Essas meninas!

                   

Greta Thunberg com sua mochila e boina de lã desceria de um trem despercebida se não fosse um grande cartaz que carrega escrito em sueco – Greve da escola pelo clima – e já um grupo de jornalistas e fotógrafos não a estivessem esperando, seja em Katowice, Davos, Bruxelas, Paris e Hamburgo. Mas nem por isso ela se considera uma estrela; o que a tornou assim foi a mídia em geral divulgando para o mundo sua obstinação persistente desde agosto de 2018: em vez de ir para a escola às sextas-feiras, sentar-se no chão com o seu cartaz em frente do parlamento sueco, enquanto o governo não tomar medidas locais para alcançar sua cota-parte dentro dos objetivos do Acordo de Paris em 2015, ou seja, a temperatura média da terra não deve aumentar mais de 2 graus centígrados por ano em relação aos níveis já existentes no período pré-industrial, e isto até o final deste século, ou as mudanças climáticas serão incontroláveis. O que muitos consideraram sua ação como absurda, infundada e até louca, não era para Greta uma brincadeira. Pouco a pouco foram se juntando outros alunos que também deixaram de ir às aulas para apoiá-la, e assim se formou o Friday For The Future – Sexta-feira para o futuro – também em outros países europeus e na Austrália. Crianças foram às ruas para protestar; e o que fez este movimento ser ainda mais especial é o de não estar trajado de estudantes universitários, nem ter sido começado por eles.

Como uma menina de 16 anos, que não viaja de avião por princípio – bastante pequena para a sua idade, com duas tranças longas que lhe caem ladeando suas bochechas salientes, parecendo mais ter entre 11 e 12 anos, e estando rodeada de pessoas é impossível vê-la pelos seus 1,53 de altura – é capaz de atacar políticos, empresários, banqueiros, todos aqueles que participam do poder e das grandes decisões? Estes são os responsáveis pela situação em que nos encontramos porque suas idéias são indiferentes à sobrevivência do nosso planeta, e nem adultos suficientes são para ao menos ter coragem de falar a verdade, disse Greta Thunberg em Katowice, Polônia, na última COP24, que é uma cúpula climática anual da ONU.

É que Greta foi tão somente uma alavanca, de comando e de velocidade para impulsionar novas direções. Se adultos tendem à resignação e indiferença, jovens começam a preocupar-se por anteverem insegurança quanto ao futuro. Ela tomou conhecimento do estado do planeta terra na escola; durante uma aula soube da verdade já constatada por científicos, para a qual os políticos querem fechar os olhos; por isso daí seu ataque a eles de não fazerem nada consequente, mesmo estando em postos de direção, e de não quererem ouvir nada que contrarie seus planos de crescimento global e poder monetário. E que verdade foi essa? O aquecimento da terra com as suas conseqüências fatais como: estiagem, calor alarmante, furacões, chuvas fortes, inundações, etc., causado pelo excesso de gases de efeito estufa na atmosfera, pois a concentração contínua destes gases retém altas temperaturas absorvidas pela superfície terrestre. Tudo isso, a grosso modo e à forma de clichê, pode-se explicar pelo abuso e desrespeito à natureza, pelo fascínio do poder, pela acumulação de bens materiais, pelo desmesurado crescimento do capital e pela ignorância que é uma forma de miséria. Estabelecer uma existência tendo como base o contrário destes critérios é tão difícil que para muitos é impossível, é uma utopia considerando o avanço científico, tecnológico e industrial a que chegamos – seria como parar tudo? Acho que Greta sabe disso, mas, a meu ver, ela crê mais em mudanças que possam garantir o futuro das novas e futuras gerações do que em revoluções políticas, porque estas se concentram mais em tomar e manter o poder político; sua visão é outra – a de não mais esperar que partidos políticos tomem a iniciativa de mudar algo: O verdadeiro poder tem o povo. – e ela tem razão. Sabemos que a maioria dos políticos não quer falar conosco. Tudo bem. Então nós também não queremos falar com eles. Disse.

Para diminuir as emissões de carbono na atmosfera, extinguir o desmatamento florestal, salvar as camadas de gelo nas zonas polares do derretimento constante, tudo isso implica em mudanças profundas nos padrões do que se chama desenvolvimento, pois nosso modo de vida está relacionado a esses modelos que se impõem na sociedade e na economia.

