A CULTURA DA XINGAÇÃO

 
Como o povo brasileiro está expressando seu mal-estar e demonstrando a sua revolta frente à atual situação política e econômica do país? Estão indo às ruas para protestar? Pelo menos no momento ainda não o suficiente, e nem de longe como são os protestos no Chile. Mesmo que, os que estão no poder instrumentalizem as instituições e procedam contra a constituição, o povo está até agora calado, e passivamente parece submeter-se às medidas aprovadas pelos tais lá de cima, sejam elas a reforma da previdência, as privatizações de estatais ou os cortes na educação, sem falar no desacato do presidente da república ao nosso ecossistema, aos nossos primeiros nativos, como parte integrante da nossa etnia, e a indiferença ao povo necessitado. Pergunto-me às vezes com muita dor se a Vaza Jato ainda tem sentido, levando em conta que as revelações do site Intercept, não só de atos ilegais, mas de extremos abusos de poder, até agora têm deixado incólumes os acusados. Os pivôs da Lava Jato continuam no poder desfrutando de suas liberdades enquanto o ex-presidente Lula segue detido esperando sua liberdade justa – mas de onde ela virá? Do próprio judiciário que o meteu na prisão? Ou da enfim inconformidade do povo que atuará como pressão? Lembro-me de que o jornalista Pepe Escobar numa entrevista à TV247 perguntou a Leonardo Attuch por que o povo brasileiro não se rebelava. Attuch se limitou a dizer que isso era uma boa pergunta.

Ainda não há no Brasil razões suficientes que levem a manifestações de massa? Talvez. É que só os escândalos de políticos, suas brigas e já seus alinhamentos partidários prevendo às próximas eleições não são o que toca no âmago das necessidades do povo, ou seja, naquilo que o faz garantir sobreviver decentemente. No fim das contas são os direitos inatos das pessoas a um trabalho digno, a um salário condizente, a uma educação que forma, e ao direito tão básico quanto essencial: o de comer, vestir-se, calçar-se e locomover-se, que se restringidos, vão se transformar em energia perigosa e ameaçante a qualquer ordem estabelecida.

Enquanto isso a esquerda é atacada e criticada por não organizar o povo e mandá-lo para as ruas – está aguardando o momento histórico? O temor de cometer mais erros é maior do que arriscar-se em organizar o povo fora do tempo? E enquanto o povo aguenta, tem ele que canalizar seu sofrimento e raivas em alguma coisa: uma delas é xingar. Xingar é a via que expressa o descontentamento de um momento, se não podemos fazer mais do que vociferar; xingar é fácil e rápido e não requer reflexão. Não pode existir um diálogo à base de xingações, estas não descrevem a realidade e os fatos, não são objetivas – elas são descargas de sentimentos negativos por meio de expressões ou frases repetitivas, sem que nos deixem entender mais além do que elas dizem. Por outro lado todos nós xingamos; xingar faz parte da cultura, do modo de viver do dia-a-dia e presente nas sociedades: o povo xinga os políticos, estes xingam seus adversários e assim vai … Mas mesmo admitindo isso, nos fica um mal-estar, um vazio, pois a língua não serve só a pilhérias, e o que esperamos – eu, pelo menos – de um político é que ele se apresente e expresse-se acima do nível corrente e vulgar. É um erro crer que palavras como porra, cu, caralho e outras mais na boca de um político, o faz aproximar-se mais do povo. Não. Elas servem de fuga dos problemas reais e rebaixam-no, reduzindo-o a ser um desbocado, sem respeito, quebrando o seu distintivo: a habilidade e segurança de saber expressar-se nas situações mais críticas – política não é brincadeira não senhor!

Entre tantas, a briga da deputada Joice Hasselmann com os filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, o chamado Carlucho e o Eduardo Bolsonaro é um exemplo de como as xingações saem dos seus reais motivos e entram no paradigma de ataques a mulheres. Não só no Brasil, mas presente em outras sociedades, xinga-se de preferência usando um vocabulário referente aos órgãos sexuais; só que, e de forma machista, o genital feminino não é símbolo de grandeza nem de força, como se faz com o do homem: pau, cacete, pica referem-se ao membro masculino ereto, forte e produtivo, ou, em outros contextos, a palavra cacete marca uma intensidade. Já xereca, buceta, bucetuda reduzem à mulher ao seu genital como aquilo que o homem quer se apoderar, usar e gozar com ele. Com Joice Hasselmann não se chegou a este nível, mas ela mesma respondeu ao twitter, o da nota de três reais com a sua fotografia, do Eduardo Bolsonaro – uma ofensa a Hasselmann menos como deputada e mais como mulher – com um twitter similar: uma nota de cem reais com o rosto de Eduardo Bolsonaro escrito ao lado: Sem Pau. Não é preciso explicar mais.

A jornalista Cynara Menezes escreveu um artigo (*) no seu blog Socialista Morena que a onda de xingações ofensivas começou na abertura da Copa do Mundo no Brasil em 2014, quando a então presidenta Dilma Rousseff foi ultrajada em pleno estádio com um „vai tomar no cu“. Ela disse que nunca tinha visto aquilo, apesar de que já tinha coberto manifestações contra outros presidentes, como Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardozo. Depois, nos protestos a favor do impeachment da ex-presidente, esta foi – para mim – mais que xingada, foi insultada com nomes como puta, quenga e vaca. Senti a dor de Cynara Menezes ao ter escrito isto no seu texto, pois Dilma Rousseff não merecia esses insultos – ela era a primeira presidenta do país, além de ser mãe, já avó e com mais de 60 anos, segundo Menezes. A pergunta é se a extrema direita xinga mais do que a esquerda. Cynara Menezes acha que sim, pois eles foram às ruas para isso, mas remete ao „ei Bolsonaro, vai tomar no cu“ tanto no Rock in Rio quanto no estádio do Pacaembu em São Paulo como sinal de um enfraquecimento por falta de debates: “Não éramos nós que tínhamos mais conteúdo?” Pergunta ela. É como se o debate político tivesse sido ocupado por xingamentos, os palavrões por palavras de ordem, passando-se assim a agir como os opositores, os verde-amarelos, que – parece – se mobilizaram mais. O povo, para ela, está apático “como bois indo pro matadouro” e nessa “inércia” vive limitado a hashtags, twitters e memes nas redes sociais. Parecendo até nostálgico, ela relembra alguns daqueles ditos que popularizaram os protestos contra Fernando Collor e Fernando Henrique Cardozo; expressões que longe de insultar os tais, entoavam rimando a insatisfação do povo: “Rosane, que coisa feia. Vai com Collor pra cadeia.“ Ou: “Ê Fernandinho/vê se te orienta/ já sabem do teu furo/no imposto de renda”.

