APLICATIVOS DE RELACIONAMENTO? POR QUÊ NÃO?

 

Yuval Harari, historiador israelense e autor do Best Seller Homo Deus: Uma breve história do amanhã, disse numa de suas entrevistas que o sentimento de satisfação dos seres humanos não depende exclusivamente de condições objetivas, mas, depende também do que eles imaginam produzindo expectativas com relação ao presente e ao futuro. Segundo ele, as condições objetivas melhoraram muito a partir das últimas gerações, não significando isto que as pessoas estejam mais satisfeitas que antes – suas expectativas é que aumentaram – e, paradoxalmente, a História mostra que até quando há crescimento social e econômico, as pessoas podem estar mais insatisfeitas porque suas expectativas se tornam maiores; e o que gera uma crise é quando as expectativas estão muito altas e o crescimento não prossegue, pois nenhum crescimento é ilimitado, disse Harari.

As expectativas não são sentimentos, são projeções cognitivas que atuam como variáveis, advindas geralmente de experiências passadas, que se dirigem ao presente, ou bem melhor ao futuro, como forma de antecipá-lo; ou seja, as expectativas têm que ver com resultados imaginados – desejados ou não – quer o contexto seja positivo, quer negativo. Alguma coisa vai acontecer, e se não há certeza ou garantia de como será, aparecem as expectativas alimentadas pela incerteza. Se num contexto positivo as expectativas não se efetivam, o resultado será uma decepção, e os exemplos, onde se as põem, são inúmeros: um concurso, uma eleição, uma viagem, ou conhecer uma pessoa. Aqui as expectativas podem assumir um caráter exigente e de demandas, prejudicando o anterior encanto do relacionamento. Quem vê o outro como aquele que deva ser como se espera dele, é isto enfocar-se só numa possibilidade que, sem dúvida, levará à frustração como produto de uma ilusão. Um dos grandes fardos da vida é querer ou ser forçado a corresponder às expectativas dos outros quanto à conduta de como se comportar; no fundo ninguém está no direito de corresponder ao que se espera dele, e aquele que espera mais do que o outro pode dar, cai sempre em decepção.

Eu, que tenho a tendência de sempre buscar fundamentos nos fatos, aonde quero chegar com esses conceitos que me custaram leituras e reflexão? Ao fato bastante comum hoje em dia de se usar as redes sociais como um meio de conhecer pessoas para um eventual relacionamento. Antes – quando por meio de cartas – esse meio era visto como não confiável e negativo; hoje, porém, estamos na era em que os meios digitais comandam nossa vida; meu Smartphone mede apenas treze centímetros – e não é um dos últimos modelos, – mas com ele posso abarcar o mundo, e se não o faço, preferindo ir ao computador, é pelo elementar prazer de não me sujeitar a uma coisa pequena e tão poderosa. Eu sou uma exceção; a maioria das pessoas usa o celular de modo generalizado, e por que não para conhecer alguém? Sim, por meio de aplicativos específicos, e um deles de alcance internacional é o Tinder. Este aplicativo é fácil de ser manejado e grátis numa de suas utilizações; nele homens e mulheres têm acesso a uma imensa galeria de pessoas, como um álbum de fotografias infinito, por que sempre aparecem mais ofertas, mais possibilidades, mais chances. Muitos podem encontrar nele seus parceiros, mas não acho que por sorte ou garantia dada pelo aplicativo; é que essa forma de conhecer pretendentes já se proliferou tanto que ela leva a que as formas clássicas fiquem um tanto desleixadas – quem passa muito tempo por dia com a cabeça afundada nesses tais aplicativos, deixa de ver o que passa ao redor – e isto tem que ver com expectativas. Se não fossem estas somadas às esperanças, os tais aplicativos não teriam tantos seguidores. Refiro-me aqui menos ao seu uso visando uma paquera inconsequente, mais ao uso daqueles que querem conhecer uma pessoa com o fim de um relacionamento pra valer, como sendo esse até o último recurso para encontrar o companheiro de vida.
Conhecer alguém fora desse formato é o que hoje me surpreende; ele é muito simples – tudo se faz com as mãos como se uma varinha mágica fosse um coração verde e movendo-o para a direita quando a foto de alguém junto a uma curta descrição dela agradam. E o melhor é quando esse alguém vendo a foto, também move a varinha mágica, ou seja, o coração verde, para a direita: aí acontece um match – bingo! – os dois sozinhos poderão paquerar virtualmente, conversar e marcar encontro. Nem sempre a varinha mágica funciona, nem sempre há match, por isso é tentador continuar buscando. Outra coisa é a comodidade e flexibilidade de uso para conhecer alguém, – em casa onde seja, nos intervalos de trabalho, antes de dormir, – é suficiente a existência de WI-FI no lugar para se entrar na rede virtual de buscas. Também poder selecionar a busca por idade é para aqueles na faixa dos 50 ou 60+ a oportunidade de se concentrar neste grupo e fazer da busca algo bem especial.
Fato é que o número de solteiros em geral vem aumentando no Brasil, e com ele mudanças se revelam criando uma forma de cultura. Uma mulher jovem de classe média que vive de seu trabalho e podendo morar sozinha, ainda pensa em casar nos moldes de sua mãe ou avó? Menos viável. Melhor ela tenta harmonizar seu estilo de vida a um relacionamento e a uma futura família adequados, porque seus parâmetros que definem um marido, um parceiro não só são bem diferentes de antes, como mais exigentes, e aí está o problema – mulheres que impõem pré-requisitos, dão prioridade a seus interesses e não se deixam levar pelas aparências, também querem determinar sua vida a dois, mas sem perder o encanto do amor. É possível? Essas mulheres não são compreendidas por homens bitolados em seus esquemas retrógrados – por outro lado, espero que elas também não precisem deles, mas nem por isso é simples assim. Por mais que mulheres tenham lutado pelos seus direitos na sociedade, não significa isso que elas tenham deixado de sonhar e idealizar modelos impossíveis.
O Tinder garante um espaço secreto nos chats, já que muitos dos participantes preferem não se alongar em seus perfis, mas priorizar nas fotos. Estas procuram satisfazer às tendências das redes sociais: as pessoas devem aparecer bonitas, atraentes, alegres e sociais, o que esta padronização leva a um anonimato para proteger a identidade. O que ele espera de mim? O que ela quer de mim? O que eu quero? Acho que só poucos se perguntam; o importante é ter expectativas e estar ligado no aplicativo como tantas outras pessoas – este aspecto dá conforto e segurança, apesar de conhecer, encontrar alguém por meio de um aplicativo de relacionamento é uma aventura, pois a pessoa aparece como algo isolado, pouco ou nada relacionado com outros aspectos da vida, saída de repente não se sabe de onde. Isto me faz lembrar dos flertes de minha juventude, – apenas nos olhávamos, talvez só uma vez por dia no ponto de ônibus, mas isso provocava ânsia e desejo de rever a pessoa. O tempo até que nós chegássemos a falar um com o outro nos enchia de expectativas e esperança, assim como dava a chance de averiguar sobre a pessoa, procurar saber quem ela é. Era muito bom.

