Já um mês sem Marielle Franco

 

Devia publicar no 30 de abril deste, como mesma o indiquei no post anterior. A data de hoje – um mês da morte de Marielle Franco – não me fez calar, mas antes expressar a minha dor em forma deste humilde texto.

 

Já um mês sem Marielle; um mês sem a sua presença forte e decidida, sem o seu respaldo a aqueles por quem ela lutava. Não a conhecia quando estava viva e atuando como vereadora – que pena! – talvez por não viver no Brasil e não poder me dar conta de tudo que passa no país; assim não pude acompanhar seu itinerário político e suas lutas, sendo por isso este post de caracter pessoal e carregado de emoções, como também vindo de um esforço à maneira de suprir as lacunas que tenho em torno de sua vida. Mas observando as suas fotografias, deparei-me com uma mulher alegre, forte e dona de um sorriso aberto de quem conhece a franqueza, e de um olhar firme e direto, de quem sabe ir muito longe. Essa mulher merecia morrer? Claro que não, e ainda mais por mãos de – encargados ou não – bandidos vis, como uma forma de represália – por ter sido Marielle um perigo para seus projetos ignóbeis? Com ela também morreu outro, o Anderson Pedro Gomes, que foi uma vítima do crime só porque conduzia o carro onde se encontrava a vereadora – esta sim era o alvo da emboscada que resultou em treze tiros. Treze tiros também foram disparados contra Mineirinho, um bandido e criminoso em 1962 e que levaram Clarice Lispector a escrever um conto sobre ele – um dos seus contos preferidos. Os treze tiros me fazem lembrar que na sua última entrevista em 1977, poucos meses antes de morrer, Clarice Lispector mencionou horrorizada o quanto esse caso a encheu de dor e revolta diante da injustiça chamada „justiça“: foram treze balas „quando só uma bastava para matá-lo“ e „qualquer que tivesse sido o crime dele, era prepotência, era vontade de matar.“ Clarice, de forma magistral no conto, se transforma em Mineirinho e acompanha-o até o último disparo: „ O décimo terceiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.“

As perguntas ao redor da morte de Marielle são muitas sem que já tenham sido respondidas, deixando um vazio como um buraco aberto, mas sem mostrar o que tem no fundo. É também o vazio que ela deixou na sua família, na sua companheira, nos seus colegas de militância e em todos os brasileiros que a seguiam e acreditavam no seu trabalho. Este vazio só pode ser preenchido através de lutas que continuem as suas aspirações e digam NÃO ao crime organizado: MARIELLE VIVE.

A Organização das Nações Unidas exigiu dos políticos brasileiros o esclarecimento total sobre a execução de Marielle e seu motorista, Anderson Pedro Gomes; a Anistia Internacional e comissões comprometidas com os direitos humanos também estão preocupadas pela falta de solução e incerteza que o caso no fim das contas poderá descambar; enquanto isso forma-se no Brasil uma onda de protestos – como se já estivesse prestes a explodir – assentada no torpor e na indignação de um povo inconforme com os abusos dos que acoitam a violência e o crime. Isto para mim é mostrar uma cara nova, ao preferir formas sociais de protesto e não entregar nas mãos de Deus, como se só ele fosse capaz de fazer justiça. Por outro lado, e como reação direta ao processo de conscientização das populações oprimidas, eclodiu uma onda negativa saída de um ódio profundo às classes – um ódio antigo, anterior às democracias – expresso falsamente em nome da livre expressão, mas que no fundo é uma descarga de repulsa a tudo que se opõe ao conservadorismo, ao patriarcalismo e à discriminação social que leva a marginalizar pessoas pela cor, pelo sexo e pela condição de vida de onde elas emergem – uma aversão às forças democráticas, as quais o Brasil, dotado de bom senso daqueles que lutam contra elas, não deverá permitir.

O ódio é uma descarga do medo; o pânico de perder o poder ou privilégios e até mesmo o próprio caráter onde se assentam as convicções. Uma das teorias do ódio o explica como resultado de uma pressão sofrida por uma pessoa ao ser exigida que ela se libere, ou seja, forçar o outro a liberar-se, causa ódio. Podemos aplicar esta teoria às expressões de ódio contra a esquerda? Marielle e Lula são os mais recentes exemplos de difamação, calúnias e desrespeito até onde não se pode imaginar, como mesma li nas redes sociais e noticiários vistos como confiáveis. Chamar Marielle de safada, ou Lula de bandido sujo é ao meu ver a expressão de uma incapacidade ao não poder liberar-se do que impede reconhecer o outro e vê-lo como igual. Por que a desembargadora Marília Castro Neves preferiu caluniar a referir-se a Marielle com mais ponderação e discernimento? Por que muitos comemoraram a prisão de Lula? Marielle sabia responder sem medo estas perguntas e outras mais; por isso a fizeram calar.

 

 

 

 

É típico de homem…, é típico de mulher…

 

PRÉ-TEXTO:

Quando estava escrevendo este texto, fui surpreendida pela notícia do assassinato de Mariella Franco. Desde então não me senti mais à vontade para continuar a escrever; achava que meu texto nem de longe chegava a tocar na cruel realidade deste momento, em que agora nos encontramos. Após vacilar muito, decidi terminá-lo como uma dedicatória a Marielle Franco, pois sei que se ela o lesse, iria me dar razão: A Mariella Franco.

 

 

Será mesmo a ambição que nos separa? Mulheres não têm, nas mesmas medidas que os homens, um alto grau de ambição – a qual lhes garantiriam obter mais êxito profissional – porque elas reservam uma grande parte de suas energias para a família e as relações pessoais. Pelo menos é o que quis dizer Lawrence Summers em 2005, então na época presidente da renomada Universidade Haward nos Estados Unidos, e citado por Natasha Walter no seu livro Living Dolls – The Return of Sexism, 2010 (Muñecas Vivientes, em espanhol), ao ser perguntado por que só poucas mulheres chegam a ensinar matérias científicas e tecnológicas nas faculdades da tal universidade. Os argumentos de Lawrence Summers desencadearam discussões entre os que o defendiam, julgando-o como homem letrado e capaz intelectual americano, e outros, sobretudo mulheres – também renomadas professoras universitárias – que relegavam seus argumentos a um nível de absurdo. Contudo para Summers – antes de se ter desculpado mais tarde de seus próprios absurdos – mulheres não se sairiam bem, em comparação com homens, em profissões, cujos encargos recebem alto grau de tensão no ambiente de trabalho, porque elas, por natureza, não deixariam de enxergar o mundo através dos óculos da família e dos relacionamentos, e por isso não seriam dadas às tarefas científicas. É muita presunção, acho, estabelecer diferenças inatas de capacidade reduzindo as mulheres a uma esfera limitada no campo profissional e da produção científica, ao fortificar a tese de que elas não mostram ambição suficiente, ou seja, a ambição necessária para que pudessem brilhar em suas carreiras como cientistas ou pensadoras, porquanto lhes faltam um certo talento para as tarefas que exigem esforço físico ou mental excessivos. Esta forma de pensar e crer não é nada nova e está longe de ser um tabu – é corriqueira, é o que leva a maioria das pessoas a falar assim, é o clichê da insuficiência e da incapacidade, no qual mulheres não resolvem facilmente questões que requerem lógica, mecanismo e precisão: isso é trabalho de homem, se diz, e faz-nos evitar tais atividades crendo mesmo que não somos capazes. A prova disto se vê na menor presença de mulheres nos cursos de mecânica, física, astronomia e outros que exigem grande abstração ou até mesmo em outros ofícios: existem mulheres como encanadoras, eletricistas, carpinteiras, por exemplo? Claro, mas muito poucas, e as que existem enfrentam-se no desenrolar de seus trabalhos, tanto quanto com pessoas que se surpreendem ao vê-las ali, em vez de homens, como com reações de desconfiança – eu mesma me surpreendi uma vez dentro de um avião quando quem se apresentou como comandante da aeronave foi uma mulher; e não fui a única, pois também ouvi de algumas pessoas reações de surpresa, como oh!, quê?! e suspiros suspeitos. Claro que não me assustei pelo fato de ser transportada nas alturas de um país a outro por uma mulher, mas fiquei pensativa porque fui pega desprevenida, o que após a surpresa, me senti orgulhosa.

