Um certo tapete chamado vermelho

 

No Golden Globes Award 2018 uma atriz é chamada para receber o troféu de melhor protagonista; ela se levanta resoluta e dona de si, sem mostrar nervosismo, chega ao palco bem humorada, não se perdendo nos movimentos ágeis, e assim deliberada recebe o prêmio exibindo um ar de rapaz maroto, sem rodeios, sem cerimônia, sem chorar, mas segura de que o merece, e de pronto começa a falar com uma voz firme e entoada, deixando sair frases rápidas, daquelas de quem sabe o que quer dizer, um pouco de tudo, tomando como motivo o momento presente ou dirigindo-se às ladies convidando-as para uma tequila , ou fazendo uma observação política. A NBC reagiu com hostilidade a seu referido discurso – uma reação conservadora, claro – foi censurado e avaliado como de mau gosto e até extravagante, onde foram cortadas frases inofensivas, mas deixando passar outras mais diretas e mais fortes quando disse estar orgulhosa de si mesma com o seu trabalho no filme ao ter conseguido lançar um coquetel molotov de um lado da rua para o outro, ela que não sabe nem jogar beisebol. Uma tentativa de estigmatizá-la como perigosa? A atriz aqui mencionada é Frances McDormand que ganhou um globo de ouro no mês passado pela sua atuação no filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, no Brasil Três Anúncios Para Um Crime. Ela já é conhecida por não levar seus discursos previamente escritos, preferindo ser direta e até um tanto áspera, mas jamais monótona. Ouvi-la e vê-la nessas ocasiões é poder apreciar de sua mímica, de seus gestos soltos, de sua voz modulada e de seu humor. Também já se sabe que Frances McDormand não é uma atriz convencional, segundo o modelo de Hollywood, com respeito ao que se chama styling em ocasiões de gala, ou seja, não é importante para ela uma forma de aparecer que corresponda necessariamente a ser olhada como um objeto, e já deu provas disto trajando um casaco jeans quando recebeu o Tony Award – prêmio equivalente ao Óscar, mas outorgado às pessoas do teatro – em 2011. „ Não me tornei uma atriz porque queria ser fotografada. Sou uma atriz porque quero permutar-me com pessoas.“, disse. Ela é uma das poucas exceções que sabe vencer com talento e autoconfiança, não precisando usar a aparência para tornar-se atraente ao apresentar-se em público. Na cerimônia do Golden Globes Award apareceu pisando o tapete vermelho com um vestido escuro de mangas compridas, sem brilho, sem enfeites, parecendo mais um hábito de freira, mas condizendo com o luto como protesto do movimento Metoo nesta ocasião. É que Frances McDormand não quer ser uma estrela, ela é uma atriz madura de profissão, consciente de seu trabalho, que não se deixa ser um modelo de beleza cobrado pelo público como uma atração; ela é o que ela é.

Que significa realmente pisar no tal tapete vermelho? Que poderes tem? A cor encarnada dá um sentido de grandeza, impõe admiração, era a cor predominante na tapeçaria oriental antiga e os persas já a tinham determinado como símbolo da realeza. Seria outra cor concebível para impor tanta imponência? Difícil. O verde, por exemplo, daria um sentido ecológico, natural – seria lindo associá-lo à natureza – mas não seria majestoso e arrogante como o vermelho. Não é qualquer um ou uma que pode pisar no tapete vermelho; é preciso ser famoso, poderoso, ter prestígio: um proeminente, nunca um pobre. Essa imponência é o que faz ser excitante pisá-lo e poder exibir o que é vistoso, caro e supérfluo também – contudo uma coisa supérflua pode ser dispensada pelo excessivo que é; aqui a questão não é pôr abaixo o tapete vermelho – embora muitas pessoas, inclusive meu marido, acham que só o fato de falar sobre ele é estúpido, sem sentido, não passando de uma exibição caricaturesca: ele leu uma vez que o tal tapete devia ter umas manchas pretas como símbolo de sua imprestabilidade – a questão é porque ele é extremamente necessário como pano de fundo a exibições, ao meu ver, sem sentido.

