FALAR É PRECISO, CALAR NÃO É PRECISO

(„EuTambém“ faço a minha contribuição contra sexismo e assédio)

 

O panorama dos assédios sexuais está mudando, rompendo com o silêncio, a vergonha e a culpa para as acusações em massa através das redes sociais e, principalmente, por meio do hashtag #MeToo, mulheres famosas – primeiro as americanas puxando o cordão para outras mulheres – resolveram abrir a boca e divulgar para o mundo suas experiências de terem sido assediadas sexualmente. O bloco das assediadas é grande e „eu também“ é o seu lema que fez com que tantas mulheres tomassem coragem e, finalmente, pudessem contar o que tinham guardado por tanto tempo. Mas por que só isto agora, levando em conta que o assédio sexual já é bastante conhecido numa sociedade regida por princípios não igualitários? Por que esse fenômeno? Por um lado graças à força e ao alcance das redes sociais que conseguem dar aos fatos uma amplitude internacional, tornando-os mastigáveis, e mais, imprimindo a livre iniciativa de muitas mulheres em também querer seguir o exemplo, e por outro lado como uma mostra do quanto as mulheres têm se conscientizado desde as últimas décadas. A divulgação do #MeToo pela internet é uma forma encadeada de assegurar que as mulheres em questão não estão sozinhas, é só juntar-se às outras para formar uma grande campanha. O que vemos é que desta vez as consequências de assédios, mesmo os praticados há vários anos atrás, são outras, são enormes. Enquanto escrevo este texto, tenho o rádio ligado e ouço notícias sobre famosos ameaçados de consequências jurídicas, não esquecendo as demissões já ocorridas.

Tudo começou com um Tweet de Alyssa Milano, uma atriz americana da série de televisão „Charmed“. Ela fez reaparecer um hashtag de mais de dez anos atrás de Tarana Burke, uma afro-americana, no qual Burke tentou atrair atenção internacional para o grande número de abuso sexual praticado contra meninas. A reação de Aliyssa Milano apareceu em outubro deste: #MeToo – eu também – como uma declaração de suas experiências passadas com assédios sexuais. A partir daí, no mesmo dia apareceram mais de dez mil reações ao hashtag de Milano e continuaram a aparecer durante toda a semana – uma campanha de denúncias tinha se formado – com a maior parte das declarações vindas de mulheres, com a maior parte das acusações feita a homens bem sucedidos profissionalmente – chefes, diretores, políticos, professores universitários …

Harvey Weinstein já não é mais forte, apesar do seu excesso de quilos e da carreira que fez no show business em Hollywood como produtor de filmes famosos – até Michelle Obama já tinha se referido a ele como „um ser humano maravilhoso, um grande amigo“ – perdeu todos seus postos elevados e até a esposa, que se separou dele após ter-se inteirado das acusações de assédio, sexismo e até de violações, feitas por estrelas de cinema e publicadas pelo New York Times também o mês passado. Um escândalo alastrante se formou em volta do tão simpático e bonachão Harvey desde que a cortina despencou e mostrou – e ainda mostra – o que estava por trás de seus plissados: um Harvey como protagonista de um filme real, onde mulheres, geralmente jovens, eram apalpadas, sem que tivessem querido, forçadas a vê-lo masturbar-se ou tomar banho, ou a dar-lhe massagens … mesmo as suas doações ao partido democrata não o impediram de revelá-lo como um tipo levado a indecências extremas. Se faz crer que através do caso Harvey Weinstein se paga uma velha dívida, porque agora foi devidamente cobrada. Hollywood sabe que Harvey não é um caso isolado, mas um problema de abuso de poder daqueles que em altas posições acham ter direitos sobre o corpo de mulheres e comprar seu silêncio em troca de promessas e favores profissionais, sem se interessar pelas consequências psíquicas de suas vítimas. No fundo estes cínicos estão convencidos de que uma fachada bem apresentável e o êxito comercial são suficientes para cobrir o horror. Por que se calavam ou faziam vista grossa muitos dos que sabiam o que se passava atrás das cortinas até de forma já organizada? Só encontro duas palavras para a pergunta: a indiferença e o medo. A indiferença por não achar que os fatos sejam relevantes, uma vez que o sucesso e o êxito financeiro são o que contam; e o medo de poder perder oportunidades de trabalho lucrativas, e que trarão o êxito com certeza, ou seja, o silêncio pelos valores que ele representa. Harvey Weinstein se encontra agora numa clínica, talvez mais para provar sua anormalidade psíquica do que para comprovar uma estrutura social dominante que no fundo discrimina e assedia. Mas ele, claro, não sendo o único, não pode ser responsável por todos; a solução de se precisar de Harvey como bode expiatório não combina com o fenômeno atual das acusações de sexismo, assédios e violações – o barco leva mais do que só os empresários americanos, também aparecem mulheres acusadas de sexismo a homens e homens como vítimas de outros homens.

O sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu, falecido em 2003, escreveu um livro importantíssimo em 1998 – La domination masculine – que pelo título se deduz sem demora o quanto o feminismo seria fruto da dominação do homem – contudo para Bourdieu o que mais interessava da dominação masculina eram os seus mecanismos invisíveis e dispostos para mostrar que ela é uma forma simbólica de representação, principalmente em termos políticos e econômicos, ou seja, esta dominação se estende por toda parte e por todos setores – um paradigma representativo da visão fálico-narcisista; onde a diferença marcante entre os sexos parece residir simplesmente na „natureza das coisas“. Neste modelo social a mulher está submetida ao homem, e o poder deste em pôr ordem se vê em situações, sem que ele tenha de se justificar, disse Bourdieu.
Ele retomou os modelos de dominação dos berberes, grupos étnicos do norte da África, trazendo-os até a atualidade das sociedades ocidentais; os padrões antigos estão hoje só sutilmente e de forma refinada encobertos, todos tinham que ver com a desigualdade entre homens e mulheres em favor dos primeiros, claro. Assim hoje a chamada igualdade de direitos promulgada nas leis pode ser posta em questão e vista como um engano. Seu livro não é só uma crítica ao patriarcalismo mas também uma expressão de cepticismo ao feminismo ilusionista que fracassa ao procurar banir essa dominação em vez de desenvolver um caráter próprio de autodeterminação.

As referências a Pierre Bourdieu com relação aos acontecimentos de outubro não são gratuitas, pelo contrário – embora ele tenha insistido num tipo de „violência simbólica“ exercida pela dominação masculina, na qual os danos legitimados no meio social não são físicos, porém sutis: discriminações, humilhações, desrespeitos … mas alcançando ferir moralmente, deixando marcas psíquicas profundas, e os assédios sofridos e declarados são formas bem concretas de violência física – pode-se mesmo assim responder perguntas pertinentes sob a luz de sua teoria: como é possível que o domínio masculino se preserve ainda hoje sem esforço e até contra resistências? Como foi possível que um homem como Donald Trump – também há acusações de assédios contra ele – chegasse ao poder político? Por que mesmo com a existência de leis contra agressões sexuais em muitos países, a maioria dos agressores conseguem facilmente impunidade? Por que é tão difícil recrutar provas? Para Bourdieu existem forças na sociedade que estabilizam a desigualdade entre os sexos e elas encontrando passagem livre, tornam-se legítimas, como o silêncio; o medo; o estar de acordo, mesmo não estando, só para evitar conflitos; a falta de interesse; o esquecimento … Tomar atitudes contra elas é muito difícil, mas muito importante, como primeiro, ater-se aos exemplos mais visíveis, para chegar a compreender os mais sutis: Que função têm calendários de mulheres nuas pendurados nas paredes? Por que aguentar ouvir em casa ou no trabalho que homens falem alto, como se estivessem gritando? – isso também dói nos ouvidos – Por que ter contato sexual com o parceiro mesmo sem querer? – É o que muitas mulheres, infelizmente, fazem – só para comprazê-los? – Por que calar frente a palavras, gestos, ações indesejados, admitindo que tudo isso é normal, porque homem é assim mesmo e eu, de certo modo, tive a culpa? Muitas mulheres têm problemas com piadinhas inocentes ou até com elogios por não saberem distinguir um cumprimento simpático do que não o é, e por isso não reagem devidamente. O sexismo é uma forma de discriminar, reside onde não existe igualdade de direitos e vive de não reconhecer seus limites, ultrapassando as fronteiras do até aqui é querido e aceitável.  Assim o ambiente de trabalho é o palco ideal para tais ataques, sendo aí preciso aprender a barrar, a dizer firmemente um não olhando nos olhos. Por outro lado, deve ser da competência do empregador proteger, através de medidas concretas, a segurança de seus empregados: Não admitimos aqui nenhum tipo de assédio nem formas sexistas.

Quase todas as mulheres – ou todas? – já sofreram algum tipo de assédio ou sexismo e têm o que contar – eu também:

Nos anos 80 fui à Cidade do México para trabalhar e lá passei quase três anos. Numa das vezes quando voltava para casa de metrô – e em pé, porque o metrô mexicano anda sempre cheio – faltou a eletricidade e parou entre estações numa escuridão total. Neste momento fui apalpada na nádega por muitas mãos ao mesmo tempo – mãos masculinas, porque eu sabia que ao meu lado havia homens – a minha primeira reação foi de assombro, não sabia nem o que fazer, nem dizer, fiquei paralisada. Por sorte tudo foi muito rápido, segundos apenas; a eletricidade voltou e o metrô seguiu funcionando, mas eu ainda estava imóvel sem poder crer no que tinha acontecido, apenas olhei para os homens ao meu redor, e todos estavam tranquilos, como se não tivessem feito nada, mas eu, ao contrário, já me sentia inferiorizada, tinha raiva, vergonha e culpa ao mesmo tempo. Em comparação com outras formas de sexismo, o que passou comigo foi muito leve, mas não ao ponto de justificá-lo e enquadrá-lo como normal numa sociedade machista como a mexicana. Não.
Hoje quando relembro a situação, vejo que tive sorte: que teria acontecido mais se a eletricidade não tivesse voltado rapidamente? Como eu teria reagido se os ataques tivessem ultrapassado os apalpos da nádega? Teria gritado? Acho que sim.

Talvez #MeToo seja uma tentativa de muitas mulheres de tomar nas próprias mãos as discriminações, as humilhações, o sofrimento, uma vez que a apelação à justiça infelizmente fracassa na maioria das vezes. #MeToo não é uma campanha em contra de homens, e mais do que só denúncias, mostra claramente o estado de saúde de nossa sociedade com respeito a homens e mulheres, e as mulheres sabem que mesmo reagindo contra as agressões, não significa isto que as investidas parem. É hora de começar a valer-se e não deixar que o #MeToo seja uma moda a mais que passa ou esfria; para que Pierre Bourdieu pudesse ver – se estivesse vivo – que passam mudanças na sociedade e não se tem de ser tão céptico.