O PODER DA OBSERVAÇÃO

É de se esperar de uma mãe que observa um filho pequeno enquanto ele toma um sorvete, comumente falando, o mais trivial possível – que gosto ele lhe dá saboreando este creme gelado, ou mesmo se ele vai sujar a roupa, deixando uma nódoa irreparável nela. No entanto se esta mãe, ao invés, se pergunta o que sentir por esse filho ao contemplá-lo, absorvido que está no prazer de lamber o sorvete e inconsciente de sua própria expressão e do que evoca nela, já não é corriqueiro, mas sim uma observação muito insólita. Ela se dá conta da falta de um sentimento „reconhecível“, talvez um daqueles imprescindíveis como resultado de um estímulo exterior, como se fosse absolutamente necessário ter que sentir algo específico e condizente num momento, tomando um pôr do sol como exemplo – muitas pessoas não sentem nada extraordinário ao presenciar o poente, sem embargo não deixam, nem por isso, de apreciar este espetáculo natural. Ter um sentimento como sem falta num determinado momento pode ser uma exigência nossa com o fim de nos conciliar com o meio onde estamos e não nos sentirmos estrangeiros. Por que não em vez de nos exigir algo, deixar-nos levar pelo que observamos?

A mulher, a mãe supracitada é Clarice Lispector – como é de se esperar – vivida numa de suas famosas crônicas escritas para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973 e reunidas no livro A Descoberta do Mundo. „Lembrança de Filho pequeno“ data de 28 de setembro de 1968, é um texto bastante curto com apenas três parágrafos, mas extremamente condensados em afinadas descrições de estados de ser, comparações aguçadas, paralelos inteligentes e uma manobra exemplar de adjetivos. Também é uma crônica que à primeira vista parece ser fácil – Clarice Lispector é como Franz Kafka – a facilidade de serem compreendidos é somente uma trampa da aparência, a inteligibilidade das frases oculta a complexidade do discurso existencialista atrás das palavras escolhidas, assim como a superficialidade dos fatos pode esconder o tema: é um sorvete de chocolate, degustado pouco a pouco em pedaços gelados que enchem a boca quente do menino sem que ele esteja ciente da „felicidade incômoda“ que o choque de temperaturas provoca na sua boca – „Essa, a boca é muito bonita“ – e continuando atenta, vê que de repente o filho ficou mais ávido: „ é que deve ter encontrado algum pedaço de sorvete com mais chocolate que o resto, e que a língua esperta captou“ – um triunfo para o paladar – contudo ele não olha para a mãe, deixando assim ser observado por ela „nesse seu ato íntimo, vital e delicado“; ele já está acostumado „à burrice“ do olhar dela „concentrado de amor“. Sim, ela está concentrada no filho que toma um sorvete de chocolate, mas apenas sente a sua natureza rígida, o que é ser ela mesma – fechada, dura, inflexível e o que é ser mãe com toda a sua aspereza, primitiva, tosca – está ali parada e retirada, uma observadora sagaz do filho que unicamente come. Seria de se deduzir inúmeros clichês em forma de sentimentos diante desse quadro, a perfeita dialética como resultado de mãe, filho e observar: um aflorar de sentimentos ditosos; entretanto não é o que Clarice expressou como centro de sua introspecção, mas sim o que do momento de sua observação a conduziu: a impenetrabilidade de seu ser, um encontro consigo mesma, o outro lado da moeda; um momento sem tempo, ou seja, sem processo, aprisionado na sua introspecção que se torna cada vez mais aguda. É a fascinação pela morte? Como tirar vida daí? Por que ela não fica feliz ao ver seu filho feliz tomando um sorvete? Para mim isto foi o seu tema central, ela deu pouca importância às ações, mas bem mais ao que está escondido atrás delas e difícil de sacar: a premente necessidade de exprimir o indizível da condição humana.