Seu artigo também postado no site 247 teve muitos comentários, sendo a maioria do contra – claro – alegando que a autora quer moralizar, e que o “vai tomar no …“”não é negativo nem indecente por a expressão perder seu sentido original ao ser muitas vezes exclamada por uma multidão, a qual não se sabe se é de direita ou esquerda; são apenas pessoas que têm o direito de gritarem sua insatisfação. Um deles disse que o povo só entende nesse nível porque debates não elegeram Fernando Haddad. Compreendo, só que a meu ver Cynara Menezes não foi entendida. É que num contexto mais amplo xingar fica por isso mesmo, não transcende, não alcança a dor, o essencial que devia ser dito, mas que fica calado por só ser manifestado por palavrões. É um desembestado de palavras movido por emoções negativas. “Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito que está preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar?” Escreveu Menezes. E depois?

Nunca ficou tão claro como nos nossos dias que o Brasil tem um reduto de malfeitores. Contudo se o povo insatisfeito se contenta só em xingar seus agressores, ele não sabe ainda mobilizar-se ou não está maduro para isso. Uma coisa sabemos: xingar faz de quem xinga forte, talvez por isso o Olavo de Carvalho se sinta grande e importante. Mas sobre ele não quero escrever.

 

 
(*) O artigo de Cynara Menezes de 8/10/19 é: „Ei, Bolsonaro, vai tomar no …“: O Brasil trocou as palavras de ordem pelos palavrões

 

 

Próximo post: 24/11/19

Mamãe, não sou mais virgem!

 

Boa ou má notícia? Muitas mães preferem não ouvir tal verdade, e esta é a razão porque muitas jovens têm medo de contar-lhes que não são mais virgens e que o controle do corpo agora têm elas. Elas deram um passo irreversível, entraram para a vida de ser mulher feita e donas de seu corpo com o direito ao prazer, mas também com todos os riscos que isto pode trazer: gravidez indesejável, doenças contagiosas e deficiências como a AIDS, como também maus parceiros. Foi, porém, esse passo resultado de uma decisão consciente e acertada? Não se sabe a priori, mas o mais importante a partir daí é se elas estão preparadas para viver consciente e plenamente sua sexualidade, o que, por outro lado, nada disto é fácil por não só está implicado com a educação recebida em casa e na escola.

Verifiquei nas minhas pesquisas que a insegurança – considerada normal – frente à primeira relação sexual é bem menor nas jovens do que o medo de que os pais a descubram, ou de contar em casa, sobretudo à mãe. O medo de falar está carregado de culpa, vergonha e ameaças de serem controladas. Terem optado, contudo, por não ser mais virgens foi um ato de independência – seja este consciente ou não – termina ele drasticamente numa separação. Embora a jovem continue a viver sob o mesmo teto com os pais, ela já faz coisas sem pedir-lhes permissão – ela já tem uma privacidade. Para muitas jovens isto parece ser como viver uma vida dupla por ter quebrado a confiança dos pais; elas sabem como eles irão reagir e isto as perturbam. Infelizmente esta é uma situação ainda vivida em muitas famílias brasileiras; outras culturas, pelo contrário, são mais flexíveis, não estão orientadas por valores rígidos e conservadores e investem mais em esclarecimentos. Decisivo é como a relação familiar está articulada – caso a comunicação em casa esteja dirigida para orientar com respeito e infundir confiança, o medo não terá razão de ser, pois a jovem não sentirá vergonha ou culpa de sua decisão, e decidirá por ela mesma se contará em casa ou não.

Muitas mães não só esperam que suas filhas lhes contem tudo, mas acham que elas devem ter essa obrigação – impossível – e sentem-se desobedecidas e até traídas ao não serem informadas ou procuradas para uma conversa particular. Aí falta o respeito à filha que por sua vez está formando sua privacidade. A confiança se dá com base num diálogo sincero e requer respeito das partes. Onde as prioridades são formas de cobranças, ameaças e até chantagens não pode haver diálogos, senão autoritarismo. Essas mães não sabem lidar quando suas filhas chegam à puberdade e têm a primeira regra; elas se preocupam demais e confundem cuidados normais com ordens e proibições. As transformações físicas causadas pela produção do hormônio estrogênio podem constranger as meninas, e elas devem ser esclarecidas, respeitadas e nunca motivos de troças. Mudanças emocionais e sentimentos de valor aparecem após o primeiro sangramento menstrual: sou mesmo valorosa?
No Brasil a primeira relação sexual pode passar já aos quinze anos ou antes, ou seja, na puberdade; nas classes mais baixas a promiscuidade entre familiares pode acelerá-la tornando este contato forçado, dolorido e traumático, e não é raro que meninas engravidem por ele, sem querer obrigadas precocemente a entrar na vida adulta quando podiam ainda estar na escola. Tirando esse aspecto cruel do primeiro ato, meninas estão perdendo a virgindade cada vez mais cedo, mas para cumprir outras exigências comparadas a nossos antepassados. A minha avó, por exemplo, engravidou de sua primeira filha – a minha mãe – aos treze anos já casada, para formar uma família e ser a mulher do meu avô, sustentada e protegida por ele. Contando isto a uma roda de mulheres durante um jantar, uma delas disse que para a minha avó isso foi como uma violação – sim, uma violação permitida. Hoje, parece-me que o período da infância está se encurtando, mas por outras razões: as facilidades que a vida oferece, o acesso rápido a informações e contatos, os apelos ao desfrute da vida são o que conduzem as jovens a se desenvolverem mais rápido, querendo ter experiências inusitadas que encham e deem um sentido à vida.