MULHERES QUE ESCREVEM SÃO PERIGOSAS

 

Não quero afirmar aqui neste pobre texto que Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente, como no livro do mesmo nome, originalmente em alemão – Frauen, die schreiben, leben gefährlich de Stefan Bollmann, 2006, com um excelente prefácio de Elke Heidenreich, e que foi publicado em Portugal em 2007.

É que não me interessa agora a quantidade de escritoras que tiveram suas vidas marcadas por algum risco, ou uma vida beirando a morte: fosse por doença – Katherine Mansfield, Carson McCullers – fosse por obsessão excessiva de morrer – Sylvia Plath, Anne Sexton – ou como único recurso para livrar-se do sofrimento psíquico – Virginia Woolf. Todas são famosas e podemos conhecer suas vidas facilmente pela internet ou por livros; todas conseguiram alcançar a fama antes de morrer. Entretanto, e aquelas que nunca conseguiram exprimir seu talento por não serem levadas a sério, e se o fizeram foi com muita luta contra condições adversas só pelo fato de serem mulheres? A história da atividade escrita feita por mulheres também está cheia de repressões, proibições e exploração do seu talento e capacidade, tendo em vista proveito financeiro e notoriedade para outros – homens, claro. A escritora francesa Colette escreveu Claudine, uma série de quatro livros entre 1900 e 1903 quando então era casada com Henry Gauthier-Villars – o Willy – um escritor menor e 15 anos mais velho que ela, que abusou do talento da esposa, apropriando-se da autoria da série que foi publicada a princípio sob o nome dele: par Willy – saiu na capa – por Willy.

Zelda Fitzgerald também não escapou dos excessos do marido alcoólatra, o famoso escritor americano, Scott Fitzgerald. Ele a considerou como uma escritora de segunda classe e plagiadora no seu único romance publicado em 1932 Save Me The Waltz escrito em apenas seis semanas quando ela se encontrava numa clínica psiquiátrica, e por sentir-se melhor teve licença de escrever até duas horas por dia. De Zelda Fitzgerald restaram pinturas, artigos e estórias curtas – escritas às vezes em seu nome, outras no nome do casal, o que evidencia a sua presença na obra de Scott Fitzgerald. Se assim era, como não pressupor que algum conto publicado do escritor não foi de autoria só dela? Zelda Fitzgerald sofreu por não ter sido reconhecido seu valor artístico em seus escritos e pinturas – mas como escapar da sombra do autor do “Grande Gatsby” e receber méritos independentes dele? Sua vida foi excessiva, escandalosa, mas também já um esforço pela sua autodeterminação que as feministas só se deram conta muito depois.

Sem as grandes mudanças ocorridas no século XIX não estaríamos onde estamos, nem teríamos o que temos hoje.O século XIX foi transformador: trouxe a derrota de Napoleão Bonaparte e guerras arrasadoras; a revolução industrial e o surgimento do capitalismo em expansão rápida; o enfraquecimento do poder monárquico e da igreja, a formação de estados políticos, e principalmente os movimentos sociais de reivindicações de direitos – a classe trabalhadora explorada se tornou consciente de seu poder de luta. E sobre os direitos da mulher, ainda como impulso da Revolução francesa no século anterior, já se começava a debater e a aparecer pequenas mudanças, sobretudo a partir da segunda metade. Também neste século cresceu a produção escrita por mulheres na Europa, como um paradoxo genial da limitada formação escolar e restritas atividades de trabalho reconhecidas para elas. Até então se atribuía às moças como trabalho fora de casa, a função de empregadas domésticas e babás – o que não lhes traziam conhecimentos extras, a não ser conviver com os modos e costumes de famílias bem situadas. As moças que tiveram a chance de aprender a ler e escrever, ou até de frequentar uma escola, podiam exercer funções de governantas, professoras de crianças, acompanhantes, ou tocar um instrumento musical, como a harpa, que era bem solicitada. Saber escrever, criar estórias e fazer disto um ofício tinha que ver com saber aproveitar sua capacidade de expressão em favor de ganhar algum dinheiro para ela, para a casa, para os filhos. Nem todas assinavam seus textos; por um lado para protegerem seus nomes – o valor da mulher estava no papel de esposa, dona de casa e mãe, o qual era cobrado sem pena pela sociedade, e a autoria revelada podia sujar sua reputação; por outro, ao dar uma autoria masculina aos seus escritos lhes aumentava a chance de aceitação e até de publicação; e até seus nomes serem colocados na capa de seus livros, tem que ver com direitos essenciais conquistados já no século XX, pois nada está desconectado e a emancipação é um processo de mudanças empurrado por alguma carência, seja material ou emocional.