Acreditar que nós mulheres não nascemos para executar profissões ou funções ditas como masculinas não é mais do que admitir velhas teorias engendradas num determinismo biológico que trata de considerar, entre outros, o fator da diferença entre os sexos para estabelecer poder político, domínio e oprimir os „naturalmente mal favorecidos“. Mas apesar de já se ter feito muito contra ele, ainda persistem controvérsias dentro das áreas de investigação científica, da política e dos mercados de trabalho, gerando discriminações e fazendo prevalecer os estereótipos que subestimam a nossa capacidade. Estes então, nos absorvem – também homens e mulheres jovens – eles nos estão inculcados sem que muitas vezes possamos fazer nada contra, e assim nos influenciam a fazer uma escolha ou um julgamento que podia ser bem mais justo sem eles. Um exemplo para isto é o que Iris Bohnet, também professora da Universidade Haward, diz significar „ser uma boa mulher“. No contexto brasileiro o adjetivo „boa“ relacionado à mulher está carregado de conotações negativas quando ele vem posto depois do substantivo, o que logo se constata na linguagem machista sendo aquela que é atrativa e com dotes para o sexo. Já uma boa mulher ou, realmente uma boa mulher, diz Bohnet, é aquela que não deve ser agressiva, e mais: deve ser cooperativa, passiva e social para ser querida. Por outro lado, se um homem assume a função de „tio“ num jardim de infância ou numa creche pode causar irritações, porque não esperamos que homens tenham tais qualidades femininas. Numa entrevista a uma jornalista alemã (*) por ocasião de seu livro „What Works“, 2016, Iris Bohnet falou de quanto os clichês podem influenciar nos processos seletivos de obtenção de empregos. Candidatos em geral a postos de trabalho se esforçam para impressionar bem seus recrutadores com seus curriculae vitae e cartas de apresentação, e não supõem que os pré-requisitos de seleção estão elaborados a apontar aqueles que condizem com seus moldes, o que para Bohnet esses mesmos pré-requisitos impostos não garantem aos empregadores encontrar os melhores candidatos, mas aqueles que correspondam a um modelo já feito – ela joga futebol, deve ser uma lésbica; ele joga xadrez, então é inteligente; ela tem um sotaque nordestino, deve ser uma caipira; e assim vai, parecendo até simplório à primeira vista, mas não é. Ao meu ver, esses exemplos e outros mais, quando são usados como critérios, desfavorecem a seleção tanto para o lado dos recrutadores como para o lado dos candidatos. Os solicitantes não se sentem seguros em mostrar interesses próprios, os quais, supõem, não se adequariam aos protótipos das empresas, e estas por sua vez, podem perder aqueles candidatos pendentes de serem bons funcionários. Estereótipos assim também existem nas ditas sociedades econômica e socialmente avançadas e naquelas, onde princípios patriarcais e retrógrados são dominantes, não é de se esperar que mudanças cheguem com rapidez.

Vivemos numa era, na qual os dados de informação ganharam muito peso, e com eles a necessidade de serem armazenados, processados, administrados, e manipulados ou não, são utilizados nas empresas e noutros setores para ajudar, entre outros fatores, no crescimento da produtividade, na escolha de clientes, no incremento do êxito, na redução dos custos, etc. e tudo isto num tempo razoável. Contudo quando se trata do papel humano, „parece que estamos há 50 anos atrás e caímos constantemente nos mesmos padrões de julgamento“, disse Iris Bohnet e alertou para um futuro não tão longe, no qual um software seria responsável pelos processos seletivos nas empresas e livres dos prejuízos que já discriminam a priori; computadores seriam capazes de fazer o trabalho sozinhos, não sendo mais necessárias as entrevistas – uma revolução – mas por enquanto ela defende mais neutralidade nas solicitações de emprego: sem nomes, sem fotos, sem idades, sem sexo, algo ofuscado, e também para minimizar aqueles critérios de simpatia ou de antipatia, ou mesmo de interesses comuns que comumente nascem no decorrer de entrevistas e que funcionam muitas vezes até como poder de decisão, mas que são, por outro lado, insuficientes para assegurar que a candidata ou o candidato escolhido seja o melhor para exercer o trabalho. No momento das entrevistas é importante que se faça as mesmas perguntas aos candidatos visando uma objetividade, disse Bohnet e menciona o exemplo dos anos 70 de algumas das orquestras sinfônicas americanas que puseram em prática um método para a seleção de novos músicos: os candidatos tocavam atrás de uma cortina sem que o maestro pudesse vê-los. A coisa é descarregar o mais possível os procedimentos seletivos de preconceitos e interesses já visados, e conceder uma igualdade de chances a aqueles que por tais vias não obteriam jamais um posto de trabalho.

(*) In Stern, 19/1/17.

Próximo post: 30/4/2018

 

Um certo tapete chamado vermelho

 

No Golden Globes Award 2018 uma atriz é chamada para receber o troféu de melhor protagonista; ela se levanta resoluta e dona de si, sem mostrar nervosismo, chega ao palco bem humorada, não se perdendo nos movimentos ágeis, e assim deliberada recebe o prêmio exibindo um ar de rapaz maroto, sem rodeios, sem cerimônia, sem chorar, mas segura de que o merece, e de pronto começa a falar com uma voz firme e entoada, deixando sair frases rápidas, daquelas de quem sabe o que quer dizer, um pouco de tudo, tomando como motivo o momento presente ou dirigindo-se às ladies convidando-as para uma tequila , ou fazendo uma observação política. A NBC reagiu com hostilidade a seu referido discurso – uma reação conservadora, claro – foi censurado e avaliado como de mau gosto e até extravagante, onde foram cortadas frases inofensivas, mas deixando passar outras mais diretas e mais fortes quando disse estar orgulhosa de si mesma com o seu trabalho no filme ao ter conseguido lançar um coquetel molotov de um lado da rua para o outro, ela que não sabe nem jogar beisebol. Uma tentativa de estigmatizá-la como perigosa? A atriz aqui mencionada é Frances McDormand que ganhou um globo de ouro no mês passado pela sua atuação no filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, no Brasil Três Anúncios Para Um Crime. Ela já é conhecida por não levar seus discursos previamente escritos, preferindo ser direta e até um tanto áspera, mas jamais monótona. Ouvi-la e vê-la nessas ocasiões é poder apreciar de sua mímica, de seus gestos soltos, de sua voz modulada e de seu humor. Também já se sabe que Frances McDormand não é uma atriz convencional, segundo o modelo de Hollywood, com respeito ao que se chama styling em ocasiões de gala, ou seja, não é importante para ela uma forma de aparecer que corresponda necessariamente a ser olhada como um objeto, e já deu provas disto trajando um casaco jeans quando recebeu o Tony Award – prêmio equivalente ao Óscar, mas outorgado às pessoas do teatro – em 2011. „ Não me tornei uma atriz porque queria ser fotografada. Sou uma atriz porque quero permutar-me com pessoas.“, disse. Ela é uma das poucas exceções que sabe vencer com talento e autoconfiança, não precisando usar a aparência para tornar-se atraente ao apresentar-se em público. Na cerimônia do Golden Globes Award apareceu pisando o tapete vermelho com um vestido escuro de mangas compridas, sem brilho, sem enfeites, parecendo mais um hábito de freira, mas condizendo com o luto como protesto do movimento Metoo nesta ocasião. É que Frances McDormand não quer ser uma estrela, ela é uma atriz madura de profissão, consciente de seu trabalho, que não se deixa ser um modelo de beleza cobrado pelo público como uma atração; ela é o que ela é.