Os pais devem compreender e aceitar que os diálogos prestadores de contas das filhas vão deixar de existir, dando lugar a livre iniciativa e a prática de tomar decisões dos seus atos por elas mesmas, minimizando a influência deles. É que nesta constelação não se pode falar de tudo; é o momento de admitir que suas filhas já têm uma privacidade, e eles serão convidados a participarem dela, se elas quiserem. O dito „minha mãe é minha melhor amiga“ parece mais ficção do que realidade, pois o laço que une mãe e filha não é o mesmo que une duas amigas íntimas; na relação entre pais e filhas os papeis de ambos vão estar sempre presentes, determinando e cobrando suas partes. Melhor do que esperar da filha uma amiga aberta é fortificar os laços de confiança entre eles. Lembro-me que numa das minhas viagens ao Brasil, fui apresentada a uma jovem entre dezessete e dezoito anos que chegou com o seu namorado durante um almoço na praia. Depois que eles foram embora, o pai da moça me falou num tom resignado: „ela já fez“. Eu perguntei-lhe se ela o tinha contado, ou se ele a abordara. Não, nada disso. Então disse-lhe que ele estava agindo muito bem, que a deixasse em paz, que o fato de ela ter feito ou não era um assunto só a ela cabia. Ainda que abatido, ele me confirmou. Acho que ajudei este pai a aceitar suas limitações e a nutrir respeito pela filha.

Por que a virgindade ainda é essencial em certas culturas, se ela como uma membrana fina e elástica pode ser rompida por um tampão, ou em certas práticas de esporte ou dança, ou até mesmo com o uso do dedo? Só para manter os valores patriarcais submetendo as mulheres ao domínio deles – claro, mas não só. Também certas religiões impondo as noções de pureza e pecado guardam a virgindade até o casamento, oferecendo-a ao marido após terem recebido a bênção de Deus. No fundo é a visão de pecado que prevalece ao considerar a sexualidade humana, e esta visão reduzida e ignorante é responsável, se de um lado pela abstinência do ato sexual como dever, por outro por excessos. Nada foi tão usado como objeto ideológico como a sexualidade: ou ela está pairada sob as sombras do pecado, ou é usada como fator de domínio exclusivo do marcho – os dois aspectos se complementam, e para sair destes extremos precisamos de muita luta de emancipação. E as nossas fantasias, estes depósitos imaginários? Aonde eles nos levam? Ao perigo? Que nos salvam?

As mães, principalmente, não podem garantir que suas filhas tenham uma vida sexual satisfatória, mas podem contribuir para isto desde o estabelecimento da autoconfiança até a consciência do corpo e o respeito por ele.

POR QUE TER UM BLOG?

 

Desde que comecei este blog convivo com uma cena que se abre ao meu redor, da mesa onde está o meu MacBook Air – onde escrevo – até um quadro retangular enorme pendurado na parede a minha frente. À esquerda ficam as janelas. A mesa comprida de madeira escura é a de jantar, nela servimos a ceia a partir das oito, o que coincide com o noticiário da televisão que só raras vezes não assistimos. Antes e depois do jantar estou sentada à mesa, os olhos atentos ao monitor que me traz o Brasil e o mundo. Ter um blog é também ler webs e outros blogs para sair, ou do absolutismo ou do isolamento.

Hoje é um grande dia para o meu blog E Agora Mulher?: Ele é uma criança que completa três anos, já sabendo andar e falar condizente a sua idade; e hoje relembro a minha primeira postagem – Defeitos: como é difícil aceitá-los – quando pensava que ia dar a este blog temas exclusivos da mulher no seu processo de autodeterminação, e não via que eu também ia passar por um igual processo aqui. Esses equívocos acontecem, e os blogueiros sabem disso – que escrever é uma aventura para além do que se propõe. Daí acabei escrevendo modestamente sobre a situação política no Brasil; minha opinião e meu parecer pareciam exigidos pelo estado alarmante que estava entrando o país desde a prisão do ex-presidente Luís Inácio até a morte da vereadora Marielle Franco, passando pela eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Foi, porém, com o assassinato de Marielle que não pude mais me separar dos ocorridos políticos e sociais brasileiros; queria saber para onde ia tudo isso; o Brasil se tornou uma prioridade, apesar de eu viver longe e ignorar tantas coisas que passaram sem a minha presença. Eu já estava fora do país quando o ex-presidente Lula foi eleito pela primeira vez; também não conhecia Marielle Franco, e o destino trágico dos dois pôs os meus pés no chão – no chão do Brasil. Antes a distância geográfica entre mim e o país se refletia numa falta admissível de contato – o que não está perto de nós, vai perdendo interesse.

Daqui da mesa vejo um quadro na parede da sala contígua a esta, separada por uma porta larga que se abre no meio em duas partes. Quando elas estão abertas, recebo quase cem por cento da visão do quadro. Contudo eu o conheço bem e sei que se mesmo os meus olhos não podendo absorver daqui toda sua largura de 2 metros e 65 centímetros através da porta, o que posso ver é suficiente para me dar um significado. Ele também me serve de descanso e pausa inspiradora quando levanto a cabeça por tanto matutar. A pintura é um momento veneziano resumido no já ido pôr do sol. O azul prioriza entre outras poucas cores permitindo as águas de Veneza se unirem ao céu em tons brilhantes e já noturno. Os velhos prédios da cidade à margem do canal se repetem refletidos dentro das águas como colunas afundadas, rígidas e frias – é um momento eterno. Também há uma ponte, uma das tantas pontes sólidas e cortantes, iluminada por uma única lanterna que espelhada na água parece uma lua escondida entre as colunas da ponte também refletidas. Nenhuma pessoa aparece para atrapalhar esse momento – o que vejo vive de uma profunda solidão e beleza. De tanto contemplar esse enorme quadro, já conheço seus tons de azul; a cor de ferrugem da ponte traduz a idade da cidade … Me encosto no respaldo da cadeira para vê-lo melhor – é sempre assim.

Acredito que o meu blog serve a aqueles que vivem procurando algo na web, pois os que me seguem, não acho que leram ou leem todos os textos publicados aqui. De todos os modos ele serve a uma pequena população, e surpreende-me encontrar visitas de tantos países, mesmo sem saber se essas pessoas leram um texto, o compreenderam, ou se identificaram com algum. Quem são elas que interessadas por um tema ou atraídas por um título percorrem meu arquivo? Muito poucas deixam seus rastros como likes, feedbacks alentadores ou comentários, mas nem por isso vou parar de manter o blog; ele não está morto e a falta de mais likes não significa unlike. Ouvi dizer que se pode até fazer negócios com likes, ou seja, comprá-los, trocá-los por outras coisas, enfim habilidades subvertidas, fakes porquanto mentirosos. Não criei um blog para isso, mas sim por gostar de escrever, para desenvolver minha capacidade crítica e de pensar e, quem sabe, poder alcançar pessoas de forma positiva. – Meu blog é um dos instrumentos de minha expressão, disse ainda recentemente a uma conhecida que me perguntara o que ele valia – não para mim, mas – na minha vida. Ele não está no centro do que compõe minha vida, mas dá-me uma estrutura e tem um certo privilégio, não comparado, claro, este com o que dou ao meu marido, embora ele reclame algumas vezes que eu dou mais atenção ao blog que a ele. – Não é assim querido.

