A CULTURA DA XINGAÇÃO

Como o povo brasileiro está expressando seu mal-estar e demonstrando a sua revolta frente à atual situação política e econômica do país? Estão indo às ruas para protestar? Pelo menos no momento ainda não o suficiente, e nem de longe como são os protestos no Chile. Mesmo que, os que estão no poder instrumentalizem as instituições e procedam contra a constituição, o povo está até agora calado, e passivamente parece submeter-se às medidas aprovadas pelos tais lá de cima, sejam elas a reforma da previdência, as privatizações de estatais ou os cortes na educação, sem falar no desacato do presidente da república ao nosso ecossistema, aos nossos primeiros nativos, como parte integrante da nossa etnia, e a indiferença ao povo necessitado. Pergunto-me às vezes com muita dor se a Vaza Jato ainda tem sentido, levando em conta que as revelações do site Intercept, não só de atos ilegais, mas de extremos abusos de poder, até agora têm deixado incólumes os acusados. Os pivôs da Lava Jato continuam no poder desfrutando de suas liberdades enquanto o ex-presidente Lula segue detido esperando sua liberdade justa – mas de onde ela virá? Do próprio judiciário que o meteu na prisão? Ou da enfim inconformidade do povo que atuará como pressão? Lembro-me de que o jornalista Pepe Escobar numa entrevista à TV247 perguntou a Leonardo Attuch por que o povo brasileiro não se rebelava. Attuch se limitou a dizer que isso era uma boa pergunta.

Ainda não há no Brasil razões suficientes que levem a manifestações de massa? Talvez. É que só os escândalos de políticos, suas brigas e já seus alinhamentos partidários prevendo às próximas eleições não são o que toca no âmago das necessidades do povo, ou seja, naquilo que o faz garantir sobreviver decentemente. No fim das contas são os direitos inatos das pessoas a um trabalho digno, a um salário condizente, a uma educação que forma, e ao direito tão básico quanto essencial: o de comer, vestir-se, calçar-se e locomover-se, que se restringidos, vão se transformar em energia perigosa e ameaçante a qualquer ordem estabelecida.

Enquanto isso a esquerda é atacada e criticada por não organizar o povo e mandá-lo para as ruas – está aguardando o momento histórico? O temor de cometer mais erros é maior do que arriscar-se em organizar o povo fora do tempo? E enquanto o povo aguenta, tem ele que canalizar seu sofrimento e raivas em alguma coisa: uma delas é xingar. Xingar é a via que expressa o descontentamento de um momento, se não podemos fazer mais do que vociferar; xingar é fácil e rápido e não requer reflexão. Não pode existir um diálogo à base de xingações, estas não descrevem a realidade e os fatos, não são objetivas – elas são descargas de sentimentos negativos por meio de expressões ou frases repetitivas, sem que nos deixem entender mais além do que elas dizem. Por outro lado todos nós xingamos; xingar faz parte da cultura, do modo de viver do dia-a-dia e presente nas sociedades: o povo xinga os políticos, estes xingam seus adversários e assim vai … Mas mesmo admitindo isso, nos fica um mal-estar, um vazio, pois a língua não serve só a pilhérias, e o que esperamos – eu, pelo menos – de um político é que ele se apresente e expresse-se acima do nível corrente e vulgar. É um erro crer que palavras como porra, cu, caralho e outras mais na boca de um político, o faz aproximar-se mais do povo. Não. Elas servem de fuga dos problemas reais e rebaixam-no, reduzindo-o a ser um desbocado, sem respeito, quebrando o seu distintivo: a habilidade e segurança de saber expressar-se nas situações mais críticas – política não é brincadeira não senhor!