Que significa realmente pisar no tal tapete vermelho? Que poderes tem? A cor encarnada dá um sentido de grandeza, impõe admiração, era a cor predominante na tapeçaria oriental antiga e os persas já a tinham determinado como símbolo da realeza. Seria outra cor concebível para impor tanta imponência? Difícil. O verde, por exemplo, daria um sentido ecológico, natural – seria lindo associá-lo à natureza – mas não seria majestoso e arrogante como o vermelho. Não é qualquer um ou uma que pode pisar no tapete vermelho; é preciso ser famoso, poderoso, ter prestígio: um proeminente, nunca um pobre. Essa imponência é o que faz ser excitante pisá-lo e poder exibir o que é vistoso, caro e supérfluo também – contudo uma coisa supérflua pode ser dispensada pelo excessivo que é; aqui a questão não é pôr abaixo o tapete vermelho – embora muitas pessoas, inclusive meu marido, acham que só o fato de falar sobre ele é estúpido, sem sentido, não passando de uma exibição caricaturesca: ele leu uma vez que o tal tapete devia ter umas manchas pretas como símbolo de sua imprestabilidade – a questão é porque ele é extremamente necessário como pano de fundo a exibições, ao meu ver, sem sentido.

Para muitos do mundo do cinema e da televisão o momento de aparecer no tapete vermelho pousando para câmaras e fotógrafos é a oportunidade que o público tem de vê-los fora de seus papéis nos filmes, apresentando-se como são na realidade, e neste ínterim mais as mulheres que os homens são alvos de serem olhadas, examinadas, comparadas, e até copiadas: é o ápice da ostentação, e o poder de atrair atenções, o qual deve ser fascinante ao cumprir o desejo de ser as princesas da noite. Uma princesa não tem defeitos, deve ser apenas linda e cativante, e só vista por este ângulo é-lhe impedida a vez de atuar mais além dessas demandas; são velhos mitos ainda vigentes quando olhamos e vemos apenas figuras de papel. „ No tapete vermelho a igualdade entre os sexos ainda não chegou“, disse Anna Brueggemann, uma atriz jovem alemã, „ aparecemos no tapete vermelho como nos anos 50“ Ela é a iniciadora do #hashtag Nobody’s doll surgido em Berlim como uma iniciativa já tendo em vista seus objetivos de ação no Festival Internacional de Filmes de Berlim, a famosa Berlinale de 15 a 25 de fevereiro deste. Ela parte de que desde o Metoo o debate sobre sexismo e igualdade de direitos no mundo cinematográfico vem se ampliando, contudo um aspecto deste último ainda não foi devidamente tratado, que é a pressão sofrida por mulheres em ter que conservar-se jovens, lindas e esbeltas. Daí o porquê „mulheres fazem coisas nada cômodas nem práticas só com o fim de agradar a outros, homens por exemplo“, e com isso perdem em aparecerem naturais em favor de um look especial para atrair atenções. Para ela o que faz uma mulher atrativa é o que ela é capaz de fazer, seu desenrolar próprio e não o que se pode fazer com ela, tornando-a um modelo. Assim o atrativo está voltado para a realidade de cada mulher, é algo que se entremeia com suas ações, flui sem esforços, é pessoal e único. Ao contrário disto, o tapete vermelho, com poucas exceções, proporciona um show de beldades. „Esta fachada não corresponde de jeito nenhum com a nossa força como mulheres.“ Diz Anna Brueggmann, que não nega nem a beleza nem a moda e gosta de estar bonita, mas incluindo nestes dois ítens uma forma própria, autêntica de aparecer e brilhar sem reduzi-la a algo imaginário. Por que é imprescindível para uma atriz calçar, por exemplo, High Heels, mesmo sendo estes muitas vezes desconfortáveis, ou estar perfeitamente maquiada? Estas exigências, das quais homens sofrem menos, cobrem seus verdadeiros valores enquanto mostram corpos, caras que, muitas vezes, nem parecem deste mundo. Ela acha que uma atriz que tem o que dizer, mantendo conversações interessantes não seria menos interessante ou atrativa que outras preocupadas mais com o seu styling. O que eu acho extraordinário em Anna Brueggmann é a sua ousada pretensão em querer mover alguma coisa de algo já há muito tempo estabelecido – é como pretender que o tapete voe – a partir de pequenas ações que „abram a outras possibilidades.“ Por outro lado reconheço o árduo que é fazer implementar tal campanha; as reações, sobretudo de mulheres, não obedecem a um consenso, nem se dividem entre aquelas que deixam transparecer pura rejeição e outras que a confirmam. Pude ouvir várias opiniões de mulheres expressando não só desconfiança, mas imparcialidade também, o que demonstra ao meu ver um despreparo crítico frente à realidade e seriedade da iniciativa Nobody’s doll que tenta tornar o tapete vermelho, pelo menos em ocasiões como as Berlinales, um espaço menos limitado e com mais criatividade, mais cores e liberdade.

A importância da beleza da mulher é um tema antigo que se tornou um mito. Um mito se forma quando damos a uma coisa um peso no seu significado sem nos questionar se esse significado é verdadeiro ou uma ilusão. Lembro-me que quando eu era uma adolescente ouvia elogios, não a minha individual beleza exterior, mas sim a beleza de minha juventude, e mais acompanhados de uma forte advertência de que esta beleza era curta e passageira, por isso eu tinha que aproveitá-la bem. O que eu entendi de tudo isso foi que havia uma grande distância entre idosos e jovens e, claro, tive medo de envelhecer porque não me foi dito que o processo de envelhecer também traz vantagens e não tem que ser necessariamente como o fim da alegria e do prazer. Ao ler o livro de Naomi Wolf, uma feminista inglesa, O Mito da Beleza, pude reviver aquelas lembranças quando ela deixa claro que este mito prescreve formas de comportamento e não qualidades exteriores. Então foi por isso que não me elogiaram os cabelos, nem meu rosto, mas só o fato de ser jovem e inexperiente já cabia dentro de um ideal de beleza. Naomi Wolf diz que a concorrência existente entre as mulheres também é parte dessa prescrição por criar separações entre as que culminam ideais de juventude, por exemplo, e as outras que não. Mulheres que começam a envelhecer não são mais bonitas – são as chamadas tias, madrinhas ou avós – porque vão se tornando mais fortes e ganham em experiências, significando isto que os laços que ligam as gerações devem ser desatados. Assim ambos os grupos, jovens e velhos, temem um ao outro, e a considerada qualidade de vida vai se encurtando para as duas partes. O mais urgente que as mulheres devem fazer, continua Naomi Wolf, é fundar sua identidade na força da „beleza“ e daí tornar-se dependente de que outros a reconheçam; as vias de valorizar-se a si mesma estão dirigidas aos cumprimentos, à admiração que vêm de fora. É quando a „beleza“ e tudo do que dela faz parte segundo moldes pré-estabelecidos – cuidados, dietas, roupas, plásticas, etc. – torna-se um estorvo porque limita a sua liberdade de escolha. A confiança consiste em querer alcançar medidas, formas, semblantes impecáveis correspondentes a um mito de beleza, sem que jamais os consigam. Wolf diz que mulheres devem se liberar disso, pois esse ideal inculcado jamais será satisfeito, assim ele perderia sua função; pois importante para o mito é que a mulher se veja feia para que ele possa sobreviver, e isto já é uma razão para liberar-se dele. No fundo não importa como é a sua aparência, o mais importante é que a mulher se ache bonita. Naomi Wolf quer dizer que enquanto mulheres não definirem elas mesmas o que é „beleza“, serão manipuladas por ela. E a autora vai mais longe dizendo que o problema não se funda no fato de que mulheres se maquiem ou não, se elas emagreçam ou não, se elas façam cirurgias plásticas ou não, se elas façam das roupas, do rosto, do corpo uma obra de arte ou não, se desistam de jóias ou não; o problema consiste em que elas estão desprovidas de outra opção. Aqui o que tem que ver, segundo Naomi Wolf, é a luta entre o que proporciona dor e prazer, liberdade e ser levada por outros – mulheres estão metidas numa prisão, longe de desfrutarem da despreocupação, da leveza que é cuidar-se, apresentar-se, achar-se bonita. – Mulheres teriam mais satisfação com o vestuário, se este não fosse pura concessão, mas resultado de uma forte identidade, diz a autora e continua: uma mulher está livre do mito da beleza, se ela sabe decidir por ela mesma, uma entre muitas possibilidades, uma maneira própria, condizente com a sua identidade, de usar seu corpo, seu rosto, seu vestuário como sua forma de expressão; e num mundo onde a mulher tem a liberdade de decisão, seria a decisão, no que diz respeito a sua aparência, nada complicada, pois ela exprimiria aquilo que a mulher realmente é. Então a coisa é autodeterminar-se, liberando-se do mito da beleza? Wolf diz que sim e só vê vantagens para isso.

