Uma coisa boa

 

Desde o início dos debates públicos do #MeToo as mulheres têm avançado na luta contra o desrespeito, a discriminação e os abusos sexuais, demonstrando coragem, poder de decisão e tornando o movimento mais amplo, sobretudo quando homens também vítimas de investidas sexuais podem se juntar a elas e denunciar ataques sofridos não só de homens, mas também de mulheres. É quando o hashtag pode ir mais além de só querer ver as mulheres como vítimas – embora o número delas como vítimas seja extremamente desproporcional ao dos homens – e passar a ampliar seu teor democrático: todos têm voz e poder de expressão porque o mais importante é o que define o próprio movimento, ou seja, o hashtag MeToo tem que ver com, acima de tudo, denunciar os abusos de poder em forma sexista e discriminatória, como também fazer frente a aqueles que defendem a impunidade e rejeitam a credibilidade das vítimas num sistema que faz prevalecer o silêncio à denúncia e assegurar o comportamento abusivo como normal. Mas isto é tudo? Pelo menos parecia que era tudo até que o presidente americano Donald Trump começou a querer tirar vantagens do movimento para o seu próprio benefício. Isto passou numa de suas viagens pela sua recandidatura à presidência no Estado do Mississipi. Ele desacreditou da professora universitária Christina Blasey Ford por ter ela denunciado o juiz Brett Kavanaugh de uma tentativa de violação no início dos anos 80, quando tinha então 15 anos. Trump, que se pôs ao lado do juiz Kavanaugh – claro – usou de zombaria para qualificar a professora de mentirosa, enquanto procurava grotescamente imitá-la por um lapso de memória, uma hesitação – o que é de se esperar ao se expor num depoimento como esse:

Ele: – “Eu tomei uma cerveja, certo?
– „Como a senhora chegou em casa?“ „Não sei.“
– „Onde passou isso?“ „Não sei.“
– „ Há quanto tempo atrás passou isso?“ “Não sei mais.“
– „Não sei, não sei, não sei.“
Isto mostra até que ponto chega Trump para que o público ria junto com ele, aplauda-o, confirme-o, mesmo fomentando a desigualdade, o ódio, a indiferença. É também uma das mostras de quão polarizado se encontram os Estados Unidos; se por um lado o país é sede de iniciativas novas como o próprio MeToo – por outro lado é exatamente o contrário: seguidores do presidente encontram confortavelmente na sua gestão terreno propício para disseminar o desrespeito, o descaso e o menosprezo às mulheres, aos negros, aos estrangeiros; não lhes interessam nem a dignidade nem a coragem de Christina Blasey Ford ao deixar público um fato de sua vida, que a marcou para sempre, independente de que ela tenha tido culpa nele ou não, porque o papel da culpa foi o que menos valeu no show do depoimento, mas sim o que se pôde fazer para eliminar o inimigo – e ela era um inimigo em potencial – uma inimiga do conservadorismo.

A já mastigada pergunta do „por que só agora, depois de tantos anos ela faz a denúncia?“ falta raciocínio, não leva em conta o passado – ou por medo de encará-lo, ou por indiferença pelo que passou – estimula a repressão e faz da história um esquecimento, o qual este serve como tática para manipular o presente. Com tudo isto, as mulheres que sofreram, não importando a forma, se verbal ou física, investidas sexistas e discriminatórias não esquecem. Elas não esquecem porque sentem o que passou como uma ferida; para as que sofreram violentos ataques físicos – apalpações agressivas, e sobretudo violação – essa ferida sangra para sempre; traumatizadas essas mulheres não vivem com relaxo o seu dia-a-dia, pois as lembranças voltam e voltam, se não bem na memória, bem mais por sensações físicas de pânico, tremores e a terrível paralisação que impede reagir – momentos de alto grau de violência, como os de ser estuprada, por exemplo, podem provocar na vítima um mecanismo que faz escapar do presente como uma tática frente ao horror; futuramente esses momentos encontrarão, ao virem à memória, um certo filtro como algo nublado pela necessidade que a vítima teve de recorrer a esse mecanismo. E para nós todas que sabemos o que é ser verbalmente discriminadas pelo sexo ainda nos falta a medida certa de como reagir a esses ataques, a qual vem de uma consciente aprendizagem de como autodeterminar-se. A sociolinguista americana Deborah Tannen, conhecida em português pelo seu bestseller Você Simplesmente Não Me Entende – O Difícil Diálogo Entre Homens E Mulheres estabeleceu dois eixos na comunicação: vertical versus horizontal. O vertical tem que ver primeiro com o uso de poder – hierarquia, funcionalidade – já o horizontal, ao contrário, denota primeiro o conteúdo, a solidariedade, transmitindo a sensação de que o outro faz parte do diálogo – ele não é um estranho. Esperar uma mudança daqueles que pensam verticalmente usando o que se chama High Talk – conteúdos intelectuais, frases de sentido moral, etc. – como reação a uma ofensa ou insulto, não vai mudar nada, porque está visto que a vítima foi pega e dentro das relações de poder ela se encontra bem abaixo. Que fazer? Devolver na mesma moeda a ofensa? Bem melhor nunca perder os nervos, e para isso é preciso se conscientizar treinando formas de superar o ataque sem perder a sensação de sentir-se confortável e segura, ou seja, falar devagar e firme encarar o tal, o autor do ataque, olhando-o nos olhos e calmamente dar-lhe uma resposta. Nada de solidariedade, de confiança, pois a comunicação não se encontra no eixo horizontal, e o fato de que as situações são diferentes, o melhor é estar preparada para enfrentá-las. Pergunto-me se isso não parece mais um estado de guerra. É sim, uma guerra sem armas de fogo, mas com o uso da coragem, da perspicácia e da calma podemos fazer frente aos inimigos. Mulheres perdem inúmeras oportunidades de reagir à altura investidas sexistas – fazem vista grossa, se envergonham, não podem acreditar que tal absurdo possa acontecer com elas, ou se paralisam – machos sabem como investir em mulheres a durabilidade de suas posições de poder; eles não agem por brincadeira – como deixam transparecer – eles as observam, as testam para saber até onde podem chegar. Eu que não trabalho com um grupo de pessoas, posso porém imaginar a insegurança, a falta de conforto e o mal-estar daqueles e daquelas que são levados a ser alvos de brincadeiras maliciosas e até ao ridículo ou ao escárnio. Até onde ou até quando vai isso? Até quando as sociedades tiverem superado „as coisas ruins“ através de esclarecimentos, de educação para o sentido de respeito e igualdade como também de lutas? Também me pergunto assustada se por um modelo reduzido e simplista não seriam essas lutas assim como lutas entre o bem e o mal? Não creio. A História toma dialeticamente seus rumos; há sempre um desenvolvimento histórico nas lutas de classes, o qual não sabemos para onde vai, mas uma coisa é certa: se não lutamos estamos perdidos. E se pensarmos se o fim „das coisas ruins“ seria correspondente ao fim do patriarcalismo, chegaríamos a pertinente pergunta dentro do próprio feminismo: teve o patriarcalismo um início numa época tal? Então se houve um início, também terá um fim? Como no ciclo vital? (1)

É certo que o MeToo desencadeou outros hashtags, uma forma de organizar mulheres através de uma chamada capaz de ser comum a todas elas; o #EleNão no Brasil, por exemplo, o qual considero ímpar no desenvolvimento de uma consciência política das mulheres brasileiras. A necessidade de ter sido criado foi oportuna dentro do contexto político do momento, apesar de ter sido tachado como um movimento de elite branca, da esquerda, claro, ou como uma ação petista contra o petismo – para mim as duas alternativas são falsas. „O EleNão vai muito além do PT“ (2), vejo-o como resultado de uma polarização, pois o momento de decidir sim ou não ao fascismo falou mais alto, daí a chamada das mulheres unidas contra um candidato à presidência que personifica a coisa ruim – a misoginia, a discriminação pelo sexo, pela cor e origem, o caráter ditatorial e o emprego da violência – fez surgir o EleNão, assim como a necessidade das mulheres de usarem a expressão e de tornarem-se estratégicas e consequentes, e principalmente serem ativas expondo-se e saindo às ruas. O movimento teve muita repercussão positiva no estrangeiro – foi melhor entendido, digo eu – e mesmo que o objetivo imediato não vingue, não é isso nenhum fracasso. O passo em direção à autodeterminação já foi dado e só o futuro mostrará isso com certeza, o que será uma coisa boa – assim espero – EleNão.
(1): Esta pergunta me veio por ter lido Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade de Judith Butler, no segundo capítulo.
(2): Parte do título de uma postagem de Raquel Rolnik em Blog da Raquel Rolnik, 5/10/2018