As primeiras estórias escritas por mulheres deixaram um legado ao que se chama hoje de literatura feminina, ou romances para mulheres. Estes são os que mantêm a tradição do que era abordado como tema central – a vida amorosa das mulheres, os amores contidos e impedidos, o sofrimento do casamento, mas também sua ânsia por ele: „Melhor qualquer casamento do que nenhum“, era o que se afirmava e conduzia mulheres com frequência a matrimônios malogrados só por ser a única chance de saírem da casa dos pais e evitar o negativo emblema familiar e social de solteirona, pois no casamento estava depositado seu objetivo e seu futuro. Ela sonhava com ele, o idealizava, também esperando encontrar nele o amor e a sorte de poder subir na escala social e garantir um futuro materialmente satisfatório. Este modelo de novela massificou-se, considerado hoje o tipo de romance não só mais lido por mulheres, mas também escrito por elas. Na Europa e nos Estados Unidos estes romances são bem vendidos, eles têm uma estrutura nada complexa de uma saga familiar, ou de mulheres nos seus papéis atuais na sociedade: a mulher que não abdica de sua independência, mas ainda sonha com o Mr Right, ou os problemas da mãe e da mulher divorciada que trabalham, ou o apaixonar-se na idade madura, enfim a mulher ainda mais envolta com as vicissitudes do amor do que com outras questões. E daí a tendência de homens vê-los de forma negativa, como livros exclusivos para elas – porque eles não leem estes livros, claro! Mas claro podem escrevê-los! E é aí onde a situação se inverte: para atender a procura deles no mercado de vendas – homens escrevem romances de amor sob o pseudônimo de mulheres. E por que não?
A atividade de escrever aliada à formação escolar deu a mulher a possibilidade de emancipação, apesar de suas dificuldades e restrições do início. As exigências eram grandes para que uma mulher pudesse assumir um cargo de redatora na imprensa ou de fazer correções de textos. Como esperar tanto daquela que recebeu uma escolaridade inferior ao do homem? Só as privilegiadas aprendiam a gramática, as línguas clássicas e filosofia, mas ainda assim a ocupação de escrever era mais assunto de homens. Então, de fato quando mulheres se metiam a escrever eram perigosas porque se intrometiam em atividades que não lhes eram concedidas. Até hoje, escrever é para a mulher um reduto, um trabalho de concentração que entra em choque com exigências ao seu redor. Não é fácil aceitar que ela se retire dos demais por longo tempo, que não deva ser interrompida e que tenha seu próprio recinto – que é essencial, como já reivindicava Virginia Woolf. A mulher que escreve se entrega, mas ao seu mundo particular, ao seu trabalho exclusivo como se tivesse ela uma vida paralela que só a ela pertence . Quanto às profissionais, as que conseguiram se estabelecer e fazer de seu trabalho como escritora um meio de independizar-se economicamente,  estas são mais respeitadas, – mas será que gozam de plena liberdade sem culpar-se? Escrever não é um trabalho cômodo, mas bem exigente quanto à dedicação, – e as mulheres aprenderam a ser devotas, mas ao marido, a casa e aos filhos – teriam elas por isso que viver sozinhas para empreender melhor seu ofício de escritora? Não. Nós mulheres sabemos que desde cedo vivemos envoltas de compromissos com a, b, e c, e que para autodeterminarmos temos que ter coragem de vencer o que nos impede.

Dedico este texto a nossa primeira escritora brasileira Maria Firmina dos Reis – 1822-1917, corajosa abolicionista e conhecedora do sofrimento e da exploração dos negros. Seu único romance „Úrsula” foi publicado em1860, sob a autoria de „uma maranhense“. As mulheres brasileiras devem orgulhar-se de ter uma mulher negra como iniciadora da literatura escrita por mulheres.

AMAR É … CASAR É …

 

„É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.“

Mais explícita não podia ter sido Jane Austen ao começar seu romance Orgulho e Preconceito, publicado em 1813 na Inglaterra. O tema é óbvio para a sociedade da época, quando rapazes e moças – sobretudo das classes média e alta – se buscavam mutuamente também pretendendo  fazer do casamento um assunto vantajoso: elas se empenhavam em encontrar aqueles que lhes garantiria uma vida cômoda, retribuindo-lhes com um relacionamento invejável e uma família exemplar; e eles, sabedores de suas vantagens no assunto de casamento, podiam escolher, entre outros requisitos, aquelas com mais atributos de beleza. E o amor não contava além da segurança material e do laço conjugal? Claro. Os jovens também sonhavam com a paixão, com o amor e o afeto e desejavam que tudo isso viesse a juntar-se com o inevitável plano da segurança econômica e social. Jane Austen escreveu e reescreveu Orgulho e Preconceito por ter sido o primeiro manuscrito recusado em 1897; ao publicá-lo ela se absteve de sua própria identidade, mas também não deu ao seu livro um pseudônimo masculino, limitando-se com a autoria de By A Lady – Por Uma Dama. Jane Austen faleceu em 1817 e não foi a única a não revelar seu nome verdadeiro como escritora; um ano antes de sua morte nascia Charlotte Brontë; em 1818 e 1820 suas irmãs Emily e Anne – as famosas irmãs Brontë – que tiveram de recorrer a um pseudônimo masculino para serem publicadas. Outra, como a francesa Aurore Lucile Dupin nunca foi conhecida como escritora, ensaísta e crítica da sociedade da época, mas sim como George Sand que também se trajava de homem em público – fosse talvez isso mais cômodo?

