A vez do coração

                  

Quando fui vítima de um assalto no Brasil há mais de dez anos, no exato momento em que o assaltante me empurrava uma pistola contra o meu corpo, a única coisa que pensei de um relâmpago foi: „agora chegou a minha vez.“ Outros pensamentos não tive, a não ser que perguntei-lhe como uma autômata o que ele queria enquanto lhe oferecia minha bolsa linda, novíssima e cara – comprada só para a viagem – pendurada no ombro e ainda com o meu passaporte brasileiro dentro. „A gente quer o carro“, respondeu-me ele. Neste momento vi que seu colega assaltante empunhava uma pistola contra o peito do meu marido, tentando arrancar as chaves do carro de sua mão. Tudo isso foi em segundos até que alguém – um anjo talvez – passasse num carro por nós mostrando coragem e dissolvendo a situação, desfazendo o assalto. Não sei o que esse anjo falou ou fez para que os dois homens armados fossem embora.

Por que me lembro disso agora quando o que quero tão somente é esclarecer aqui o porquê não tenho escrito mais posts? Minha última publicação do blog foi há quase três meses, no seis de março com o texto „Essas meninas …“ E mais: o que estes dois fatos têm em comum? É que de novo chegou a minha vez, sem que eu tenha passado por outro assalto. Há coisas que chegam ou que passam na nossa vida, sem que tenhamos contado com elas – a vida é quando não a planejamos, diferente de como a queríamos que fosse. Nunca tinha sequer imaginado que iria ter problema de coração. Desde criança já ouvia deles, minha mãe falava das pessoas que sofriam do coração, usando bem os verbos sofrer ou ser já como prenúncio de morte, e com uma cara e um tom de voz que já deixava antever o enterro. Aqueles seus agouros estavam muito longe de mim, mas como criança não deixei de interiorizá-los para, como um paradoxo, defender-me deles mais tarde, afugentando-os de mim na idade adulta: nunca sofrerei ou serei doente do coração foi o meu lema para a vida.

Mesmo com esse mecanismo de defesa, não escapei. É claro que havia um medo latente, incubado pelos presságios de minha mãe contra ela mesma – era um tanto hipocondríaca, seu coração, porém, não foi o que pôs fim a sua vida, como ela acreditava. É que o medo para os hipocondríacos também tem a função de com ele e de antemão livrá-los do mal pressentido, apesar de que este uso não garanta nada. O medo, porém, não me incomodou com maus pressentimentos quanto ao meu órgão vital, o qual chamava e ainda o chamo de meu príncipe; até que ele, o meu príncipe forte e amado começou a sofrer, precisando de ajuda e pedindo socorro que foi além de minha capacidade. Assim fui parar num hospital para fazer uma tal de ablação cardíaca. Esta é tanto um procedimento como um tratamento, que a grosso modo, sob uso de sedativo, e por meio de um cateter, que é um fio fino e flexível, transportador de energia e que tem na sua ponta um elétrodo capaz de liberar energia fria ou de calor, esta última chamada radiofrequência. O cateter é introduzido numa veia da virilha, e daí ele chega ao coração para localizar as regiões onde impulsos elétricos indevidos são a causa da arritmia. A função dele – por meio de energia – é deixar um círculo de cicatrizes no tecido como um muro que impede a entrada daqueles impulsos elétricos danosos ao átrio, causadores de um tipo de arritmia chamada fibrilação atrial, que se não for tratada pode causar um AVC – um Acidente vascular cerebral. A arritmia cardíaca já é uma doença generalizada, o número dos que a padecem é de milhões e cresce, principalmente na idade avançada.