 

Próximo post: 1/11/2018

A coisa ruim

 

Citando a expressão de “o coisa ruim” de Mauro Luís Iasi no seu último post para o Blog da Boitempo – “Eleições 2018: a armadilha do voto útil e o desafio da esquerda” – também vou me referir aqui ao Jair Bolsonaro de “coisa ruim”, mas vou optar pelo gênero mesmo de “coisa”, ou seja, feminino. Então: a coisa ruim. Isto também me faz lembrar minha antepenúltima postagem aqui no blog: “Que coisa é essa, Clarice?” onde a palavra “coisa” assume duas dimensões ao Clarice Lispector analisar a morte de um bandido no seu conto Mineirinho. Mineirinho, um criminoso, um fora da lei, foi assassinado com treze tiros, sem que isso tenha deixado Clarice em paz, ao contrário, ela se encheu de revolta e de dor pela morte bárbara do bandido; os tiros a perseguiram na lembrança como uma via crúcis, relacionando cada um a uma reação sua. É que existe uma coisa em nós tão intensa como o radium e ao mesmo tempo tão fugaz que para nos salvarmos dela é melhor evitá-la, pois essa coisa nos faz sentir compaixão pelo outro, nos dá capacidade para aceitar e amar o outro. Entretanto essa coisa, como o radium, se irradiará de qualquer forma: se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. É o lado mau da coisa, é “a coisa ruim”.

Não queria escrever sobre a coisa ruim; muito já se escreveu sobre ela a favor ou contra; a mídia está cheia de vídeos de seus discursos, entrevistas e ataques agressivos a mulheres, claro, embora ele, a coisa ruim, tenha dito a uma entrevistadora de um programa de televisão, que não brigava com mulher. Ele a deixou desconcertada, pois sem dúvida sabia ela que ele estava mentindo – mas tudo ficou por isso mesmo, sem que ela tivesse dito algo para contradizê-lo, confrontando-o com a sua própria falsidade – e eu para me preparar para este post também tive de ler artigos e ver vídeos ouvindo sua voz gasguita, rasgada como se ele estivesse num desembestado bate-boca sem nível num botequim ou numa esquina. Tive dores de cabeça ao ponto de não poder mais ouvi-lo, seu tom de voz ficou sendo extremamente negativo para mim. Homens que não sabem dialogar usam de autoritarismo e agressões para poder ter a situação sob controle, pelo medo que estas ações provocam nas pessoas – todos sabemos disso – e a coisa ruim é o retrato perfeito destas características, também por ser um especialista em murar o seu interlocutor em caso de se sentir ameaçado por ele a sair de seu papel; e ele o faz muito bem falando mais alto, não querendo ouvir e sobretudo deformando o tema das perguntas. É molesto ter que ouvir as mesmas coisas repetidas vezes como se viessem de um velho disco emperrado e em volume alto – é o macho em plena ação, é o dogmático incapaz de adaptar-se à convicção da realidade, ou seja, ele não capta a realidade como ela é, mas como ele a vê distorcida pelas suas convicções machista e autoritária. Por que é fácil para a coisa ruim propagar suas idéias adaptando as pessoas às convicções que ele tem da realidade? Porque já existia de antemão um terreno propício para isso, por isso a coisa ruim não é nenhum fenômeno político surgido assim de repente. Não. Mas bem resultado de um velho processo já existente que não permite uma esquerda no país – e isto também não é nada novo, apesar de existirem exemplos suficientes que nos mostram que um sistema dogmático-autoritário não tem chance de funcionar para sempre; algum dia esse sistema se perderá em suas próprias contradições porque a realidade é mais forte do que aquilo que ele tanto apregoou como verdade – é quando o povo crédulo e seguidor se cansa decepcionado de tantas mentiras.

Por que se deu a ele, a coisa ruim, tanto espaço? A mídia também precisou dele para aumentar suas cotas enquanto o quis transformar numa estrela, num fenômeno construído; foram poucos os que o fizeram calar, e ao meu ver a maioria o tratou de luvas e permitiu que ele fosse além dos limites do bom senso. Durante uma entrevista no programa da Mariana Godoy ele chegou a comparar a então presidente Dilma Rousseff com uma cafetina, e por meio de uma tolerância absurda, que só o levou a seguir atacando pessoas descaradamente, não foi expulso do programa – argumentos fortes em nome do respeito à presidente e ao público foram calados; a entrevistadora se bastou com um gesto de como querer tapar os ouvidos.

Sei que além da mídia mainstream há profissionais que tentam fazer um bom trabalho, trazendo à luz a verdade dos fatos e comprometendo-se com a moral; também sei o quanto tantos jornalistas trabalham submetidos a seus empregadores e seguindo suas linhas, não importando se estas sejam sérias ou não; e ainda sei das dificuldades do jornalismo independente para sobreviver – este é o modo de fazer jornalismo que eu mais respeito – no entanto ao seguir observando o andamento de várias entrevistas que fizeram à coisa ruim, dei-me conta de certas parcialidades . A minha crítica não é pessoalmente aos entrevistadores como responsáveis absolutos daquilo que deixou tanto a desejar; entendo que o que faltou nas entrevistas e que não fez com que elas ganhassem em qualidade e elevado nível foi a inexperiência, a insuficiência de parâmetros adequados que fizessem a coisa ruim se dobrar, em vez de dar-lhe asas para ainda mais sustentar suas idéias. No Roda Viva assisti à boa fé da equipe que o entrevistou, contudo me aborreci com o seu silêncio demorado e sem ter falado mais alto para sobressair-se, interrompendo-o e corrigindo-o quando preciso; pelo contrário, a coisa ruim foi quem interrompeu perguntas, e de forma contraproducente até fez uma pergunta fechada – exigindo sim ou não na resposta – a Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico: se o Tancredo Neves foi eleito de forma democrática. Ela, em vez de barrá-lo devidamente – por regra aqui somos nós quem faz as perguntas – ainda o respondeu timidamente. Por que a coisa ruim conseguiu dominar aqueles que o entrevistaram? Porque na maioria das vezes, as perguntas foram genéricas, soltas – sem conexão entre uma e outra – já conhecidas, e que deram à coisa ruim mais chances de se confirmar, respondendo as perguntas com fatos que também não foram levados à discussão. Fatos, os quais os entrevistadores não tiveram como revidá-lo e ficaram sendo para o grande público como verdadeiros. Não estavam preparados? Pareceu-me que não – um despreparo que beirou mesmo a falta de competência ao não poderem argumentar suas perguntas, comprová-las com pesquisas, fatos, vídeos, estatísticas, e tantos outros recursos capazes de se impor ao entrevistado, no caso, a coisa ruim: que parecia – percebi – longe de estar à vontade quando entrou no programa, mas bem, nervoso, mostrando seu típico olhar frio ao sentir-se ameaçado. O Jornal Nacional – com apenas 27 minutos de entrevista – não tocou no aspecto vulnerável da coisa ruim que é seu caráter explosivo, agressivo e seu potencial violento comprovado em vídeos ao alcance de todos; em vez de dar exclusividade ao tema homofobia – que só o levou a repetir suas idéias autoritárias sobre educação – por que não relacionaram o tema com o caráter racista, machista e preconceituoso dele, como no caso da deputada Maria do Rosário no salão verde? Por que não mostraram também o vídeo da discussão com uma jovem repórter – talvez ela no início de sua carreira – que mostrando coragem, o enfrentou, mesmo recebendo esta baixaria:

Ele: Você é bonita, você é bonita.
Ela: (…)
Ele: Você é uma idiota, você é uma idiota.
Você é uma ignorante, você é uma ignorante.
Tô cagando pra você, tô cagando pra você.
Tô me linchando pra você.
Não tá me respeitando?
Ora, vai embora daqui vai, tá atrapalhando teus colegas daqui.

