Por fim se deu conta de sua desvantagem diante dela, até então julgada apenas como uma party girl, e claro, de nível intelectual inferior a ele, calou-se. Que cena grotesca! Esta experiência, nunca esquecida, levou-a anos mais tarde a escrever um ensaio, que se tornou famosíssimo, sob o título “Men Explain Things To Me”: Quando homens me esclarecem o mundo (a tradução é minha), primeiramente publicado numa plataforma dedicada a artigos de opinião crítica.

A autora a quem acabei de me referir é Rebecca Solnit, americana, nascida em 1961 na Califórnia . Seu texto, acima citado, foi como uma ferida aberta e ocasionou o aparecimento da expressão Mansplaining, até já usada por Hillary Clinton  – que em inglês é uma aglutinação do verbo explain (esclarecer) e man (homem), significando que o homem é quem melhor sabe das coisas e por isso tem a tutela do conhecimento – como também iniciou discussões quanto a quem pertence o saber, o conhecimento e o esclarecimento do mundo. Só aos homens? A partir daí as reações foram inúmeras, apareceram artigos de mulheres que passaram por experiências parecidas, como também cartas de homens que tentaram corrigi-la ou restringir o seu ensaio a uma experiência individual: “ Tem mais que ver com você que se deixa depreciar”…  Mas por outro lado, o que tudo isso tem que ver com o blog Escreva Lola Escreva? Muito.

Tanto Rebecca Solnit como Lola Aronovich, cada uma a sua maneira e vivendo em sociedades bem distintas usam seus meios de expressão para tocar bem no fundo uma ideologia já há muito tempo cristalizada como o machismo, e assim conseguem causar repercussão social atraindo, sobretudo, mulheres para um mesmo foco de interesse e abrindo discussões necessárias. E ainda mais: as duas conhecem as consequências do que
é mostrar claramente comportamentos masculinos autoritários frente às mulheres porque homens se dão conta dessas investidas, nomeadamente aqueles que se identificam com
elas e fazem de sua participação nas redes sociais um meio de deslegitimá-las.

No contexto de Solnit as reações masculinas marcaram não somente intenções de elucidá-la sobre o que ela “provavelmente” não conhece – acreditam eles – mas também dirigi-la em sua forma de comportar-se – no fundo eles queriam ensiná-la a ver o mundo segundo seus olhos.

Quanto a Aronovich, infelizmente uma parte das reações ao seu blog é de nível nitidamente inferior; as críticas a ela são agressivas e de forma a degradá-la moralmente, puni-la e até ameaçá-la de morte, como mesma constatei. É a expressão desesperada de homens “reaças”, “mascus” e “misóginos”; é o terror que ora se alastra por meio da internet. Como ela mesma escreveu: …” eu não sou ameaçada por ser Lola ou por meus lindos olhos verdes. Sou ameaçada por ter um blog feminista.” (30-12-14)

Cheguei casualmente ao “Escreva Lola Escreva” no ano passado quando estava à cata de blogs de opinião feminista para melhor conhecer o campo de ação onde eu estava prestes a entrar com o meu blog pessoal. O primeiro que vi foi uma fotografia de cores pardas de uma menina sorrindo – a própria Lola, pensei – enquanto tem cada uma das mãos ao lado da boca, num gesto de querer anunciar algo. De imediato pareceu-me acertada a escolha da fotografia com relação ao nome do blog, levando em conta seu próprio processo de amadurecimento: a infância, a fase onde a expressão é sobretudo oral até a idade adulta, caracterizada pela prioridade da expressão escrita. E assim estava justificado o nome do blog para mim. Gostei. Mas mesmo assim confesso que me choquei um pouco mais adiante com a crueza das palavras e de algumas fotos; as acusações diretas aos “reaças” e “mascus” que “não sabem nada de nada”; um vocabulário especial dirigido aos “caras” e uma série de comentários como água fervente, porque neles, como canais abertos, vê-se claramente os ataques “deles” ao conteúdo dos posts. Senti que o ambiente era quente em comparação com outros blogues feministas que também comecei a observar, e não demorou muito para que eu me acostumasse com a sua linguagem: “Eu sou mulher, sou feminista, tenho peito, não tenho medo. Pra mim “aquilo roxo”, balls, cojones, nunca foram sinônimo de coragem. Coragem é enfrentar todo um sistema que insiste em perpetuar preconceitos.” (2-6-11) e começasse a captar a importância dele atualmente no contexto social brasileiro: não vivia só de acusações ao machismo, mas também era um espaço aberto capaz de impulsionar um movimento já vigente no Brasil e de servir de voz – aquela voz penetrante que não tem medo das palavras, repetindo sem dó termos como “cultura de estupro”, “aborto legalizado”, “homofobia”, “ódio destilado” –  que incomoda, e sem usar frases complicadas, mas chegando a um nível ao qual os “sujeitos”, contras radicais entendam: “… mas é o que sempre digo: se rola resolvesse algum problema, homens reaças não seriam o fracasso ambulante que são.”(23-11-17)  Lola Aronovich não apela para a diplomacia, ela sabe muito bem que no estado das coisas é preciso combater com as mesmas armas ou retirar-se; mas ela não se retira, ou melhor, nenhuma se retira, e em vez disso Lola escreve como numa campanha elucidativa para mostrar que mulheres no Brasil são humilhadas, insultadas, espancadas, estupradas, mortas. Por homens. Nessa luta quem é mais inteligente e quem melhor argumenta sobre o que é verdade, ganha. Quem só exerce violência não vence, mas quer eliminar o outro em vez de deixá-lo viver. Lola sabe que com outro tipo de linguagem não teria o seu blog uma grande ressonância e até também por parte dos “reaças”: “Sou a única feminista que reaças conhecem em seu mundo falocêntrico.” (23-1-17)

