Quando a inocência não convence – uma lembrança a Meredith Kercher que não merecia ter morrido tão cedo

           

Amanda Knox, uma jovem americana, estudante de italiano na universidade, tinha 20 anos quando ficou conhecida na mídia, sobretudo a sensacionalista, pela morte de sua companheira de casa, a jovem inglesa e também estudante Meredith Kercher, brutalmente assassinada na noite do primeiro ao dois de novembro de 2007 na cidade italiana de Perugia. Até hoje não há precisão da data, mas é fato que Amanda Knox foi acusada por ter participado do crime juntamente com seu namorado, Raffaelle Sollecito, de 23 anos.

O caso Meredith kercher virou sensação na mídia internacional, mas todos estavam assombrados com Amanda Knox, a moça de aparência singela, mas de olhar frio, sem expressão de compaixão. Esta também foi minha impressão na época desde a primeira vez que vi sua foto – tive medo de seu olhar estancado, ela pareceu-me arrogante e superficial: li que Amanda gostava de estar no centro das atenções como querendo fazer da situação um show para a televisão. Se certo isso, talvez só no início, quando ela ainda não avaliava bem a fundura do poço onde tinha se metido. Depois comecei a ver fotos de Amanda chorando, parecendo mais uma menina desconsolada sem o brinquedo que lhe haviam tirado. Até hoje me pergunto por que Amanda Knox não constituiu um advogado, nem passou por um detentor de mentiras. O primeiro a teria defendido nos interrogatórios, e o segundo teria ajudado a fechar o caso mais objetivamente.

Os muitos artigos que apareceram após sua absolvição final, defendem-na em absoluto enquanto a veem sozinha na Itália e vítima da inescrupulosa e ineficiente polícia italiana – só que todos têm direito a um advogado, não? E onde estava então a família de Amanda? Ela própria afirmou que foi maltratada fisicamente – uma policial lhe bateu na nuca – além dos incansáveis interrogatórios que a deixaram esgotada – uma tortura psíquica para acabar com a sua amnésia: Os políciais de Perugia achavam que Amanda sabia quem era o assassino de Meredith Kercher e alegavam que ela tinha estado presente no momento do crime. Foi nessa fase do inquérito que Amanda Knox se comprometeu com suas próprias palavras: como em transe, perturbada por pensamentos, lembranças e imagens, ela disse que ouviu gritos, acusou seu chefe, Patrick Lumumba, o dono do bar Le Chic, onde ela dava umas horas de garçonete; e confundindo a realidade com sonho, não sabia mais o que dizer, passando a responder as perguntas com constantes „não sei“. O objetivo dos interrogatórios é arrancar a verdade, a confissão da boca do acusado, por isso e para isso existem métodos ilícitos também, nos quais policiais fazem concordatas, negociam com malfeitores por falsos testemunhos, forçam a confissão custe o que custar. O extremo desses procedimentos é abjeto e desonesto, e Amanda Knox sente-se vítima deles por ter sido levada a fazer declarações indevidas – é a sua bandeira – a de vítima de métodos injustos, e não a de ter sido culpada pela polícia de Perugia da morte de Meredith Kercher.

De 2009 a 2015 Amanda Knox e seu então namorado, Raffaele Sollecito foram julgados quatro vezes até chegarem à ultima instância onde foram absolvidos:

– A primeira condenação foi de 26 anos por indícios de culpa no crime;
– em 2011 um tribunal de apelação lhes concedeu liberdade, pois o veredicto contra eles „não estava apoiado em nenhuma evidência objetiva“, e Amanda volta para os Estados Unidos;
– em 2013 a corte suprema lhes retira a absolvição e determina um terceiro processo;
– em 2014 o julgamento termina por culpar os dois e aumenta a pena de Amanda para 28 anos e seis meses;
– em 2015 Amanda Knox e Raffaelle Sollecito finalmente foram declarados inocentes.

Que surpreendente e raro foi este resultado final. É a prova de que o trabalho policial tinha fracassado por não ter apresentado provas limpas que garantissem os resultados dos testes de DNA. Isso faz-me lembrar o caso da menina Madeleine McCann, sequestrada no sul de Portugal, na Praia da Luz também em 2007, e também aí a polícia portuguesa fracassou, perdendo-se em investigações que não conduziram a nada, e até hoje a criança não foi encontrada, e nem seu sequestrador. Entretanto Amanda Knox recebeu 18 mil euros como recompensa pelos desastrosos processos, e Rudy Guede, o terceiro envolvido no crime de Meredith Kercher, foi o único acusado como autor absoluto do homicídio porque seu esperma foi encontrado no corpo da jovem. Apesar disso a verdade não apareceu como triunfante; a inocência de Amanda e Sollecito não pareceu convencer, e eu não deixei de me interessar pelo caso, porque o intuo incompleto e impreciso – é que para mim e para muitos a história ainda não foi contada de verdade.