A coisa ruim também mostrou claramente seus traços narcisistas, tomando partido deles para salvar-se de perguntas incômodas; pondo-se na primeira pessoa, na frente de todos como o melhor, embora o que tenha dito nem sempre procedesse a verdade. O pior é que a coisa ruim foi ouvida como se o que disse fosse absolutamente verdade, sem ter ninguém que o revidasse, o negasse com propriedade, e assim passou-se a pergunta seguinte. Li em blogs acusações aos jornalistas do Roda Viva de petistas – como se ser partidário do PT é motivo de acusação – ou que eles tentam ser melhores do que o próprio entrevistado. Não. Ao que assisti foi o oposto destas declarações – não vi intuitos partidaristas, mas bem vi – com poucas exceções – entrevistadores perdidos, limitados por não terem sabido sem embaraço se sobressair com argumentos eficazes. É quando me dei conta do quanto se precisa aprender no Brasil – o que não é mau – ou ainda é o jeitinho brasileiro que deixa passar coisas para não complicar? Não incluo aqui os fazedores do fake news e seus interesses em falsificar a realidade – estes eu os abomino – mas sim o jornalismo crítico, inteligente, ativo e conhecedor dos fatos. O futuro do jornalismo brasileiro depende da educação política que os jovens irão receber – e que não seja a tal que a coisa ruim tem na cabeça – mas uma que tanto fomente a confiança para tomadas de iniciativa própria – sem precisar copiar aos demais – como que ensine a formalizar para também estimular a confiança – a informalidade brasileira com o seu jeitinho brasileiro, em muitas situações, já se deu muito o que falar no estrangeiro: é muito engraçada, viva, espontânea, tudo bem, mas também chata, pesada e não digna de confiança dos demais; ela está presente por toda parte e certos políticos abrem mão dela até em Brasília. Numa das vezes que estive no Brasil assisti a uma sessão da Câmara na televisão; na ocasião presidia a mesa o deputado Rodrigo Maia que ao terminar seus trabalhos, levantou-se de sua poltrona e bateu no ombro do seu auxiliar para ir embora, só que de uma forma tão sem cerimônia, tão à vontade e descuidada, como se bate no ombro de um companheiro de bar – onde neste recinto seria normal – mas não na Câmara dos Deputados. Para mim este gesto mostrou uma indiferença e desrespeito tanto a seu trabalho como ao lugar onde se encontrava; se o deputado agiu assim, por que outros não?

A coisa ruim foi mais além da informalidade; no fundo não o considero informal, pelo contrário, ele é autoritário e intransigente – qualidades que negam a informalidade – é um grosseiro, um desbocado, um agressivo que sabe atacar. A deputada Maria do Rosário – talvez ainda esperando condescendência dele – o ameaçou de esbofeteá-lo. A reação dele foi a evidência de não saber usar da diplomacia em casos de discussão – a qual é imprescindível para um político, sobretudo se ele está em público – e, dono de si, a empurrou duas vezes, mostrando até onde podiam chegar, impunemente, suas atitudes. Foi o apogeu da falta de respeito às mulheres, às famílias, à luta das mulheres. Por que a deputada não o esbofeteou mesmo, em vez de só tê-lo intimidado? Medo? Se assim tivesse passado, a situação teria sido bem diferente, e aí eu estaria pronta para perguntar à senhora Michele Bolsonaro se ela também já viveu semelhante situação em casa.

Próximo post: 17/10/2018

É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos

 
Para escrever este texto tive que me apoiar num material informativo, por isso li muitos artigos de revistas e online, vi documentários e entrevistas. As principais fontes foram Spiegel e Spiegel online, Stern, Süddeutsche Zeitung, Badischer Zeitung Freiburg, Focus online e Welt.de

 
No sul da Alemanha, num lugar pequeno perto de Freiburg chamado Staufen um menino – hoje com dez anos – foi cruelmente abusado sexualmente durante dois anos por parte de seu padrasto Christian L., 39 anos e de sua própria mãe, Berrin T., 49 anos; foi filmado em cenas pornográficas e ao ser violado por pedófilos perversos e depois oferecido numa área obscena e criminosa da internet em troca de dinheiro. O casal admitiu e confessou seus crimes, embora Christian L. tenha sido o melhor esclarecedor dos fatos, até apontando à polícia outros homens envolvidos nas violações, enquanto ela permaneceu como uma incógnita, transparecendo desleixo e falta de empatia, procurando racionalizar seus motivos através de clichês para sua própria defesa ao ser questionada. No início deste mês os dois foram julgados e condenados, ele a doze anos sob o regime de segurança – uma espécie de liberdade confiscada o aguarda após o cumprimento de sua pena, pois permissão para sair não terá, por ser considerado como perigoso para a sociedade e inclinado a sofrer recaídas; ela, a mãe, a doze anos e meio de cárcere – um resultado que decepcionou a maioria das pessoas que esperava mais justiça, não só considerando o grau das atrocidades cometidas pelos dois, mas também o descuido de funcionários do judicial ao deixar que o menino voltasse à custódia da mãe após ter sido afastado do lar. Na Alemanha uma pena para os casos especialmente graves de abusos sexuais a crianças pode ser de até quinze anos; se nenhum dos dois abusadores não recebeu esta pena, é por que para a justiça o caso ainda não foi considerado como extremamente grave? Mas o que é isso tudo em comparação com os danos físicos e psíquicos causados à criança, danos estes que irão marcar toda sua vida? A promotora Nikola Novak já tinha apelado para uma pena mais longa, sobretudo para a mãe do menino que não só colaborou com o seu parceiro, preparando o ambiente, conduzindo a criança às humilhações e torturas, mas também ela mesma, abusando do menino como se ele fosse seu brinquedo sexual.

Quando se conheceram no início de 2015, Christian L. tinha acabado de sair da prisão também por abuso sexual a uma garota de treze anos e daí ficou conhecido nos meios policiais como um tipo ainda capaz de retroceder a ações pedófilas, não lhe sendo permitido, por isto, estar em contato com crianças e jovens, a não ser na presença de um funcionário do judicial. Claro que Berrin T. sabia de tudo isso, mas mesmo assim concedeu a ele possibilidades de abusar sexualmente de uma menina de três anos, filha de uma conhecida e de quem ela tomava conta como babysitter. Nessa época o menino tinha oito anos e para ele também começaram o suplício físico e moral, a escravidão, a prostituição forçada, os estupros com a absoluta permissão dela. Por quê? Alegou ter permitido por medo de ser abandonada pelo parceiro – o que deixa claro seu papel de vítima na história – ou para também comprazê-lo como uma forma de amor? Não. Para mim uma forma de perversão, uma extrema falta de empatia, uma inteligência deteriorada e submetida à vileza. E onde fica nisso tudo o amor maternal que esperamos de toda mãe?

Nikola Novak não crê sem mais no papel de vítima de Berrin T. e pergunta se a tal estivesse mesmo sob pressão do parceiro – por que não mostrava sentir piedade pelo filho nos vídeos onde o menino era violado? Não mostrou. Seu interesse era não deixar transparecer marcas de violência nele, através de algemas, adesivos e outros instrumentos repressivos que usaram na criança; seu interesse também era mostrar-se como mãe protetora e lutadora, e assim o fez quando em março de 2017 um policial deu-se conta de que Christian L. e Berrin T. viviam juntos apesar da proibição de contato. O filho foi retirado do lar e entregue aos cuidados de uma família. Após um mês a criança voltou a viver com a mãe, sem que os funcionários de amparo a menores tivessem se dado conta de estar sendo ele vítima de agressões e abusos – a criança não foi ouvida, apenas ela, a mãe conseguiu convencer os funcionários usando conhecidos argumentos clássicos que definem uma mãe como boa, amorosa e cuidadosa – mentiras, enganos, mas que deram para ganhar a sua confiança. Como poder estar contra de uma mãe que quer proteger o filho? Com a mãe o menino não poderia estar em melhores mãos. – Assim se defenderam alguns dos funcionários – Por que o menino voltou a viver sob a tutela da mãe equivale a pergunta por que ele voltou ao martírio. Esta pergunta tardia, muitos a fizeram na imprensa e na mídia em busca de uma claridade, que no fundo revelou, por um lado, a expressão do fracasso das autoridades competentes que poderiam ter evitado mais sofrimento à criança se tivessem à disposição mais pessoal com suficiente trabalho coordenado, como também o acatamento a bitolas no modo de pensar e trabalhar impediram esclarecimentos dos fatos e até a possível salvação da vítima. Por outro lado a imagem da mãe protetora, cuidadosa e cheia de amor que temos fortemente impregnada em nós é incapaz de se virar no contrário. A confiança vem daí, deste padrão de que uma mãe por natureza não desonra o filho, e quando isto acontece e tomamos conhecimento, ficamos perdidos, nossa imaginação se limita, sentimos repulsa dos fatos que ouvimos e evitamos falar deles, pois falar deles é tocar num tabu, o tabu que envolve a mãe, que a faz intocável e longe de ser vista como uma abusadora sexual ou pedófila. Até os termos causam estranheza porque quem abusa comumente é o pai, o padrasto, o avô, o tio e outros ligados à família, mas nunca a mãe. Expertos no assunto dizem que a maioria dos delitos de abuso sexual a crianças praticado por mães – ou mulheres em geral – fica na sombra, encoberto porque não queremos aceitá-lo como verdade, e a razão disso repousa em profundos tabus, em mitos de gêneros e em repressão coletiva. Na Alemanha, segundo as estatísticas policiais, foi registrado em 2017 que no total de abusos sexuais a menores, quatro por cento foi de autoria de mulheres – a mãe, a avó, a tia, etc. – em todas elas está presente o mito do amor maternal. E os casos não registrados? Destes não sabemos.