No século XVIII mulheres escreviam sobretudo cartas, enveredavam em longas correspondências – onde a alma e os sentimentos protagonizavam – e faziam-se também de homens nas respostas. Havia já uma relativa produção escrita justificada por uma tal ociosidade das mulheres por permanecerem mais tempo em casa que os homens; também neste século incrementava-se a produção de objetos manufaturados e vendidos para diminuir os esforços de trabalhos caseiros como costurar, tecer, cozinhar, fazer pão e até sabão. O século seguinte assentou o romance de amor como a ficção de intrigas, dramas, sucessos e insucessos que envolviam um tema tão requisitado por mulheres – o amor – e havia mais vida interior que social – era como se só mulheres pudessem escrever sobre o que interessavam a mulheres. Como sorte ou azar a cultura de ler exercida por mulheres começa aí e ainda persiste no modelo deste tipo de romance: há muito mais escritoras de estórias de amor e sagas de famílias que escritores, e muito mais mulheres que homens que leem estes livros. Por quê? É a sensibilidade feminina como se esta fosse biológica? Claro que não. Isso tem que ver com o que as mulheres adquiriram na vida durante séculos: confinadas em ideologias discriminatórias e reduzidas a papeis pré-estabelecidos, as mulheres participavam menos das decisões sociais, alinhando-se ao que lhes restava como competência – os assuntos do casamento, do amor, da família.

Como quantidade não tem que ver com qualidade Jane Austen assistiu à virada do século dezoito para o dezenove com apenas 25 anos de idade, e a sua genialidade foi ter saído do esquema formal da época e de ter dado ao seu romance, sobretudo, Orgulho e Preconceito a qualidade de ter sido perspicaz ao tratar de um tema tão corrente na época como o de casar, mas com quem? Também o de ter mostrado o comportamento das personagens – às vezes ironicamente, outras as pondo à luz do orgulho ostensivo e da insolência – de ter posto em questão o que se acreditava como verdade, e de ter apresentado soluções para problemas que só desuniam os dois enamorados. Jane Austen deu a seu romance de amor muito mais que intrigas e fatos passados; sua lucidez com o presente é grandiosa para acertar na reflexão como indispensável antecessora de decisões; e mais, ela desmistificou a primeira impressão, o amor à primeira vista como provas de certificação do amor duradouro; enfim, não é o amor que tudo salva, mas o que precisa ser salvado.

Jane Austen é lida até hoje, seus quatro mais importantes romances – Senso e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Emma, Persuasão e Mansfield Park – já foram traduzidos em muitas línguas e filmados várias vezes; é a prova de que eles ainda alcançam necessidades literárias, sejam pela forma ou pelos temas tratados, quando lidos e contemplados hoje na mocidade do século XXI, nos dá a satisfação de termos superado esse tempo, no qual o casamento era sem dúvidas o meio de sobrevivência para a mulher deixar a casa dos pais e ganhar uma suposta falsa liberdade que só consistia em substituir o dono da casa: antes era o pai, depois o marido. Mas será que superamos mesmo esse tempo? Não é ainda hoje o casamento menos que um laço de amor, um contrato vantajoso para ele, para ela, para os dois, para os filhos, para a casa própria, para a aposentadoria, para os impostos? São inúmeros os proveitos que o casamento oferece, e ainda assim queremos justificá-lo com o amor, como se este tivesse o selo de existir recebido daquele até que a morte o desfaça. Este selo é real, ele é a certidão de casamento, e apesar de ele poder ser desfeito dando lugar a outro casamento ou não, queremos que só o amor nos una de verdade. Jane Austen sabia de tudo isso, e mostrou que é melhor salvar o amor do que esperar que este salve as complicações do casamento. Fica aqui a velha receita vinda do século passado.

 

Próxima postagem: 17/12/19

 

A CULTURA DA XINGAÇÃO

Como o povo brasileiro está expressando seu mal-estar e demonstrando a sua revolta frente à atual situação política e econômica do país? Estão indo às ruas para protestar? Pelo menos no momento ainda não o suficiente, e nem de longe como são os protestos no Chile. Mesmo que, os que estão no poder instrumentalizem as instituições e procedam contra a constituição, o povo está até agora calado, e passivamente parece submeter-se às medidas aprovadas pelos tais lá de cima, sejam elas a reforma da previdência, as privatizações de estatais ou os cortes na educação, sem falar no desacato do presidente da república ao nosso ecossistema, aos nossos primeiros nativos, como parte integrante da nossa etnia, e a indiferença ao povo necessitado. Pergunto-me às vezes com muita dor se a Vaza Jato ainda tem sentido, levando em conta que as revelações do site Intercept, não só de atos ilegais, mas de extremos abusos de poder, até agora têm deixado incólumes os acusados. Os pivôs da Lava Jato continuam no poder desfrutando de suas liberdades enquanto o ex-presidente Lula segue detido esperando sua liberdade justa – mas de onde ela virá? Do próprio judiciário que o meteu na prisão? Ou da enfim inconformidade do povo que atuará como pressão? Lembro-me de que o jornalista Pepe Escobar numa entrevista à TV247 perguntou a Leonardo Attuch por que o povo brasileiro não se rebelava. Attuch se limitou a dizer que isso era uma boa pergunta.

Ainda não há no Brasil razões suficientes que levem a manifestações de massa? Talvez. É que só os escândalos de políticos, suas brigas e já seus alinhamentos partidários prevendo às próximas eleições não são o que toca no âmago das necessidades do povo, ou seja, naquilo que o faz garantir sobreviver decentemente. No fim das contas são os direitos inatos das pessoas a um trabalho digno, a um salário condizente, a uma educação que forma, e ao direito tão básico quanto essencial: o de comer, vestir-se, calçar-se e locomover-se, que se restringidos, vão se transformar em energia perigosa e ameaçante a qualquer ordem estabelecida.