Amanda Knox voltou à Italia no ano passado para participar de um encontro – o Festival della Giustizia Penale – em Modena, e voltou a ser o foco das atenções da imprensa em geral que tentava captar em minúcias seus gestos. Ela apareceu incômoda em frente à mídia e tanto foi estrela como criticada. Esse evento foi organizado pela faculdade de direito local e o renomado projeto americano Innocence Project da Itália. Este projeto – Non-Profit – atua desde 1992 em favor de encarcerados por erros judiciais, e é conhecido por já ter salvado pessoas de prisão perpétua ou pena de morte. Sem Amanda Knox nesse encontro, este estaria reduzido a um pequeno público. Elena Ranzini, do comitê de organização explicou que Amanda “é um símbolo de um processo feito pela mídia de massa.” Eu assisti por vídeo a sua apresentação: lá estava Amanda Knox sentada imóvel, as mãos bem arrumadas – parecendo mais uma membra de uma família real – de frente para o público, mas sem encará-lo, apenas absorta todo o tempo no apresentador enquanto ele fazia a sua introdução. Quando começou a falar teve que se interromper pelo choro. Armada de um lenço, perguntei-me por quem chorava Amanda? Pela tragédia passada ou por ela mesma? No fundo a vítima foi Meredith Kercher que perdeu a vida, e sua família a perdeu, enquanto Amanda depois de ser aplaudida pôde recomeçar seu discurso. Falou em italiano, com voz áspera e trêmula que a dramatizou como num perfeito cenário italiano, e para mim mais grotesco que comovente de verdade. Por que ela não me sensibilizou? É que Amanda só falou dela mesma e de todas as injustiças que passou e ainda passa; de Meredith, sua única menção a ela foi para defender-se de que só com a sua presença na Itália, ela estava traumatizando a família Kercher e profanando a memória de Meredith. “Estas pessoas estão erradas. Há pessoas que gostam dessa estória, que sou psicopata, Foxy-Knoxy.” – Nada mais. A família Kercher já disse que não permitiria a visita de Amanda à tumba de Meredith – tem razão. Para quê? Para promover mais a sua própria versão usando a memória de Meredith? – Isso pareceria mais uma conveniência para o ego do que respeito mesmo.

Por outro lado seria demais esperar de Amanda que ela tivesse feito lá em Modena um paralelo entre dois destinos: o dela – marcado por um passado que a persegue, mas mesmo assim ela segue jovem e com vida; e o de Meredith, que por intenções e atos assassinos perdeu muito jovem a sua vida? Acho que sim, e é neste ponto que ela me decepciona, não me convence de sua inocência total e não me dá chance de ser compassiva.

Amanda Knox amadureceu desde que saiu da prisão em 2011; ela continuou os estudos, escreveu livros, entrou para trabalhar num jornal, casou e goza de sua liberdade. Contudo sua absolvição não a salvou: „ O mundo decidiu que eu sou culpada, e assim ficou“; o passado é a sua pesada cruz carregada como um carma quando é perguntada se foi ela quem matou Meredith: „ É que me desagrada sempre ter que repetir isso como se toda vez que sou perguntada, a minha resposta não vale“. – Se a ela desagrada ter sempre que dar respostas e explicações, não devia esquecer que a tragédia da família de Meredith é ter a sua morte sempre na lembrança.

A inocência não é algo concreto, é o estado da pessoa sem culpa de algo cometido anteriormente; por isso a inocência deve ser provada tanto pela pessoa já acusada, como pelos que a defendem. E assim começa o grande teatro dos julgamentos, como um palco estruturado e encenado por diversas partes, cada uma com o seu papel. Eu acho que Amanda Knox foi absolvida mais por inocência presumida que por falta de evidências nas provas. Segundo Renato Brasileiro de Lima no Manual de Processo Penal „ Não havendo certeza, mas dúvida sobre os fatos em discussão em juízo, inegavelmente é preferível a absolvição de um culpado à condenação de um inocente, pois em juízo de ponderação, o primeiro erro acaba sendo menos grave que o segundo.“ Isto é o que se chama de O Princípio da Presunção de Inocência, adequando-se muito bem ao seu caso.