Entre tantas, a briga da deputada Joice Hasselmann com os filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, o chamado Carlucho e o Eduardo Bolsonaro é um exemplo de como as xingações saem dos seus reais motivos e entram no paradigma de ataques a mulheres. Não só no Brasil, mas presente em outras sociedades, xinga-se de preferência usando um vocabulário referente aos órgãos sexuais; só que, e de forma machista, o genital feminino não é símbolo de grandeza nem de força, como se faz com o do homem: pau, cacete, pica referem-se ao membro masculino ereto, forte e produtivo, ou, em outros contextos, a palavra cacete marca uma intensidade. Já xereca, buceta, bucetuda reduzem à mulher ao seu genital como aquilo que o homem quer se apoderar, usar e gozar com ele. Com Joice Hasselmann não se chegou a este nível, mas ela mesma respondeu ao twitter, o da nota de três reais com a sua fotografia, do Eduardo Bolsonaro – uma ofensa a Hasselmann menos como deputada e mais como mulher – com um twitter similar: uma nota de cem reais com o rosto de Eduardo Bolsonaro escrito ao lado: Sem Pau. Não é preciso explicar mais.

A jornalista Cynara Menezes escreveu um artigo (*) no seu blog Socialista Morena que a onda de xingações ofensivas começou na abertura da Copa do Mundo no Brasil em 2014, quando a então presidenta Dilma Rousseff foi ultrajada em pleno estádio com um „vai tomar no cu“. Ela disse que nunca tinha visto aquilo, apesar de que já tinha coberto manifestações contra outros presidentes, como Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardozo. Depois, nos protestos a favor do impeachment da ex-presidente, esta foi – para mim – mais que xingada, foi insultada com nomes como puta, quenga e vaca. Senti a dor de Cynara Menezes ao ter escrito isto no seu texto, pois Dilma Rousseff não merecia esses insultos – ela era a primeira presidenta do país, além de ser mãe, já avó e com mais de 60 anos, segundo Menezes. A pergunta é se a extrema direita xinga mais do que a esquerda. Cynara Menezes acha que sim, pois eles foram às ruas para isso, mas remete ao „ei Bolsonaro, vai tomar no cu“ tanto no Rock in Rio quanto no estádio do Pacaembu em São Paulo como sinal de um enfraquecimento por falta de debates: “Não éramos nós que tínhamos mais conteúdo?” Pergunta ela. É como se o debate político tivesse sido ocupado por xingamentos, os palavrões por palavras de ordem, passando-se assim a agir como os opositores, os verde-amarelos, que – parece – se mobilizaram mais. O povo, para ela, está apático “como bois indo pro matadouro” e nessa “inércia” vive limitado a hashtags, twitters e memes nas redes sociais. Parecendo até nostálgico, ela relembra alguns daqueles ditos que popularizaram os protestos contra Fernando Collor e Fernando Henrique Cardozo; expressões que longe de insultar os tais, entoavam rimando a insatisfação do povo: “Rosane, que coisa feia. Vai com Collor pra cadeia.“ Ou: “Ê Fernandinho/vê se te orienta/ já sabem do teu furo/no imposto de renda”.

Seu artigo também postado no site 247 teve muitos comentários, sendo a maioria do contra – claro – alegando que a autora quer moralizar, e que o “vai tomar no …“”não é negativo nem indecente por a expressão perder seu sentido original ao ser muitas vezes exclamada por uma multidão, a qual não se sabe se é de direita ou esquerda; são apenas pessoas que têm o direito de gritarem sua insatisfação. Um deles disse que o povo só entende nesse nível porque debates não elegeram Fernando Haddad. Compreendo, só que a meu ver Cynara Menezes não foi entendida. É que num contexto mais amplo xingar fica por isso mesmo, não transcende, não alcança a dor, o essencial que devia ser dito, mas que fica calado por só ser manifestado por palavrões. É um desembestado de palavras movido por emoções negativas. “Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito que está preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar?” Escreveu Menezes. E depois?

Nunca ficou tão claro como nos nossos dias que o Brasil tem um reduto de malfeitores. Contudo se o povo insatisfeito se contenta só em xingar seus agressores, ele não sabe ainda mobilizar-se ou não está maduro para isso. Uma coisa sabemos: xingar faz de quem xinga forte, talvez por isso o Olavo de Carvalho se sinta grande e importante. Mas sobre ele não quero escrever.