Que energia produtora é capaz de conduzir a tais atos? O papel da mídia, da ganância, a história familiar de cada uma, o perfil psíquico? Já foi constatado em vários casos que quando uma mulher pratica pedofilia, já foi ela mesma vítima de abuso sexual, sem que jamais tivesse procurado ajuda terapêutica, ou vem de meios familiares insanos, tornando-se alcoólica ou dependente de drogas, no fundo um desajuste de personalidade. Sabe ela disso? Está consciente dos danos irreparáveis que causa à criança? Acho que sim, embora não queira se dar conta, ou procura um mecanismo de defesa para livrar-se de sentimentos de culpa. Uma mãe que manipula ou força seu próprio filho a satisfazê-la sexualmente – manualmente, oralmente, ou através de objetos – que se masturba na sua presença, ou o incita a uma penetração não pode esperar compaixão da sociedade, mas sim ódio – ela violou um tabu – por isso há casos de pedófilas que querem e tentam abrir-se para outros, principalmente por meio de serviços telefônicos de ajuda emocional, mas interrompem o contato se pressentem que poderão ser descobertas; daí as dificuldades nas investigações porque ao contrário dos pedófilos, elas não aparecem, mas sabemos que existem e por toda parte.

Nos países onde o feminismo ainda anda de quatro ou quando este ainda precisa, apontar o dedo na cara dos machos irreverentes e, de formulações fortes e diretas para confrontá-los, não é fácil também ver a mulher com aqueles comportamentos contra os quais ele se posiciona ou considera-os como típico de homens – até para estes é difícil conceder que uma mãe faça isso, contudo a moeda também tem outra cara, e segundo relatórios de profissionais uma parte considerável dos abusos sexuais intrafamiliar tem a mãe como cúmplice. Uma vez que também não é fácil aceitar esta triste realidade, caímos em formas de defesas – como é possível? Isso não chega na cabeça de ninguém! – Pois sim, e dá até margens para revisar certos posicionamentos radicais ou polarizados dentro do feminismo. Homens que foram abusados sexualmente pela mãe quando crianças guardam por muito tempo a dor, sem poder expressá-la, de terem sido maltratados, golpeados e ameaçados de serem abandonados, caso não a satisfizessem como ela queria – tudo se passa a nível dos sentimentos, pois as crianças não sabem exatamente o que está sucedendo; a maioria dos abusos começa antes da puberdade, e nesta fase elas são vítimas diretas de serem divididas entre o que é certo e o que não é certo; não sabem julgar o que é amor, dedicação e sexualidade e sentem-se exigidas de passarem a ter vários papeis: filho, amigo, amante, marido – tornaram-se vítimas, a serviço dos desejos de prazer da mãe – o prazer como um vício vazio – até puderem de uma vez se liberar: isto passa no período da puberdade entrando na adolescência, quando os garotos já esgotados, estragados e desorientados dizem um basta acompanhado muitas vezes do afastamento radical da mãe. Muitos reprimem esses episódios, banindo-os do consciente, esquecendo-os até que qualquer vicissitude oferecida pela vida faça com que eles irrompam brutalmente e o horror do inferno volte outra vez. Daí a necessidade de trabalhar esse passado horrendo numa terapia – e quanto mais cedo melhor – o que não passa com muitos pela repetida razão do quanto esse passado desorienta e causa desordem na personalidade de seu dono.

Agora Berrin T. e Christian L. estão na prisão graças a uma indicação anônima à polícia em setembro de 2017. Eles têm ainda que pagar 42.500 euros à criança assim como às outras vítimas – o chamado dinheiro da dor pelos estragos causados a elas, e será aplicado em favor de sua educação. O menino está vivendo sob os cuidados de uma família e não quer falar sobre o que passou com ele. Ela, a mãe, a qual nunca vi seu rosto – baixou a cabeça ou cobriu-o com um papel durante o julgamento – é gorda, uma figura balofa, com aparência desleixada e sem atrativos, um acúmulo de gorduras e cigarros fumados; não perguntou pelo filho, nem como ele estava, sua preocupação maior foi poder comprar seus cigarros.

Próximo post: 24/9/2018

Que “coisa” é essa, Clarice?

Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva.
Clarice Lispector

 

 
Que coisa é essa que se interpõe entre os fatos e a justiça? Que coisa é essa que põe a justiça em questão?

Os tiros disparados matando José Miranda Rosa, conhecido por Mineirinho, um bandido e criminoso procurado pela polícia, encheram Clarice Lispector de dor e revolta e levaram-na a viver uma experiência humana profunda, a qual ela expressa de maneira densa e magistral no conto „Mineirinho“ e ao mesmo tempo surpreendente pela sua forma, parecendo mais um plaidoyer – acho eu – do que um conto ou uma crônica, embora seus argumentos não o teriam nem salvo da prisão nem da morte. Mineirinho foi morto em 1962 no Rio de Janeiro por uma série de tiros; um total de treze balas perfuraram seu corpo indefeso. Clarice Lispector disse numa entrevista em 1977 para a TV Cultura, sua última entrevista, que só uma bala teria bastado para matá-lo, os treze tiros foram “vontade de matar” – foram perversão bárbara digo eu: uma desnecessária execução que fez de Mineirinho um bandido a menos, como um resultado de glória para os tais atiradores e para aqueles que acreditaram neles como defensores de sua segurança. Ou como se diz hoje “bandido bom é bandido preso”, ou em últimas instâncias pode-se corrigir a sentença para: “bandido bom é bandido morto”, quando nisto uma justiça chega a seu ápice ao não dar ao criminoso exatamente o que ele tirou de outro ou outros: o direito de viver. Mas que justiça é essa que devolve na mesma moeda? Seja qual for a sua atuação, na área do judicial ou não, é motivo para Clarice Lispector indignada dirigir-se a ela, repudiá-la pelo alto preço que cobra por um bem-estar e segurança de se poder estar em casa e dormir em paz – nosso conforto é pago por outros que pagam com a vida – e Mineirinho foi fuzilado enquanto ela dormia – e enquanto dormimos outros vão continuar pagando com a vida em nome de uma justiça que diz nos amparar enquanto outros ficam desamparados. Para Clarice somos todos uns „sonsos“; pois deixamos escapar, por essa sonsice, a nossa responsabilidade frente ao outro, e isto é o que sustenta o nosso comodismo diário.

Apesar de o sentido de justiça ser primordial e estar presente no texto de várias formas, não foi, porém, o que mais me tocou no seu texto; Clarice era formada em leis e sabia muito bem o que o termo „justiça“ podia significar em meio a tantas apelações; ela também estava longe de querer justificar gratuitamente os crimes de Mineirinho; mas bem uma outra coisa, „uma coisa“ que a faz se acercar do caso através de sua voz interior, e não por uma ostentação teórica; bem melhor deixar vir à tona aquilo ou aquela „coisa“ que a justiça não cumpre, ainda que seja ela o princípio dos direitos. Mas como expressar essa coisa, a coisa que faz doer a morte de um facínora?
Clarice assiste ao drama de sua cozinheira por não saber exprimir seus sentimentos de pena, por também estar dividida entre a sua compaixão e os fatos reais: quem não sabe que Mineirinho era criminoso?, mas por outro lado: … tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu. A escritora procura em si mesma – sem se individualizar, mas como um dos representantes do nós – que coisa é essa que rebentada não a permite sentir-se aliviada pelo fim de mais um bandido? Se Mineirinho tivesse sido morto com apenas um ou dois tiros, estes não teriam sido suficientes para que nela a coisa se rebentasse: Mas há alguma coisa, que me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, … – entretanto esse desumano excesso de tiros a tira do comodismo – como, meu Deus, precisamos de tragédias, catástrofes para acordar para a realidade! – e levam-na à continuação a despertar-lhe para algo, ressoam em sua memória com insistência, como se eles fossem as treze estações de uma via crúcis, a sua e a de Mineirinho – a via crúcis de Cristo tem uma estação a mais – e ela passa dolorosamente a ser o outro, pois só nessa transformação é possível a compaixão.