Amanda fez uma introdução para o documentário sobre ela e o caso Meredith no Netflix – não gostei nada. É sempre a mesma posição dela implacável de defesa: ou se acredita nela ou não, pois não há nada entre as duas coisas; sendo culpada, seria ela a pessoa mais atemorizante que existe, justamente porque ela não caberia nos esquemas; mas sendo inocente, significa que isso poderia passar com qualquer pessoa, e por isso as pessoas sentem medo. E concluindo diz que ela ou é uma psicopata disfarçada, ou ela é nós; ou seja, qualquer um de nós. Pergunto-me se isso poderia realmente passar com qualquer um de nós, pois soa até como uma ameaça.

No fundo eu acho que Amanda Knox teve muita sorte por não ter perdido sua juventude na prisão em comparação com Meredith Kercher que perdeu sua vida. Contudo sua inocência no crime não a salvou, pois sua culpa não foi provada por meio de „evidências objetivas“ e portanto ainda a persegue; e como eu já disse, a história do assassinato de Meredith Kercher deve ser recontada, e quem sabe vamos conhecer ainda a verdade.

Próximo texto: 8/12/20

Bonecas para meninas e carrinhos para meninos: Deve ser sempre assim?

  

Sophia ainda não tinha três anos, quando sua mãe cumpriu o que tinha prometido, caso a menina fizesse, durante um mês, bem direitinho cocô e xixi no peniquinho. Sophia não hesitou na loja de brinquedos o que ia escolher: uma boneca vestida de médica com estetoscópio – ela adorava brincar de médica. Quando a mãe foi pagar, a caixa, depois de olhar para a boneca de cor escura perguntou a Sophia se ela iria para uma festinha de aniversário. Mãe e filha surpreendidas, negaram . A caixa, ainda olhando fixamente para a boneca, insiste: então isso é um presente para uma amiguinha? Sophia sem compreender o porquê das perguntas, deixou a mãe explicar que a boneca era um presente prometido com direito a ser escolhido. Sem desistir a caixa se dirige à menina e pergunta-lhe diretamente: amor, você tem certeza de que essa boneca aí é realmente a boneca que você quer? Sim. Respondeu Sophia com segurança. Mesmo assim a caixa ainda não desistindo, tentou sobressair-se: mas essa boneca não se parece nada com você. Nós temos muitas bonecas aqui que são bem parecidas com você. A essa altura a mãe de Sophia já estava furiosa e pronta para acabar de uma vez com a teima da caixa, quando Sophia mesma se adiantou: ela se parece comigo. Ela é médica e eu sou médica. Sou uma menina bonita, e ela é uma menina bonita. Vê seu cabelo bonito? E seu estetoscópio?

Situações assim grotescas podem passar não só nos Estados Unidos, mas em quaisquer outros lugares onde o racismo é visível e exacerbado. Sophia é uma garota branca de cabelos louros, e isto não a permite num meio racista declarado, exprimir suas preferências, se estas ferirem a moral estabelecida. É preciso ir contra a corrente, como fez Sophia, dando à senhora do caixa uma lição civil de coragem, enfrentando a situação racista com outra anti-rascista. Se a senhora aprendeu a lição, é pouco provável, como bem menos cogitou sobre ela, e mais possível ainda que não tenha nem compreendido o gosto da menina, nem a sua identificação com a boneca. O caso de Sophia viralizou na internet; sua mãe divulgou no Instagram uma foto da filha com a boneca e um pequeno comentário:

Esse ocorrido só confirma a minha crença de que nós não nascemos com o convencimento de que a cor da pele define um papel (na sociedade). Peles existem de várias cores, assim como as cores de cabelos e olhos, e cada uma delas é bonita.