 
(*) O artigo de Cynara Menezes de 8/10/19 é: „Ei, Bolsonaro, vai tomar no …“: O Brasil trocou as palavras de ordem pelos palavrões

 

 

Próximo post: 26/11/19

Mamãe, não sou mais virgem!

 

Boa ou má notícia? Muitas mães preferem não ouvir tal verdade, e esta é a razão porque muitas jovens têm medo de contar-lhes que não são mais virgens e que o controle do corpo agora têm elas. Elas deram um passo irreversível, entraram para a vida de ser mulher feita e donas de seu corpo com o direito ao prazer, mas também com todos os riscos que isto pode trazer: gravidez indesejável, doenças contagiosas e deficiências como a AIDS, como também maus parceiros. Foi, porém, esse passo resultado de uma decisão consciente e acertada? Não se sabe a priori, mas o mais importante a partir daí é se elas estão preparadas para viver consciente e plenamente sua sexualidade, o que, por outro lado, nada disto é fácil por não só está implicado com a educação recebida em casa e na escola.

Verifiquei nas minhas pesquisas que a insegurança – considerada normal – frente à primeira relação sexual é bem menor nas jovens do que o medo de que os pais a descubram, ou de contar em casa, sobretudo à mãe. O medo de falar está carregado de culpa, vergonha e ameaças de serem controladas. Terem optado, contudo, por não ser mais virgens foi um ato de independência – seja este consciente ou não – termina ele drasticamente numa separação. Embora a jovem continue a viver sob o mesmo teto com os pais, ela já faz coisas sem pedir-lhes permissão – ela já tem uma privacidade. Para muitas jovens isto parece ser como viver uma vida dupla por ter quebrado a confiança dos pais; elas sabem como eles irão reagir e isto as perturbam. Infelizmente esta é uma situação ainda vivida em muitas famílias brasileiras; outras culturas, pelo contrário, são mais flexíveis, não estão orientadas por valores rígidos e conservadores e investem mais em esclarecimentos. Decisivo é como a relação familiar está articulada – caso a comunicação em casa esteja dirigida para orientar com respeito e infundir confiança, o medo não terá razão de ser, pois a jovem não sentirá vergonha ou culpa de sua decisão, e decidirá por ela mesma se contará em casa ou não.

Muitas mães não só esperam que suas filhas lhes contem tudo, mas acham que elas devem ter essa obrigação – impossível – e sentem-se desobedecidas e até traídas ao não serem informadas ou procuradas para uma conversa particular. Aí falta o respeito à filha que por sua vez está formando sua privacidade. A confiança se dá com base num diálogo sincero e requer respeito das partes. Onde as prioridades são formas de cobranças, ameaças e até chantagens não pode haver diálogos, senão autoritarismo. Essas mães não sabem lidar quando suas filhas chegam à puberdade e têm a primeira regra; elas se preocupam demais e confundem cuidados normais com ordens e proibições. As transformações físicas causadas pela produção do hormônio estrogênio podem constranger as meninas, e elas devem ser esclarecidas, respeitadas e nunca motivos de troças. Mudanças emocionais e sentimentos de valor aparecem após o primeiro sangramento menstrual: sou mesmo valorosa?
No Brasil a primeira relação sexual pode passar já aos quinze anos ou antes, ou seja, na puberdade; nas classes mais baixas a promiscuidade entre familiares pode acelerá-la tornando este contato forçado, dolorido e traumático, e não é raro que meninas engravidem por ele, sem querer obrigadas precocemente a entrar na vida adulta quando podiam ainda estar na escola. Tirando esse aspecto cruel do primeiro ato, meninas estão perdendo a virgindade cada vez mais cedo, mas para cumprir outras exigências comparadas a nossos antepassados. A minha avó, por exemplo, engravidou de sua primeira filha – a minha mãe – aos treze anos já casada, para formar uma família e ser a mulher do meu avô, sustentada e protegida por ele. Contando isto a uma roda de mulheres durante um jantar, uma delas disse que para a minha avó isso foi como uma violação – sim, uma violação permitida. Hoje, parece-me que o período da infância está se encurtando, mas por outras razões: as facilidades que a vida oferece, o acesso rápido a informações e contatos, os apelos ao desfrute da vida são o que conduzem as jovens a se desenvolverem mais rápido, querendo ter experiências inusitadas que encham e deem um sentido à vida.