“Não matarás”, um dos dez mandamentos de Deus entregues a Moisés e é o que serve para assegurar nossa existência como viventes, porque só Deus tem o direito de tirar nossa vida; aqui rege a lei do olho por olho até que muito mais tarde o Messias resumiu as duas tábuas dos mandamentos em dois grandes ensinamentos, que não foram dele próprio porque já estavam presentes no antigo testamento: um tem que ver com o amor a Deus, de maneira exclusiva e absoluta, e o outro com o amor ao próximo. O revolucionário deste segundo ensinamento é que não é amar o próximo como ele é, mas sim amá-lo como se ama a si mesmo, pois não há diferenças entre amar o outro e amar-se. Vejo um ponto de partida aí no humilde reconhecimento de si mesmo que gera um amor irrestrito e sem barreiras; desta forma posso amar o outro, e entre mim e ele o amor é o mesmo, porque – sob o poder do amor – eu sou o outro e ele é eu, ou seja, amo o outro porque reconheço nele o que sou. Isto longe de nos relegar à passividade, nos levaria a ser ativos – sujeito e discurso – um movimento para a frente, para a união. Este amor incondicional ao próximo nos é exigido pelo cristianismo, mas é-nos, por outro lado, possível? No texto vejo-o referido como um dos lados da tal „coisa“ já mencionada. Há uma coisa, existe uma coisa pura em nós que nos une, que nos faz humanos, mas por ser tão intensa também é capaz de assumir o contrário do que é; essa coisa que ao mesmo tempo que minúscula como um grão de areia fina, também pode ser tão forte e destrutiva como a irradiação do radium: … essa coisa é um grão de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador – em amor pisado. Em Mineirinho essa „coisa“ – que por um lado – o fez gostar „feito doido“ de uma mulher e ser devoto de São Jorge também é a mesma coisa que – por outro lado – o desorientou e caotizou sua vida. Pergunto-me que área do conhecimento se prestaria a definir essa coisa. Clarice Lispector não encontra resposta nem na justiça baseada na idéia universal do direito natural, a qual nos dá o que é fundamental para existir: a vida – como se diz: „o sol é para todos“ e não só para alguns, e que é no fundo o princípio de todas as revoluções – esta aqui não chegou a alcançar Mineirinho permitindo-lhe que o sol também brilhasse para ele – nem na justiça dos homens como procedimento arbitrário do que é justo e correto: esta a envergonha porque dá-se conta de sua fachada: sua casa segura, que protege seu sono tranquilo, não é tão segura assim se ela começa a ter acesso à coisa, a aquilo que lhe tira a máscara da sonsice de toda uma vida e cobra-lhe amor ao outro enquanto indignada. Usando de lucidez, Clarice recorre ao divino sem pieguices, não importando se de forma irônica ou não, mas confiando que daí se possa tirar a bondade e a esperança; assim repete a palavra „Deus“ por quatro vezes no texto, como também se vale de passagens da Bíblia, não para rogar piedade por Mineirinho, pedindo a inocência e o perdão para ele – o que seria por demais abstrato, sabia ela – bem mais para pô-lo no lugar dos homens, de todos os homens, que também somos nós, porque nós todos somos perigosos se nos faltou a mão de um pai sobre nossa cabeça a nos amparar. Estes são momentos lindos do texto, vivos e fortes, nos quais a escritora expressa suas convicções sem deixar de se referir à tal coisa – ela quer essa coisa que move montanhas ou „a coisa“ que a faz dar água a quem tem sede, não porque ela tenha água, mas porque, também ela sabe o que é sede.

Quando eu tinha entre catorze e quinze anos vi uma cena que me repugnou; foi numa das paradas de um transporte coletivo rumo ao centro da cidade. Numa esquina estava um rapaz com o seu carrinho de sorvetes, e ao redor dele um grupo de rapazes, que pela sua aparência pertenciam a uma classe social bem mais superior. Sem levar em consideração que o sorveteiro trabalhava pela sua subsistência – e talvez até de uma família – e sem nenhum respeito humano a ele, os rapazes tentavam provocar a ira do jovem para humilhá-lo na sua condição de pobre e indefeso. Da janela do ônibus fui atraída pelo seu sofrimento existencial, sozinho e desamparado sem poder se valer do que ele tinha de mais valoroso: sua dignidade humana, sua nobreza de ser homem trabalhador mesmo não possuindo um título honrado; vi no seu rosto a dor de quem já era um perdedor oprimido, recuando como única defesa, pois no momento uma valentia isolada não significava nada. O ônibus seguiu adiante sem que eu pudesse ter visto como terminou esse episódio vergonhoso; sua humilhação deve ter se transformado em ódio, e a vergonha por não ter podido ele mesmo se socorrer, deve tê-lo impedido por muito tempo de usar de sua racionalidade. Não ouvi no ônibus nenhum comentário – é muito provável que outras pessoas também tenham visto o que acontecia na esquina, apesar de tudo isso ter passado depressa, só o tempo de uma parada sem demora, mas o suficiente para paralisar-me pelo terror. Eu era muito jovem, uma adolescente desprevenida para essa realidade e, como a cozinheira de Clarice, não sabia me expressar e acabei reagindo como todos: deixando passar para evitar a dor que dela faria do sorveteiro um de nós, porque no fundo seria essa dor o que poderia nos unir. Esta lembrança agora emergida é a dita prova de como fomos todos sonsos – eu e os outros dentro do ônibus – o medo e a indiferença nos impediram de usar uma justiça – fosse ela qual fosse – em favor de um homem acuado e ultrajado por outros; preferimos não ver para continuarmos comodamente nossa viagem – a cegueira foi o preço que pagamos, evitando que o ônibus estremecesse se a tal coisa rompesse pelo menos em nome do que se chama coragem civil.

Como deixar viver essa coisa? Clarice acha que só a doidice – perder-se – seria um meio de chegar a ela: uma justiça mais doida, um amor doido, uma compreensão doida do que é perigoso compreender, e só sendo doido pode-se sentir um amor profundo – aquele que explodiria seus raios em „ isso ou aquilo“, ou seja, na esperança, na confiança, no amor, ou naquilo que seria o contrário levando à desorientação e a destruição. Pergunto-me por que ela não usa palavras como louco, louca, loucura para referir-se ao acesso à „coisa“ ou ao estado da „coisa“ – acho que seriam estas bem mais formais; também não recorre a explicações científicas porque, para ela, não há explicação científica para a tal coisa. Clarice Lispector vale-se de Clarice mesma para expressar seu olhar profundo e sua compreensão aguda dirigida às coisas e a nós; com isso ela nos mostra nosso próprio desespero humano, – nós pobres humanos – nos põe na fronteira de nossa capacidade de compreensão, nos deixa desamparados frente a termos tão comuns, mas também abstratos como „erro“ e „salvação“, mas que em suas frases assumem estes um caráter ambíguo, porque um pode ocupar o lugar do outro: o erro é o seu – o nosso – modo de viver, mas ao mesmo tempo a sua – a nossa – salvação; o bandido Mineirinho é resultado do seu erro, mas também é o que vale para a sua salvação; seu erro é assustar-se diante da vida em forma de carne, sangue, lama, assim como sua salvação é calar esse erro, não compreendê-lo, afugentá-lo. A necessidade de abstrair coisas ocultas dos fatos – que só um coração compassivo pode ver – vem de sua inquietação, de suas longas elucubrações, tentando criar com esforço, não o que é óbvio, mas numa profunda solidão, a unidade entre o ser e o pensar. Aonde quis chegar? Ao místico? De sua solidão – acho eu – veio a necessidade e o intento de viver o outro, pois todos nós somos da mesma matéria e da mesma lama, mas por outro lado por que somos um ao outro tão aversos? O que nos salvaria?

Como responder perguntas tão inquietantes? Como dividi-las com alguém, senão no ato de escrever? Para leitores despreparados, Clarice Lispector não oferece textos fáceis de tragar, agradáveis de ler, por sentirem-se eles perdidos até mesmo em meio a um relato de fatos cotidianos, pois estes podem inesperadamente desorientá-los. É o contato com a coisa? Talvez. Disse na sua última entrevista que ela não se considerava popular e até era vista como hermética; por estas dificuldades a sua obra literária está, na maioria das vezes, entregue aos doutores e professores de literatura, o que pode tornar sua leitura um tanto elitista – infelizmente. Não acho que ela tenha escrito seus livros visando este fim – ela escreveu por necessidade, o seu modo de ser se espelha de forma sincera na sua expressão – e a maior ou menor, ou mesmo nenhuma aproximação do leitor com seus textos é independente do nível intelectual: ou se entra em contato com ela ou não.