A criação do Nobody’s doll é do ano passado quando Anna Brueggmann escreveu com claridade, mas também movida por emoções seu texto de apresentação. Para ela é muito importante que este movimento não seja nem vire um meio de excluir mulheres ou apontar-lhes o dedo em acusações. Ao contrário, diz, „é um estímulo a todas, a apropriarem-se de liberdade,“ – que no fundo está ao nosso alcance – „ é um apelo a que muitos e muitas façam o movimento crescer, anexando-se a ele.“ Parabéns Anna Brueggmann!

 

Próximo post: 19/03/2018

 

 

O PODER DA OBSERVAÇÃO

É de se esperar de uma mãe que observa um filho pequeno enquanto ele toma um sorvete, comumente falando, o mais trivial possível – que gosto ele lhe dá saboreando este creme gelado, ou mesmo se ele vai sujar a roupa, deixando uma nódoa irreparável nela. No entanto se esta mãe, ao invés, se pergunta o que sentir por esse filho ao contemplá-lo, absorvido que está no prazer de lamber o sorvete e inconsciente de sua própria expressão e do que evoca nela, já não é corriqueiro, mas sim uma observação muito insólita. Ela se dá conta da falta de um sentimento „reconhecível“, talvez um daqueles imprescindíveis como resultado de um estímulo exterior, como se fosse absolutamente necessário ter que sentir algo específico e condizente num momento, tomando um pôr do sol como exemplo – muitas pessoas não sentem nada extraordinário ao presenciar o poente, sem embargo não deixam, nem por isso, de apreciar este espetáculo natural. Ter um sentimento como sem falta num determinado momento pode ser uma exigência nossa com o fim de nos conciliar com o meio onde estamos e não nos sentirmos estrangeiros. Por que não em vez de nos exigir algo, deixar-nos levar pelo que observamos?

A mulher, a mãe supracitada é Clarice Lispector – como é de se esperar – vivida numa de suas famosas crônicas escritas para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973 e reunidas no livro A Descoberta do Mundo. „Lembrança de Filho pequeno“ data de 28 de setembro de 1968, é um texto bastante curto com apenas três parágrafos, mas extremamente condensados em afinadas descrições de estados de ser, comparações aguçadas, paralelos inteligentes e uma manobra exemplar de adjetivos. Também é uma crônica que à primeira vista parece ser fácil – Clarice Lispector é como Franz Kafka – a facilidade de serem compreendidos é somente uma trampa da aparência, a inteligibilidade das frases oculta a complexidade do discurso existencialista atrás das palavras escolhidas, assim como a superficialidade dos fatos pode esconder o tema: é um sorvete de chocolate, degustado pouco a pouco em pedaços gelados que enchem a boca quente do menino sem que ele esteja ciente da „felicidade incômoda“ que o choque de temperaturas provoca na sua boca – „Essa, a boca é muito bonita“ – e continuando atenta, vê que de repente o filho ficou mais ávido: „ é que deve ter encontrado algum pedaço de sorvete com mais chocolate que o resto, e que a língua esperta captou“ – um triunfo para o paladar – contudo ele não olha para a mãe, deixando assim ser observado por ela „nesse seu ato íntimo, vital e delicado“; ele já está acostumado „à burrice“ do olhar dela „concentrado de amor“. Sim, ela está concentrada no filho que toma um sorvete de chocolate, mas apenas sente a sua natureza rígida, o que é ser ela mesma – fechada, dura, inflexível e o que é ser mãe com toda a sua aspereza, primitiva, tosca – está ali parada e retirada, uma observadora sagaz do filho que unicamente come. Seria de se deduzir inúmeros clichês em forma de sentimentos diante desse quadro, a perfeita dialética como resultado de mãe, filho e observar: um aflorar de sentimentos ditosos; entretanto não é o que Clarice expressou como centro de sua introspecção, mas sim o que do momento de sua observação a conduziu: a impenetrabilidade de seu ser, um encontro consigo mesma, o outro lado da moeda; um momento sem tempo, ou seja, sem processo, aprisionado na sua introspecção que se torna cada vez mais aguda. É a fascinação pela morte? Como tirar vida daí? Por que ela não fica feliz ao ver seu filho feliz tomando um sorvete? Para mim isto foi o seu tema central, ela deu pouca importância às ações, mas bem mais ao que está escondido atrás delas e difícil de sacar: a premente necessidade de exprimir o indizível da condição humana.

Quando li esta crônica pela primeira vez foi nos fins dos anos 80; eu era jovem, sonhadora e fiquei de pronto fascinada por ela – esse quadro antagônico entre o prazer e o torpor, mas que ao mesmo tempo se complementavam – me levou mesmo a uma certa obsessão. Como teria querido pôr em cenas a crônica, filmando-a! Imaginava a cara do menino em primeiro plano, ele só ocupado em saborear o seu sorvete, desligado da mãe e de outros interesses, e ela lá o observando passivamente. Logo me dei conta da grande dificuldade que era transformar em cenas essa mãe submergida em seus pensamentos, ensimesmada em seu mundo interior, atemporal e sem saída alguma a não ser a de confirmar ela mesma; senti que o grau de exigências sobre mim era superior às minhas possibilidades; foi quando pus meus pés no chão e desisti do projeto, para mim, irrealizável.

Ver, ouvir, tocar, cheirar, degustar são ações referentes à nossa capacidade de perceber; observar vai mais além do que ver porque requer atenção – uma certa atenção que se dá aquilo que se quer observar, quer seja de forma metódica, como nos experimentos científicos, quer seja livre e espontânea. A observação como método é seletiva, dirigida a um objeto determinado, exige muita atenção por ser um processo ativo, e mais: a perspectiva do observador é muito importante para o seu objetivo de estudo. Ao contrário desta, a observação do dia-a-dia, que não é sistemática, não tem objetivos nem planos, é mais uma casualidade da nossa percepção, está dirigida ao todo e não aos detalhes, não tem indicações de onde, quando, o que e como será observado, é subjetiva e depende espontaneamente das preferências do observador. Por ser uma observação mais livre, pode ganhar peculiaridades da observação metódica, mas sem que esta ganhe da outra. É o caso de dirigir a observação a algo no intuito de chegar a conclusões – os pais observam o crescimento dos filhos, a mulher começa a observar mais atenta as saídas do marido, a namorada ciumenta observa as mulheres que estão por perto do amado e assim vai. Estas observações são importantes porque nos dá capacidade de avaliar situações e até mudar formas errôneas de pensar.