Já é noite, a sala onde está o quadro agora está escura, porque eu esqueci de acender a luz; se o faço, Veneza aparece azulada diante de mim; num momento de quietude buscando a si mesma e tão livre do vai-e-vem dos turistas diários que não a veem – a não ser com a objetiva de suas câmaras – como o meu pintor a captou. Estou feliz por estar aqui e continuar a tarefa inventada de ser blogueira. A gente se vê por aí.

 

Próxima postagem: 7/10/19

FICA TUDO POR ISSO MESMO?

 

Desde que o site Intercept-Brasil vem revelando e publicando regularmente provas de ilegais procedimentos da força tarefa Lava Jato – as quais a incriminam de ter usado sua função e fachada de anti-corrupção para poder operar ilicitamente, tendo em vista interesses políticos de alas de extrema direita – que a culpa histórica atribuída ao Partido dos Trabalhadores-PT por atos de corrupção, incluindo a culpa máxima ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está em questão. É a hora de anti-petistas menos exacerbados darem o braço a torcer e admitirem o óbvio, o qual o ex-presidente Lula foi usado na operação Lava Jato para fins políticos, que a sua prisão foi para impedi-lo a se candidatar e vencer – com certeza – as eleições para presidente da república de 2018; e cabe agora ao povo brasileiro reconhecer essas provas como dados essenciais da inocência do ex-presidente exigindo a anulação do processo para que ele readquira seus direitos políticos perdidos – é que tudo isso não pode ficar assim por isso mesmo.

Tirando dos eleitores do presidente Jair Bolsonaro aqueles impregnados de ódio contra avanços sociais e valores democráticos, já há quem reflita, incitado pelo mau desempenho do governo dentro e fora do país. A vergonha que passa o Brasil no exterior é estrondosa, além das ofensas dirigidas desrespeitando pessoas públicas; assistimos ao despreparo intelectual de ministros, suas idiotices e frases sem nexo já estampadas pela imprensa internacional. O mundo está de olho no Brasil também pela eclosão dos incêndios na floresta Amazônica, e Jair Bolsonaro crê que pode iludir o mundo como se o mundo pensasse como uma das grandes partes dos brasileiros. Ou ele acredita que Donald Trump vai apoiá-lo sempre. – Na política pode passar muitas coisas, até Trump não ser reeleito nas próximas urnas. Mesmo assim isto não seria o fim do bolsonarismo.

Contudo o PT ainda é alvo de acusações – a começar pelo próprio presidente da república – como uma palavra de ordem que toma o todo pela parte – uma metonímia clássica – qualificando tudo e todos de corruptos: a ideologia, programas e todos os membros do partido. Agora está claro que o PT, mesmo tendo sua parcela de responsabilidade pela situação política desastrosa a que o Brasil chegou, não é ele o único responsável por ela. Os anti-esquerdistas radicais não querem admitir isso, e não se rebelam contra a política econômica do presidente atual, seus disparates verbais e nem o uso do nepotismo e da violência policial nas ruas. A antropóloga Isabela Kalil numa entrevista à TVT disse que uns 30% da população brasileira apoia a visão e postura de Bolsonaro sem detrimento de certas mudanças prometidas por ele; a isso se junta uma ética religiosa baseada em pólos de deus e demônio, do bem e do mal. Para ela esta visão maniqueísta vai se alargando a tudo que possa ser um perigo para a família de bem, para o bom cidadão, a educação dos filhos e a segurança pública. É quando a violência é justificada para defender o bem. Kalil entrevistou mães, que sem interesses partidários, preferiram votar no Bolsonaro só pelo seu programa de educação escolar – elas tinham medo de uma orientação educacional dita de esquerda, a qual iria desvirtuar o desenvolvimento „normal“ dos seus filhos. Uma preocupação limitada ao patriarcalismo conservador e fundador de uma sociedade estabelecida em estruturas rígidas. Para elas ir contra isso é corromper, disse Isabela Kalil.

Eu, quando contemplo o Brasil desde longe, da segura Europa, fico estupefata. A estupefação também ora é a reação de pessoas; elas já não mais me admiram por eu ser do país do calor, do carnaval e da alegria – o calor pegou fogo na floresta Amazônica, a alegria se perdeu na insatisfação e insegurança do povo, e o carnaval é cantado de verde e amarelo ao som do hino nacional com suas „margens flácidas.“ Pelo contrário elas me perguntam por que não se faz nada no Brasil, ou onde está a oposição. Conversando com uma amiga – que vem se interessando pelo Brasil desde que viu nos noticiários a floresta Amazônica incendiada – ela não pode crer que tudo fique por isso mesmo, que ao invés de se mostrar a verdade dos fatos, não se falou mais sobre eles. Minha amiga é partidária de algo como um conselho internacional de vigilância e proteção à floresta Amazônica, caso o povo brasileiro não tenha suporte para prezá-la e protegê-la. Esta forma de pensar já pode ser um consenso internacional – é o medo de que o pulmão da terra seja destruído por interesses sem escrúpulos. A questão da soberania brasileira, neste caso, tem menos peso, uma vez que a floresta – em face ao aumento das lutas pelo meio ambiente – é vista como um patrimônio da humanidade. Já Lula, quando foi entrevistado pelo jornal francês Le Monde, disse discordar do presidente francês Emmanuel Macron quanto à internacionalização da floresta, frisando que ela faz parte do patrimônio brasileiro. No fundo ele quer que os brasileiros se conscientizem do dever que têm de cuidar do seu meio ambiente. Ele tem razão.

Por ora o Brasil continua em ebulição: Jair Bolsonaro, como se diz na Alemanha, está como uma galinha cega. O fato de querer livrar um de seus filhos que está metido em corrupção junto com o seu assessor, o faz correr de um lado pra outro, despedindo gente aqui, colocando outros ali, brincando com o poder. E o PT se enfrenta mais uma vez a um grande desafio político depois de sua queda do auge do poder – é preciso ter paciência, saber estar sincronizado e efetuar articulações necessárias. Políticos astutos já se movimentam prevendo uma possível sucessão de Bolsonaro nas próximas eleições, mas antes disso, o povo brasileiro precisa fazer sua tarefa de casa: Lula tem de sair da prisão inocentado das falsas acusações que lhe fizeram. Lula Livre.