As categorias de bem e de mal se contrapõem marcadamente em casos como o de Mineirinho; é muito fácil julgá-lo só levando em conta o seu lado escuro, demoníaco e assim não lhe conceder nem defesa, nem perdão, por isso é incabível, lato sensu, aceitar argumentos tais como – Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Ou: Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não estremeça. Ou ainda: Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou … – sem beirar a culpa, o exagero e até mesmo o utópico. Contudo Clarice Lispector chegou aí – à doidice? À utopia? Ao ilimitado? Ao limiar do impossível dentro do possível? Como entendê-la? Ela disse que quem entende desorganiza e é o mesmo que querer entender a coisa que nos faz com que nos ofusquemos e nos calemos tanto frente a um brilhante, como frente ao horror, pois essa mesma coisa que nos enche de amor, também nos desespera e faz nossa casa estremecer, mas é bom lembrar que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Então seria possível sim.

Já um mês sem Marielle Franco

 

Devia publicar no 30 de abril deste, como mesma o indiquei no post anterior. A data de hoje – um mês da morte de Marielle Franco – não me fez calar, mas antes expressar a minha dor em forma deste humilde texto.

 

Já um mês sem Marielle; um mês sem a sua presença forte e decidida, sem o seu respaldo a aqueles por quem ela lutava. Não a conhecia quando estava viva e atuando como vereadora – que pena! – talvez por não viver no Brasil e não poder me dar conta de tudo que passa no país; assim não pude acompanhar seu itinerário político e suas lutas, sendo por isso este post de caracter pessoal e carregado de emoções, como também vindo de um esforço à maneira de suprir as lacunas que tenho em torno de sua vida. Mas observando as suas fotografias, deparei-me com uma mulher alegre, forte e dona de um sorriso aberto de quem conhece a franqueza, e de um olhar firme e direto, de quem sabe ir muito longe. Essa mulher merecia morrer? Claro que não, e ainda mais por mãos de – encargados ou não – bandidos vis, como uma forma de represália – por ter sido Marielle um perigo para seus projetos ignóbeis? Com ela também morreu outro, o Anderson Pedro Gomes, que foi uma vítima do crime só porque conduzia o carro onde se encontrava a vereadora – esta sim era o alvo da emboscada que resultou em treze tiros. Treze tiros também foram disparados contra Mineirinho, um bandido e criminoso em 1962 e que levaram Clarice Lispector a escrever um conto sobre ele – um dos seus contos preferidos. Os treze tiros me fazem lembrar que na sua última entrevista em 1977, poucos meses antes de morrer, Clarice Lispector mencionou horrorizada o quanto esse caso a encheu de dor e revolta diante da injustiça chamada „justiça“: foram treze balas „quando só uma bastava para matá-lo“ e „qualquer que tivesse sido o crime dele, era prepotência, era vontade de matar.“ Clarice, de forma magistral no conto, se transforma em Mineirinho e acompanha-o até o último disparo: „ O décimo terceiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.“

As perguntas ao redor da morte de Marielle são muitas sem que já tenham sido respondidas, deixando um vazio como um buraco aberto, mas sem mostrar o que tem no fundo. É também o vazio que ela deixou na sua família, na sua companheira, nos seus colegas de militância e em todos os brasileiros que a seguiam e acreditavam no seu trabalho. Este vazio só pode ser preenchido através de lutas que continuem as suas aspirações e digam NÃO ao crime organizado: MARIELLE VIVE.

A Organização das Nações Unidas exigiu dos políticos brasileiros o esclarecimento total sobre a execução de Marielle e seu motorista, Anderson Pedro Gomes; a Anistia Internacional e comissões comprometidas com os direitos humanos também estão preocupadas pela falta de solução e incerteza que o caso no fim das contas poderá descambar; enquanto isso forma-se no Brasil uma onda de protestos – como se já estivesse prestes a explodir – assentada no torpor e na indignação de um povo inconforme com os abusos dos que acoitam a violência e o crime. Isto para mim é mostrar uma cara nova, ao preferir formas sociais de protesto e não entregar nas mãos de Deus, como se só ele fosse capaz de fazer justiça. Por outro lado, e como reação direta ao processo de conscientização das populações oprimidas, eclodiu uma onda negativa saída de um ódio profundo às classes – um ódio antigo, anterior às democracias – expresso falsamente em nome da livre expressão, mas que no fundo é uma descarga de repulsa a tudo que se opõe ao conservadorismo, ao patriarcalismo e à discriminação social que leva a marginalizar pessoas pela cor, pelo sexo e pela condição de vida de onde elas emergem – uma aversão às forças democráticas, as quais o Brasil, dotado de bom senso daqueles que lutam contra elas, não deverá permitir.

O ódio é uma descarga do medo; o pânico de perder o poder ou privilégios e até mesmo o próprio caráter onde se assentam as convicções. Uma das teorias do ódio o explica como resultado de uma pressão sofrida por uma pessoa ao ser exigida que ela se libere, ou seja, forçar o outro a liberar-se, causa ódio. Podemos aplicar esta teoria às expressões de ódio contra a esquerda? Marielle e Lula são os mais recentes exemplos de difamação, calúnias e desrespeito até onde não se pode imaginar, como mesma li nas redes sociais e noticiários vistos como confiáveis. Chamar Marielle de safada, ou Lula de bandido sujo é ao meu ver a expressão de uma incapacidade ao não poder liberar-se do que impede reconhecer o outro e vê-lo como igual. Por que a desembargadora Marília Castro Neves preferiu caluniar a referir-se a Marielle com mais ponderação e discernimento? Por que muitos comemoraram a prisão de Lula? Marielle sabia responder sem medo estas perguntas e outras mais; por isso a fizeram calar.

 

 

 

 

É típico de homem…, é típico de mulher…

 

PRÉ-TEXTO:

Quando estava escrevendo este texto, fui surpreendida pela notícia do assassinato de Mariella Franco. Desde então não me senti mais à vontade para continuar a escrever; achava que meu texto nem de longe chegava a tocar na cruel realidade deste momento, em que agora nos encontramos. Após vacilar muito, decidi terminá-lo como uma dedicatória a Marielle Franco, pois sei que se ela o lesse, iria me dar razão: A Mariella Franco.

 

 

Será mesmo a ambição que nos separa? Mulheres não têm, nas mesmas medidas que os homens, um alto grau de ambição – a qual lhes garantiriam obter mais êxito profissional – porque elas reservam uma grande parte de suas energias para a família e as relações pessoais. Pelo menos é o que quis dizer Lawrence Summers em 2005, então na época presidente da renomada Universidade Haward nos Estados Unidos, e citado por Natasha Walter no seu livro Living Dolls – The Return of Sexism, 2010 (Muñecas Vivientes, em espanhol), ao ser perguntado por que só poucas mulheres chegam a ensinar matérias científicas e tecnológicas nas faculdades da tal universidade. Os argumentos de Lawrence Summers desencadearam discussões entre os que o defendiam, julgando-o como homem letrado e capaz intelectual americano, e outros, sobretudo mulheres – também renomadas professoras universitárias – que relegavam seus argumentos a um nível de absurdo. Contudo para Summers – antes de se ter desculpado mais tarde de seus próprios absurdos – mulheres não se sairiam bem, em comparação com homens, em profissões, cujos encargos recebem alto grau de tensão no ambiente de trabalho, porque elas, por natureza, não deixariam de enxergar o mundo através dos óculos da família e dos relacionamentos, e por isso não seriam dadas às tarefas científicas. É muita presunção, acho, estabelecer diferenças inatas de capacidade reduzindo as mulheres a uma esfera limitada no campo profissional e da produção científica, ao fortificar a tese de que elas não mostram ambição suficiente, ou seja, a ambição necessária para que pudessem brilhar em suas carreiras como cientistas ou pensadoras, porquanto lhes faltam um certo talento para as tarefas que exigem esforço físico ou mental excessivos. Esta forma de pensar e crer não é nada nova e está longe de ser um tabu – é corriqueira, é o que leva a maioria das pessoas a falar assim, é o clichê da insuficiência e da incapacidade, no qual mulheres não resolvem facilmente questões que requerem lógica, mecanismo e precisão: isso é trabalho de homem, se diz, e faz-nos evitar tais atividades crendo mesmo que não somos capazes. A prova disto se vê na menor presença de mulheres nos cursos de mecânica, física, astronomia e outros que exigem grande abstração ou até mesmo em outros ofícios: existem mulheres como encanadoras, eletricistas, carpinteiras, por exemplo? Claro, mas muito poucas, e as que existem enfrentam-se no desenrolar de seus trabalhos, tanto quanto com pessoas que se surpreendem ao vê-las ali, em vez de homens, como com reações de desconfiança – eu mesma me surpreendi uma vez dentro de um avião quando quem se apresentou como comandante da aeronave foi uma mulher; e não fui a única, pois também ouvi de algumas pessoas reações de surpresa, como oh!, quê?! e suspiros suspeitos. Claro que não me assustei pelo fato de ser transportada nas alturas de um país a outro por uma mulher, mas fiquei pensativa porque fui pega desprevenida, o que após a surpresa, me senti orgulhosa.

