E assim são as notícias…

 

O que o ano de 2017 deixou no mundo foi um saldo de acontecimentos desafortunados, que geraram por sua vez notícias más, cruéis, e as palavras mais repetidas para expressar estes contextos não foram outras senão bombas, ataques terroristas, explosões, massacres, corrupção, racismo, guerra e… tantos outros termos que só exprimem desgraças, sem esquecer que a posse de Donald Trump no 20 de janeiro também faz parte desta lista.

Contemplando este arsenal desditoso, vejo que a vida no nosso planeta não tem melhorado, mesmo com o tão proclamado poder da democracia nas sociedades modernas e com tantos outros avanços sociais; a boa qualidade de vida é um dado concreto e relativo às condições matérias de existência como trabalho, moradia, saúde, previdência, aos quais todos os humanos devem ter direito, mas nem sempre garantem a tolerância, a justiça social e a integração. Por outro lado muitos dizem que não é que o mundo tenha piorado, mas sim que o acesso às notícias hoje é muito mais eficiente e elas estão à nossa disposição durante as 24 horas do dia nos inundando – é certo – e se a maioria das notícias é de fundo negativo, não tem que ver isto com o pioramento do mundo, mas sim com o fato de que antes não tínhamos esse acesso fácil, direto e rápido com o que se passava, como também a transparência dos fatos nunca fora tão facilitada como hoje através dos meios digitais. Em outras palavras, sempre houve políticos corruptos, crimes em série, estupros, crianças abusadas sexualmente, etc.; diferente hoje é que estas barbaridades estão mais passíveis de serem reveladas que antes, e as notícias se alastram mais rapidamente, não nos deixando quase tempo para refleti-las, pois outras novas igualmente já tomam o lugar das precedentes, gerando um excesso de notícias negativas ou de escândalos, sobretudo políticos e financeiros, um atrás do outro nos causando desconfiança e insegurança. É quando perguntamos onde estão as notícias boas e se elas ainda existem. Claro que existem, mas estas em sua maioria estão debilitadas frente à avalancha de notícias negativas ou disfarçadas em promessas vazias. E isto é o que faz com que as notícias de caráter negativo e assustador tenham mais alcance, ganhem mais importância e se tornem fidedignas. Já está provado o quanto essas notícias geram emoções fortes como o estresse, o medo, a ira, a repulsa, nos pondo em estado de excitação e, principalmente, podendo influir na nossa capacidade de reflexionar e discernir – é que acreditamos naquilo que nos pega emocionalmente, seja aquilo verdade ou mentira – ao passo que as boas notícias se perdem em descredito, não correm nas veias e tornam-se enfadonhas e esquecidas. Por que isso?

Arjun Appadurai, é um antropólogo americano, nascido na Índia, teórico da globalização e professor na Universidade de Nova York. Apesar de não gostar de muitas de suas idéias, concordo com ele quando diz que as notícias boas prendem muito menos a nossa atenção, embora seus conteúdos sejam, como por exemplo, os movimentos pela justiça e pela paz, ou projetos locais em prol do meio ambiente e, até mesmo, como exceção as boas negociações do governo para o povo. É que, diz ele, as boas notícias para serem usufruídas e credíveis necessitam da parte reflexiva de nossa personalidade, como também de esperança, de simpatia e empatia a sua vez; todos estes sentimentos precisam de tempo e requerem paciência e reflexão, o que para as más notícias eles não têm vez, ao contrário, estas podem ser consumidas mais rapidamente encontrando mais audiência e leitores que as notícias boas. Certo, e daí entendo o porquê nossas reações são opostas em face ao tipo de notícias que recebemos: as más nos suscitam o medo e nos paralisam, e as boas parecem ingênuas, idealistas e irreais. Daí também fica claro que tipo delas é mais apropriado para o populismo político e a manipulação do povo, como também porquê um homem como Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos – o populismo vive do medo do povo, e por causa deste medo é necessário construir muros, expulsar estrangeiros, retirar-se de acordos sobre as mudanças climáticas, fazer ameaças ou sentir-se ameaçado de guerras e por isso aumentar o arsenal bélico… É preciso ter uma forte capacidade crítica e um posicionamento para não se deixar levar por explicações que aparentemente parecem verdade.

O caráter negativo das notícias é tão forte que dele mesmo foram criadas medidas de proteção contra ele, como pontos convincentes e capazes de nos afastar não só das nocivas, mas enfim de todas as notícias. São conselhos a aqueles que saturados com tantas notícias más afirmam: „Não aguento mais essas notícias, elas só me roubam a paz!“ Ou: „Isso podia ter acontecido comigo!“, e proclamam uma vida sem contato com as notícias. É uma saída conducente à relaxação, pois enfim livre dos conteúdos estressantes e dos sensacionalismos que as notícias trazem, mas possível? Sim, mas não é fácil, e não é pessoalmente a minha solução definitiva, pois por mais que a informação seja sumamente necessária, não me contento só com a sua fenomenologia sem um pano de fundo convincente. Somente em perguntar-nos se na realidade é mesmo assim o que dizem ou publicam, já é um passo importante para liberar-nos dos blá,blá, blás e começarmos a formar um sentido crítico e a ampliar o nosso horizonte – abrir bem os olhos para o que está acontecendo e querer saber mais do que é mostrado e dito – é que ele é uma criação da maneira de como vemos, ouvimos, interpretamos e valorizamos as coisas, ou seja, ele é resultado de nossa percepção – como percebemos acreditamos como verdadeiro, independente de que isso seja verdade ou não.