Quando li esta crônica pela primeira vez foi nos fins dos anos 80; eu era jovem, sonhadora e fiquei de pronto fascinada por ela – esse quadro antagônico entre o prazer e o torpor, mas que ao mesmo tempo se complementavam – me levou mesmo a uma certa obsessão. Como teria querido pôr em cenas a crônica, filmando-a! Imaginava a cara do menino em primeiro plano, ele só ocupado em saborear o seu sorvete, desligado da mãe e de outros interesses, e ela lá o observando passivamente. Logo me dei conta da grande dificuldade que era transformar em cenas essa mãe submergida em seus pensamentos, ensimesmada em seu mundo interior, atemporal e sem saída alguma a não ser a de confirmar ela mesma; senti que o grau de exigências sobre mim era superior às minhas possibilidades; foi quando pus meus pés no chão e desisti do projeto, para mim, irrealizável.

Ver, ouvir, tocar, cheirar, degustar são ações referentes à nossa capacidade de perceber; observar vai mais além do que ver porque requer atenção – uma certa atenção que se dá aquilo que se quer observar, quer seja de forma metódica, como nos experimentos científicos, quer seja livre e espontânea. A observação como método é seletiva, dirigida a um objeto determinado, exige muita atenção por ser um processo ativo, e mais: a perspectiva do observador é muito importante para o seu objetivo de estudo. Ao contrário desta, a observação do dia-a-dia, que não é sistemática, não tem objetivos nem planos, é mais uma casualidade da nossa percepção, está dirigida ao todo e não aos detalhes, não tem indicações de onde, quando, o que e como será observado, é subjetiva e depende espontaneamente das preferências do observador. Por ser uma observação mais livre, pode ganhar peculiaridades da observação metódica, mas sem que esta ganhe da outra. É o caso de dirigir a observação a algo no intuito de chegar a conclusões – os pais observam o crescimento dos filhos, a mulher começa a observar mais atenta as saídas do marido, a namorada ciumenta observa as mulheres que estão por perto do amado e assim vai. Estas observações são importantes porque nos dá capacidade de avaliar situações e até mudar formas errôneas de pensar.

Adoro observar e isto é a prova do porquê eu não sou tagarela e nem simpatizo com pessoas que têm esta característica – elas me deixam nervosa e podem ser bem negativas para a minha concentração – por isso o melhor é afastar-me delas cordialmente, se é possível. Os meus palcos de observação são bem variados, gosto de observar sobretudo as pessoas – seus estados e suas ações – juntas com outras ou não – nas ruas, em reuniões, festas ou passando pelo café onde estou sentada, ou nas bibliotecas, nos transportes públicos, etc. Também observo com prazer os animais – pássaros, cachorros, gatos que são os tipos que mais vejo durante o dia; crianças brincando, uma paisagem, o mar, um céu azul bordado de nuvens esparsas e como elas mudam ao encontrarem-se umas com as outras em seus passeios, à nossa vista, vagarosos. Gosto de ver atenta a sequência das cenas dos filmes, seus movimentos e como elas foram montadas. Enfim, observar é o que me salva da minha tendência ao retiro, uma necessidade para encher-me de estímulos e para viver o presente e participar dele.

Quando cursava Letras, fui um dia estudar com uma colega na sua casa; como tinha que ir embora depois do almoço, aproveitei a carona do seu marido que ia levar o filho pequeno, o Fabinho, pra escola. No carro eu sentada atrás, observava o pai chamando a atenção do menino no banco dianteiro para que ele da janela olhasse o que estava passando – o pai era um jornalista de profissão, e estava claro seu interesse em estimular a criança como provindo de suas próprias experiências: „Fabinho, olhe pro momento.“ „Olhe pro momento filho.“ E assim sem tom de comando repetiu a frase várias vezes para o menino, a qual no fundo guardava uma lição de vida – o pai transmitia ao filho o que era para ele um valor. Nunca me esqueci disto e sei que a lição também me serviu.