Acreditar que nós mulheres não nascemos para executar profissões ou funções ditas como masculinas não é mais do que admitir velhas teorias engendradas num determinismo biológico que trata de considerar, entre outros, o fator da diferença entre os sexos para estabelecer poder político, domínio e oprimir os „naturalmente mal favorecidos“. Mas apesar de já se ter feito muito contra ele, ainda persistem controvérsias dentro das áreas de investigação científica, da política e dos mercados de trabalho, gerando discriminações e fazendo prevalecer os estereótipos que subestimam a nossa capacidade. Estes então, nos absorvem – também homens e mulheres jovens – eles nos estão inculcados sem que muitas vezes possamos fazer nada contra, e assim nos influenciam a fazer uma escolha ou um julgamento que podia ser bem mais justo sem eles. Um exemplo para isto é o que Iris Bohnet, também professora da Universidade Haward, diz significar „ser uma boa mulher“. No contexto brasileiro o adjetivo „boa“ relacionado à mulher está carregado de conotações negativas quando ele vem posto depois do substantivo, o que logo se constata na linguagem machista sendo aquela que é atrativa e com dotes para o sexo. Já uma boa mulher ou, realmente uma boa mulher, diz Bohnet, é aquela que não deve ser agressiva, e mais: deve ser cooperativa, passiva e social para ser querida. Por outro lado, se um homem assume a função de „tio“ num jardim de infância ou numa creche pode causar irritações, porque não esperamos que homens tenham tais qualidades femininas. Numa entrevista a uma jornalista alemã (*) por ocasião de seu livro „What Works“, 2016, Iris Bohnet falou de quanto os clichês podem influenciar nos processos seletivos de obtenção de empregos. Candidatos em geral a postos de trabalho se esforçam para impressionar bem seus recrutadores com seus curriculae vitae e cartas de apresentação, e não supõem que os pré-requisitos de seleção estão elaborados a apontar aqueles que condizem com seus moldes, o que para Bohnet esses mesmos pré-requisitos impostos não garantem aos empregadores encontrar os melhores candidatos, mas aqueles que correspondam a um modelo já feito – ela joga futebol, deve ser uma lésbica; ele joga xadrez, então é inteligente; ela tem um sotaque nordestino, deve ser uma caipira; e assim vai, parecendo até simplório à primeira vista, mas não é. Ao meu ver, esses exemplos e outros mais, quando são usados como critérios, desfavorecem a seleção tanto para o lado dos recrutadores como para o lado dos candidatos. Os solicitantes não se sentem seguros em mostrar interesses próprios, os quais, supõem, não se adequariam aos protótipos das empresas, e estas por sua vez, podem perder aqueles candidatos pendentes de serem bons funcionários. Estereótipos assim também existem nas ditas sociedades econômica e socialmente avançadas e naquelas, onde princípios patriarcais e retrógrados são dominantes, não é de se esperar que mudanças cheguem com rapidez.

Vivemos numa era, na qual os dados de informação ganharam muito peso, e com eles a necessidade de serem armazenados, processados, administrados, e manipulados ou não, são utilizados nas empresas e noutros setores para ajudar, entre outros fatores, no crescimento da produtividade, na escolha de clientes, no incremento do êxito, na redução dos custos, etc. e tudo isto num tempo razoável. Contudo quando se trata do papel humano, „parece que estamos há 50 anos atrás e caímos constantemente nos mesmos padrões de julgamento“, disse Iris Bohnet e alertou para um futuro não tão longe, no qual um software seria responsável pelos processos seletivos nas empresas e livres dos prejuízos que já discriminam a priori; computadores seriam capazes de fazer o trabalho sozinhos, não sendo mais necessárias as entrevistas – uma revolução – mas por enquanto ela defende mais neutralidade nas solicitações de emprego: sem nomes, sem fotos, sem idades, sem sexo, algo ofuscado, e também para minimizar aqueles critérios de simpatia ou de antipatia, ou mesmo de interesses comuns que comumente nascem no decorrer de entrevistas e que funcionam muitas vezes até como poder de decisão, mas que são, por outro lado, insuficientes para assegurar que a candidata ou o candidato escolhido seja o melhor para exercer o trabalho. No momento das entrevistas é importante que se faça as mesmas perguntas aos candidatos visando uma objetividade, disse Bohnet e menciona o exemplo dos anos 70 de algumas das orquestras sinfônicas americanas que puseram em prática um método para a seleção de novos músicos: os candidatos tocavam atrás de uma cortina sem que o maestro pudesse vê-los. A coisa é descarregar o mais possível os procedimentos seletivos de preconceitos e interesses já visados, e conceder uma igualdade de chances a aqueles que por tais vias não obteriam jamais um posto de trabalho.

(*) In Stern, 19/1/17.

Próximo post: 30/4/2018

 

Um certo tapete chamado vermelho

 

No Golden Globes Award 2018 uma atriz é chamada para receber o troféu de melhor protagonista; ela se levanta resoluta e dona de si, sem mostrar nervosismo, chega ao palco bem humorada, não se perdendo nos movimentos ágeis, e assim deliberada recebe o prêmio exibindo um ar de rapaz maroto, sem rodeios, sem cerimônia, sem chorar, mas segura de que o merece, e de pronto começa a falar com uma voz firme e entoada, deixando sair frases rápidas, daquelas de quem sabe o que quer dizer, um pouco de tudo, tomando como motivo o momento presente ou dirigindo-se às ladies convidando-as para uma tequila , ou fazendo uma observação política. A NBC reagiu com hostilidade a seu referido discurso – uma reação conservadora, claro – foi censurado e avaliado como de mau gosto e até extravagante, onde foram cortadas frases inofensivas, mas deixando passar outras mais diretas e mais fortes quando disse estar orgulhosa de si mesma com o seu trabalho no filme ao ter conseguido lançar um coquetel molotov de um lado da rua para o outro, ela que não sabe nem jogar beisebol. Uma tentativa de estigmatizá-la como perigosa? A atriz aqui mencionada é Frances McDormand que ganhou um globo de ouro no mês passado pela sua atuação no filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, no Brasil Três Anúncios Para Um Crime. Ela já é conhecida por não levar seus discursos previamente escritos, preferindo ser direta e até um tanto áspera, mas jamais monótona. Ouvi-la e vê-la nessas ocasiões é poder apreciar de sua mímica, de seus gestos soltos, de sua voz modulada e de seu humor. Também já se sabe que Frances McDormand não é uma atriz convencional, segundo o modelo de Hollywood, com respeito ao que se chama styling em ocasiões de gala, ou seja, não é importante para ela uma forma de aparecer que corresponda necessariamente a ser olhada como um objeto, e já deu provas disto trajando um casaco jeans quando recebeu o Tony Award – prêmio equivalente ao Óscar, mas outorgado às pessoas do teatro – em 2011. „ Não me tornei uma atriz porque queria ser fotografada. Sou uma atriz porque quero permutar-me com pessoas.“, disse. Ela é uma das poucas exceções que sabe vencer com talento e autoconfiança, não precisando usar a aparência para tornar-se atraente ao apresentar-se em público. Na cerimônia do Golden Globes Award apareceu pisando o tapete vermelho com um vestido escuro de mangas compridas, sem brilho, sem enfeites, parecendo mais um hábito de freira, mas condizendo com o luto como protesto do movimento Metoo nesta ocasião. É que Frances McDormand não quer ser uma estrela, ela é uma atriz madura de profissão, consciente de seu trabalho, que não se deixa ser um modelo de beleza cobrado pelo público como uma atração; ela é o que ela é.

Que significa realmente pisar no tal tapete vermelho? Que poderes tem? A cor encarnada dá um sentido de grandeza, impõe admiração, era a cor predominante na tapeçaria oriental antiga e os persas já a tinham determinado como símbolo da realeza. Seria outra cor concebível para impor tanta imponência? Difícil. O verde, por exemplo, daria um sentido ecológico, natural – seria lindo associá-lo à natureza – mas não seria majestoso e arrogante como o vermelho. Não é qualquer um ou uma que pode pisar no tapete vermelho; é preciso ser famoso, poderoso, ter prestígio: um proeminente, nunca um pobre. Essa imponência é o que faz ser excitante pisá-lo e poder exibir o que é vistoso, caro e supérfluo também – contudo uma coisa supérflua pode ser dispensada pelo excessivo que é; aqui a questão não é pôr abaixo o tapete vermelho – embora muitas pessoas, inclusive meu marido, acham que só o fato de falar sobre ele é estúpido, sem sentido, não passando de uma exibição caricaturesca: ele leu uma vez que o tal tapete devia ter umas manchas pretas como símbolo de sua imprestabilidade – a questão é porque ele é extremamente necessário como pano de fundo a exibições, ao meu ver, sem sentido.