Não é fácil, reconheço, sair das bases energéticas tradicionais – as ditas fósseis – o petróleo, o carvão mineral, o gás natural – onde nelas estão assentadas bases culturais e de subsistência – e passar a formas de energia renováveis, como a solar, a eólica, etc. Por outro lado o mundo está saturado pelo poder da produção excessiva; acúmulo de produtos industrializados, dos quais não precisamos nem a metade, pois a maior parte dos produtos de consumo fica sem utilidade, amontoada em algum lugar ou queimada sem levar em conta a natureza da matéria prima, seja ela biológica ou não, e o quanto se violou a terra para a sua produção, o seu produto final exposto à venda. É quando reconheço a importância e o valor desses jovens em levar a sério as mudanças climáticas como uma questão urgente, e o fracasso dos adultos, estes sabedores de tudo, mas conformados com a ordem das coisas, como se o futuro não existisse. Para os jovens o futuro é algo que vai ser vivido, e nele deve-se depositar as expectativas e os projetos, a esperança de um mundo melhor. You Can Not Eat Money diz um cartaz que segura uma menina em Davos. Uma mensagem profunda e apocalíptica, pois se no fim das contas só restar o dinheiro, este não se pode comer.

Lá de cima se vê a terra pequena, e a terra nunca foi tão pequena como hoje em dia. Esta perspectiva de modéstia nos diz que o que precisamos é de parcimônia. Assim viu Alexander Gerst(*) o planeta terra de uma estação espacial em órbita, onde ele comandou uma missão espacial internacional junto com outros astronautas. Um dia antes de sua volta a terra, ele mandou uma mensagem aos seus netos ainda não nascidos, na qual ele, em nome de sua geração, pede desculpas pelo global aquecimento da terra causado pela humanidade. Infelizmente a sua geração – e as passadas – não deixarão para as futuras gerações a terra em boas condições; e cada um de nós deveria refletir até onde nosso estilo de vida está danando o planeta. Ele ainda tem esperança de que se possa corrigir os erros, e espera que sua geração não fique na lembrança das futuras como aquela que com egoísmo e indiferença destruiu o fundamento de suas vidas.

Greta Thunberg fala para atingir o público, ela é implacável e até sarcástica às vezes; diz exatamente o que não é dito numa cúpula:

Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam medo como eu sinto todos os dias. Não rogamos aos políticos que simpatizem conosco. Eles nos ignoraram no passado e vão continuar nos ignorando. Mas as coisas vão mudar, mesmo se eles gostem ou não.

Os que se sentem responsáveis tentam desacreditá-la: Pobre Greta, se referiu a ela Paul Ziemiak, político da União Democrática Cristiana, que ora está no poder em coalizão com outros democratas. Christine Lagarde, diretora do FMI quis conhecê-la – O que você faz é muito importante. – e prometeu-lhe apoio no que for possível. Greta sabe o que são promessas, para ela agir e falar claro é mais importante.

As críticas a Greta Thunberg e ao movimento Friday For The Future são diversas, a começar pelo gazeio às aulas como fator de indisciplina. Diretores de escolas, pais e funcionários da educação sabem que é melhor não criticar o conteúdo do movimento para não aparecerem mais responsáveis, mas sim atacar em nome da ordem escolar. Como esperar dessas pessoas que elas possam promover mudanças, se suas atitudes não saem das ordens estabelecidas? Isto reflete na forma de criticarem o ativismo de Greta como produto de manipulações ou como resultado de sua síndrome de Asperger, um estado doentio com sintomas de depressão e leve autismo, e que causa nos pacientes dificuldades na área de interação social, e são levados a fixações de idéias ou de perseguir constantemente uma idéia. Mesmo sendo estes argumentos plausíveis, não quero crer neles. Prefiro crer na sua postura determinada, seu olhar direto, sua expressão séria. Quando a vejo nos vídeos, não capto dissimulação, mas uma convicção no que faz.

Enquanto isso o ativismo de Greta traz mais seguidores e gazeadores de aulas às sextas-feiras: Nós vamos seguir nossa greve até que eles façam alguma coisa. Eles não fizeram suas tarefas de casa, mas nós sim. Vamos continuar até que algo mude. Disse Greta no 1. de março em Hamburgo, pois O clima está mais em desespero do que as minhas notas de matemática. Não existe um planeta B. Salvem a terra, pois ela é o único planeta que tem chocolate.

(*) Alexander Gerst é um geofísico e astronauta alemão da Agência Espacial Europeia – ESA.

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