O bê-á-bá de Judith Butler

 

Antes de começar este post li muitos textos de blogs sobre o que se denomina hoje a „questão de gênero“. Uns muito bons, alguns bem extensos, outros com pretensão erudita e nenhum deles fácil de ler; todos apresentaram dificuldades de compreensão por serem complicados, e até melhor dizendo herméticos. Como poder abordar de forma concisa o que não pode ser conciso? Perguntei-me várias vezes onde se assentava esse caráter abstruso, fechado, não proporcionando um prazer na leitura pela sua inteligibilidade, nem podendo ser absorvido pela mente de quantos tantos leitores interessados, fazendo o texto renascer ao ser captado. O que passa é que explicar o que é o gênero, e o que dele precede é difícil pelo complexo que é o seu entrelaçamento com diversas disciplinas, também difíceis, exigindo entrar em ramos do conhecimento, como a antropologia, a linguística, a filosofia e a psicanálise, onde nelas o lugar comum da expressão é incabível; e falar de gênero hoje em dia é quase impossível sem mencionar Judith Butler.

Quem conhece Judith Butler? Nos meios acadêmicos e feministas, ditos intelectuais, ela é conhecida, fora disso não é acessível. Soube de sua importância já tarde, há uns anos atrás; primeiro quis ler algo sobre ela e sua obra, então procurei a Wikipedia como primeiro passo – foi horrível, não entendi nada – e, para não achar-me ignorante, resolvi pôr a culpa no autor do texto da Wikipedia dizendo para mim mesma que ele, para disfarçar sua falta de conhecimento no assunto, abusou de estruturas sintáticas complicadas. Desisti, mas sem que ela tivesse saído de minha cabeça não só como autora de uma obra relevante, da qual eu devia me inteirar, mas como aquela que tinha provocado uma intensa discussão exigindo uma revisão do pensamento sobre os determinantes da sexualidade no social e cultural – foi assim como primeiramente a captei; outrossim sua presença constante em textos e bibliografias de teorias feministas, me forçava a tomar conhecimento de sua teoria, pois sem ele pagaria nos dias atuais um preço muito alto, ou seja, sem Judith Butler é inconcebível querer entender as novas tendências do feminismo; assim resolvi comprar um dos seus livros mais importantes, cujo título em português é: Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Publicado nos Estados Unidos em 1990, no qual ela apresenta a sua teoria sobre o gênero, fazendo parte essencialmente dos Gender Studies. Esta obra é bastante complexa e coberta por um conhecimento amplo que exige tempo prolongado de leitura, por não ser nada fácil de entender as suas idéias entravadas nos pensamentos de autores de grande erudição como Michel Foucault, Jaques Lacan, Julia Kristeva e outros. Que fazer? Senti que estava frente a um desafio com a minha própria capacidade intelectual – eu que não pertenço a nenhuma das áreas do conhecimento antes mencionadas, sou apenas formada em letras, sem mestrado e sem „os doutorados da vida“ – perguntei-me como escrever sobre sua teoria – desde já estava claro para mim que não seria uma resenha, pois esta não era a minha intenção – e se só o fato de ser curiosa e interessada por algumas tantas coisas que me rodeiam fossem suficientes para tal ousadia. Também temia não compreendê-la, mas isto se desfez quando se abriu para mim alguns de seus interesses e propostas – claro que suas pretensões vão além deste pobre texto – e também por ter-me perguntado a priori o que era importante para ela. O que queria ou aonde queria chegar? Estas perguntas me levaram a estar aqui e tentar de forma o mais pessoal possível escrever sobre o que tenho entendido de Judith Butler. Ainda assim me sinto sob uma alerta que me diz: Cuidado! Você está pisando numa areia movediça.

Judith Butler é uma erudita de primeira mão; o que mais me chamou atenção nela foi a sua coragem de abrir de maneira tão intransigente um tema tão arraigado na nossa vida como o gênero; contudo ela não é pioneira, o tema, de maneira crítica ou não, já tinha começado a ser abordado por outros já nos anos 60. No entanto ela questiona tudo, é mais rígida que Simone de Beauvoir no „Segundo Sexo“ e se ocupa do tema como uma forma de conhecimento e não como uma doutrina.

Quem não aprendeu a categorizar o gênero e determiná-lo sem pestanejar em masculino e feminino, assumindo-o assim inalterável e padronizado como uma bipartição natural? Esta é a idéia que temos dele e estamos acostumados a pensar assim, no entanto esta concepção, adaptada a isto ou aquilo, é reduzida demais com respeito a ele, e sair deste foco binário, é „abrir-lhe possibilidades“. Butler acha que a noção que temos de gênero como algo fixo e categórico e, ainda mais, tomado como natural é falsa. Em vez disso afirma que ele foi construído socialmente, usando o termo „performatividade“ , como resultado de uma série de repetições discursivas (através da fala e do imaginário) criando assim uma estabilidade de caráter normativo, e mais, fazendo prevalecer uma hierarquia – o que, quem está em cima ou está em baixo na escala social – e impondo um modelo de sexualidade, tido como correto, ou seja, o heterossexual.