Assim sendo não faço parte de uma minoria, mas nem por isso sinto-me consolada, ao contrário, sinto-me retraída, e dou-me conta de que estou mais precavida e atenta, o que também é positivo. Em vez de correr para as atividades para economizar tempo, dou-me mais tempo para elas, procuro ser flexível e usufruo com isso. A minha vida mudou? Coisas mudaram no meu modo de viver; agora pertenço a uma grande maioria que por motivo de doenças cardíacas, toma medicamentos – só eu tenho que tomar três diariamente: pra isso, pra aquilo e aquilo outro que resguardam a minha convalescença. Sim, estou de resguardo sem ter parido, esperando que ele não seja pra toda a vida. O fato de ter ficado interna no hospital por dois dias, não me garante uma cura; não é verdade o que muitos médicos dizem sobre a eficácia imediata de uma ablação – há pessoas que já passaram por ela até três vezes sem que o procedimento tivesse tido sucesso; é bem provável que com a idade avançada o mal volte. Mas é possível evitar esse mal se ele não é hereditário ou uma falha orgânica? Como? Nem sempre, por mais que os médicos digam: viva mais devagar; faça exercícios físicos ou caminhadas, não engorde, evite café, chocolates e estresses – aqueles que levam o coração a galopar e a bater mais do que devia – os tais batimentos extras. Por outro lado, viver sem estresse não é possível e seria até monótono, pois até precisamos de alguns deles, que nos dê impulso, ou nos tire de um atoleiro, sobretudo durante o trabalho. Este é o bom estresse, aquele que quando já passado nos deixa satisfeitos, gratos e podemos relaxar bem.

Preparar-se para que o estresse atue positivamente é uma estratégia nova no dia a dia de trabalho em grande empresas: agendas cheias, pressão de colegas e chefes, tomar decisões, lidar com o público, etc.. requerem nervos fortes e um corpo ativo. Eu já passei por situações de estresse, nas quais pude concentrar-me, raciocinar e encontrar soluções. Por quê? É que de alguma forma estava preparada e ativa, por isso não fugi da situação, pelo contrário, pude pensar melhor e estar absorvida nela. Contudo esse modelo não pode funcionar sem margens de dúvidas; depois me senti exausta – não somos uma máquina.

Já o mau estresse começa quando nos encontramos frente a um desafio, ou sentimo-nos ameaçados por algo que vem de fora e não sabemos como superá-lo, ou por fraqueza nossa, ou por falta de tempo ou competência, ou por não estarmos em condições adequadas, e muito mais que tudo isso, pois as causas do estresse também são individuais. O corpo responde em segundos entrando em alerta pela liberação de hormônios, como a adrenalina, produzida pelas glândulas supra-renais e responsável por reações, como fugir ou lutar. Além disso a frequência de batidas do coração dispara, mais glicose entra no sangue, as atividades do estômago e intestinos se reduzem e a pressão do sangue sobe. Passado o estresse o corpo e a mente estão esgotados e necessitando de uma longa fase de relaxação e repouso, que possa revitalizá-lo. Sem essa fase e a constância dos estresses, aparecem entre outros problemas o de coração e o burn out.

Chegou a vez de ampliar o respeito a mim mesma, valorizar e praticar a paciência, ser mais cordial comigo e com os outros. Não foi em vão que do século XVI ao XVIII em Portugal se chamava de cordiais um remédio em forma de pedrinhas para fortalecer e confortar o coração. Sua preparação por monges ficou em segredo mantido por muito tempo; hoje, claro, se conhece a sua composição exótica. A cordialidade vem mesmo do coração e é mais do que a cortesia convencional criada por regras de como conviver socialmente. A cordialidade é delicada e terna, paciente e bondosa, ela quer harmonia.

Agora deixo claro que não quis aqui nem fazer um texto científico sobre a arritmia – o que escrevi sobre ela e o estresse é básico e corrente – nem dar conselhos a aqueles que padecem deste mal – o que posso dizer é que estou consciente do meu problema, conheço minhas restrições, mas estou vivendo, e isto é mais eficaz do que o medo de morrer. Fui estritamente pessoal sem, contudo, entrar em detalhes de como a doença me chegou e como sofri com ela. o que quis foi justificar minha ausência como blogueira aqui nesta rede social. Espero publicar de novo o quanto antes, mas como disse, ainda estou convalescente.

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