Com tudo isso nos basta só observar para captar e compreender a realidade? Não. Acho que a observação é só um passo – pode ser o primeiro – que nos abre para algo, mas de modo algum podemos ficar só de observar sem ir mais além disto, desviando-se da reflexão. Esta nos dá uma distância daquilo que observamos para compreendê-lo melhor: é lindo observar a natureza, sua beleza, suas cores, suas mudanças, entretanto também é mister perguntar por que ela está ameaçada. Há pessoas que adoram ir a um jardim zoológico para ver animais raros – eu não: prefiro ver animais livres – tudo bem, mas ele nos dá uma imagem estancada da realidade. A partir do momento em que perguntamos o porquê da raridade desses animais, já estamos refletindo sobre isto e daí já pode começar mudanças.

 

Próximo post: 25 de fevereiro de 2018

 

 

 

 

 

 

E assim são as notícias…

 

O que o ano de 2017 deixou no mundo foi um saldo de acontecimentos desafortunados, que geraram por sua vez notícias más, cruéis, e as palavras mais repetidas para expressar estes contextos não foram outras senão bombas, ataques terroristas, explosões, massacres, corrupção, racismo, guerra e… tantos outros termos que só exprimem desgraças, sem esquecer que a posse de Donald Trump no 20 de janeiro também faz parte desta lista.

Contemplando este arsenal desditoso, vejo que a vida no nosso planeta não tem melhorado, mesmo com o tão proclamado poder da democracia nas sociedades modernas e com tantos outros avanços sociais; a boa qualidade de vida é um dado concreto e relativo às condições matérias de existência como trabalho, moradia, saúde, previdência, aos quais todos os humanos devem ter direito, mas nem sempre garantem a tolerância, a justiça social e a integração. Por outro lado muitos dizem que não é que o mundo tenha piorado, mas sim que o acesso às notícias hoje é muito mais eficiente e elas estão à nossa disposição durante as 24 horas do dia nos inundando – é certo – e se a maioria das notícias é de fundo negativo, não tem que ver isto com o pioramento do mundo, mas sim com o fato de que antes não tínhamos esse acesso fácil, direto e rápido com o que se passava, como também a transparência dos fatos nunca fora tão facilitada como hoje através dos meios digitais. Em outras palavras, sempre houve políticos corruptos, crimes em série, estupros, crianças abusadas sexualmente, etc.; diferente hoje é que estas barbaridades estão mais passíveis de serem reveladas que antes, e as notícias se alastram mais rapidamente, não nos deixando quase tempo para refleti-las, pois outras novas igualmente já tomam o lugar das precedentes, gerando um excesso de notícias negativas ou de escândalos, sobretudo políticos e financeiros, um atrás do outro nos causando desconfiança e insegurança. É quando perguntamos onde estão as notícias boas e se elas ainda existem. Claro que existem, mas estas em sua maioria estão debilitadas frente à avalancha de notícias negativas ou disfarçadas em promessas vazias. E isto é o que faz com que as notícias de caráter negativo e assustador tenham mais alcance, ganhem mais importância e se tornem fidedignas. Já está provado o quanto essas notícias geram emoções fortes como o estresse, o medo, a ira, a repulsa, nos pondo em estado de excitação e, principalmente, podendo influir na nossa capacidade de reflexionar e discernir – é que acreditamos naquilo que nos pega emocionalmente, seja aquilo verdade ou mentira – ao passo que as boas notícias se perdem em descredito, não correm nas veias e tornam-se enfadonhas e esquecidas. Por que isso?

