É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos

 
Para escrever este texto tive que me apoiar num material informativo, por isso li muitos artigos de revistas e online, vi documentários e entrevistas. As principais fontes foram Spiegel e Spiegel online, Stern, Süddeutsche Zeitung, Badischer Zeitung Freiburg, Focus online e Welt.de

 
No sul da Alemanha, num lugar pequeno perto de Freiburg chamado Staufen um menino – hoje com dez anos – foi cruelmente abusado sexualmente durante dois anos por parte de seu padrasto Christian L., 39 anos e de sua própria mãe, Berrin T., 49 anos; foi filmado em cenas pornográficas e ao ser violado por pedófilos perversos e depois oferecido numa área obscena e criminosa da internet em troca de dinheiro. O casal admitiu e confessou seus crimes, embora Christian L. tenha sido o melhor esclarecedor dos fatos, até apontando à polícia outros homens envolvidos nas violações, enquanto ela permaneceu como uma incógnita, transparecendo desleixo e falta de empatia, procurando racionalizar seus motivos através de clichês para sua própria defesa ao ser questionada. No início deste mês os dois foram julgados e condenados, ele a doze anos sob o regime de segurança – uma espécie de liberdade confiscada o aguarda após o cumprimento de sua pena, pois permissão para sair não terá, por ser considerado como perigoso para a sociedade e inclinado a sofrer recaídas; ela, a mãe, a doze anos e meio de cárcere – um resultado que decepcionou a maioria das pessoas que esperava mais justiça, não só considerando o grau das atrocidades cometidas pelos dois, mas também o descuido de funcionários do judicial ao deixar que o menino voltasse à custódia da mãe após ter sido afastado do lar. Na Alemanha uma pena para os casos especialmente graves de abusos sexuais a crianças pode ser de até quinze anos; se nenhum dos dois abusadores não recebeu esta pena, é por que para a justiça o caso ainda não foi considerado como extremamente grave? Mas o que é isso tudo em comparação com os danos físicos e psíquicos causados à criança, danos estes que irão marcar toda sua vida? A promotora Nikola Novak já tinha apelado para uma pena mais longa, sobretudo para a mãe do menino que não só colaborou com o seu parceiro, preparando o ambiente, conduzindo a criança às humilhações e torturas, mas também ela mesma, abusando do menino como se ele fosse seu brinquedo sexual.

Quando se conheceram no início de 2015, Christian L. tinha acabado de sair da prisão também por abuso sexual a uma garota de treze anos e daí ficou conhecido nos meios policiais como um tipo ainda capaz de retroceder a ações pedófilas, não lhe sendo permitido, por isto, estar em contato com crianças e jovens, a não ser na presença de um funcionário do judicial. Claro que Berrin T. sabia de tudo isso, mas mesmo assim concedeu a ele possibilidades de abusar sexualmente de uma menina de três anos, filha de uma conhecida e de quem ela tomava conta como babysitter. Nessa época o menino tinha oito anos e para ele também começaram o suplício físico e moral, a escravidão, a prostituição forçada, os estupros com a absoluta permissão dela. Por quê? Alegou ter permitido por medo de ser abandonada pelo parceiro – o que deixa claro seu papel de vítima na história – ou para também comprazê-lo como uma forma de amor? Não. Para mim uma forma de perversão, uma extrema falta de empatia, uma inteligência deteriorada e submetida à vileza. E onde fica nisso tudo o amor maternal que esperamos de toda mãe?

Nikola Novak não crê sem mais no papel de vítima de Berrin T. e pergunta se a tal estivesse mesmo sob pressão do parceiro – por que não mostrava sentir piedade pelo filho nos vídeos onde o menino era violado? Não mostrou. Seu interesse era não deixar transparecer marcas de violência nele, através de algemas, adesivos e outros instrumentos repressivos que usaram na criança; seu interesse também era mostrar-se como mãe protetora e lutadora, e assim o fez quando em março de 2017 um policial deu-se conta de que Christian L. e Berrin T. viviam juntos apesar da proibição de contato. O filho foi retirado do lar e entregue aos cuidados de uma família. Após um mês a criança voltou a viver com a mãe, sem que os funcionários de amparo a menores tivessem se dado conta de estar sendo ele vítima de agressões e abusos – a criança não foi ouvida, apenas ela, a mãe conseguiu convencer os funcionários usando conhecidos argumentos clássicos que definem uma mãe como boa, amorosa e cuidadosa – mentiras, enganos, mas que deram para ganhar a sua confiança. Como poder estar contra de uma mãe que quer proteger o filho? Com a mãe o menino não poderia estar em melhores mãos. – Assim se defenderam alguns dos funcionários – Por que o menino voltou a viver sob a tutela da mãe equivale a pergunta por que ele voltou ao martírio. Esta pergunta tardia, muitos a fizeram na imprensa e na mídia em busca de uma claridade, que no fundo revelou, por um lado, a expressão do fracasso das autoridades competentes que poderiam ter evitado mais sofrimento à criança se tivessem à disposição mais pessoal com suficiente trabalho coordenado, como também o acatamento a bitolas no modo de pensar e trabalhar impediram esclarecimentos dos fatos e até a possível salvação da vítima. Por outro lado a imagem da mãe protetora, cuidadosa e cheia de amor que temos fortemente impregnada em nós é incapaz de se virar no contrário. A confiança vem daí, deste padrão de que uma mãe por natureza não desonra o filho, e quando isto acontece e tomamos conhecimento, ficamos perdidos, nossa imaginação se limita, sentimos repulsa dos fatos que ouvimos e evitamos falar deles, pois falar deles é tocar num tabu, o tabu que envolve a mãe, que a faz intocável e longe de ser vista como uma abusadora sexual ou pedófila. Até os termos causam estranheza porque quem abusa comumente é o pai, o padrasto, o avô, o tio e outros ligados à família, mas nunca a mãe. Expertos no assunto dizem que a maioria dos delitos de abuso sexual a crianças praticado por mães – ou mulheres em geral – fica na sombra, encoberto porque não queremos aceitá-lo como verdade, e a razão disso repousa em profundos tabus, em mitos de gêneros e em repressão coletiva. Na Alemanha, segundo as estatísticas policiais, foi registrado em 2017 que no total de abusos sexuais a menores, quatro por cento foi de autoria de mulheres – a mãe, a avó, a tia, etc. – em todas elas está presente o mito do amor maternal. E os casos não registrados? Destes não sabemos.