É nesse espaço aberto que muitas mulheres podem declarar suas queixas, fazer confissões de fatos horrendos passados em suas vidas e ver que outras mulheres também passaram por situações semelhantes; é que muitas das quais, certamente, nunca tiveram a oportunidade ou a coragem de expressar-se de forma pública. O blog da Lola oferece esta oportunidade e mais, serve até de conselheiro, sendo necessário, a aquelas que necessitam ser ouvidas e receber apoio moral. É quando Escreva Lola Escreva cumpre sua função de utilidade pública (também reconhecida num dos comentários), antes realizada pelos velhos consultórios sentimentais de revistas exclusivamente femininas – mas não feministas – alentando para uma nova consciência e mostrando novas direções: “Nós estamos fazendo a nossa parte para mudar o mundo e não vamos parar. E você, R., faz parte desse nós.” (21-9-16)

A susceptibilidade desse blog que se confunde com a autora tem que ver mais com os  feedbacks negativos que recebe dos “caras” – às vezes até como perseguições – e isto foi o que me motivou a segui-lo e a perceber que esta tendência, mesmo mostrando-se negativa, tinha dois lados interessantes: sem esta susceptibilidade estaria o blog hoje na posição de ser o mais lido ou um dos mais lidos do Brasil? Através dele podemos ver caras, as dos “caras” e suas intenções – Lola as exibe sem sentir vergonha, pois esta só limitaria seus objetivos feministas. Esta qualidade susceptível, passível de receber ofensas é por outro lado também um meio de como se medir a temperatura do machismo local. Eu que vivo fora do país há muitos anos, foi lendo o blog da Lola que me dei com a cara do macho brasileiro, e fiquei horrorizada com a falta de escrúpulo e principalmente com a baixeza de suas declarações quando referidas a mulheres.

O feminismo em muitos países como o Brasil é o que faz com que mulheres possam se levantar, quando caem por pancadas recebidas e não são devidamente acolhidas por leis. Mulheres que se deixam ser surradas por fraqueza ou por estarem em total dependência de seus vilões, precisam de leis que as protejam e precisam do feminismo como aparato social capaz de esclarecer-lhes as raízes de suas desventuras. Homens precisam aprender que uma mini-saia ou mesmo uma parte do corpo à mostra não é um convite para o ato sexual; a crença de que mulheres podem estar à sua disposição gera equívocos incabíveis: um sorriso pode ser entendido como um consentimento, um silêncio como um sim e o encontrar-se sozinha pode conduzir ao estupro. Como apelar para o bom senso? Como defender-se? A missão do feminismo é encontrar essas respostas e muitas outras urgentes, antes que os ataques e a violência contra mulheres sejam mais rotina do que já é. E…
“Que fique claro. Se você demoniza feministas, se você ataca feministas,
se você chama talvez o maior movimento revolucionário do século XX
de “modinha da internet”, se você faz graça com estupros e violência
doméstica, não tem jeito: você é misógino. E você é acima de tudo
ignorante, porque você também se beneficiaria de viver num mundo
sem violência contra as mulheres.”  (22-2-16)

2 comentários sobre “A susceptibilidade de “Escreva Lola Escreva”

  1. Muito bom, Mariluz! Infelizmente, só vi esse seu post hoje. Será que eu poderia publicá-lo no meu blog? Pode me responder por email. Abração, e prazer em te conhecer.

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  2. Querida Lola, obrigada por ter lido e gostado do meu post que no fundo o escrevi em função do seu blog. Antes de publicá-lo lhe mandei um email informando-lhe, mas acho que você recebe tantos emails que não pôde ter-se dado conta do meu. O seu blog – tão importante dentro do movimento feminista brasileiro – está no centro desse post. Tudo começou ao ler comentários de baixa categoria em alguns de seus posts: fiquei tão indignada que achei que devia fazer alguma coisa, e como tinha acabado de ler o artigo de Solnit, achei paralelos entre vocês e daí surgiu “A susceptibilidade de Escreva Lola Escreva” também como uma avaliação oportuna do seu blog. É um prazer Lola que você o publique no seu blog – o meu post foi também uma homenagem ao seu trabalho.

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