Basicamente falando, a nossa língua portuguesa em comparação com outras línguas dispõe de uma facilidade aparente ao distribuir certas classes de palavras em apenas dois gêneros. Esta redução binária, porém, não suporta certas vicissitudes ao ter que representar seres, mesmo estando eles marcados pelo sexo biológico. Um exemplo disto é o que a gramática denomina de comum de dois um substantivo atribuído aos dois gêneros ao mesmo tempo: “a testemunha”, por exemplo é quem é chamado para depor, etc., podendo ser um homem ou uma mulher; ao passo que “o testemunho” é um ato ou uma ação. Outra coisa no português vista por alunos estrangeiros como uma imposição gratuita é a prioridade que se dá ao masculino no plural para um grupo misto. Estas incongruências não foram, e talvez nem sejam ainda, observadas na escola como imposições de um discurso marcador de relevância, e mostram como o gênero não tem que ver com o sexo do substantivo. Quem é a criança? Um menino ou uma menina? Para Judith Butler a partir daí, já nesta distinção o sujeito é levado a identificar-se com a sua identidade sexual e de gênero, crendo que ela “responde a sua essência interior”, o que para Butler é uma ilusão. Neste ponto muitas pessoas ficam perdidas, como foi o que passou quando quis falar sobre isso com algumas mulheres: a primeira reação foi de espanto, quando não de desespero – então devo criar minha filha como um menino e meu filho como uma menina? – O temor de perder a identidade é o mesmo que, segundo Butler, têm homossexuais de se assumirem publicamente como são, e assim perderem o lugar que ocupam ao pertencerem a um gênero estabelecido, mesmo sendo gays ou lésbicas. O controle social não se retrai, usa um vocabulário que ofende a reputação ao divulgá-los como maricas ou sapatão, palavras que só de forma oblíqua se reconhece o que significam: maricas, por exemplo, perde seu sentido carinhoso e familiar de ser Maria (Maria+ica) e passa negativamente a referir-se a homossexuais. Sapatão passa pelo mesmo processo: homens geralmente calçam sapatos grandes e não mulheres. Assim uma das intenções modestas de Judith Butler, como ela mesma diz, ao querer dar chances possíveis ao gênero, mesmo sem mencioná-las quais, pois é suficiente que aqueles que vivem num mundo, no qual conhecem o que é ilegítimo, sabem quais são.

Então o que se opõe ao modelo binário é a diversidade, a possibilidade de existir naturalmente outros modelos, outros contextos, a livre opção. Fui educada, como nós todos e todas, sob o velho pressuposto de que a naturalidade do sexo biológico era tudo, pois nos concluía materialmente como macho ou fêmea. Tudo bem, mas não é tudo, diz Butler, porque impõe exclusões e não vai mais além das fronteiras do social. Deste modo, para ela, o sexo também é algo construído assim como o desejo. Que diferença faz ele ter um pênis e ela ter uma vagina? Sem pensar se responde: muita diferença. Certo. Contudo a diferença que daí resulta foi dada em nome de uma supremacia dada a uma das partes, ou seja, as diferenças nítidas são a causa de fixar o que é melhor ou mais forte, ou o que é importante ou não. Judith Butler diz que assim nos fazemos sujeitos ao assumirmos o sexo e o gênero como identidades fixas, criadas e construídas para nós e também por nós, dentro das quais existem estruturas de poder.

Segundo Michel Foucault, o poder do discurso e da fala é o princípio de construção fundamental formador da realidade, assim como esta realidade é representada pelo discurso culturalmente construído. Deste modo o sujeito, manifesto pelo discurso, é o fazedor da realidade. Acho que Judith Butler parte exatamente do momento em que o sujeito se confronta com o poder – o poder de discursar: influindo, incluindo,excluindo, afirmando, negando, em fim produzindo categorias de conhecimento. Já muitos anos antes de Michel Foucault, John Langshaw Austin disse que as palavras e o que elas dizem são mais do que sua matéria acústica – o som – elas são fatos, declarações que fundam uma realidade nova.
Daí apresenta Judith Butler sua famigerada e terrível tese que no fundo se pode resumir de forma básica em: homem e mulher são construções sociais e não naturais. Por exemplo, as mulheres menstruam. Esta declaração é a descrição de algo natural na fisiologia das mulheres, investigado e provado na biologia, quer dizer, um conhecimento empírico; mas por que fazer de diferenças uma ideologia? Que importância tem isso como fator para estabelecer desigualdades? Nós mulheres ficamos guardadas por muito tempo à mercê de segregações no trabalho, como incapazes de participar em setores que envolvem precisão e força de raciocínio – foi por causa do ciclo menstrual? – É a capacidade de parir que nos impede de ser ativas e por isso ser mal vistas pelos empregadores? Por que só a mãe tem a exclusividade de garantir melhor educação aos filhos? Hoje se vê numa família patchwork que o papel do pai ou da mãe em substituição é mais importante que o biológico. Hoje também se vê – e está provado empiricamente – que mulheres podem ser engenheiras, físicas, astronautas … Não existe uma incompatibilidade em ser mulher e exercer uma profissão, seja ela qual for.