Entre as relações das crianças com seus brinquedos, outra não é mais discutida por profissionais da área que a da boneca e a do carrinho, até o ursinho perde nessa parada. Por quê? Sem dúvida que os brinquedos acompanham e ajudam no desenvolvimento infantil, são uma parte essencial nele e indispensáveis ao progresso motor e cognitivo e à competência social e emocional. Mesmo que um bebê de poucos meses ainda não distinga um brinquedo, ele é fundamental nessa fase para apalpá-lo, levá-lo à boca, ou ouvir seus ruídos ao batê-lo contra uma superfície; um brinquedo é um puro objeto individual; uma boneca, nessa idade, não tem vida. Só na faixa dos dois e três anos – segundo os psicólogos – as crianças começam a aprender brincando. O que parece só fofinho e engraçadinho nas brincadeiras, já é iniciador de aprendizagem: crianças copiam os adultos, reconhecem sentimentos e sensações, tiram partido dos brinquedos, aprendem a lidar com eles e até a cuidá-los. A boneca que não tinha vida, passa a tê-la, e a criança dá vida à boneca, porque só os que vivem, podem comer, chorar, ser levados para passear e participar de conversas. A boneca também passa a ser um meio de contato com o social; com ela as crianças aprendem a relacionar-se e diferenciar relações nas brincadeiras de faz de conta, onde os adultos são representados em diversos papéis, tanto familiares como sociais: a mãe, o pai, os filhos, os irmãos, os amigos, os médicos, os educadores – cria-se um núcleo familiar e social muito vivo e sério, embora sob a base do faz de conta.

Nesse mundo de brincadeiras, sentimentos e emoções afloram, e as crianças aprendem a relacionar-se com eles. É na alegria da festinha de aniversário da boneca, que também podem passar decepção e raiva; mas também a empatia, se a boneca caiu ou teve uma perna quebrada; o cuidado de trocar a roupa, dar de comer ou botar pra dormir ou até dormir junto com ela. Aí não importa se a boneca é de pano ou de silicone, barata ou cara, uma Barbie ou um bebê. Não. O que conta é aprender habilidades brincando. Dizem especialistas que se às crianças fosse dada uma profissão, esta seria a de brincar, e já estimam
que uma criança deveria brincar 15 mil horas até os seis anos de idade, isto é, sete ou oito horas por dia – como um dia de trabalho normal e regularizado, incluindo – claro – sábados e domingos.

Contudo a boneca pode ter seus lados negativos quando ela é marcadora de desigualdade entre os sexos – iniciando uma questão de gênero – e passa a ser exclusiva das meninas, sendo malvista e evitada para os meninos porque ela pode afeminá-los. Essa crença é avassaladora; as investigações e discussões que a combatem são recentes, e ela aspira a permanecer resistindo em muitas culturas. Ela se fundamenta em que a escolha – clichê – de bonecas para meninas e carrinhos para meninos é algo natural nascido da diferença de sexos – os garotos, pelo seu físico, preferem brincadeiras ativas e, por isso, escolhem brinquedos que se adaptam a elas. A verdade é que essa escolha é bem mais feita pelos pais.

Li num artigo de carácter científico com base nos estudos de duas psicólogas (1) que nas crianças pequenas os hormônios e os impulsos para mover-se não são os responsáveis pela escolha do brinquedo preferido. Elas demonstraram que com bebês de um ano e seis meses, independente do sexo, a intensidade de movimentos é a mesma ao estarem eles ocupados com brinquedos ditos para meninos ou para meninas. Os níveis de testosterona, aos quais os bebês foram expostos na fase pré-natal, também não comprovam como biológica a causa de tais predileções, apesar de que eles possam influenciar depois nas atividades físicas. Quanto maior for a exposição de hormônios masculinos no útero materno para a criança, mais movimentos ela demonstrará ao brincar, não importando se com carrinhos ou bonecas, ou seja, o que se argumenta como ser o nível alto de testosterona, impulsor de movimentos, o que leva os meninos a terem brinquedos exclusivos, foi contrariado pelas investigações das duas psicólogas. Se realmente existe uma predileção nata na escolha dos brinquedos, a pergunta fica sem resposta, segundo as psicólogas.

Pais sentem-se aliviados com a „lógica“ distinção de brinquedos e não querem ver que dessa distinção se cria comportamentos arraigados ao diferenciar papeis sociais opostos, porque acham que os sexos devem estar em oposição preservando uma performance pré-estabelecida para seus filhos. Quanto mais se separa brincadeiras e atividades entre meninos e meninas, maior é a distância entre eles, e isso ainda é o papel da escola tradicional. A questão de gênero – gender em inglês – que deve ser levada a sério – é sair dos estritos parâmetros diferenciadores, na maioria baseados na biologia, e conscientizar-se que – aqui cito a definição da OMS – Organização Mundial da Saúde – gênero „refere-se a papeis socialmente construídos, atividades e atributos que uma sociedade considera como apropriados para homens e mulheres“… – e tudo isso, claro, com o fim de promover diferenças e desigualdades sociais entre eles. A OMS está pronta a ajudar os governantes que consideram prioritária a questão de gênero no desenvolvimento educacional e social de seus países. Tem o Brasil sob a presidência de Jair Bolsonaro interesse nesse projeto?