 

Próximo post: 7/10/2019

A DAMA DO MESSIAS

 

Entre o que Michele Bolsonaro diz sobre o seu marido, Jair Messias Bolsonaro – ora presidente do Brasil – e o que ele fala, sua atuação como político e como se mostra publicamente – há um abismo. É que são duas coisas tão diferentes que elas não se unem como a água e o óleo.

O antagonismo entre essas duas retóricas me irritou desde o início, raiva mesmo, até ficar indignada quando vi a Michele – na sua primeira entrevista logo após a vitória dele nas eleições – negando o que o Brasil todo já conhecia: não só o discurso racista e homofóbico de Jair Bolsonaro, como também seu potencial de agressividade quando se enfrentou, por exemplo, com a deputada Maria do Rosário frente às câmaras. É claro que ela não podia estar contra o marido já eleito, mas não pude crer que estivesse de acordo com a sua falta de compostura, disparates agressivos e desrespeito, sobretudo às mulheres, apesar de os vídeos de direita dizerem que o casal vivia em clima de harmonia e compreensão, como num deles, no qual Bolsonaro falava num comício enquanto Michele, a uma discreta distância, alisava suas costas – uma medida de controle para acalmá-lo, apaziguá-lo e freá-lo se possível.

Foi daí que comecei a entender o casal: ele precisava dela, e sua função como esposa era a de protegê-lo como um anjo da guarda, pois ela conhece seu gênio impulsivo, seu potencial agressivo, e mesmo assim sabe exercer um poder sobre ele – o que a faz forte – deixando sobressair uma bondade imensurável, um coração devoto e uma disciplina bíblica, ingredientes essenciais para se complementarem numa união duradoura.

Michele Bolsonaro sabe o que quer e do que precisa. Se Jair Bolsonaro não fosse bom e generoso, ela não estaria com ele, pelo menos é o que deixa claro quando o cobre de qualidades positivas, banindo dele o racismo, a misoginia, e a homofobia. Não. Ele não é assim como o acusam, só os que convivem com ele sabem que ele tem „um brilho no olhar diferenciado“. O cara, como ela o denomina, „é humano, um cara que se preocupa com as pessoas“ – são suas palavras. Por outro lado sabemos que sua preocupação e generosidade é intencionada e de ordem nepotista – o artigo „A „parentaia“ empregatícia dos Bolsonaro“, do jornalista Fernando Brito do Tijolaço, diz que são 102 o número de empregos dados a familiares pelos Bolsonaros, não importando se esses postos foram ocupados ou não. Contudo para Michele „ele é um homem ético, um homem brilhante que com tantos anos no Congresso não negociou seus valores“. Não é possível que Michele seja uma ingênua pura a ponto de não se dar conta do que passa ao seu redor. É que a sua defesa é blindar-se: „Eu me blindo para não sofrer porque eu sei que ele não é o que as pessoas falam.“, ao ver que ele é falsamente tachado e mal interpretado. Mas ela também se blinda quando é ele quem vai além do pudor, é indiferente ao sofrimento dos demais, carece de empatia. Blindar-se é o seu mecanismo de defesa, uma forma de renuir a realidade, escapar dos fatos para poder não deixar sucumbir o mito do Jair Messias Bolsonaro.

Defender também é proteger, e esta é a função dos anjos da guarda do Senhor, mas também de mulheres obstinadas que aferradas ao papel absoluto de esposas, têm vocação para salvar seus homens, dar-lhes créditos e viver da idéia de que vão poder mudá-los; são mulheres que tomam para si a responsabilidade da existência da relação, e até há aquelas que buscam seus maridos em lugares impossíveis de convivência matrimonial – as prisões, por exemplo – o importante e seguro, porém, é o fato de crerem na humanidade deles e poder salvá-los – no fundo também são missionárias.

Para mim esse cara, ao qual Michele se refere, é mesmo diferenciado e tem um olhar frio, pesado e calculista. – Mas a Michele não o vê como eu o vejo, pois ele não é o meu amor. Ele é o seu amor, é aquele que lhe deu um emprego como secretária dele e bem aumentou seu salário; a esposou, deu-lhe uma filha e formou uma família com ela. Seu estado civil antes das núpcias com Jair Bolsonaro vacila na mídia: às vezes o pai da sua primeira filha foi seu ex-marido, outras foi só o seu primeiro relacionamento – o que para mim não tem importância se isso ou aquilo – só me irrita o tratamento moral dado ao fato. Também não se sabe muito sobre a Michele de Paula Firmo Reinaldo; ela mesma não fala como foi a sua vida em Ceilândia, cidade satélite de Brasília onde se criou e que tanto a ama, mas sem fazer referências e descrições, sem contar acontecimentos que lhe marcaram, a não ser os que tenham que ver com a sua vida religiosa. A revista Veja foi a Ceilândia e estampou fatos desconhecidos sobre sua família, a denunciou tanto de negligenciar sua avó materna de 79 anos e de muletas – ainda recebendo a cesta básica de alimentos – como o seu afastamento dos parentes mais próximos. O Correio Braziliense, mais condescendente, entrevistou a mãe, a avó e a tia de Michele; mostrou a rua e o lugar onde era a casa que ela cresceu, a vizinhança, a estrutura urbana local e contou sem detalhes a história da família de origem nordestina, do Ceará por parte do pai, e mineira do lado da mãe, que se mudaram para a recém-construída Brasília como tantos outros. Parece que Michele Bolsonaro encobre fatos de sua vida; é verdade mesmo que seus parentes devem evitar contato com a imprensa? Onde mesmo ela nasceu, também não está claro. Michele disse numa entrevista para o Sempre Feliz que nasceu na capital do país; a Wikipedia diz que foi nascida e criada em Ceilândia, que fica a 26 km de Brasília. Para uma moça com apenas o ensino médio, filha de um motorista de ônibus e que cresceu num lugar carente, desprovido de conforto e de estruturas satisfatórias a uma menina que já queria transcender ao seu ambiente e ter chegado além disso ao ser a primeira da dama do país, não é para mim uma obra de Deus ou uma casualidade, mas sim um esforço para vencer suas condições sociais. Desde cedo ela entrou para trabalhar passando por diversos empregos – em supermercado, em festas infantis, como promotora de alimentos – mas como ter chegado a ser secretária de parlamentares, também não está claro.