Não é raro ouvir que a maior parte dos comentários das notícias transmitidos pelos meios convencionais de divulgação parecem trajados com um mesmo uniforme, como se viessem de uma mesma fonte e estabelecessem uma norma de pensar; não indo mais além do notório, limitando-se a uma unidimensionalidade dos fatos. Assim é comum dividir o mundo entre os bons e os maus e fazer destes verdadeiros demônios, contra os quais temos que nos defender. Este descaro tem que ver com as limitações que redes de notícias estão submetidas e assim as divulgam segundo os interesses daqueles que se beneficiam da forma como elas são transmitidas e comentadas. O medo de cada um de nós, o medo das massas é usado no fundo para manter o establishment – após ataques terroristas em cidades européias, por exemplo, foi instalado um grande número de câmaras de vigilância pelas cidades, como uma medida paliativa e nada mais. No fundo sobre as soluções para o terrorismo que nos invade, não se fala, porque aquelas dependem de medidas nada conformes com os objetivos políticos e financeiros de grupos que estão no poder e querem mantê-lo.

Onde ficamos em meio a esse arsenal de manipulação? O que lemos? Que fontes são fidedignas? São perguntas pertinentes para aqueles que não se bastam só com o que é geralmente divulgado. Quem quer saber mais do que está por trás das notícias correntes e informar-se através de outros meios que não os dos portadores do mainstream, deve se esforçar para chegar a outras fontes – existem projetos independentes e alternativos de divulgação de notícias e reportagens – onde interesse, empenho e tempo são exigidos para encontrá-las. Pessoas que preferem um jornalismo emancipado e feito por profissionais sérios e independentes dos monopólios das grandes agências de notícias têm sempre argumentos a mais e fundados em fatos reais que muitas vezes incomodam àquelas pessoas acomodadas com a ordem como as coisas estão e sem interesse em mudar alguma coisa.

Próximo post: 31/1/18

 

8 comentários sobre “E assim são as notícias…

  1. Sempre que acordo minha mãe já ligou a TV e é sempre uma notícia catastrófica que está no ar. Eu me pergunto: Poxa! Nada de bom aconteceu enquanto eu dormi? Seu post me fez entender várias coisas. Principalmente que, sim, coisas boas acontecem enquanto eu durmo, só não são tão divulgadas . Bjos grandes.

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  2. E eu gostaria de completar dizendo que acredito que as palavras são poderosas.As palavras tanto podem fazer bem como podem fazer mal.Então,se depender dos jornais,que quase sempre mostram notícias,como o mundo pode melhorar,que os proplemas um dia deixem de existir.Se depender dos noticiários,não te como!Se a cada dia os repórteres divulgam uma tragédia,não dá para um dia as coisas ficarem calmas.Se todo dia os noticiários divulgam a estatística dos policiais mortos,é difícil que os números parem de crescer.Coisa boa atrai coisa boa.Coisa ruim atrai coisa ruim.Esses noticiários não servem para informar,servem para aumentar o estresse.Depois aparece uma notícia sobre o aumento de pessoas estressadas.Os jornais contribuem demais no aparecimento,permanência e aumento dos males do mundo.Não são os únicos causadores,mas ajudam muito a piorar.E os repórteres ganham demais com esse sistema.É de notícias ruins que eles têm seu trabalhos,seu sustento.Tem vezes que apresentadores de jornal dão notícias terríveis “praticamente sorrindo”!Já repararam?Ou estão falando as notícias negativas pensando em outra coisa,ou de forma maldosa,por dentro,estão comemorando,pois assim têm seus empregos.Ou as duas coisas.Não é sempre,mas quase sempre os jornais precisam de notícias ruins para existirem.

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  3. Nada contra os que trabalham na área jornalística,mas qual é função deles?Informar.Coisas boas,coisas ruins,coisas neutras.Qualquer informação.Mas as notícias ruins são as mais importantes para a maioria.Maioria,mas nem todos.Desculpe meus erros,por favor.

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  4. O que estão por trás dos jornais e dos apresentadores de notícias – as fontes – são os responsáveis pelo conteúdo e pela forma como as notícias são transmitidas. Muito obrigada pelo seu comentário. Abraço da Mariluz

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  5. Oi!Mas eu acho que os apresentadores deviam ler as matérias antes para prepararem uma expressão facial adequada,se for uma tragédia,nem ficar “,sorrindo”é nem uma falsa expressão séria,que não convence.Deve,nesse caso,ser uma expressão séria,sim.Mas tem às vezes eu tenho que trocar de canal só pelo rosto dos jornalistas.Às vezes os jornalistas acabam sendo piores que as notícias.Desculpe o desabafo.

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