Para muitos do mundo do cinema e da televisão o momento de aparecer no tapete vermelho pousando para câmaras e fotógrafos é a oportunidade que o público tem de vê-los fora de seus papéis nos filmes, apresentando-se como são na realidade, e neste ínterim mais as mulheres que os homens são alvos de serem olhadas, examinadas, comparadas, e até copiadas: é o ápice da ostentação, e o poder de atrair atenções, o qual deve ser fascinante ao cumprir o desejo de ser as princesas da noite. Uma princesa não tem defeitos, deve ser apenas linda e cativante, e só vista por este ângulo é-lhe impedida a vez de atuar mais além dessas demandas; são velhos mitos ainda vigentes quando olhamos e vemos apenas figuras de papel. „ No tapete vermelho a igualdade entre os sexos ainda não chegou“, disse Anna Brueggemann, uma atriz jovem alemã, „ aparecemos no tapete vermelho como nos anos 50“ Ela é a iniciadora do #hashtag Nobody’s doll surgido em Berlim como uma iniciativa já tendo em vista seus objetivos de ação no Festival Internacional de Filmes de Berlim, a famosa Berlinale de 15 a 25 de fevereiro deste. Ela parte de que desde o Metoo o debate sobre sexismo e igualdade de direitos no mundo cinematográfico vem se ampliando, contudo um aspecto deste último ainda não foi devidamente tratado, que é a pressão sofrida por mulheres em ter que conservar-se jovens, lindas e esbeltas. Daí o porquê „mulheres fazem coisas nada cômodas nem práticas só com o fim de agradar a outros, homens por exemplo“, e com isso perdem em aparecerem naturais em favor de um look especial para atrair atenções. Para ela o que faz uma mulher atrativa é o que ela é capaz de fazer, seu desenrolar próprio e não o que se pode fazer com ela, tornando-a um modelo. Assim o atrativo está voltado para a realidade de cada mulher, é algo que se entremeia com suas ações, flui sem esforços, é pessoal e único. Ao contrário disto, o tapete vermelho, com poucas exceções, proporciona um show de beldades. „Esta fachada não corresponde de jeito nenhum com a nossa força como mulheres.“ Diz Anna Brueggmann, que não nega nem a beleza nem a moda e gosta de estar bonita, mas incluindo nestes dois ítens uma forma própria, autêntica de aparecer e brilhar sem reduzi-la a algo imaginário. Por que é imprescindível para uma atriz calçar, por exemplo, High Heels, mesmo sendo estes muitas vezes desconfortáveis, ou estar perfeitamente maquiada? Estas exigências, das quais homens sofrem menos, cobrem seus verdadeiros valores enquanto mostram corpos, caras que, muitas vezes, nem parecem deste mundo. Ela acha que uma atriz que tem o que dizer, mantendo conversações interessantes não seria menos interessante ou atrativa que outras preocupadas mais com o seu styling. O que eu acho extraordinário em Anna Brueggmann é a sua ousada pretensão em querer mover alguma coisa de algo já há muito tempo estabelecido – é como pretender que o tapete voe – a partir de pequenas ações que „abram a outras possibilidades.“ Por outro lado reconheço o árduo que é fazer implementar tal campanha; as reações, sobretudo de mulheres, não obedecem a um consenso, nem se dividem entre aquelas que deixam transparecer pura rejeição e outras que a confirmam. Pude ouvir várias opiniões de mulheres expressando não só desconfiança, mas imparcialidade também, o que demonstra ao meu ver um despreparo crítico frente à realidade e seriedade da iniciativa Nobody’s doll que tenta tornar o tapete vermelho, pelo menos em ocasiões como as Berlinales, um espaço menos limitado e com mais criatividade, mais cores e liberdade.