Enquanto isso a esquerda é atacada e criticada por não organizar o povo e mandá-lo para as ruas – está aguardando o momento histórico? O temor de cometer mais erros é maior do que arriscar-se em organizar o povo fora do tempo? E enquanto o povo aguenta, tem ele que canalizar seu sofrimento e raivas em alguma coisa: uma delas é xingar. Xingar é a via que expressa o descontentamento de um momento, se não podemos fazer mais do que vociferar; xingar é fácil e rápido e não requer reflexão. Não pode existir um diálogo à base de xingações, estas não descrevem a realidade e os fatos, não são objetivas – elas são descargas de sentimentos negativos por meio de expressões ou frases repetitivas, sem que nos deixem entender mais além do que elas dizem. Por outro lado todos nós xingamos; xingar faz parte da cultura, do modo de viver do dia-a-dia e presente nas sociedades: o povo xinga os políticos, estes xingam seus adversários e assim vai … Mas mesmo admitindo isso, nos fica um mal-estar, um vazio, pois a língua não serve só a pilhérias, e o que esperamos – eu, pelo menos – de um político é que ele se apresente e expresse-se acima do nível corrente e vulgar. É um erro crer que palavras como porra, cu, caralho e outras mais na boca de um político, o faz aproximar-se mais do povo. Não. Elas servem de fuga dos problemas reais e rebaixam-no, reduzindo-o a ser um desbocado, sem respeito, quebrando o seu distintivo: a habilidade e segurança de saber expressar-se nas situações mais críticas – política não é brincadeira não senhor!

Entre tantas, a briga da deputada Joice Hasselmann com os filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, o chamado Carlucho e o Eduardo Bolsonaro é um exemplo de como as xingações saem dos seus reais motivos e entram no paradigma de ataques a mulheres. Não só no Brasil, mas presente em outras sociedades, xinga-se de preferência usando um vocabulário referente aos órgãos sexuais; só que, e de forma machista, o genital feminino não é símbolo de grandeza nem de força, como se faz com o do homem: pau, cacete, pica referem-se ao membro masculino ereto, forte e produtivo, ou, em outros contextos, a palavra cacete marca uma intensidade. Já xereca, buceta, bucetuda reduzem à mulher ao seu genital como aquilo que o homem quer se apoderar, usar e gozar com ele. Com Joice Hasselmann não se chegou a este nível, mas ela mesma respondeu ao twitter, o da nota de três reais com a sua fotografia, do Eduardo Bolsonaro – uma ofensa a Hasselmann menos como deputada e mais como mulher – com um twitter similar: uma nota de cem reais com o rosto de Eduardo Bolsonaro escrito ao lado: Sem Pau. Não é preciso explicar mais.

A jornalista Cynara Menezes escreveu um artigo (*) no seu blog Socialista Morena que a onda de xingações ofensivas começou na abertura da Copa do Mundo no Brasil em 2014, quando a então presidenta Dilma Rousseff foi ultrajada em pleno estádio com um „vai tomar no cu“. Ela disse que nunca tinha visto aquilo, apesar de que já tinha coberto manifestações contra outros presidentes, como Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardozo. Depois, nos protestos a favor do impeachment da ex-presidente, esta foi – para mim – mais que xingada, foi insultada com nomes como puta, quenga e vaca. Senti a dor de Cynara Menezes ao ter escrito isto no seu texto, pois Dilma Rousseff não merecia esses insultos – ela era a primeira presidenta do país, além de ser mãe, já avó e com mais de 60 anos, segundo Menezes. A pergunta é se a extrema direita xinga mais do que a esquerda. Cynara Menezes acha que sim, pois eles foram às ruas para isso, mas remete ao „ei Bolsonaro, vai tomar no cu“ tanto no Rock in Rio quanto no estádio do Pacaembu em São Paulo como sinal de um enfraquecimento por falta de debates: “Não éramos nós que tínhamos mais conteúdo?” Pergunta ela. É como se o debate político tivesse sido ocupado por xingamentos, os palavrões por palavras de ordem, passando-se assim a agir como os opositores, os verde-amarelos, que – parece – se mobilizaram mais. O povo, para ela, está apático “como bois indo pro matadouro” e nessa “inércia” vive limitado a hashtags, twitters e memes nas redes sociais. Parecendo até nostálgico, ela relembra alguns daqueles ditos que popularizaram os protestos contra Fernando Collor e Fernando Henrique Cardozo; expressões que longe de insultar os tais, entoavam rimando a insatisfação do povo: “Rosane, que coisa feia. Vai com Collor pra cadeia.“ Ou: “Ê Fernandinho/vê se te orienta/ já sabem do teu furo/no imposto de renda”.

Seu artigo também postado no site 247 teve muitos comentários, sendo a maioria do contra – claro – alegando que a autora quer moralizar, e que o “vai tomar no …“”não é negativo nem indecente por a expressão perder seu sentido original ao ser muitas vezes exclamada por uma multidão, a qual não se sabe se é de direita ou esquerda; são apenas pessoas que têm o direito de gritarem sua insatisfação. Um deles disse que o povo só entende nesse nível porque debates não elegeram Fernando Haddad. Compreendo, só que a meu ver Cynara Menezes não foi entendida. É que num contexto mais amplo xingar fica por isso mesmo, não transcende, não alcança a dor, o essencial que devia ser dito, mas que fica calado por só ser manifestado por palavrões. É um desembestado de palavras movido por emoções negativas. “Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito que está preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar?” Escreveu Menezes. E depois?

Nunca ficou tão claro como nos nossos dias que o Brasil tem um reduto de malfeitores. Contudo se o povo insatisfeito se contenta só em xingar seus agressores, ele não sabe ainda mobilizar-se ou não está maduro para isso. Uma coisa sabemos: xingar faz de quem xinga forte, talvez por isso o Olavo de Carvalho se sinta grande e importante. Mas sobre ele não quero escrever.

 
(*) O artigo de Cynara Menezes de 8/10/19 é: „Ei, Bolsonaro, vai tomar no …“: O Brasil trocou as palavras de ordem pelos palavrões

 

 

Próximo post: 26/11/19

Mamãe, não sou mais virgem!