Os pais devem compreender e aceitar que os diálogos prestadores de contas das filhas vão deixar de existir, dando lugar a livre iniciativa e a prática de tomar decisões dos seus atos por elas mesmas, minimizando a influência deles. É que nesta constelação não se pode falar de tudo; é o momento de admitir que suas filhas já têm uma privacidade, e eles serão convidados a participarem dela, se elas quiserem. O dito „minha mãe é minha melhor amiga“ parece mais ficção do que realidade, pois o laço que une mãe e filha não é o mesmo que une duas amigas íntimas; na relação entre pais e filhas os papeis de ambos vão estar sempre presentes, determinando e cobrando suas partes. Melhor do que esperar da filha uma amiga aberta é fortificar os laços de confiança entre eles. Lembro-me que numa das minhas viagens ao Brasil, fui apresentada a uma jovem entre dezessete e dezoito anos que chegou com o seu namorado durante um almoço na praia. Depois que eles foram embora, o pai da moça me falou num tom resignado: „ela já fez“. Eu perguntei-lhe se ela o tinha contado, ou se ele a abordara. Não, nada disso. Então disse-lhe que ele estava agindo muito bem, que a deixasse em paz, que o fato de ela ter feito ou não era um assunto que só a ela cabia. Ainda que abatido, ele me confirmou. Acho que ajudei este pai a aceitar suas limitações e a nutrir respeito pela filha.

Por que a virgindade ainda é essencial em certas culturas, se ela como uma membrana fina e elástica pode ser rompida por um tampão, ou em certas práticas de esporte ou dança, ou até mesmo com o uso do dedo? Só para manter os valores patriarcais submetendo as mulheres ao domínio deles – claro, mas não só. Também certas religiões impondo as noções de pureza e pecado guardam a virgindade até o casamento, oferecendo-a ao marido após terem recebido a bênção de Deus. No fundo é a visão de pecado que prevalece ao considerar a sexualidade humana, e esta visão reduzida e ignorante é responsável, se de um lado pela abstinência do ato sexual como dever, por outro por excessos. Nada foi tão usado como objeto ideológico como a sexualidade: ou ela está pairada sob as sombras do pecado, ou é usada como fator de domínio exclusivo do marcho – os dois aspectos se complementam, e para sair destes extremos precisamos de muita luta de emancipação. E as nossas fantasias, estes depósitos imaginários? Aonde eles nos levam? Ao perigo? Que nos salvam?

As mães, principalmente, não podem garantir que suas filhas tenham uma vida sexual satisfatória, mas podem contribuir para isto desde o estabelecimento da autoconfiança até a consciência do corpo e o respeito por ele.

POR QUE TER UM BLOG?

 

Desde que comecei este blog convivo com uma cena que se abre ao meu redor, da mesa onde está o meu MacBook Air – onde escrevo – até um quadro retangular enorme pendurado na parede a minha frente. À esquerda ficam as janelas. A mesa comprida de madeira escura é a de jantar, nela servimos a ceia a partir das oito, o que coincide com o noticiário da televisão que só raras vezes não assistimos. Antes e depois do jantar estou sentada à mesa, os olhos atentos ao monitor que me traz o Brasil e o mundo. Ter um blog é também ler webs e outros blogs para sair, ou do absolutismo ou do isolamento.

