Bonecas para meninas e carrinhos para meninos: Deve ser sempre assim?

  

Sophia ainda não tinha três anos, quando sua mãe cumpriu o que tinha prometido, caso a menina fizesse, durante um mês, bem direitinho cocô e xixi no peniquinho. Sophia não hesitou na loja de brinquedos o que ia escolher: uma boneca vestida de médica com estetoscópio – ela adorava brincar de médica. Quando a mãe foi pagar, a caixa, depois de olhar para a boneca de cor escura perguntou a Sophia se ela iria para uma festinha de aniversário. Mãe e filha surpreendidas, negaram . A caixa, ainda olhando fixamente para a boneca, insiste: então isso é um presente para uma amiguinha? Sophia sem compreender o porquê das perguntas, deixou a mãe explicar que a boneca era um presente prometido com direito a ser escolhido. Sem desistir a caixa se dirige à menina e pergunta-lhe diretamente: amor, você tem certeza de que essa boneca aí é realmente a boneca que você quer? Sim. Respondeu Sophia com segurança. Mesmo assim a caixa ainda não desistindo, tentou sobressair-se: mas essa boneca não se parece nada com você. Nós temos muitas bonecas aqui que são bem parecidas com você. A essa altura a mãe de Sophia já estava furiosa e pronta para acabar de uma vez com a teima da caixa, quando Sophia mesma se adiantou: ela se parece comigo. Ela é médica e eu sou médica. Sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Vê seu cabelo bonito? E seu estetoscópio?

Situações assim grotescas podem passar não só nos Estados Unidos, mas em quaisquer outros lugares onde o racismo é visível e exacerbado. Sophia é uma garota branca de cabelos louros, e isto não a permite num meio racista declarado, exprimir suas preferências, se estas ferirem a moral estabelecida. É preciso ir contra a corrente, como fez Sophia, dando à senhora do caixa uma lição civil de coragem, enfrentando a situação racista com outra anti-rascista. Se a senhora aprendeu a lição, é pouco provável, como bem menos cogitou sobre ela, e mais possível ainda que não tenha nem compreendido o gosto da menina, nem a sua identificação com a boneca. O caso de Sophia viralizou na internet; sua mãe divulgou no Instagram uma foto da filha com a boneca e um pequeno comentário:

Esse ocorrido só confirma a minha crença de que nós não nascemos com o convencimento de que a cor da pele define um papel (na sociedade). Peles existem de várias cores, assim como as cores de cabelos e olhos, e cada uma delas é bonita.

Entre as relações das crianças com seus brinquedos, outra não é mais discutida por profissionais da área que a da boneca e a do carrinho, até o ursinho perde nessa parada. Por quê? Sem dúvida que os brinquedos acompanham e ajudam no desenvolvimento infantil, são uma parte essencial nele e indispensáveis ao progresso motor e cognitivo e à competência social e emocional. Mesmo que um bebê de poucos meses ainda não distinga um brinquedo, ele é fundamental nessa fase para apalpá-lo, levá-lo à boca, ou ouvir seus ruídos ao batê-lo contra uma superfície; um brinquedo é um puro objeto individual; uma boneca, nessa idade, não tem vida. Só na faixa dos dois e três anos – segundo os psicólogos – as crianças começam a aprender brincando. O que parece só fofinho e engraçadinho nas brincadeiras, já é iniciador de aprendizagem: crianças copiam os adultos, reconhecem sentimentos e sensações, tiram partido dos brinquedos, aprendem a lidar com eles e até a cuidá-los. A boneca que não tinha vida, passa a tê-la, e a criança dá vida à boneca, porque só os que vivem, podem comer, chorar, ser levados para passear e participar de conversas. A boneca também passa a ser um meio de contato com o social; com ela as crianças aprendem a relacionar-se e diferenciar relações nas brincadeiras de faz de conta, onde os adultos são representados em diversos papéis, tanto familiares como sociais: a mãe, o pai, os filhos, os irmãos, os amigos, os médicos, os educadores – cria-se um núcleo familiar e social muito vivo e sério, embora sob a base do faz de conta.

Nesse mundo de brincadeiras, sentimentos e emoções afloram, e as crianças aprendem a relacionar-se com eles. É na alegria da festinha de aniversário da boneca, que também podem passar decepção e raiva; mas também a empatia, se a boneca caiu ou teve uma perna quebrada; o cuidado de trocar a roupa, dar de comer ou botar pra dormir ou até dormir junto com ela. Aí não importa se a boneca é de pano ou de silicone, barata ou cara, uma Barbie ou um bebê. Não. O que conta é aprender habilidades brincando. Dizem especialistas que se às crianças fosse dada uma profissão, esta seria a de brincar, e já estimam
que uma criança deveria brincar 15 mil horas até os seis anos de idade, isto é, sete ou oito horas por dia – como um dia de trabalho normal e regularizado, incluindo – claro – sábados e domingos.