 

Boa ou má notícia? Muitas mães preferem não ouvir tal verdade, e esta é a razão porque muitas jovens têm medo de contar-lhes que não são mais virgens e que o controle do corpo agora têm elas. Elas deram um passo irreversível, entraram para a vida de ser mulher feita e donas de seu corpo com o direito ao prazer, mas também com todos os riscos que isto pode trazer: gravidez indesejável, doenças contagiosas e deficiências como a AIDS, como também maus parceiros. Foi, porém, esse passo resultado de uma decisão consciente e acertada? Não se sabe a priori, mas o mais importante a partir daí é se elas estão preparadas para viver consciente e plenamente sua sexualidade, o que, por outro lado, nada disto é fácil por não só está implicado com a educação recebida em casa e na escola.

Verifiquei nas minhas pesquisas que a insegurança – considerada normal – frente à primeira relação sexual é bem menor nas jovens do que o medo de que os pais a descubram, ou de contar em casa, sobretudo à mãe. O medo de falar está carregado de culpa, vergonha e ameaças de serem controladas. Terem optado, contudo, por não ser mais virgens foi um ato de independência – seja este consciente ou não – termina ele drasticamente numa separação. Embora a jovem continue a viver sob o mesmo teto com os pais, ela já faz coisas sem pedir-lhes permissão – ela já tem uma privacidade. Para muitas jovens isto parece ser como viver uma vida dupla por ter quebrado a confiança dos pais; elas sabem como eles irão reagir e isto as perturbam. Infelizmente esta é uma situação ainda vivida em muitas famílias brasileiras; outras culturas, pelo contrário, são mais flexíveis, não estão orientadas por valores rígidos e conservadores e investem mais em esclarecimentos. Decisivo é como a relação familiar está articulada – caso a comunicação em casa esteja dirigida para orientar com respeito e infundir confiança, o medo não terá razão de ser, pois a jovem não sentirá vergonha ou culpa de sua decisão, e decidirá por ela mesma se contará em casa ou não.

Muitas mães não só esperam que suas filhas lhes contem tudo, mas acham que elas devem ter essa obrigação – impossível – e sentem-se desobedecidas e até traídas ao não serem informadas ou procuradas para uma conversa particular. Aí falta o respeito à filha que por sua vez está formando sua privacidade. A confiança se dá com base num diálogo sincero e requer respeito das partes. Onde as prioridades são formas de cobranças, ameaças e até chantagens não pode haver diálogos, senão autoritarismo. Essas mães não sabem lidar quando suas filhas chegam à puberdade e têm a primeira regra; elas se preocupam demais e confundem cuidados normais com ordens e proibições. As transformações físicas causadas pela produção do hormônio estrogênio podem constranger as meninas, e elas devem ser esclarecidas, respeitadas e nunca motivos de troças. Mudanças emocionais e sentimentos de valor aparecem após o primeiro sangramento menstrual: sou mesmo valorosa?
No Brasil a primeira relação sexual pode passar já aos quinze anos ou antes, ou seja, na puberdade; nas classes mais baixas a promiscuidade entre familiares pode acelerá-la tornando este contato forçado, dolorido e traumático, e não é raro que meninas engravidem por ele, sem querer obrigadas precocemente a entrar na vida adulta quando podiam ainda estar na escola. Tirando esse aspecto cruel do primeiro ato, meninas estão perdendo a virgindade cada vez mais cedo, mas para cumprir outras exigências comparadas a nossos antepassados. A minha avó, por exemplo, engravidou de sua primeira filha – a minha mãe – aos treze anos já casada, para formar uma família e ser a mulher do meu avô, sustentada e protegida por ele. Contando isto a uma roda de mulheres durante um jantar, uma delas disse que para a minha avó isso foi como uma violação – sim, uma violação permitida. Hoje, parece-me que o período da infância está se encurtando, mas por outras razões: as facilidades que a vida oferece, o acesso rápido a informações e contatos, os apelos ao desfrute da vida são o que conduzem as jovens a se desenvolverem mais rápido, querendo ter experiências inusitadas que encham e deem um sentido à vida.

Os pais devem compreender e aceitar que os diálogos prestadores de contas das filhas vão deixar de existir, dando lugar a livre iniciativa e a prática de tomar decisões dos seus atos por elas mesmas, minimizando a influência deles. É que nesta constelação não se pode falar de tudo; é o momento de admitir que suas filhas já têm uma privacidade, e eles serão convidados a participarem dela, se elas quiserem. O dito „minha mãe é minha melhor amiga“ parece mais ficção do que realidade, pois o laço que une mãe e filha não é o mesmo que une duas amigas íntimas; na relação entre pais e filhas os papeis de ambos vão estar sempre presentes, determinando e cobrando suas partes. Melhor do que esperar da filha uma amiga aberta é fortificar os laços de confiança entre eles. Lembro-me que numa das minhas viagens ao Brasil, fui apresentada a uma jovem entre dezessete e dezoito anos que chegou com o seu namorado durante um almoço na praia. Depois que eles foram embora, o pai da moça me falou num tom resignado: „ela já fez“. Eu perguntei-lhe se ela o tinha contado, ou se ele a abordara. Não, nada disso. Então disse-lhe que ele estava agindo muito bem, que a deixasse em paz, que o fato de ela ter feito ou não era um assunto que só a ela cabia. Ainda que abatido, ele me confirmou. Acho que ajudei este pai a aceitar suas limitações e a nutrir respeito pela filha.

Por que a virgindade ainda é essencial em certas culturas, se ela como uma membrana fina e elástica pode ser rompida por um tampão, ou em certas práticas de esporte ou dança, ou até mesmo com o uso do dedo? Só para manter os valores patriarcais submetendo as mulheres ao domínio deles – claro, mas não só. Também certas religiões impondo as noções de pureza e pecado guardam a virgindade até o casamento, oferecendo-a ao marido após terem recebido a bênção de Deus. No fundo é a visão de pecado que prevalece ao considerar a sexualidade humana, e esta visão reduzida e ignorante é responsável, se de um lado pela abstinência do ato sexual como dever, por outro por excessos. Nada foi tão usado como objeto ideológico como a sexualidade: ou ela está pairada sob as sombras do pecado, ou é usada como fator de domínio exclusivo do marcho – os dois aspectos se complementam, e para sair destes extremos precisamos de muita luta de emancipação. E as nossas fantasias, estes depósitos imaginários? Aonde eles nos levam? Ao perigo? Que nos salvam?