Como eu gostaria de ver uma Michele Bolsonaro aberta, fiel e testemunha da classe social de suas origens! Michele Obama deixou que escrevessem sua biografia, deixando claro as origens humildes de sua família em Chicago, o trabalho de seu pai como funcionário responsável pela limpeza de banheiros públicos da cidade – tudo isso sem vergonha, mas com orgulho de sua história, de seus antepassados.
Por que só posso associar à primeira dama seu histórico religioso? É que Michele Bolsonaro, a meu ver, é mais uma missionária do que uma ativista, segundo a Wikipedia. E com esta habilidade ela quer „fazer a diferença“ como primeira dama do país. Sua retórica é evangélica, e ela sem vacilar torna isso um instrumento político poderoso em favor do seu „amado marido“. Não acho que Michele tenha necessidade de glória como o Bolsonaro – apesar de se apresentar em público melhor do que ele – e se a tem, deve ser a do reino de Deus; seu discurso é repetido de palavras que reforçam sua fé: Deus, Senhor, Amém … marcadoras do seu intuito caritativo – é que Michele quer ajudar os necessitados brasileiros, fazer obras caritativas como um trabalho social „diferenciado“, tiradas do desejo, do amor do seu coração, da sua „sensibilidade que vem de Deus“, da bondade que Deus lhe deu. Palavras bonitas e confortadoras, porém mais aliadas a ter pena dos outros do que a um trabalho de conscientização e iniciativa própria. Contudo a bondade também pode ser calculista, e assim faziam e ainda fazem as missões. Os missionários trabalham com sentimentos de culpa e apresentam ao mesmo tempo condições de vida superiores – trabalham para juntar ovelhas que trabalhem para eles.

Os projetos da primeira dama estão só dirigidos aos surdos, deficientes e portadores de doenças raras? Não ficam outros carentes de certa forma excluídos, uma vez que seu lema é incluir? Parece-me que há uma preponderância no uso de libras em detrimento de outras coisas também importantes; é que o Brasil só precisa de libras? Onde está Michele Bolsonaro num jardim ou numa horta plantando tomates com crianças pobres da escola? Onde está ela incentivando a leitura nas escolas? Ela lê além da bíblia? Que diz sobre o feminicídio? E o estupro de crianças e mulheres? Tudo isso, e mais, só encontra respostas no livro sagrado?

Uma amiga me perguntou o que eu diria a Michele Bolsonaro, se estivesse em sua presença. Respondi-lhe que lhe perguntaria se ela realmente é feliz com seu marido e por que persiste em apresentá-lo como bom e honesto, se suas atitudes mostram o contrário, pois uma coisa é ela se esforçar para que os brasileiros acreditem que o Jair Bolsonaro é bom e humano, outra coisa é que o mundo acredite nisso.

A vez do coração

                  

Quando fui vítima de um assalto no Brasil há mais de dez anos, no exato momento em que o assaltante me empurrava uma pistola contra o meu corpo, a única coisa que pensei de um relâmpago foi: „agora chegou a minha vez.“ Outros pensamentos não tive, a não ser que perguntei-lhe como uma autômata o que ele queria enquanto lhe oferecia minha bolsa linda, novíssima e cara – comprada só para a viagem – pendurada no ombro e ainda com o meu passaporte brasileiro dentro. „A gente quer o carro“, respondeu-me ele. Neste momento vi que seu colega assaltante empunhava uma pistola contra o peito do meu marido, tentando arrancar as chaves do carro de sua mão. Tudo isso foi em segundos até que alguém – um anjo talvez – passasse num carro por nós mostrando coragem e dissolvendo a situação, desfazendo o assalto. Não sei o que esse anjo falou ou fez para que os dois homens armados fossem embora.

Por que me lembro disso agora quando o que quero tão somente é esclarecer aqui o porquê não tenho escrito mais posts? Minha última publicação do blog foi há quase três meses, no seis de março com o texto „Essas meninas …“ E mais: o que estes dois fatos têm em comum? É que de novo chegou a minha vez, sem que eu tenha passado por outro assalto. Há coisas que chegam ou que passam na nossa vida, sem que tenhamos contado com elas – a vida é quando não a planejamos, diferente de como a queríamos que fosse. Nunca tinha sequer imaginado que iria ter problema de coração. Desde criança já ouvia deles, minha mãe falava das pessoas que sofriam do coração, usando bem os verbos sofrer ou ser já como prenúncio de morte, e com uma cara e um tom de voz que já deixava antever o enterro. Aqueles seus agouros estavam muito longe de mim, mas como criança não deixei de interiorizá-los para, como um paradoxo, defender-me deles mais tarde, afugentando-os de mim na idade adulta: nunca sofrerei ou serei doente do coração foi o meu lema para a vida.

Mesmo com esse mecanismo de defesa, não escapei. É claro que havia um medo latente, incubado pelos presságios de minha mãe contra ela mesma – era um tanto hipocondríaca, seu coração, porém, não foi o que pôs fim a sua vida, como ela acreditava. É que o medo para os hipocondríacos também tem a função de com ele e de antemão livrá-los do mal pressentido, apesar de que este uso não garanta nada. O medo, porém, não me incomodou com maus pressentimentos quanto ao meu órgão vital, o qual chamava e ainda o chamo de meu príncipe; até que ele, o meu príncipe forte e amado começou a sofrer, precisando de ajuda e pedindo socorro que foi além de minha capacidade. Assim fui parar num hospital para fazer uma tal de ablação cardíaca. Esta é tanto um procedimento como um tratamento, que a grosso modo, sob uso de sedativo, e por meio de um cateter, que é um fio fino e flexível, transportador de energia e que tem na sua ponta um elétrodo capaz de liberar energia fria ou de calor, esta última chamada radiofrequência. O cateter é introduzido numa veia da virilha, e daí ele chega ao coração para localizar as regiões onde impulsos elétricos indevidos são a causa da arritmia. A função dele – por meio de energia – é deixar um círculo de cicatrizes no tecido como um muro que impede a entrada daqueles impulsos elétricos danosos ao átrio, causadores de um tipo de arritmia chamada fibrilação atrial, que se não for tratada pode causar um AVC – um Acidente vascular cerebral. A arritmia cardíaca já é uma doença generalizada, o número dos que a padecem é de milhões e cresce, principalmente na idade avançada.