Adoro observar e isto é a prova do porquê eu não sou tagarela e nem simpatizo com pessoas que têm esta característica – elas me deixam nervosa e podem ser bem negativas para a minha concentração – por isso o melhor é afastar-me delas cordialmente, se é possível. Os meus palcos de observação são bem variados, gosto de observar sobretudo as pessoas – seus estados e suas ações – juntas com outras ou não – nas ruas, em reuniões, festas ou passando pelo café onde estou sentada, ou nas bibliotecas, nos transportes públicos, etc. Também observo com prazer os animais – pássaros, cachorros, gatos que são os tipos que mais vejo durante o dia; crianças brincando, uma paisagem, o mar, um céu azul bordado de nuvens esparsas e como elas mudam ao encontrarem-se umas com as outras em seus passeios, à nossa vista, vagarosos. Gosto de ver atenta a sequência das cenas dos filmes, seus movimentos e como elas foram montadas. Enfim, observar é o que me salva da minha tendência ao retiro, uma necessidade para encher-me de estímulos e para viver o presente e participar dele.

Quando cursava Letras, fui um dia estudar com uma colega na sua casa; como tinha que ir embora depois do almoço, aproveitei a carona do seu marido que ia levar o filho pequeno, o Fabinho, pra escola. No carro eu sentada atrás, observava o pai chamando a atenção do menino no banco dianteiro para que ele da janela olhasse o que estava passando – o pai era um jornalista de profissão, e estava claro seu interesse em estimular a criança como provindo de suas próprias experiências: „Fabinho, olhe pro momento.“ „Olhe pro momento filho.“ E assim sem tom de comando repetiu a frase várias vezes para o menino, a qual no fundo guardava uma lição de vida – o pai transmitia ao filho o que era para ele um valor. Nunca me esqueci disto e sei que a lição também me serviu.

Com tudo isso nos basta só observar para captar e compreender a realidade? Não. Acho que a observação é só um passo – pode ser o primeiro – que nos abre para algo, mas de modo algum podemos ficar só de observar sem ir mais além disto, desviando-se da reflexão. Esta nos dá uma distância daquilo que observamos para compreendê-lo melhor: é lindo observar a natureza, sua beleza, suas cores, suas mudanças, entretanto também é mister perguntar por que ela está ameaçada. Há pessoas que adoram ir a um jardim zoológico para ver animais raros – eu não: prefiro ver animais livres – tudo bem, mas ele nos dá uma imagem estancada da realidade. A partir do momento em que perguntamos o porquê da raridade desses animais, já estamos refletindo sobre isto e daí já pode começar mudanças.

 

Próximo post: 25 de fevereiro de 2018

 

 

 

 

 

 

E assim são as notícias…

 

O que o ano de 2017 deixou no mundo foi um saldo de acontecimentos desafortunados, que geraram por sua vez notícias más, cruéis, e as palavras mais repetidas para expressar estes contextos não foram outras senão bombas, ataques terroristas, explosões, massacres, corrupção, racismo, guerra e… tantos outros termos que só exprimem desgraças, sem esquecer que a posse de Donald Trump no 20 de janeiro também faz parte desta lista.

Contemplando este arsenal desditoso, vejo que a vida no nosso planeta não tem melhorado, mesmo com o tão proclamado poder da democracia nas sociedades modernas e com tantos outros avanços sociais; a boa qualidade de vida é um dado concreto e relativo às condições matérias de existência como trabalho, moradia, saúde, previdência, aos quais todos os humanos devem ter direito, mas nem sempre garantem a tolerância, a justiça social e a integração. Por outro lado muitos dizem que não é que o mundo tenha piorado, mas sim que o acesso às notícias hoje é muito mais eficiente e elas estão à nossa disposição durante as 24 horas do dia nos inundando – é certo – e se a maioria das notícias é de fundo negativo, não tem que ver isto com o pioramento do mundo, mas sim com o fato de que antes não tínhamos esse acesso fácil, direto e rápido com o que se passava, como também a transparência dos fatos nunca fora tão facilitada como hoje através dos meios digitais. Em outras palavras, sempre houve políticos corruptos, crimes em série, estupros, crianças abusadas sexualmente, etc.; diferente hoje é que estas barbaridades estão mais passíveis de serem reveladas que antes, e as notícias se alastram mais rapidamente, não nos deixando quase tempo para refleti-las, pois outras novas igualmente já tomam o lugar das precedentes, gerando um excesso de notícias negativas ou de escândalos, sobretudo políticos e financeiros, um atrás do outro nos causando desconfiança e insegurança. É quando perguntamos onde estão as notícias boas e se elas ainda existem. Claro que existem, mas estas em sua maioria estão debilitadas frente à avalancha de notícias negativas ou disfarçadas em promessas vazias. E isto é o que faz com que as notícias de caráter negativo e assustador tenham mais alcance, ganhem mais importância e se tornem fidedignas. Já está provado o quanto essas notícias geram emoções fortes como o estresse, o medo, a ira, a repulsa, nos pondo em estado de excitação e, principalmente, podendo influir na nossa capacidade de reflexionar e discernir – é que acreditamos naquilo que nos pega emocionalmente, seja aquilo verdade ou mentira – ao passo que as boas notícias se perdem em descredito, não correm nas veias e tornam-se enfadonhas e esquecidas. Por que isso?

Arjun Appadurai, é um antropólogo americano, nascido na Índia, teórico da globalização e professor na Universidade de Nova York. Apesar de não gostar de muitas de suas idéias, concordo com ele quando diz que as notícias boas prendem muito menos a nossa atenção, embora seus conteúdos sejam, como por exemplo, os movimentos pela justiça e pela paz, ou projetos locais em prol do meio ambiente e, até mesmo, como exceção as boas negociações do governo para o povo. É que, diz ele, as boas notícias para serem usufruídas e credíveis necessitam da parte reflexiva de nossa personalidade, como também de esperança, de simpatia e empatia a sua vez; todos estes sentimentos precisam de tempo e requerem paciência e reflexão, o que para as más notícias eles não têm vez, ao contrário, estas podem ser consumidas mais rapidamente encontrando mais audiência e leitores que as notícias boas. Certo, e daí entendo o porquê nossas reações são opostas em face ao tipo de notícias que recebemos: as más nos suscitam o medo e nos paralisam, e as boas parecem ingênuas, idealistas e irreais. Daí também fica claro que tipo delas é mais apropriado para o populismo político e a manipulação do povo, como também porquê um homem como Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos – o populismo vive do medo do povo, e por causa deste medo é necessário construir muros, expulsar estrangeiros, retirar-se de acordos sobre as mudanças climáticas, fazer ameaças ou sentir-se ameaçado de guerras e por isso aumentar o arsenal bélico… É preciso ter uma forte capacidade crítica e um posicionamento para não se deixar levar por explicações que aparentemente parecem verdade.

O caráter negativo das notícias é tão forte que dele mesmo foram criadas medidas de proteção contra ele, como pontos convincentes e capazes de nos afastar não só das nocivas, mas enfim de todas as notícias. São conselhos a aqueles que saturados com tantas notícias más afirmam: „Não aguento mais essas notícias, elas só me roubam a paz!“ Ou: „Isso podia ter acontecido comigo!“, e proclamam uma vida sem contato com as notícias. É uma saída conducente à relaxação, pois enfim livre dos conteúdos estressantes e dos sensacionalismos que as notícias trazem, mas possível? Sim, mas não é fácil, e não é pessoalmente a minha solução definitiva, pois por mais que a informação seja sumamente necessária, não me contento só com a sua fenomenologia sem um pano de fundo convincente. Somente em perguntar-nos se na realidade é mesmo assim o que dizem ou publicam, já é um passo importante para liberar-nos dos blá,blá, blás e começarmos a formar um sentido crítico e a ampliar o nosso horizonte – abrir bem os olhos para o que está acontecendo e querer saber mais do que é mostrado e dito – é que ele é uma criação da maneira de como vemos, ouvimos, interpretamos e valorizamos as coisas, ou seja, ele é resultado de nossa percepção – como percebemos acreditamos como verdadeiro, independente de que isso seja verdade ou não.