As mães, principalmente, não podem garantir que suas filhas tenham uma vida sexual satisfatória, mas podem contribuir para isto desde o estabelecimento da autoconfiança até a consciência do corpo e o respeito por ele.

POR QUE TER UM BLOG?

 

Desde que comecei este blog convivo com uma cena que se abre ao meu redor, da mesa onde está o meu MacBook Air – onde escrevo – até um quadro retangular enorme pendurado na parede a minha frente. À esquerda ficam as janelas. A mesa comprida de madeira escura é a de jantar, nela servimos a ceia a partir das oito, o que coincide com o noticiário da televisão que só raras vezes não assistimos. Antes e depois do jantar estou sentada à mesa, os olhos atentos ao monitor que me traz o Brasil e o mundo. Ter um blog é também ler webs e outros blogs para sair, ou do absolutismo ou do isolamento.

Hoje é um grande dia para o meu blog E Agora Mulher?: Ele é uma criança que completa três anos, já sabendo andar e falar condizente a sua idade; e hoje relembro a minha primeira postagem – Defeitos: como é difícil aceitá-los – quando pensava que ia dar a este blog temas exclusivos da mulher no seu processo de autodeterminação, e não via que eu também ia passar por um igual processo aqui. Esses equívocos acontecem, e os blogueiros sabem disso – que escrever é uma aventura para além do que se propõe. Daí acabei escrevendo modestamente sobre a situação política no Brasil; minha opinião e meu parecer pareciam exigidos pelo estado alarmante que estava entrando o país desde a prisão do ex-presidente Luís Inácio até a morte da vereadora Marielle Franco, passando pela eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Foi, porém, com o assassinato de Marielle que não pude mais me separar dos ocorridos políticos e sociais brasileiros; queria saber para onde ia tudo isso; o Brasil se tornou uma prioridade, apesar de eu viver longe e ignorar tantas coisas que passaram sem a minha presença. Eu já estava fora do país quando o ex-presidente Lula foi eleito pela primeira vez; também não conhecia Marielle Franco, e o destino trágico dos dois pôs os meus pés no chão – no chão do Brasil. Antes a distância geográfica entre mim e o país se refletia numa falta admissível de contato – o que não está perto de nós, vai perdendo interesse.

Daqui da mesa vejo um quadro na parede da sala contígua a esta, separada por uma porta larga que se abre no meio em duas partes. Quando elas estão abertas, recebo quase cem por cento da visão do quadro. Contudo eu o conheço bem e sei que se mesmo os meus olhos não podendo absorver daqui toda sua largura de 2 metros e 65 centímetros através da porta, o que posso ver é suficiente para me dar um significado. Ele também me serve de descanso e pausa inspiradora quando levanto a cabeça por tanto matutar. A pintura é um momento veneziano resumido no já ido pôr do sol. O azul prioriza entre outras poucas cores permitindo as águas de Veneza se unirem ao céu em tons brilhantes e já noturno. Os velhos prédios da cidade à margem do canal se repetem refletidos dentro das águas como colunas afundadas, rígidas e frias – é um momento eterno. Também há uma ponte, uma das tantas pontes sólidas e cortantes, iluminada por uma única lanterna que espelhada na água parece uma lua escondida entre as colunas da ponte também refletidas. Nenhuma pessoa aparece para atrapalhar esse momento – o que vejo vive de uma profunda solidão e beleza. De tanto contemplar esse enorme quadro, já conheço seus tons de azul; a cor de ferrugem da ponte traduz a idade da cidade … Me encosto no respaldo da cadeira para vê-lo melhor – é sempre assim.

Acredito que o meu blog serve a aqueles que vivem procurando algo na web, pois os que me seguem, não acho que leram ou leem todos os textos publicados aqui. De todos os modos ele serve a uma pequena população, e surpreende-me encontrar visitas de tantos países, mesmo sem saber se essas pessoas leram um texto, o compreenderam, ou se identificaram com algum. Quem são elas que interessadas por um tema ou atraídas por um título percorrem meu arquivo? Muito poucas deixam seus rastros como likes, feedbacks alentadores ou comentários, mas nem por isso vou parar de manter o blog; ele não está morto e a falta de mais likes não significa unlike. Ouvi dizer que se pode até fazer negócios com likes, ou seja, comprá-los, trocá-los por outras coisas, enfim habilidades subvertidas, fakes porquanto mentirosos. Não criei um blog para isso, mas sim por gostar de escrever, para desenvolver minha capacidade crítica e de pensar e, quem sabe, poder alcançar pessoas de forma positiva. – Meu blog é um dos instrumentos de minha expressão, disse ainda recentemente a uma conhecida que me perguntara o que ele valia – não para mim, mas – na minha vida. Ele não está no centro do que compõe minha vida, mas dá-me uma estrutura e tem um certo privilégio, não comparado, claro, este com o que dou ao meu marido, embora ele reclame algumas vezes que eu dou mais atenção ao blog que a ele. – Não é assim querido.

Já é noite, a sala onde está o quadro agora está escura, porque eu esqueci de acender a luz; se o faço, Veneza aparece azulada diante de mim; num momento de quietude buscando a si mesma e tão livre do vai-e-vem dos turistas diários que não a veem – a não ser com a objetiva de suas câmaras – como o meu pintor a captou. Estou feliz por estar aqui e continuar a tarefa inventada de ser blogueira. A gente se vê por aí.