Judith Butler acha que pertencer a um gênero não significa se identificar com as características primárias deste gênero, mas sim manter-se num processo interativo ao longo da vida, o qual pode trazer mudanças ou renovar-se. Ao ouvir isto uma das mulheres, antes mencionadas, me interrogou perplexa: „então já amanhã poderia me tornar uma lésbica?“ Isto nos mostra até onde podemos ir e define o estado de nossa subjetividade: até que ponto nossa segurança e integridade podem vacilar? A mulher teve medo de ser posta em questão naquilo que ela tanto se apega, naquilo que se passa por uma essência, mas que no fundo não é. Ela não entende que, na estrutura binária, pertencer ao gênero feminino não é uma coisa independente porque coincide com o seu sexo biológico, pelo contrário, segundo Butler não existe ligação entre sexo e gênero; a característica homem não reside só no corpo do homem, assim como a de mulher, e a diferença entre eles se origina de formas de pensar , as quais são uma representação em favor de uma pretensa norma de sexualidade. Por outro lado como esperar que a tal mulher entenda isso? Como esperar que todos entendam? Propor uma sexualidade baseada numa multiplicidade de identidades de gêneros é para muitos uma utopia ou um dilema, e assim não pode ela contar com o apoio de outros. Acho que no fundo ela tem razão, mesmo sendo uma crítica ao estado da nossa subjetividade atual.

Butler, como filósofa pós-estruturalista, quer desfazer, ou melhor „desconstruir“ esses padrões de pensamentos geradores de conceitos que por força do hábito se instituíram sem que fossem questionados. Em contrapartida, oferece uma possibilidade nova de pensar ao pôr em questão as categorias de corpo e de identidade, que também são categorias da teoria feminista; só que, enquanto o feminismo se limite a imprimir uma única identidade da mulher – idealizando um grupo homogêneo e não se dando conta de outros matizes, como raça, cor, religião, opção sexual, etc. – também favorece o binarismo e „deixa transparecer“ o modelo heterossexual como único e aceitável, como também „deixando marcas homofóbicas“. Mas como desconstruir esse imenso círculo vicioso fundador da realidade? Para Butler destruí-lo não é possível, uma vez que se destrui o próprio sujeito, mas bem de modo a multiplicá-lo, ampliando-o em muitas outras possibilidades. Um exemplo ilustrativo seria para um discurso como “só o sexo entre um homem e uma mulher é correto e aceitável”. Um modo de desconstruir é juntar a esta performatividade outras possibilidades, tais como o sexo entre homens, o sexo entre mulheres, o sexo entre travestis são corretos e aceitáveis. A partir daí estes performativos rompem com o contexto anterior e passam, na linha do tempo, a rescreverem outros significados. Claro que aqui o papel da ética é inevitável para não incluir práticas inaceitáveis. Para ela é melhor analisar, antes de concluir o que é bom e o que não é, e tirar desta confrontação material para abordagens.

É verdade mesmo que a nossa identidade de gênero poderia mudar no transcurso da história? Por outro lado nada mais frágil do que a sexualidade. Minha mãe sempre dizia que „a carne é fraca“; claro que ela se continha no fato de uma mulher se guardar íntegra e não „se entregar a qualquer um“, pois até em nome do amor, a carne podia ser fraca. Também as eventualidades da sexualidade nos prendem a uma identidade rígida? Já tomei conhecimento de mulheres que foram lésbicas só por uma noite. Outras deixaram seus parceiros por outra mulher. Estes acontecimentos não são mais escandalosos, fazem parte já do rol de renovações existentes na história, por força de lutas, gritos, pressões sociais, riscos, reconhecimentos, punições … Judith Butler diz que o sujeito é como um discurso que está sempre em um “processo interminável do vir“, a subjetividade é uma construção e o fato de se apegar a uma identidade pode ser uma forma de fugir das complexidades da vida, pois a vida não é a identidade, e assim fala de identidades nômades, porque temos que admitir que há ambigüidades, mesmo sendo o mundo heterossexual demais. E assim ela propõe um mundo queer.