Contudo a boneca pode ter seus lados negativos quando ela é marcadora de desigualdade entre os sexos – iniciando uma questão de gênero – e passa a ser exclusiva das meninas, sendo malvista e evitada para os meninos porque ela pode afeminá-los. Essa crença é avassaladora; as investigações e discussões que a combatem são recentes, e ela aspira a permanecer resistindo em muitas culturas. Ela se fundamenta em que a escolha – clichê – de bonecas para meninas e carrinhos para meninos é algo natural nascido da diferença de sexos – os garotos, pelo seu físico, preferem brincadeiras ativas e, por isso, escolhem brinquedos que se adaptam a elas. A verdade é que essa escolha é bem mais feita pelos pais.

Li num artigo de carácter científico com base nos estudos de duas psicólogas (1) que nas crianças pequenas os hormônios e os impulsos para mover-se não são os responsáveis pela escolha do brinquedo preferido. Elas demonstraram que com bebês de um ano e seis meses, independente do sexo, a intensidade de movimentos é a mesma ao estarem eles ocupados com brinquedos ditos para meninos ou para meninas. Os níveis de testosterona, aos quais os bebês foram expostos na fase pré-natal, também não comprovam como biológica a causa de tais predileções, apesar de que eles possam influenciar depois nas atividades físicas. Quanto maior for a exposição de hormônios masculinos no útero materno para a criança, mais movimentos ela demonstrará ao brincar, não importando se com carrinhos ou bonecas, ou seja, o que se argumenta como ser o nível alto de testosterona, impulsor de movimentos, o que leva os meninos a terem brinquedos exclusivos, foi contrariado pelas investigações das duas psicólogas. Se realmente existe uma predileção nata na escolha dos brinquedos, a pergunta fica sem resposta, segundo as psicólogas.

Pais sentem-se aliviados com a „lógica“ distinção de brinquedos e não querem ver que dessa distinção se cria comportamentos arraigados ao diferenciar papeis sociais opostos, porque acham que os sexos devem estar em oposição preservando uma performance pré-estabelecida para seus filhos. Quanto mais se separa brincadeiras e atividades entre meninos e meninas, maior é a distância entre eles, e isso ainda é o papel da escola tradicional. A questão de gênero – gender em inglês – que deve ser levada a sério – é sair dos estritos parâmetros diferenciadores, na maioria baseados na biologia, e conscientizar-se que – aqui cito a definição da OMS – Organização Mundial da Saúde – gênero „refere-se a papeis socialmente construídos, atividades e atributos que uma sociedade considera como apropriados para homens e mulheres“… – e tudo isso, claro, com o fim de promover diferenças e desigualdades sociais entre eles. A OMS está pronta a ajudar os governantes que consideram prioritária a questão de gênero no desenvolvimento educacional e social de seus países. Tem o Brasil sob a presidência de Jair Bolsonaro interesse nesse projeto?

Pais influenciam na escolha dos brinquedos dos filhos, mais do que eles se dão conta; e a pergunta que fica para eles é: meninos também devem brincar com bonecas? Se eles quiserem, por quê não? Por que dividir os brinquedos? Por que reservar características de ternura, delicadeza e carinho só para as meninas? Junto com os pais, os brinquedos são portas para a vida adulta, para o mundo, e meninos e meninas serão pais no futuro e precisarão de habilidades como ser cuidadoso, carinhoso, paciente e saber brincar. Por que não ir aprendendo isso já desde cedo?

Há uns anos atrás – quando ainda não sabia nada sobre gênero, nem me preocupava com o feminismo – conheci um casal com dois filhos; a menina era mais velha que seu irmão uns quatro anos, mas mesmo assim o pai só se dirigia de forma doce a ela: benzinho, amorzinho. O menino – mais novo – era MEU FILHO, falado alto e forte. Esta experiência me tocou e foi meu ponto de partida para dar-me conta de quanto o papel da mulher na sociedade está envolvido com imagens preconcebidas e simplificadas.

(1) Artigo: Mädchen spielen mit Puppen – aber warum?
As duas psicólogas são: Gerianne Alexander e Janet Saenz

Próxima postagem: 1/10/20