MULHERES QUE ESCREVEM SÃO PERIGOSAS

 

Não quero afirmar aqui neste pobre texto que Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente, como no livro do mesmo nome, originalmente em alemão – Frauen, die schreiben, leben gefährlich de Stefan Bollmann, 2006, com um excelente prefácio de Elke Heidenreich, e que foi publicado em Portugal em 2007.

É que não me interessa agora a quantidade de escritoras que tiveram suas vidas marcadas por algum risco, ou uma vida beirando a morte: fosse por doença – Katherine Mansfield, Carson McCullers – fosse por obsessão excessiva de morrer – Sylvia Plath, Anne Sexton – ou como único recurso para livrar-se do sofrimento psíquico – Virginia Woolf. Todas são famosas e podemos conhecer suas vidas facilmente pela internet ou por livros; todas conseguiram alcançar a fama antes de morrer. Entretanto, e aquelas que nunca conseguiram exprimir seu talento por não serem levadas a sério, e se o fizeram foi com muita luta contra condições adversas só pelo fato de serem mulheres? A história da atividade escrita feita por mulheres também está cheia de repressões, proibições e exploração do seu talento e capacidade, tendo em vista proveito financeiro e notoriedade para outros – homens, claro. A escritora francesa Colette escreveu Claudine, uma série de quatro livros entre 1900 e 1903 quando então era casada com Henry Gauthier-Villars – o Willy – um escritor menor e 15 anos mais velho que ela, que abusou do talento da esposa, apropriando-se da autoria da série que foi publicada a princípio sob o nome dele: par Willy – saiu na capa – por Willy.

Zelda Fitzgerald também não escapou dos excessos do marido alcoólatra, o famoso escritor americano, Scott Fitzgerald. Ele a considerou como uma escritora de segunda classe e plagiadora no seu único romance publicado em 1932 Save Me The Waltz escrito em apenas seis semanas quando ela se encontrava numa clínica psiquiátrica, e por sentir-se melhor teve licença de escrever até duas horas por dia. De Zelda Fitzgerald restaram pinturas, artigos e estórias curtas – escritas às vezes em seu nome, outras no nome do casal, o que evidencia a sua presença na obra de Scott Fitzgerald. Se assim era, como não pressupor que algum conto publicado do escritor não foi de autoria só dela? Zelda Fitzgerald sofreu por não ter sido reconhecido seu valor artístico em seus escritos e pinturas – mas como escapar da sombra do autor do “Grande Gatsby” e receber méritos independentes dele? Sua vida foi excessiva, escandalosa, mas também já um esforço pela sua autodeterminação que as feministas só se deram conta muito depois.

Sem as grandes mudanças ocorridas no século XIX não estaríamos onde estamos, nem teríamos o que temos hoje.O século XIX foi transformador: trouxe a derrota de Napoleão Bonaparte e guerras arrasadoras; a revolução industrial e o surgimento do capitalismo em expansão rápida; o enfraquecimento do poder monárquico e da igreja, a formação de estados políticos, e principalmente os movimentos sociais de reivindicações de direitos – a classe trabalhadora explorada se tornou consciente de seu poder de luta. E sobre os direitos da mulher, ainda como impulso da Revolução francesa no século anterior, já se começava a debater e a aparecer pequenas mudanças, sobretudo a partir da segunda metade. Também neste século cresceu a produção escrita por mulheres na Europa, como um paradoxo genial da limitada formação escolar e restritas atividades de trabalho reconhecidas para elas. Até então se atribuía às moças como trabalho fora de casa, a função de empregadas domésticas e babás – o que não lhes traziam conhecimentos extras, a não ser conviver com os modos e costumes de famílias bem situadas. As moças que tiveram a chance de aprender a ler e escrever, ou até de frequentar uma escola, podiam exercer funções de governantas, professoras de crianças, acompanhantes, ou tocar um instrumento musical, como a harpa, que era bem solicitada. Saber escrever, criar estórias e fazer disto um ofício tinha que ver com saber aproveitar sua capacidade de expressão em favor de ganhar algum dinheiro para ela, para a casa, para os filhos. Nem todas assinavam seus textos; por um lado para protegerem seus nomes – o valor da mulher estava no papel de esposa, dona de casa e mãe, o qual era cobrado sem pena pela sociedade, e a autoria revelada podia sujar sua reputação; por outro, ao dar uma autoria masculina aos seus escritos lhes aumentava a chance de aceitação e até de publicação; e até seus nomes serem colocados na capa de seus livros, tem que ver com direitos essenciais conquistados já no século XX, pois nada está desconectado e a emancipação é um processo de mudanças empurrado por alguma carência, seja material ou emocional.