A importância da beleza da mulher é um tema antigo que se tornou um mito. Um mito se forma quando damos a uma coisa um peso no seu significado sem nos questionar se esse significado é verdadeiro ou uma ilusão. Lembro-me que quando eu era uma adolescente ouvia elogios, não a minha individual beleza exterior, mas sim a beleza de minha juventude, e mais acompanhados de uma forte advertência de que esta beleza era curta e passageira, por isso eu tinha que aproveitá-la bem. O que eu entendi de tudo isso foi que havia uma grande distância entre idosos e jovens e, claro, tive medo de envelhecer porque não me foi dito que o processo de envelhecer também traz vantagens e não tem que ser necessariamente como o fim da alegria e do prazer. Ao ler o livro de Naomi Wolf, uma feminista inglesa, O Mito da Beleza, pude reviver aquelas lembranças quando ela deixa claro que este mito prescreve formas de comportamento e não qualidades exteriores. Então foi por isso que não me elogiaram os cabelos, nem meu rosto, mas só o fato de ser jovem e inexperiente já cabia dentro de um ideal de beleza. Naomi Wolf diz que a concorrência existente entre as mulheres também é parte dessa prescrição por criar separações entre as que culminam ideais de juventude, por exemplo, e as outras que não. Mulheres que começam a envelhecer não são mais bonitas – são as chamadas tias, madrinhas ou avós – porque vão se tornando mais fortes e ganham em experiências, significando isto que os laços que ligam as gerações devem ser desatados. Assim ambos os grupos, jovens e velhos, temem um ao outro, e a considerada qualidade de vida vai se encurtando para as duas partes. O mais urgente que as mulheres devem fazer, continua Naomi Wolf, é fundar sua identidade na força da „beleza“ e daí tornar-se dependente de que outros a reconheçam; as vias de valorizar-se a si mesma estão dirigidas aos cumprimentos, à admiração que vêm de fora. É quando a „beleza“ e tudo do que dela faz parte segundo moldes pré-estabelecidos – cuidados, dietas, roupas, plásticas, etc. – torna-se um estorvo porque limita a sua liberdade de escolha. A confiança consiste em querer alcançar medidas, formas, semblantes impecáveis correspondentes a um mito de beleza, sem que jamais os consigam. Wolf diz que mulheres devem se liberar disso, pois esse ideal inculcado jamais será satisfeito, assim ele perderia sua função; pois importante para o mito é que a mulher se veja feia para que ele possa sobreviver, e isto já é uma razão para liberar-se dele. No fundo não importa como é a sua aparência, o mais importante é que a mulher se ache bonita. Naomi Wolf quer dizer que enquanto mulheres não definirem elas mesmas o que é „beleza“, serão manipuladas por ela. E a autora vai mais longe dizendo que o problema não se funda no fato de que mulheres se maquiem ou não, se elas emagreçam ou não, se elas façam cirurgias plásticas ou não, se elas façam das roupas, do rosto, do corpo uma obra de arte ou não, se desistam de jóias ou não; o problema consiste em que elas estão desprovidas de outra opção. Aqui o que tem que ver, segundo Naomi Wolf, é a luta entre o que proporciona dor e prazer, liberdade e ser levada por outros – mulheres estão metidas numa prisão, longe de desfrutarem da despreocupação, da leveza que é cuidar-se, apresentar-se, achar-se bonita. – Mulheres teriam mais satisfação com o vestuário, se este não fosse pura concessão, mas resultado de uma forte identidade, diz a autora e continua: uma mulher está livre do mito da beleza, se ela sabe decidir por ela mesma, uma entre muitas possibilidades, uma maneira própria, condizente com a sua identidade, de usar seu corpo, seu rosto, seu vestuário como sua forma de expressão; e num mundo onde a mulher tem a liberdade de decisão, seria a decisão, no que diz respeito a sua aparência, nada complicada, pois ela exprimiria aquilo que a mulher realmente é. Então a coisa é autodeterminar-se, liberando-se do mito da beleza? Wolf diz que sim e só vê vantagens para isso.

A criação do Nobody’s doll é do ano passado quando Anna Brueggmann escreveu com claridade, mas também movida por emoções seu texto de apresentação. Para ela é muito importante que este movimento não seja nem vire um meio de excluir mulheres ou apontar-lhes o dedo em acusações. Ao contrário, diz, „é um estímulo a todas, a apropriarem-se de liberdade,“ – que no fundo está ao nosso alcance – „ é um apelo a que muitos e muitas façam o movimento crescer, anexando-se a ele.“ Parabéns Anna Brueggmann!

 

Próximo post: 19/03/2018

 

 

Um comentário sobre “Um certo tapete chamado vermelho

  1. Uma correção no meu próprio Texto: Naomi Wolf é uma feminista americana, e não inglesa como escrevi. Desculpe.
    Devia estar sonhando no momento de escrever e quando fiz a revisão estava super gripada. Sorry.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s