Que energia produtora é capaz de conduzir a tais atos? O papel da mídia, da ganância, a história familiar de cada uma, o perfil psíquico? Já foi constatado em vários casos que quando uma mulher pratica pedofilia, já foi ela mesma vítima de abuso sexual, sem que jamais tivesse procurado ajuda terapêutica, ou vem de meios familiares insanos, tornando-se alcoólica ou dependente de drogas, no fundo um desajuste de personalidade. Sabe ela disso? Está consciente dos danos irreparáveis que causa à criança? Acho que sim, embora não queira se dar conta, ou procura um mecanismo de defesa para livrar-se de sentimentos de culpa. Uma mãe que manipula ou força seu próprio filho a satisfazê-la sexualmente – manualmente, oralmente, ou através de objetos – que se masturba na sua presença, ou o incita a uma penetração não pode esperar compaixão da sociedade, mas sim ódio – ela violou um tabu – por isso há casos de pedófilas que querem e tentam abrir-se para outros, principalmente por meio de serviços telefônicos de ajuda emocional, mas interrompem o contato se pressentem que poderão ser descobertas; daí as dificuldades nas investigações porque ao contrário dos pedófilos, elas não aparecem, mas sabemos que existem e por toda parte.

Nos países onde o feminismo ainda anda de quatro ou quando este ainda precisa, apontar o dedo na cara dos machos irreverentes e, de formulações fortes e diretas para confrontá-los, não é fácil também ver a mulher com aqueles comportamentos contra os quais ele se posiciona ou considera-os como típico de homens – até para estes é difícil conceder que uma mãe faça isso, contudo a moeda também tem outra cara, e segundo relatórios de profissionais uma parte considerável dos abusos sexuais intrafamiliar tem a mãe como cúmplice. Uma vez que também não é fácil aceitar esta triste realidade, caímos em formas de defesas – como é possível? Isso não chega na cabeça de ninguém! – Pois sim, e dá até margens para revisar certos posicionamentos radicais ou polarizados dentro do feminismo. Homens que foram abusados sexualmente pela mãe quando crianças guardam por muito tempo a dor, sem poder expressá-la, de terem sido maltratados, golpeados e ameaçados de serem abandonados, caso não a satisfizessem como ela queria – tudo se passa a nível dos sentimentos, pois as crianças não sabem exatamente o que está sucedendo; a maioria dos abusos começa antes da puberdade, e nesta fase elas são vítimas diretas de serem divididas entre o que é certo e o que não é certo; não sabem julgar o que é amor, dedicação e sexualidade e sentem-se exigidas de passarem a ter vários papeis: filho, amigo, amante, marido – tornaram-se vítimas, a serviço dos desejos de prazer da mãe – o prazer como um vício vazio – até puderem de uma vez se liberar: isto passa no período da puberdade entrando na adolescência, quando os garotos já esgotados, estragados e desorientados dizem um basta acompanhado muitas vezes do afastamento radical da mãe. Muitos reprimem esses episódios, banindo-os do consciente, esquecendo-os até que qualquer vicissitude oferecida pela vida faça com que eles irrompam brutalmente e o horror do inferno volte outra vez. Daí a necessidade de trabalhar esse passado horrendo numa terapia – e quanto mais cedo melhor – o que não passa com muitos pela repetida razão do quanto esse passado desorienta e causa desordem na personalidade de seu dono.

Agora Berrin T. e Christian L. estão na prisão graças a uma indicação anônima à polícia em setembro de 2017. Eles têm ainda que pagar 42.500 euros à criança assim como às outras vítimas – o chamado dinheiro da dor pelos estragos causados a elas, e será aplicado em favor de sua educação. O menino está vivendo sob os cuidados de uma família e não quer falar sobre o que passou com ele. Ela, a mãe, a qual nunca vi seu rosto – baixou a cabeça ou cobriu-o com um papel durante o julgamento – é gorda, uma figura balofa, com aparência desleixada e sem atrativos, um acúmulo de gorduras e cigarros fumados; não perguntou pelo filho, nem como ele estava, sua preocupação maior foi poder comprar seus cigarros.

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