As primeiras estórias escritas por mulheres deixaram um legado ao que se chama hoje de literatura feminina, ou romances para mulheres. Estes são os que mantêm a tradição do que era abordado como tema central – a vida amorosa das mulheres, os amores contidos e impedidos, o sofrimento do casamento, mas também sua ânsia por ele: „Melhor qualquer casamento do que nenhum“, era o que se afirmava e conduzia mulheres com frequência a matrimônios malogrados só por ser a única chance de saírem da casa dos pais e evitar o negativo emblema familiar e social de solteirona, pois no casamento estava depositado seu objetivo e seu futuro. Ela sonhava com ele, o idealizava, também esperando encontrar nele o amor e a sorte de poder subir na escala social e garantir um futuro materialmente satisfatório. Este modelo de novela massificou-se, considerado hoje o tipo de romance não só mais lido por mulheres, mas também escrito por elas. Na Europa e nos Estados Unidos estes romances são bem vendidos, eles têm uma estrutura nada complexa de uma saga familiar, ou de mulheres nos seus papéis atuais na sociedade: a mulher que não abdica de sua independência, mas ainda sonha com o Mr Right, ou os problemas da mãe e da mulher divorciada que trabalham, ou o apaixonar-se na idade madura, enfim a mulher ainda mais envolta com as vicissitudes do amor do que com outras questões. E daí a tendência de homens vê-los de forma negativa, como livros exclusivos para elas – porque eles não leem estes livros, claro! Mas claro podem escrevê-los! E é aí onde a situação se inverte: para atender a procura deles no mercado de vendas – homens escrevem romances de amor sob o pseudônimo de mulheres. E por que não?
A atividade de escrever aliada à formação escolar deu a mulher a possibilidade de emancipação, apesar de suas dificuldades e restrições do início. As exigências eram grandes para que uma mulher pudesse assumir um cargo de redatora na imprensa ou de fazer correções de textos. Como esperar tanto daquela que recebeu uma escolaridade inferior ao do homem? Só as privilegiadas aprendiam a gramática, as línguas clássicas e filosofia, mas ainda assim a ocupação de escrever era mais assunto de homens. Então, de fato quando mulheres se metiam a escrever eram perigosas porque se intrometiam em atividades que não lhes eram concedidas. Até hoje, escrever é para a mulher um reduto, um trabalho de concentração que entra em choque com exigências ao seu redor. Não é fácil aceitar que ela se retire dos demais por longo tempo, que não deva ser interrompida e que tenha seu próprio recinto – que é essencial, como já reivindicava Virginia Woolf. A mulher que escreve se entrega, mas ao seu mundo particular, ao seu trabalho exclusivo como se tivesse ela uma vida paralela que só a ela pertence . Quanto às profissionais, as que conseguiram se estabelecer e fazer de seu trabalho como escritora um meio de independizar-se economicamente,  estas são mais respeitadas, – mas será que gozam de plena liberdade sem culpar-se? Escrever não é um trabalho cômodo, mas bem exigente quanto à dedicação, – e as mulheres aprenderam a ser devotas, mas ao marido, a casa e aos filhos – teriam elas por isso que viver sozinhas para empreender melhor seu ofício de escritora? Não. Nós mulheres sabemos que desde cedo vivemos envoltas de compromissos com a, b, e c, e que para autodeterminarmos temos que ter coragem de vencer o que nos impede.

Dedico este texto a nossa primeira escritora brasileira Maria Firmina dos Reis – 1822-1917, corajosa abolicionista e conhecedora do sofrimento e da exploração dos negros. Seu único romance „Úrsula” foi publicado em1860, sob a autoria de „uma maranhense“. As mulheres brasileiras devem orgulhar-se de ter uma mulher negra como iniciadora da literatura escrita por mulheres.

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