Para muitos do mundo do cinema e da televisão o momento de aparecer no tapete vermelho pousando para câmaras e fotógrafos é a oportunidade que o público tem de vê-los fora de seus papéis nos filmes, apresentando-se como são na realidade, e neste ínterim mais as mulheres que os homens são alvos de serem olhadas, examinadas, comparadas, e até copiadas: é o ápice da ostentação, e o poder de atrair atenções, o qual deve ser fascinante ao cumprir o desejo de ser as princesas da noite. Uma princesa não tem defeitos, deve ser apenas linda e cativante, e só vista por este ângulo é-lhe impedida a vez de atuar mais além dessas demandas; são velhos mitos ainda vigentes quando olhamos e vemos apenas figuras de papel. „ No tapete vermelho a igualdade entre os sexos ainda não chegou“, disse Anna Brueggemann, uma atriz jovem alemã, „ aparecemos no tapete vermelho como nos anos 50“ Ela é a iniciadora do #hashtag Nobody’s doll surgido em Berlim como uma iniciativa já tendo em vista seus objetivos de ação no Festival Internacional de Filmes de Berlim, a famosa Berlinale de 15 a 25 de fevereiro deste. Ela parte de que desde o Metoo o debate sobre sexismo e igualdade de direitos no mundo cinematográfico vem se ampliando, contudo um aspecto deste último ainda não foi devidamente tratado, que é a pressão sofrida por mulheres em ter que conservar-se jovens, lindas e esbeltas. Daí o porquê „mulheres fazem coisas nada cômodas nem práticas só com o fim de agradar a outros, homens por exemplo“, e com isso perdem em aparecerem naturais em favor de um look especial para atrair atenções. Para ela o que faz uma mulher atrativa é o que ela é capaz de fazer, seu desenrolar próprio e não o que se pode fazer com ela, tornando-a um modelo. Assim o atrativo está voltado para a realidade de cada mulher, é algo que se entremeia com suas ações, flui sem esforços, é pessoal e único. Ao contrário disto, o tapete vermelho, com poucas exceções, proporciona um show de beldades. „Esta fachada não corresponde de jeito nenhum com a nossa força como mulheres.“ Diz Anna Brueggmann, que não nega nem a beleza nem a moda e gosta de estar bonita, mas incluindo nestes dois ítens uma forma própria, autêntica de aparecer e brilhar sem reduzi-la a algo imaginário. Por que é imprescindível para uma atriz calçar, por exemplo, High Heels, mesmo sendo estes muitas vezes desconfortáveis, ou estar perfeitamente maquiada? Estas exigências, das quais homens sofrem menos, cobrem seus verdadeiros valores enquanto mostram corpos, caras que, muitas vezes, nem parecem deste mundo. Ela acha que uma atriz que tem o que dizer, mantendo conversações interessantes não seria menos interessante ou atrativa que outras preocupadas mais com o seu styling. O que eu acho extraordinário em Anna Brueggmann é a sua ousada pretensão em querer mover alguma coisa de algo já há muito tempo estabelecido – é como pretender que o tapete voe – a partir de pequenas ações que „abram a outras possibilidades.“ Por outro lado reconheço o árduo que é fazer implementar tal campanha; as reações, sobretudo de mulheres, não obedecem a um consenso, nem se dividem entre aquelas que deixam transparecer pura rejeição e outras que a confirmam. Pude ouvir várias opiniões de mulheres expressando não só desconfiança, mas imparcialidade também, o que demonstra ao meu ver um despreparo crítico frente à realidade e seriedade da iniciativa Nobody’s doll que tenta tornar o tapete vermelho, pelo menos em ocasiões como as Berlinales, um espaço menos limitado e com mais criatividade, mais cores e liberdade.

A importância da beleza da mulher é um tema antigo que se tornou um mito. Um mito se forma quando damos a uma coisa um peso no seu significado sem nos questionar se esse significado é verdadeiro ou uma ilusão. Lembro-me que quando eu era uma adolescente ouvia elogios, não a minha individual beleza exterior, mas sim a beleza de minha juventude, e mais acompanhados de uma forte advertência de que esta beleza era curta e passageira, por isso eu tinha que aproveitá-la bem. O que eu entendi de tudo isso foi que havia uma grande distância entre idosos e jovens e, claro, tive medo de envelhecer porque não me foi dito que o processo de envelhecer também traz vantagens e não tem que ser necessariamente como o fim da alegria e do prazer. Ao ler o livro de Naomi Wolf, uma feminista inglesa, O Mito da Beleza, pude reviver aquelas lembranças quando ela deixa claro que este mito prescreve formas de comportamento e não qualidades exteriores. Então foi por isso que não me elogiaram os cabelos, nem meu rosto, mas só o fato de ser jovem e inexperiente já cabia dentro de um ideal de beleza. Naomi Wolf diz que a concorrência existente entre as mulheres também é parte dessa prescrição por criar separações entre as que culminam ideais de juventude, por exemplo, e as outras que não. Mulheres que começam a envelhecer não são mais bonitas – são as chamadas tias, madrinhas ou avós – porque vão se tornando mais fortes e ganham em experiências, significando isto que os laços que ligam as gerações devem ser desatados. Assim ambos os grupos, jovens e velhos, temem um ao outro, e a considerada qualidade de vida vai se encurtando para as duas partes. O mais urgente que as mulheres devem fazer, continua Naomi Wolf, é fundar sua identidade na força da „beleza“ e daí tornar-se dependente de que outros a reconheçam; as vias de valorizar-se a si mesma estão dirigidas aos cumprimentos, à admiração que vêm de fora. É quando a „beleza“ e tudo do que dela faz parte segundo moldes pré-estabelecidos – cuidados, dietas, roupas, plásticas, etc. – torna-se um estorvo porque limita a sua liberdade de escolha. A confiança consiste em querer alcançar medidas, formas, semblantes impecáveis correspondentes a um mito de beleza, sem que jamais os consigam. Wolf diz que mulheres devem se liberar disso, pois esse ideal inculcado jamais será satisfeito, assim ele perderia sua função; pois importante para o mito é que a mulher se veja feia para que ele possa sobreviver, e isto já é uma razão para liberar-se dele. No fundo não importa como é a sua aparência, o mais importante é que a mulher se ache bonita. Naomi Wolf quer dizer que enquanto mulheres não definirem elas mesmas o que é „beleza“, serão manipuladas por ela. E a autora vai mais longe dizendo que o problema não se funda no fato de que mulheres se maquiem ou não, se elas emagreçam ou não, se elas façam cirurgias plásticas ou não, se elas façam das roupas, do rosto, do corpo uma obra de arte ou não, se desistam de jóias ou não; o problema consiste em que elas estão desprovidas de outra opção. Aqui o que tem que ver, segundo Naomi Wolf, é a luta entre o que proporciona dor e prazer, liberdade e ser levada por outros – mulheres estão metidas numa prisão, longe de desfrutarem da despreocupação, da leveza que é cuidar-se, apresentar-se, achar-se bonita. – Mulheres teriam mais satisfação com o vestuário, se este não fosse pura concessão, mas resultado de uma forte identidade, diz a autora e continua: uma mulher está livre do mito da beleza, se ela sabe decidir por ela mesma, uma entre muitas possibilidades, uma maneira própria, condizente com a sua identidade, de usar seu corpo, seu rosto, seu vestuário como sua forma de expressão; e num mundo onde a mulher tem a liberdade de decisão, seria a decisão, no que diz respeito a sua aparência, nada complicada, pois ela exprimiria aquilo que a mulher realmente é. Então a coisa é autodeterminar-se, liberando-se do mito da beleza? Wolf diz que sim e só vê vantagens para isso.

A criação do Nobody’s doll é do ano passado quando Anna Brueggmann escreveu com claridade, mas também movida por emoções seu texto de apresentação. Para ela é muito importante que este movimento não seja nem vire um meio de excluir mulheres ou apontar-lhes o dedo em acusações. Ao contrário, diz, „é um estímulo a todas, a apropriarem-se de liberdade,“ – que no fundo está ao nosso alcance – „ é um apelo a que muitos e muitas façam o movimento crescer, anexando-se a ele.“ Parabéns Anna Brueggmann!

 

Próximo post: 19/03/2018