Pais influenciam na escolha dos brinquedos dos filhos, mais do que eles se dão conta; e a pergunta que fica para eles é: meninos também devem brincar com bonecas? Se eles quiserem, por quê não? Por que dividir os brinquedos? Por que reservar características de ternura, delicadeza e carinho só para as meninas? Junto com os pais, os brinquedos são portas para a vida adulta, para o mundo, e meninos e meninas serão pais no futuro e precisarão de habilidades como ser cuidadoso, carinhoso, paciente e saber brincar. Por que não ir aprendendo isso já desde cedo?

Há uns anos atrás – quando ainda não sabia nada sobre gênero, nem me preocupava com o feminismo – conheci um casal com dois filhos; a menina era mais velha que seu irmão uns quatro anos, mas mesmo assim o pai só se dirigia de forma doce a ela: benzinho, amorzinho. O menino – mais novo – era MEU FILHO, falado alto e forte. Esta experiência me tocou e foi meu ponto de partida para dar-me conta de quanto o papel da mulher na sociedade está envolvido com imagens preconcebidas e simplificadas.

(1) Artigo: Mädchen spielen mit Puppen – aber warum?
As duas psicólogas são: Gerianne Alexander e Janet Saenz

Próxima postagem: 1/10/20

MULHERES NÃO NASCERAM PARA SEREM SUBJUGADAS

 

Una mujer nunca está mejor sola – Quantas mães já não afirmaram isto às filhas como verdade absoluta? São poucas as que não o fizeram – sem incluir a minha que me deixava acreditar nisso por longo tempo como um fato comprovado. Só que a frase não é um fato. Ela é uma invenção carregada de patriarcalismo, dando ao homem o poder sobre a mulher no seu papel de marido, pai de seus filhos e provedor do lar; repetida pelas gerações, e mesmo com o avanço dos debates feministas, ela ainda é crida por mulheres de diversas classes sociais, culturas, religiões, nacionalidades, formação escolar e idades.

Que nunca o melhor para uma mulher é que ela esteja sozinha (em português) diz uma mãe às duas filhas para atingir àquela que no casamento sofre de violência doméstica num filme espanhol da cineasta Iciar Bollaín de 2003, cujo título Te doy mis ojos – não entendido por mim até ver o filme todo – refere-se a uma cena sexual de intensa entrega entre o casal, onde num diálogo íntimo ela dá ao marido partes de seu corpo que ele deseja: Ele: Quero teu braço. Ela: Te dou meu braço. Ele: Quero teus olhos. Ela: Te dou meus olhos. E assim vai ela cedendo seu corpo, vivendo o ato com profunda emoção, sentindo-se completa com aquele, com quem ela encontra fusão. O momento é sagrado, é metafísico. Isto e a esperança de que esse homem, esse tudo (1) a faça feliz, se desencanta quando ele volta a espancá-la, e ela, por fim, compreende que a vida a dois não é só na cama, e separa-se dele.

A violência contra a mulher é multilateral, também atinge os filhos e outros membros da família, mesmo que eles não sejam tocados. O atual ou o ex, o importante é que haja um relacionamento em vigor, ou que este está por se acabar, ou já acabou, e o local das investidas é comumente em casa, sem negar outros possíveis. Por conta da pandemia, o consequente confinamento em casa contudo, não é a causa da violência de homens já propensos, bem sim a causa de seu aumento, pois os casais permanecem mais tempo juntos que o necessário – perder a rotina é perder sua estrutura. O uso excessivo de bebidas alcoólicas para aguentar a quarentena, ou qualquer outra coisa podem levar a situações inflamáveis, como diferenças de opinião e, sobretudo, os medos: de perder o emprego, a autonomia, ou arruinar-se – condições que ferem bastante a masculinidade e canalizam-se contra os entes próximos mais vulneráveis. A situação tem piorado em todo o mundo; as estatísticas são tão alarmantes, que se um país como o Brasil pudesse trocar seus índices de violência e feminicídio contra a mulher com o índice de diminuição da pobreza, teríamos alcançado uma posição exemplar no mundo, pois o Brasil ocupa o quinto lugar, no ranking mundial de violência contra a mulher. Se podemos afirmar, segundo dados oficiais de 2019, que uma mulher é assassinada a cada duas horas, imaginemos quantas não são espancadas em duas horas?