Assim sendo não faço parte de uma minoria, mas nem por isso sinto-me consolada, ao contrário, sinto-me retraída, e dou-me conta de que estou mais precavida e atenta, o que também é positivo. Em vez de correr para as atividades para economizar tempo, dou-me mais tempo para elas, procuro ser flexível e usufruo com isso. A minha vida mudou? Coisas mudaram no meu modo de viver; agora pertenço a uma grande maioria que por motivo de doenças cardíacas, toma medicamentos – só eu tenho que tomar três diariamente: pra isso, pra aquilo e aquilo outro que resguardam a minha convalescença. Sim, estou de resguardo sem ter parido, esperando que ele não seja pra toda a vida. O fato de ter ficado interna no hospital por dois dias, não me garante uma cura; não é verdade o que muitos médicos dizem sobre a eficácia imediata de uma ablação – há pessoas que já passaram por ela até três vezes sem que o procedimento tivesse tido sucesso; é bem provável que com a idade avançada o mal volte. Mas é possível evitar esse mal se ele não é hereditário ou uma falha orgânica? Como? Nem sempre, por mais que os médicos digam: viva mais devagar; faça exercícios físicos ou caminhadas, não engorde, evite café, chocolates e estresses – aqueles que levam o coração a galopar e a bater mais do que devia – os tais batimentos extras. Por outro lado, viver sem estresse não é possível e seria até monótono, pois até precisamos de alguns deles, que nos dê impulso, ou nos tire de um atoleiro, sobretudo durante o trabalho. Este é o bom estresse, aquele que quando já passado nos deixa satisfeitos, gratos e podemos relaxar bem.

Preparar-se para que o estresse atue positivamente é uma estratégia nova no dia a dia de trabalho em grande empresas: agendas cheias, pressão de colegas e chefes, tomar decisões, lidar com o público, etc.. requerem nervos fortes e um corpo ativo. Eu já passei por situações de estresse, nas quais pude concentrar-me, raciocinar e encontrar soluções. Por quê? É que de alguma forma estava preparada e ativa, por isso não fugi da situação, pelo contrário, pude pensar melhor e estar absorvida nela. Contudo esse modelo não pode funcionar sem margens de dúvidas; depois me senti exausta – não somos uma máquina.

Já o mau estresse começa quando nos encontramos frente a um desafio, ou sentimo-nos ameaçados por algo que vem de fora e não sabemos como superá-lo, ou por fraqueza nossa, ou por falta de tempo ou competência, ou por não estarmos em condições adequadas, e muito mais que tudo isso, pois as causas do estresse também são individuais. O corpo responde em segundos entrando em alerta pela liberação de hormônios, como a adrenalina, produzida pelas glândulas supra-renais e responsável por reações, como fugir ou lutar. Além disso a frequência de batidas do coração dispara, mais glicose entra no sangue, as atividades do estômago e intestinos se reduzem e a pressão do sangue sobe. Passado o estresse o corpo e a mente estão esgotados e necessitando de uma longa fase de relaxação e repouso, que possa revitalizá-lo. Sem essa fase e a constância dos estresses, aparecem entre outros problemas o de coração e o burn out.

Chegou a vez de ampliar o respeito a mim mesma, valorizar e praticar a paciência, ser mais cordial comigo e com os outros. Não foi em vão que do século XVI ao XVIII em Portugal se chamava de cordiais um remédio em forma de pedrinhas para fortalecer e confortar o coração. Sua preparação por monges ficou em segredo mantido por muito tempo; hoje, claro, se conhece a sua composição exótica. A cordialidade vem mesmo do coração e é mais do que a cortesia convencional criada por regras de como conviver socialmente. A cordialidade é delicada e terna, paciente e bondosa, ela quer harmonia.

Agora deixo claro que não quis aqui nem fazer um texto científico sobre a arritmia – o que escrevi sobre ela e o estresse é básico e corrente – nem dar conselhos a aqueles que padecem deste mal – o que posso dizer é que estou consciente do meu problema, conheço minhas restrições, mas estou vivendo, e isto é mais eficaz do que o medo de morrer. Fui estritamente pessoal sem, contudo, entrar em detalhes de como a doença me chegou e como sofri com ela. o que quis foi justificar minha ausência como blogueira aqui nesta rede social. Espero publicar de novo o quanto antes, mas como disse, ainda estou convalescente.

Essas meninas!

                   

Greta Thunberg com sua mochila e boina de lã desceria de um trem despercebida se não fosse um grande cartaz que carrega escrito em sueco – Greve da escola pelo clima – e já um grupo de jornalistas e fotógrafos não a estivessem esperando, seja em Katowice, Davos, Bruxelas, Paris e Hamburgo. Mas nem por isso ela se considera uma estrela; o que a tornou assim foi a mídia em geral divulgando para o mundo sua obstinação persistente desde agosto de 2018: em vez de ir para a escola às sextas-feiras, sentar-se no chão com o seu cartaz em frente do parlamento sueco, enquanto o governo não tomar medidas locais para alcançar sua cota-parte dentro dos objetivos do Acordo de Paris em 2015, ou seja, a temperatura média da terra não deve aumentar mais de 2 graus centígrados por ano em relação aos níveis já existentes no período pré-industrial, e isto até o final deste século, ou as mudanças climáticas serão incontroláveis. O que muitos consideraram sua ação como absurda, infundada e até louca, não era para Greta uma brincadeira. Pouco a pouco foram se juntando outros alunos que também deixaram de ir às aulas para apoiá-la, e assim se formou o Friday For The Future – Sexta-feira para o futuro – também em outros países europeus e na Austrália. Crianças foram às ruas para protestar; e o que fez este movimento ser ainda mais especial é o de não estar trajado de estudantes universitários, nem ter sido começado por eles.

Como uma menina de 16 anos, que não viaja de avião por princípio – bastante pequena para a sua idade, com duas tranças longas que lhe caem ladeando suas bochechas salientes, parecendo mais ter entre 11 e 12 anos, e estando rodeada de pessoas é impossível vê-la pelos seus 1,53 de altura – é capaz de atacar políticos, empresários, banqueiros, todos aqueles que participam do poder e das grandes decisões? Estes são os responsáveis pela situação em que nos encontramos porque suas idéias são indiferentes à sobrevivência do nosso planeta, e nem adultos suficientes são para ao menos ter coragem de falar a verdade, disse Greta Thunberg em Katowice, Polônia, na última COP24, que é uma cúpula climática anual da ONU.