Hoje é um grande dia para o meu blog E Agora Mulher?: Ele é uma criança que completa três anos, já sabendo andar e falar condizente a sua idade; e hoje relembro a minha primeira postagem – Defeitos: como é difícil aceitá-los – quando pensava que ia dar a este blog temas exclusivos da mulher no seu processo de autodeterminação, e não via que eu também ia passar por um igual processo aqui. Esses equívocos acontecem, e os blogueiros sabem disso – que escrever é uma aventura para além do que se propõe. Daí acabei escrevendo modestamente sobre a situação política no Brasil; minha opinião e meu parecer pareciam exigidos pelo estado alarmante que estava entrando o país desde a prisão do ex-presidente Luís Inácio até a morte da vereadora Marielle Franco, passando pela eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Foi, porém, com o assassinato de Marielle que não pude mais me separar dos ocorridos políticos e sociais brasileiros; queria saber para onde ia tudo isso; o Brasil se tornou uma prioridade, apesar de eu viver longe e ignorar tantas coisas que passaram sem a minha presença. Eu já estava fora do país quando o ex-presidente Lula foi eleito pela primeira vez; também não conhecia Marielle Franco, e o destino trágico dos dois pôs os meus pés no chão – no chão do Brasil. Antes a distância geográfica entre mim e o país se refletia numa falta admissível de contato – o que não está perto de nós, vai perdendo interesse.

Daqui da mesa vejo um quadro na parede da sala contígua a esta, separada por uma porta larga que se abre no meio em duas partes. Quando elas estão abertas, recebo quase cem por cento da visão do quadro. Contudo eu o conheço bem e sei que se mesmo os meus olhos não podendo absorver daqui toda sua largura de 2 metros e 65 centímetros através da porta, o que posso ver é suficiente para me dar um significado. Ele também me serve de descanso e pausa inspiradora quando levanto a cabeça por tanto matutar. A pintura é um momento veneziano resumido no já ido pôr do sol. O azul prioriza entre outras poucas cores permitindo as águas de Veneza se unirem ao céu em tons brilhantes e já noturno. Os velhos prédios da cidade à margem do canal se repetem refletidos dentro das águas como colunas afundadas, rígidas e frias – é um momento eterno. Também há uma ponte, uma das tantas pontes sólidas e cortantes, iluminada por uma única lanterna que espelhada na água parece uma lua escondida entre as colunas da ponte também refletidas. Nenhuma pessoa aparece para atrapalhar esse momento – o que vejo vive de uma profunda solidão e beleza. De tanto contemplar esse enorme quadro, já conheço seus tons de azul; a cor de ferrugem da ponte traduz a idade da cidade … Me encosto no respaldo da cadeira para vê-lo melhor – é sempre assim.

Acredito que o meu blog serve a aqueles que vivem procurando algo na web, pois os que me seguem, não acho que leram ou leem todos os textos publicados aqui. De todos os modos ele serve a uma pequena população, e surpreende-me encontrar visitas de tantos países, mesmo sem saber se essas pessoas leram um texto, o compreenderam, ou se identificaram com algum. Quem são elas que interessadas por um tema ou atraídas por um título percorrem meu arquivo? Muito poucas deixam seus rastros como likes, feedbacks alentadores ou comentários, mas nem por isso vou parar de manter o blog; ele não está morto e a falta de mais likes não significa unlike. Ouvi dizer que se pode até fazer negócios com likes, ou seja, comprá-los, trocá-los por outras coisas, enfim habilidades subvertidas, fakes porquanto mentirosos. Não criei um blog para isso, mas sim por gostar de escrever, para desenvolver minha capacidade crítica e de pensar e, quem sabe, poder alcançar pessoas de forma positiva. – Meu blog é um dos instrumentos de minha expressão, disse ainda recentemente a uma conhecida que me perguntara o que ele valia – não para mim, mas – na minha vida. Ele não está no centro do que compõe minha vida, mas dá-me uma estrutura e tem um certo privilégio, não comparado, claro, este com o que dou ao meu marido, embora ele reclame algumas vezes que eu dou mais atenção ao blog que a ele. – Não é assim querido.

Já é noite, a sala onde está o quadro agora está escura, porque eu esqueci de acender a luz; se o faço, Veneza aparece azulada diante de mim; num momento de quietude buscando a si mesma e tão livre do vai-e-vem dos turistas diários que não a veem – a não ser com a objetiva de suas câmaras – como o meu pintor a captou. Estou feliz por estar aqui e continuar a tarefa inventada de ser blogueira. A gente se vê por aí.

 

Próxima postagem: 7/10/19