Contudo não só de pancadarias vive a violência doméstica, ainda assim muitas mulheres creem que não são vítimas dela, por não serem espancadas; elas não levam em conta que as humilhações, intimidações, ameaças, trabalhos domésticos excessivos e não reconhecidos, que lhes roubam tempo livre também são formas de violência em casa – a violência física só é uma dos cinco tipos descritas pela lei Maria da Penha. Elas também acreditam que quando suas necessidades não são atendidas, são culpadas disso, sentem-se inferiores e não se acham à altura de ser a mulher, a mãe, ou a amante. Daí vem o esforço de querer agradar e ser merecida custe o que custe, deixando-se levar por mentiras, fazendo acordos, para elas, desfavoráveis, perdendo amigos e oportunidades de trabalho. Mulheres que escutam a miúdo: Você é fraca e burra, você é louca e tem a cabeça oca, ou, lá vem você de novo com depressão, sua doente. Só com muito esforço e devida ajuda sairão dessa, e após terem passado por isso afirmarão com certeza: Eu me sentia mesmo burra; eu estava cega; como pude passar tudo aquilo? As histórias dessas mulheres têm que ver umas com as outras, há padrões repetidos, sintomas que sempre aparecem. Por que mulheres não se separam facilmente desse tipo de homens? Superficialmente olhando, parece até que elas se acomodaram a essa sorte – mas não é assim. A autoestima da mulher, claro, se reduz consideravelmente se ela recebe por muito tempo humilhações moral e psicológica do parceiro – mesmo que ela não tenha passado isso antes. A capacidade, porém, de com suas próprias forças restaurar sua autoestima e criar mudanças na sua vida, é sua via crucis e uma das causas mais difíceis que lhe impede de liberar-se.

No vídeo – Conectar Fortalece – (2) diz uma mulher, que conhece os horrores do lar: O mais complicado, eu acredito que é entender as opressões que a gente sofre por ser mulher. A violência contra a mulher é estritamente violência de gênero, onde os arraigados papéis marcados pelo sexo biológico foram construídos para gerar desigualdades entre homens e mulheres, estabelecendo autoridade e domínio, criando poderes. Dessa separação saiu o silêncio, não só o do jugo, mas o de seres que não só sabem se comunicar, como não sabem o que dizer. O que é gritado e esbravejado nas brigas, nas disputas pela razão, no fundo é sempre o mesmo – o discurso repetitivo dele e dela; o que leva, porém, a extrapolar o quadro é a voz mais alta – que faz estremecer; é a mão ou o pé mais pesados – que faz doer e sangrar. Mulheres que não se deixam amedrontar, partem para a confrontação; é a guerra, e aqui o vencedor é o mais forte fisicamente – a solução? Claro que não. A melhor solução muitas vezes não está disponível, por mais que se tenha os números de emergência180 e 100, e que os vizinhos possam ajudar chamando a polícia, e que já haja algumas poucas casas, abrigos temporários para as mulheres fugitivas de seus algozes. A violência contra a mulher, seja qual for a sua cara: física, psíquica, moral, sexual e patrimonial (Lei 1340/06) tem a mesma base: o pensamento, ou a idéia – que é uma representação mental figurativa – profundamente enraizados na cabeça masculina de que as mulheres são seres inferiores em relação a eles, e que por meio dessa noção eles se orientam e agem. Daí eles tiram o fictício „direito“ de maltratarem e até matarem mulheres e meninas.

É sabido que toda forma de agressão e violência contra as mulheres são formas de defender o machismo. Machos que chegam a tanto, além de serem aptos para o mal, têm suas fraquezas, carregam por muito tempo um desequilíbrio emocional que lhes forçam a construir uma fachada. Não são poucos os espantos e a surpresa de pessoas conhecidas por quase não acreditarem que „o tal“ no fundo tinha um potencial de violência: Mas ele parecia tão simpático e amável! Nunca pude imaginar que ele fosse assim – é que o cara tem muitas caras, e ainda há aqueles que espancam suas mulheres e ainda têm a petulância de as levarem para o hospital.