Não é raro ouvir que a maior parte dos comentários das notícias transmitidos pelos meios convencionais de divulgação parecem trajados com um mesmo uniforme, como se viessem de uma mesma fonte e estabelecessem uma norma de pensar; não indo mais além do notório, limitando-se a uma unidimensionalidade dos fatos. Assim é comum dividir o mundo entre os bons e os maus e fazer destes verdadeiros demônios, contra os quais temos que nos defender. Este descaro tem que ver com as limitações que redes de notícias estão submetidas e assim as divulgam segundo os interesses daqueles que se beneficiam da forma como elas são transmitidas e comentadas. O medo de cada um de nós, o medo das massas é usado no fundo para manter o establishment – após ataques terroristas em cidades européias, por exemplo, foi instalado um grande número de câmaras de vigilância pelas cidades, como uma medida paliativa e nada mais. No fundo sobre as soluções para o terrorismo que nos invade, não se fala, porque aquelas dependem de medidas nada conformes com os objetivos políticos e financeiros de grupos que estão no poder e querem mantê-lo.

Onde ficamos em meio a esse arsenal de manipulação? O que lemos? Que fontes são fidedignas? São perguntas pertinentes para aqueles que não se bastam só com o que é geralmente divulgado. Quem quer saber mais do que está por trás das notícias correntes e informar-se através de outros meios que não os dos portadores do mainstream, deve se esforçar para chegar a outras fontes – existem projetos independentes e alternativos de divulgação de notícias e reportagens – onde interesse, empenho e tempo são exigidos para encontrá-las. Pessoas que preferem um jornalismo emancipado e feito por profissionais sérios e independentes dos monopólios das grandes agências de notícias têm sempre argumentos a mais e fundados em fatos reais que muitas vezes incomodam àquelas pessoas acomodadas com a ordem como as coisas estão e sem interesse em mudar alguma coisa.

Próximo post: 31/1/18

 

FALAR É PRECISO, CALAR NÃO É PRECISO

(„EuTambém“ faço a minha contribuição contra sexismo e assédio)

 

O panorama dos assédios sexuais está mudando, rompendo com o silêncio, a vergonha e a culpa para as acusações em massa através das redes sociais e, principalmente, por meio do hashtag #MeToo, mulheres famosas – primeiro as americanas puxando o cordão para outras mulheres – resolveram abrir a boca e divulgar para o mundo suas experiências de terem sido assediadas sexualmente. O bloco das assediadas é grande e „eu também“ é o seu lema que fez com que tantas mulheres tomassem coragem e, finalmente, pudessem contar o que tinham guardado por tanto tempo. Mas por que só isto agora, levando em conta que o assédio sexual já é bastante conhecido numa sociedade regida por princípios não igualitários? Por que esse fenômeno? Por um lado graças à força e ao alcance das redes sociais que conseguem dar aos fatos uma amplitude internacional, tornando-os mastigáveis, e mais, imprimindo a livre iniciativa de muitas mulheres em também querer seguir o exemplo, e por outro lado como uma mostra do quanto as mulheres têm se conscientizado desde as últimas décadas. A divulgação do #MeToo pela internet é uma forma encadeada de assegurar que as mulheres em questão não estão sozinhas, é só juntar-se às outras para formar uma grande campanha. O que vemos é que desta vez as consequências de assédios, mesmo os praticados há vários anos atrás, são outras, são enormes. Enquanto escrevo este texto, tenho o rádio ligado e ouço notícias sobre famosos ameaçados de consequências jurídicas, não esquecendo as demissões já ocorridas.

Tudo começou com um Tweet de Alyssa Milano, uma atriz americana da série de televisão „Charmed“. Ela fez reaparecer um hashtag de mais de dez anos atrás de Tarana Burke, uma afro-americana, no qual Burke tentou atrair atenção internacional para o grande número de abuso sexual praticado contra meninas. A reação de Aliyssa Milano apareceu em outubro deste: #MeToo – eu também – como uma declaração de suas experiências passadas com assédios sexuais. A partir daí, no mesmo dia apareceram mais de dez mil reações ao hashtag de Milano e continuaram a aparecer durante toda a semana – uma campanha de denúncias tinha se formado – com a maior parte das declarações vindas de mulheres, com a maior parte das acusações feita a homens bem sucedidos profissionalmente – chefes, diretores, políticos, professores universitários …

Harvey Weinstein já não é mais forte, apesar do seu excesso de quilos e da carreira que fez no show business em Hollywood como produtor de filmes famosos – até Michelle Obama já tinha se referido a ele como „um ser humano maravilhoso, um grande amigo“ – perdeu todos seus postos elevados e até a esposa, que se separou dele após ter-se inteirado das acusações de assédio, sexismo e até de violações, feitas por estrelas de cinema e publicadas pelo New York Times também o mês passado. Um escândalo alastrante se formou em volta do tão simpático e bonachão Harvey desde que a cortina despencou e mostrou – e ainda mostra – o que estava por trás de seus plissados: um Harvey como protagonista de um filme real, onde mulheres, geralmente jovens, eram apalpadas, sem que tivessem querido, forçadas a vê-lo masturbar-se ou tomar banho, ou a dar-lhe massagens … mesmo as suas doações ao partido democrata não o impediram de revelá-lo como um tipo levado a indecências extremas. Se faz crer que através do caso Harvey Weinstein se paga uma velha dívida, porque agora foi devidamente cobrada. Hollywood sabe que Harvey não é um caso isolado, mas um problema de abuso de poder daqueles que em altas posições acham ter direitos sobre o corpo de mulheres e comprar seu silêncio em troca de promessas e favores profissionais, sem se interessar pelas consequências psíquicas de suas vítimas. No fundo estes cínicos estão convencidos de que uma fachada bem apresentável e o êxito comercial são suficientes para cobrir o horror. Por que se calavam ou faziam vista grossa muitos dos que sabiam o que se passava atrás das cortinas até de forma já organizada? Só encontro duas palavras para a pergunta: a indiferença e o medo. A indiferença por não achar que os fatos sejam relevantes, uma vez que o sucesso e o êxito financeiro são o que contam; e o medo de poder perder oportunidades de trabalho lucrativas, e que trarão o êxito com certeza, ou seja, o silêncio pelos valores que ele representa. Harvey Weinstein se encontra agora numa clínica, talvez mais para provar sua anormalidade psíquica do que para comprovar uma estrutura social dominante que no fundo discrimina e assedia. Mas ele, claro, não sendo o único, não pode ser responsável por todos; a solução de se precisar de Harvey como bode expiatório não combina com o fenômeno atual das acusações de sexismo, assédios e violações – o barco leva mais do que só os empresários americanos, também aparecem mulheres acusadas de sexismo a homens e homens como vítimas de outros homens.

O sociólogo e filósofo francês Pierre Bourdieu, falecido em 2003, escreveu um livro importantíssimo em 1998 – La domination masculine – que pelo título se deduz sem demora o quanto o feminismo seria fruto da dominação do homem – contudo para Bourdieu o que mais interessava da dominação masculina eram os seus mecanismos invisíveis e dispostos para mostrar que ela é uma forma simbólica de representação, principalmente em termos políticos e econômicos, ou seja, esta dominação se estende por toda parte e por todos setores – um paradigma representativo da visão fálico-narcisista; onde a diferença marcante entre os sexos parece residir simplesmente na „natureza das coisas“. Neste modelo social a mulher está submetida ao homem, e o poder deste em pôr ordem se vê em situações, sem que ele tenha de se justificar, disse Bourdieu.
Ele retomou os modelos de dominação dos berberes, grupos étnicos do norte da África, trazendo-os até a atualidade das sociedades ocidentais; os padrões antigos estão hoje só sutilmente e de forma refinada encobertos, todos tinham que ver com a desigualdade entre homens e mulheres em favor dos primeiros, claro. Assim hoje a chamada igualdade de direitos promulgada nas leis pode ser posta em questão e vista como um engano. Seu livro não é só uma crítica ao patriarcalismo mas também uma expressão de cepticismo ao feminismo ilusionista que fracassa ao procurar banir essa dominação em vez de desenvolver um caráter próprio de autodeterminação.