 

Próxima postagem: 7/10/19

FICA TUDO POR ISSO MESMO?

 

Desde que o site Intercept-Brasil vem revelando e publicando regularmente provas de ilegais procedimentos da força tarefa Lava Jato – as quais a incriminam de ter usado sua função e fachada de anti-corrupção para poder operar ilicitamente, tendo em vista interesses políticos de alas de extrema direita – que a culpa histórica atribuída ao Partido dos Trabalhadores-PT por atos de corrupção, incluindo a culpa máxima ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está em questão. É a hora de anti-petistas menos exacerbados darem o braço a torcer e admitirem o óbvio, o qual o ex-presidente Lula foi usado na operação Lava Jato para fins políticos, que a sua prisão foi para impedi-lo a se candidatar e vencer – com certeza – as eleições para presidente da república de 2018; e cabe agora ao povo brasileiro reconhecer essas provas como dados essenciais da inocência do ex-presidente exigindo a anulação do processo para que ele readquira seus direitos políticos perdidos – é que tudo isso não pode ficar assim por isso mesmo.

Tirando dos eleitores do presidente Jair Bolsonaro aqueles impregnados de ódio contra avanços sociais e valores democráticos, já há quem reflita, incitado pelo mau desempenho do governo dentro e fora do país. A vergonha que passa o Brasil no exterior é estrondosa, além das ofensas dirigidas desrespeitando pessoas públicas; assistimos ao despreparo intelectual de ministros, suas idiotices e frases sem nexo já estampadas pela imprensa internacional. O mundo está de olho no Brasil também pela eclosão dos incêndios na floresta Amazônica, e Jair Bolsonaro crê que pode iludir o mundo como se o mundo pensasse como uma das grandes partes dos brasileiros. Ou ele acredita que Donald Trump vai apoiá-lo sempre. – Na política pode passar muitas coisas, até Trump não ser reeleito nas próximas urnas. Mesmo assim isto não seria o fim do bolsonarismo.

Contudo o PT ainda é alvo de acusações – a começar pelo próprio presidente da república – como uma palavra de ordem que toma o todo pela parte – uma metonímia clássica – qualificando tudo e todos de corruptos: a ideologia, programas e todos os membros do partido. Agora está claro que o PT, mesmo tendo sua parcela de responsabilidade pela situação política desastrosa a que o Brasil chegou, não é ele o único responsável por ela. Os anti-esquerdistas radicais não querem admitir isso, e não se rebelam contra a política econômica do presidente atual, seus disparates verbais e nem o uso do nepotismo e da violência policial nas ruas. A antropóloga Isabela Kalil numa entrevista à TVT disse que uns 30% da população brasileira apoia a visão e postura de Bolsonaro sem detrimento de certas mudanças prometidas por ele; a isso se junta uma ética religiosa baseada em pólos de deus e demônio, do bem e do mal. Para ela esta visão maniqueísta vai se alargando a tudo que possa ser um perigo para a família de bem, para o bom cidadão, a educação dos filhos e a segurança pública. É quando a violência é justificada para defender o bem. Kalil entrevistou mães, que sem interesses partidários, preferiram votar no Bolsonaro só pelo seu programa de educação escolar – elas tinham medo de uma orientação educacional dita de esquerda, a qual iria desvirtuar o desenvolvimento „normal“ dos seus filhos. Uma preocupação limitada ao patriarcalismo conservador e fundador de uma sociedade estabelecida em estruturas rígidas. Para elas ir contra isso é corromper, disse Isabela Kalil.

Eu, quando contemplo o Brasil desde longe, da segura Europa, fico estupefata. A estupefação também ora é a reação de pessoas; elas já não mais me admiram por eu ser do país do calor, do carnaval e da alegria – o calor pegou fogo na floresta Amazônica, a alegria se perdeu na insatisfação e insegurança do povo, e o carnaval é cantado de verde e amarelo ao som do hino nacional com suas „margens flácidas.“ Pelo contrário elas me perguntam por que não se faz nada no Brasil, ou onde está a oposição. Conversando com uma amiga – que vem se interessando pelo Brasil desde que viu nos noticiários a floresta Amazônica incendiada – ela não pode crer que tudo fique por isso mesmo, que ao invés de se mostrar a verdade dos fatos, não se falou mais sobre eles. Minha amiga é partidária de algo como um conselho internacional de vigilância e proteção à floresta Amazônica, caso o povo brasileiro não tenha suporte para prezá-la e protegê-la. Esta forma de pensar já pode ser um consenso internacional – é o medo de que o pulmão da terra seja destruído por interesses sem escrúpulos. A questão da soberania brasileira, neste caso, tem menos peso, uma vez que a floresta – em face ao aumento das lutas pelo meio ambiente – é vista como um patrimônio da humanidade. Já Lula, quando foi entrevistado pelo jornal francês Le Monde, disse discordar do presidente francês Emmanuel Macron quanto à internacionalização da floresta, frisando que ela faz parte do patrimônio brasileiro. No fundo ele quer que os brasileiros se conscientizem do dever que têm de cuidar do seu meio ambiente. Ele tem razão.

Por ora o Brasil continua em ebulição: Jair Bolsonaro, como se diz na Alemanha, está como uma galinha cega. O fato de querer livrar um de seus filhos que está metido em corrupção junto com o seu assessor, o faz correr de um lado pra outro, despedindo gente aqui, colocando outros ali, brincando com o poder. E o PT se enfrenta mais uma vez a um grande desafio político depois de sua queda do auge do poder – é preciso ter paciência, saber estar sincronizado e efetuar articulações necessárias. Políticos astutos já se movimentam prevendo uma possível sucessão de Bolsonaro nas próximas eleições, mas antes disso, o povo brasileiro precisa fazer sua tarefa de casa: Lula tem de sair da prisão inocentado das falsas acusações que lhe fizeram. Lula Livre.

 

Próximo post: 7/10/2019