É que Greta foi tão somente uma alavanca, de comando e de velocidade para impulsionar novas direções. Se adultos tendem à resignação e indiferença, jovens começam a preocupar-se por anteverem insegurança quanto ao futuro. Ela tomou conhecimento do estado do planeta terra na escola; durante uma aula soube da verdade já constatada por científicos, para a qual os políticos querem fechar os olhos; por isso daí seu ataque a eles de não fazerem nada consequente, mesmo estando em postos de direção, e de não quererem ouvir nada que contrarie seus planos de crescimento global e poder monetário. E que verdade foi essa? O aquecimento da terra com as suas conseqüências fatais como: estiagem, calor alarmante, furacões, chuvas fortes, inundações, etc., causado pelo excesso de gases de efeito estufa na atmosfera, pois a concentração contínua destes gases retém altas temperaturas absorvidas pela superfície terrestre. Tudo isso, a grosso modo e à forma de clichê, pode-se explicar pelo abuso e desrespeito à natureza, pelo fascínio do poder, pela acumulação de bens materiais, pelo desmesurado crescimento do capital e pela ignorância que é uma forma de miséria. Estabelecer uma existência tendo como base o contrário destes critérios é tão difícil que para muitos é impossível, é uma utopia considerando o avanço científico, tecnológico e industrial a que chegamos – seria como parar tudo? Acho que Greta sabe disso, mas, a meu ver, ela crê mais em mudanças que possam garantir o futuro das novas e futuras gerações do que em revoluções políticas, porque estas se concentram mais em tomar e manter o poder político; sua visão é outra – a de não mais esperar que partidos políticos tomem a iniciativa de mudar algo: O verdadeiro poder tem o povo. – e ela tem razão. Sabemos que a maioria dos políticos não quer falar conosco. Tudo bem. Então nós também não queremos falar com eles. Disse.

Para diminuir as emissões de carbono na atmosfera, extinguir o desmatamento florestal, salvar as camadas de gelo nas zonas polares do derretimento constante, tudo isso implica em mudanças profundas nos padrões do que se chama desenvolvimento, pois nosso modo de vida está relacionado a esses modelos que se impõem na sociedade e na economia.

Não é fácil, reconheço, sair das bases energéticas tradicionais – as ditas fósseis – o petróleo, o carvão mineral, o gás natural – onde nelas estão assentadas bases culturais e de subsistência – e passar a formas de energia renováveis, como a solar, a eólica, etc. Por outro lado o mundo está saturado pelo poder da produção excessiva; acúmulo de produtos industrializados, dos quais não precisamos nem a metade, pois a maior parte dos produtos de consumo fica sem utilidade, amontoada em algum lugar ou queimada sem levar em conta a natureza da matéria prima, seja ela biológica ou não, e o quanto se violou a terra para a sua produção, o seu produto final exposto à venda. É quando reconheço a importância e o valor desses jovens em levar a sério as mudanças climáticas como uma questão urgente, e o fracasso dos adultos, estes sabedores de tudo, mas conformados com a ordem das coisas, como se o futuro não existisse. Para os jovens o futuro é algo que vai ser vivido, e nele deve-se depositar as expectativas e os projetos, a esperança de um mundo melhor. You Can Not Eat Money diz um cartaz que segura uma menina em Davos. Uma mensagem profunda e apocalíptica, pois se no fim das contas só restar o dinheiro, este não se pode comer.

Lá de cima se vê a terra pequena, e a terra nunca foi tão pequena como hoje em dia. Esta perspectiva de modéstia nos diz que o que precisamos é de parcimônia. Assim viu Alexander Gerst(*) o planeta terra de uma estação espacial em órbita, onde ele comandou uma missão espacial internacional junto com outros astronautas. Um dia antes de sua volta a terra, ele mandou uma mensagem aos seus netos ainda não nascidos, na qual ele, em nome de sua geração, pede desculpas pelo global aquecimento da terra causado pela humanidade. Infelizmente a sua geração – e as passadas – não deixarão para as futuras gerações a terra em boas condições; e cada um de nós deveria refletir até onde nosso estilo de vida está danando o planeta. Ele ainda tem esperança de que se possa corrigir os erros, e espera que sua geração não fique na lembrança das futuras como aquela que com egoísmo e indiferença destruiu o fundamento de suas vidas.

Greta Thunberg fala para atingir o público, ela é implacável e até sarcástica às vezes; diz exatamente o que não é dito numa cúpula:

Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam medo como eu sinto todos os dias. Não rogamos aos políticos que simpatizem conosco. Eles nos ignoraram no passado e vão continuar nos ignorando. Mas as coisas vão mudar, mesmo se eles gostem ou não.

Os que se sentem responsáveis tentam desacreditá-la: Pobre Greta, se referiu a ela Paul Ziemiak, político da União Democrática Cristiana, que ora está no poder em coalizão com outros democratas. Christine Lagarde, diretora do FMI quis conhecê-la – O que você faz é muito importante. – e prometeu-lhe apoio no que for possível. Greta sabe o que são promessas, para ela agir e falar claro é mais importante.

As críticas a Greta Thunberg e ao movimento Friday For The Future são diversas, a começar pelo gazeio às aulas como fator de indisciplina. Diretores de escolas, pais e funcionários da educação sabem que é melhor não criticar o conteúdo do movimento para não aparecerem mais responsáveis, mas sim atacar em nome da ordem escolar. Como esperar dessas pessoas que elas possam promover mudanças, se suas atitudes não saem das ordens estabelecidas? Isto reflete na forma de criticarem o ativismo de Greta como produto de manipulações ou como resultado de sua síndrome de Asperger, um estado doentio com sintomas de depressão e leve autismo, e que causa nos pacientes dificuldades na área de interação social, e são levados a fixações de idéias ou de perseguir constantemente uma idéia. Mesmo sendo estes argumentos plausíveis, não quero crer neles. Prefiro crer na sua postura determinada, seu olhar direto, sua expressão séria. Quando a vejo nos vídeos, não capto dissimulação, mas uma convicção no que faz.

Enquanto isso o ativismo de Greta traz mais seguidores e gazeadores de aulas às sextas-feiras: Nós vamos seguir nossa greve até que eles façam alguma coisa. Eles não fizeram suas tarefas de casa, mas nós sim. Vamos continuar até que algo mude. Disse Greta no 1. de março em Hamburgo, pois O clima está mais em desespero do que as minhas notas de matemática. Não existe um planeta B. Salvem a terra, pois ela é o único planeta que tem chocolate.

(*) Alexander Gerst é um geofísico e astronauta alemão da Agência Espacial Europeia – ESA.