As referências a Pierre Bourdieu com relação aos acontecimentos de outubro não são gratuitas, pelo contrário – embora ele tenha insistido num tipo de „violência simbólica“ exercida pela dominação masculina, na qual os danos legitimados no meio social não são físicos, porém sutis: discriminações, humilhações, desrespeitos … mas alcançando ferir moralmente, deixando marcas psíquicas profundas, e os assédios sofridos e declarados são formas bem concretas de violência física – pode-se mesmo assim responder perguntas pertinentes sob a luz de sua teoria: como é possível que o domínio masculino se preserve ainda hoje sem esforço e até contra resistências? Como foi possível que um homem como Donald Trump – também há acusações de assédios contra ele – chegasse ao poder político? Por que mesmo com a existência de leis contra agressões sexuais em muitos países, a maioria dos agressores conseguem facilmente impunidade? Por que é tão difícil recrutar provas? Para Bourdieu existem forças na sociedade que estabilizam a desigualdade entre os sexos e elas encontrando passagem livre, tornam-se legítimas, como o silêncio; o medo; o estar de acordo, mesmo não estando, só para evitar conflitos; a falta de interesse; o esquecimento … Tomar atitudes contra elas é muito difícil, mas muito importante, como primeiro, ater-se aos exemplos mais visíveis, para chegar a compreender os mais sutis: Que função têm calendários de mulheres nuas pendurados nas paredes? Por que aguentar ouvir em casa ou no trabalho que homens falem alto, como se estivessem gritando? – isso também dói nos ouvidos – Por que ter contato sexual com o parceiro mesmo sem querer? – É o que muitas mulheres, infelizmente, fazem – só para comprazê-los? – Por que calar frente a palavras, gestos, ações indesejados, admitindo que tudo isso é normal, porque homem é assim mesmo e eu, de certo modo, tive a culpa? Muitas mulheres têm problemas com piadinhas inocentes ou até com elogios por não saberem distinguir um cumprimento simpático do que não o é, e por isso não reagem devidamente. O sexismo é uma forma de discriminar, reside onde não existe igualdade de direitos e vive de não reconhecer seus limites, ultrapassando as fronteiras do até aqui é querido e aceitável.  Assim o ambiente de trabalho é o palco ideal para tais ataques, sendo aí preciso aprender a barrar, a dizer firmemente um não olhando nos olhos. Por outro lado, deve ser da competência do empregador proteger, através de medidas concretas, a segurança de seus empregados: Não admitimos aqui nenhum tipo de assédio nem formas sexistas.

Quase todas as mulheres – ou todas? – já sofreram algum tipo de assédio ou sexismo e têm o que contar – eu também:

Nos anos 80 fui à Cidade do México para trabalhar e lá passei quase três anos. Numa das vezes quando voltava para casa de metrô – e em pé, porque o metrô mexicano anda sempre cheio – faltou a eletricidade e parou entre estações numa escuridão total. Neste momento fui apalpada na nádega por muitas mãos ao mesmo tempo – mãos masculinas, porque eu sabia que ao meu lado havia homens – a minha primeira reação foi de assombro, não sabia nem o que fazer, nem dizer, fiquei paralisada. Por sorte tudo foi muito rápido, segundos apenas; a eletricidade voltou e o metrô seguiu funcionando, mas eu ainda estava imóvel sem poder crer no que tinha acontecido, apenas olhei para os homens ao meu redor, e todos estavam tranquilos, como se não tivessem feito nada, mas eu, ao contrário, já me sentia inferiorizada, tinha raiva, vergonha e culpa ao mesmo tempo. Em comparação com outras formas de sexismo, o que passou comigo foi muito leve, mas não ao ponto de justificá-lo e enquadrá-lo como normal numa sociedade machista como a mexicana. Não.
Hoje quando relembro a situação, vejo que tive sorte: que teria acontecido mais se a eletricidade não tivesse voltado rapidamente? Como eu teria reagido se os ataques tivessem ultrapassado os apalpos da nádega? Teria gritado? Acho que sim.

Talvez #MeToo seja uma tentativa de muitas mulheres de tomar nas próprias mãos as discriminações, as humilhações, o sofrimento, uma vez que a apelação à justiça infelizmente fracassa na maioria das vezes. #MeToo não é uma campanha em contra de homens, e mais do que só denúncias, mostra claramente o estado de saúde de nossa sociedade com respeito a homens e mulheres, e as mulheres sabem que mesmo reagindo contra as agressões, não significa isto que as investidas parem. É hora de começar a valer-se e não deixar que o #MeToo seja uma moda a mais que passa ou esfria; para que Pierre Bourdieu pudesse ver – se estivesse vivo – que passam mudanças na sociedade e não se tem de ser tão céptico.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quem é Melania Trump?

 

 

 

Para escrever este texto baseei-me em textos jornalísticos e alguns, claro, tirados da internet, e sobretudo no que observei nas fotografias de Melania Trump e da família Trump. Apesar de ter citado fatos de sua vida, não queria só prender-me a eles, por já serem bastante conhecidos. Muito do que eu aqui afirmo sobre ela é resultado destas observações, ou seja, são conjeturas fundadas na minha forma de querer compreendê-la. Também fiz citações de outras pessoas, mas sem deixar de mencionar seus nomes.

A Eslovênia durante os anos do regime socialista iugoslavo era uma região pequena, pacata, segura e rica; uma paisagem maravilhosa formada de tudo o que a natureza viva pode oferecer como beleza: florestas verdíssimas, montanhas dos Alpes, rios e o mar Adriático, que faz parte do mar Mediterrâneo, embora lhe dando uma costa bastante reduzida de 40 quilômetros entre a Croácia e a Itália sempre foi querida por turistas. Hoje como um país independente, continua lindo, um dos países mais pacíficos do mundo, não pertence ao terceiro mundo, tem um PIB bastante alto para um país recente, pois a sua independência da velha Iugoslávia socialista em 1991 deu-se em apenas dez dias, numa guerra para defender suas fronteiras, quando finalmente triunfou.

Melania Knavs viveu nesse idílio até os dezoito anos, abandonando esse paraíso e rompendo com uma sociedade politicamente igualitária – como a que um regime socialista pode oferecer aos seus habitantes – no fundo uma dissidente – para ir tentar exatamente o contrário: uma vida movida por princípios individualistas como modelo. Ela sabia, desde pequena, que tinha dotes para mostrar; sua mãe que trabalhava numa fábrica têxtil, conseguia que sua filha de cinco anos desfilasse para a moda infantil local. Não se sabe bem se com 17 anos ou menos foi finalmente descoberta por um fotógrafo, o que é a prova de que ela apenas tinha começado o curso de arquitetura para trocá-lo pelas passarelas – e quem sabe fisgar um milionário? – a Eslovênia socialista devia ser uma sociedade onde mulheres punham muita expectativa num futuro promissor com um homem rico, claro.

Não é de estranhar que desde cedo ela já perseguia uma saída individual, totalmente contraditória ao sistema de base: vencer por conta própria, primeiro em Paris e Milão, pois estas cidades não ficavam longe de sua terra natal e o contato com Sevnica, onde cresceu e ainda moravam seus pais era mais fácil; contudo a jovem Melania queria mais que estes dois centros e tentou ser famosa no cume da moda internacional – Nova York – isto foi em 1996 e Melania já tinha 26 anos, uma idade um tanto já avançada para começar uma carreira de modelo nas passarelas, outrossim a cidade de Nova York como sempre se esgotava de jovens lindas, esbeltas, de todas as partes, em busca frenética do êxito como modelos, o que tornava a demanda de trabalho insuficiente. Ela conheceu estas dificuldades e teve que pousar para publicidades de cigarros e bebidas alcóolicas, pois para isto já tinha idade suficiente, como também para pousar nua. Sua vida se transformou, porém, quando apareceu fotografada para um cartaz da Camel na Time Square.