Arjun Appadurai, é um antropólogo americano, nascido na Índia, teórico da globalização e professor na Universidade de Nova York. Apesar de não gostar de muitas de suas idéias, concordo com ele quando diz que as notícias boas prendem muito menos a nossa atenção, embora seus conteúdos sejam, como por exemplo, os movimentos pela justiça e pela paz, ou projetos locais em prol do meio ambiente e, até mesmo, como exceção as boas negociações do governo para o povo. É que, diz ele, as boas notícias para serem usufruídas e credíveis necessitam da parte reflexiva de nossa personalidade, como também de esperança, de simpatia e empatia a sua vez; todos estes sentimentos precisam de tempo e requerem paciência e reflexão, o que para as más notícias eles não têm vez, ao contrário, estas podem ser consumidas mais rapidamente encontrando mais audiência e leitores que as notícias boas. Certo, e daí entendo o porquê nossas reações são opostas em face ao tipo de notícias que recebemos: as más nos suscitam o medo e nos paralisam, e as boas parecem ingênuas, idealistas e irreais. Daí também fica claro que tipo delas é mais apropriado para o populismo político e a manipulação do povo, como também porquê um homem como Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos – o populismo vive do medo do povo, e por causa deste medo é necessário construir muros, expulsar estrangeiros, retirar-se de acordos sobre as mudanças climáticas, fazer ameaças ou sentir-se ameaçado de guerras e por isso aumentar o arsenal bélico… É preciso ter uma forte capacidade crítica e um posicionamento para não se deixar levar por explicações que aparentemente parecem verdade.

O caráter negativo das notícias é tão forte que dele mesmo foram criadas medidas de proteção contra ele, como pontos convincentes e capazes de nos afastar não só das nocivas, mas enfim de todas as notícias. São conselhos a aqueles que saturados com tantas notícias más afirmam: „Não aguento mais essas notícias, elas só me roubam a paz!“ Ou: „Isso podia ter acontecido comigo!“, e proclamam uma vida sem contato com as notícias. É uma saída conducente à relaxação, pois enfim livre dos conteúdos estressantes e dos sensacionalismos que as notícias trazem, mas possível? Sim, mas não é fácil, e não é pessoalmente a minha solução definitiva, pois por mais que a informação seja sumamente necessária, não me contento só com a sua fenomenologia sem um pano de fundo convincente. Somente em perguntar-nos se na realidade é mesmo assim o que dizem ou publicam, já é um passo importante para liberar-nos dos blá,blá, blás e começarmos a formar um sentido crítico e a ampliar o nosso horizonte – abrir bem os olhos para o que está acontecendo e querer saber mais do que é mostrado e dito – é que ele é uma criação da maneira de como vemos, ouvimos, interpretamos e valorizamos as coisas, ou seja, ele é resultado de nossa percepção – como percebemos acreditamos como verdadeiro, independente de que isso seja verdade ou não.

Não é raro ouvir que a maior parte dos comentários das notícias transmitidos pelos meios convencionais de divulgação parecem trajados com um mesmo uniforme, como se viessem de uma mesma fonte e estabelecessem uma norma de pensar; não indo mais além do notório, limitando-se a uma unidimensionalidade dos fatos. Assim é comum dividir o mundo entre os bons e os maus e fazer destes verdadeiros demônios, contra os quais temos que nos defender. Este descaro tem que ver com as limitações que redes de notícias estão submetidas e assim as divulgam segundo os interesses daqueles que se beneficiam da forma como elas são transmitidas e comentadas. O medo de cada um de nós, o medo das massas é usado no fundo para manter o establishment – após ataques terroristas em cidades européias, por exemplo, foi instalado um grande número de câmaras de vigilância pelas cidades, como uma medida paliativa e nada mais. No fundo sobre as soluções para o terrorismo que nos invade, não se fala, porque aquelas dependem de medidas nada conformes com os objetivos políticos e financeiros de grupos que estão no poder e querem mantê-lo.

Onde ficamos em meio a esse arsenal de manipulação? O que lemos? Que fontes são fidedignas? São perguntas pertinentes para aqueles que não se bastam só com o que é geralmente divulgado. Quem quer saber mais do que está por trás das notícias correntes e informar-se através de outros meios que não os dos portadores do mainstream, deve se esforçar para chegar a outras fontes – existem projetos independentes e alternativos de divulgação de notícias e reportagens – onde interesse, empenho e tempo são exigidos para encontrá-las. Pessoas que preferem um jornalismo emancipado e feito por profissionais sérios e independentes dos monopólios das grandes agências de notícias têm sempre argumentos a mais e fundados em fatos reais que muitas vezes incomodam àquelas pessoas acomodadas com a ordem como as coisas estão e sem interesse em mudar alguma coisa.

Próximo post: 31/1/18