Quando vi pela primeira vez uma foto de Melania, ela já era uma Trump. Assustei-me com o seu semblante; seu rosto ressumava uma dureza plástica como um manequim de vitrine, uma fisionomia impenetrável. Na fotografia pousavam o casal Trump e o filho circundados por um cenário de luxo palaciano numa cobertura nova-iorquina, onde toda essa pompa não parecia ser de um lar, mas bem derramava-se em hostilidade. Barron, de dez anos, montado num leão artificial, enquanto sua mãe, tão inexpressiva como uma estátua, exibia um vestido que dava a impressão de flutuar ao vento – embora as janelas estivessem fechadas – e o Senhor Trump sorria afeito, claro, a esse ambiente. Não parecia uma foto normal de uma família, bem sim uma ostentação fútil da riqueza. Era esta mulher a futura primeira dama dos Estados Unidos depois de uma da natureza de Michelle Obama? Perguntei-me. E foi quando comecei a inquietar-me com essa eventualidade do destino americano, com o destino do mundo. Até então Melania Trump me era totalmente desconhecida, mas não foi essa ignorância que me conduziu a ter interesse em escrever sobre ela, mas sim sua expressão gélida e enigmática. Não fosse Donald Trump seu marido, teria Melania outra expressão? Não quero vê-la como um clichê, resumindo-a em poucas palavras, assim seria muito fácil, por outro lado, por que não confrontá-la com aquilo que ela expressa? A partir daí não me interessei por quantas cirurgias plásticas ela passou, ou pela sua dieta e pelos segredos de sua maquiagem ou mesmo pelo seu guarda-roupa; meu interesse se debruçou nela, a mulher que era mãe, esposa de um homem tão incalculável como controverso, e por fim primeira dama de uma superpotência. E ainda mais: tudo isso começara só com a sua vontade e realização de ser modelo? Assim os americanos deviam estar contentes com a confirmação de que Melania lhes deu: na sociedade americana pode-se subir na vida: ela subiu e chegou ao ponto mais alto que uma mulher pode galgar: ser uma First Lady – mais do que isso, só sendo a presidente do país.

O seu curriculum vitae é o que comprova seu êxito; mas que êxito? O de ser a esposa de Donald Trump? Ou o de ser a primeira dama do país? Para mim as duas coisas, separadas ou não, são por demais pesadas de carregar. David Cay Johnston acompanhou e entrevistou Trump por quase trinta anos para escrever o livro The Making Of Donald Trump, 2016 e disse claramente que para o tal o que conta é o dinheiro, o poder e a fama – e todos nós vimos durante a sua campanha o quanto ele pode ir longe ofendendo as pessoas com as suas palavras – é inconstante, contraditório e cria sua própria realidade, entre outros atributos mais pesados, segundo Johnston. Como viver com um homem com tais características? Existe um amor entre os dois? Em comparação com o casal Obama, os Trump não demonstram estarem satisfeitos um com o outro, pelo contrário, um parece ser a carga do outro.

Melania Trump não se revela, não se dá, falta-lhe o sentido de humor próprio dos americanos, o qual os jornalistas tanto lhe cobram; preserva uma postura austera e assim perde em ser natural e estar relaxada – mas tudo isso não é uma fachada? Acho que sim. Existe uma Melania que sabe sorrir tão naturalmente como a Júlia Roberts, contudo são momentos raros – observei – quando, na maioria das vezes, não está sob pressão, então aí ela não esconde seu contentamento e sorri divinamente; aliás parece-me que existe um paradoxo em Melania: é como se ela exibisse uma fachada e ao mesmo tempo não escondesse nada. Ela não tem medo dos fotógrafos – como uma modelo pode ter medo do seu meio de trabalho? – e mostra abertamente seu desgosto e, pior do que isto, o mostra como um fardo. Muitos falam de seu aborrecimento por ter de acompanhar situações solenes. Não creio. Acho até que, no fundo, gostaria de participar delas de corpo e alma. Mas o que a impede? A meu ver ela ainda não encontrou seu lugar como primeira dama, o que é diferente de ser Mrs Trump. Mr Trump domina tudo, rouba-lhe espaço, a põe em segundo plano; falta a ele a espontânea cordialidade de Barrack Obama para a sua mulher, refletida até com humor quando se referiu à „horta de tomates de Michelle“ posta em perigo pela chegada de um filhote à Casa Branca. Via-se um elo entre os dois, um forte sentido de parceria; com Melania e seu marido porém, é diferente.

jacqueline Kennedy, que junto com Betty Ford seria um modelo para Melania, afirmou que primeiro ela era esposa e mãe, para depois ser primeira dama. E Melania? O que é primeiro para ela? Já demonstrou que em primeiro lugar é mãe ao preferir ficar em Nova York até que acabasse o ano letivo do filho, apesar disso ter custado muito caro à cidade através daqueles que pagam impostos. Entretanto Melania pareceu não ouvir as críticas, só ouve a si mesma: „Ninguém me controla“ são suas palavras, o que para mim significam: ninguém pode comigo. Ou „eu sei me arranjar com tudo“, disse à CNN ao ser criticada por ter repetido as palavras de Michelle Obama no seu discurso pela Convenção Nacional do Partido Republicano, o que a frase pode significar: nada me põe abaixo. Melania vem de uma cultura igualitária, de um círculo familiar de classe média padronizada pelo convívio socialista, sem chance de subir financeiramente – o que não tem nada que ver com a cultura americana – sabe o que é trabalhar sem simulações e aguentar sem se dobrar. Embora a Ioguslávia tivesse um dos regimes socialistas mais livres, mesmo assim era uma ditadura, e as carências produzidas por uma ditadura produzem, a sua vez „almas escuras“. E eu acho que Melania sofre, mas não se entrega porque sabe lutar e ao mesmo tempo estabelecer limites. Numa das fotos da posse do marido à presidência, ela aparece ao lado de sua enteada, Ivanka Trump, e, com uma expressão rígida, faz um gesto com uma das mãos levantada significando stop, ou seja, pare. Para mim um gesto de exigir respeito do outro, o que não deixa de ser nobre. Lauren A. Wright, do jornal Washington Post, disse que Melania não quer se comportar segundo o modelo de uma clássica First Lady, e „melhor para ela“ diz a colunista. Wright diz que uma possibilidade para Melania seria romper com o preconceito de como uma primeira dama deve ser vista e o que tem que fazer, e daí ganhar reconhecimento da sociedade. Também a sua imagem como ex-foto modelo não combina com a imagem que Michelle Obama deixou atrás de si. Para Wright Melania se preocupa com ela mesma, e este „ egoísmo saudável“ é um passo a frente para as primeiras damas do futuro. De todos os modos acho que Melania já está na mira de feministas que se perguntam por quê ela se deixa ficar em segundo plano frente a seu marido; mas mesmo sendo assim, já o ultrapassou em popularidade sem empreender muito para isso. Ela não presta favores à imprensa em aparecer aqui e ali, o que deixa os jornalistas e fotógrafos a esperá-la – Cadê dona Melania que não aparece? – Mesmo durante a campanha eleitoral de seu marido, sua presença foi resumida ao mínimo, a não ser quando teve de proteger sua vida privada contra boatos maldosos. „Não procuro atenção“, disse uma vez. Talvez Melania prefira que a vejam de longe como se vê uma modelo que passa deixando apenas uma fachada: uma modelo não precisa falar, é suficiente o que tem para mostrar – mas quem é a modelo no fundo? – mesmo assim ela personifica o desejo de tantas mulheres em crer que a beleza do corpo é responsável pelo sucesso na vida.

Helen Mirren, atriz inglesa, mas cujo pai era russo, leu o livro de Ivanka Trump, no qual ela diz ser uma feminista. Mirren afirmou que não encontrou no tal livro nada que sustentasse a tese de Ivanka, pelo contrário, o que faltava no livro era essência de conteúdo. Quanto a Melania, refere-se a ela com sensibilidade por também ter sua origem num país do leste socialista e conhecer „essa alma escura“: „dela ainda podemos esperar“, disse.