Por que o Estado não pode proteger melhor suas mulheres? Já se faz algo, mas ainda não o suficiente para erradicar o problema. Todo esforço é louvável desde que este se concentre nas causas e dê prioridade as mulheres de se livrarem de seus agressores, protegendo-as – o afastamento é imprescindível – pois não é uma terapia que vai acabar com os maus-tratos deles. Muitos homens se submetem a um tratamento psicológico, ou por imposição da justiça, ou para dividirem sua culpa com as parceiras, alegando que se há problemas na relação, estes também são por culpa delas – é a necessidade desses homens de permanecerem como são por não terem outras alternativas.

E no Brasil? O problema é assustador pelos elevados índices de ocorrência, o que nos põe numa posição degradante frente a outros países. Pergunto-me o que a ministra Damares Alves, responsável por assuntos da mulher e da família, vai fazer para melhorar as condições das meninas – ela não incluiu a condição das mulheres vítimas de violências na 63. Sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher na ONU:

„Num relatório de 2016 aponta que o Brasil é o pior país
do mundo para se criar meninas, e isto nos entristece.
Nós vamos virar este quadro, estamos buscando inú-
meras alternativas de proteção das meninas.
Nós vamos volitar aqui, nesta comissão pra dizer que
nós somos uma das melhores nações pra ser mulher.“
(3)

Já estou aguardando Damares Alves.


(1) Refiro-me à letra Essa Mulher da compositora Joyce.

(2) A web Revista AZMina: Penhas: Criando Conexões Contra A Violência.

(3) Palavras de Damares Alves na sede da ONU em 12.3.19

O QUE NOS SALVARÁ? UM NOVO HUMANISMO?

 

Queria ter escrito sobre outro assunto, até tinha me preparado para isso, mas com a ainda disseminação do coronavírus matando pessoas pelo mundo inteiro, dei-me conta de que meu assunto atrás era insignificante, nesse momento, e senti-me até como egoísta e traidora da realidade se não me debruçasse mais uma vez nos fatos que continuavam na ordem dos dias; e naquilo que pensava escrever, ficaria para depois – e assim vai ficar.

Pepe Escobar, o conhecido analista geopolítico brasileiro ao ser entrevistado recentemente por Leonardo Attuch, editor da web 247-Brasil, falou sobre o que poderia nos salvar frente às mudanças, que com certeza passarão, pelas consequências desastrosas que a pandemia deixará no mundo – o que me fez pensar: ou não vão haver mudanças visíveis? Seguirá a máquina do capitalismo como nunca vista antes de vento em popa? Será o tempo de uma desenfreada reposição do capital, custe o que custar? Contudo uma coisa é certa: a economia neoliberal implantada por grandes países – principalmente ocidentais – revelou que o modelo de sobrecarga de capital entrou em dificuldades. Um tapa na cara do capitalismo industrial que se viu forçado a sair de seus moldes de produção e acumulação em favor de necessidades extras? Seria então a chance para os grandes capitalistas, os donos das riquezas do mundo tornarem-se um pouquinho mais socialistas. Aqui não me refiro às famosas doações de pelo menos um por cento de suas fortunas às vítimas da pandemia. Não. Mas já um abrangente olhar atento às suas injustas arbitrariedades, ou um leve prenúncio de mudanças em favor dos injustiçados – para não dizer claramente: é hora de pensar numa outra ordem econômica mundial, e não mais aquela errônea forma de distribuição de capital. É hora de admitir que a sua avidez é responsável pela exploração física e psíquica de homens, mulheres, crianças de todas as idades, no mundo todo. Estou sendo utópica? Não gosto desta palavra, soa-me mais que uma irrealidade, uma impossibilidade. Prefiro crer que estou sendo humanista – uma nova humanista.

Sopa de Wuhan, assim se chama uma coletânea de artigos de publicação independente e online sobre o que pensam diversos intelectuais, filósofos, analistas políticos como Slavoj Zizek, Byung-Chul Han, Giorgio Agamben, Judith Butler, David Harvey, Paul B. Preciado e outros sobre a crise atual do coronavírus. Slavoj Zizek – filósofo esloveno – referiu-se a esse momento como uma abertura de vias ao surgimento de uma nova versão do comunismo. Pepe Escobar, que tinha recomendado essas leituras, disse que ele errou – também acho, apesar de entendê-lo. Mais crítico com Zizek foi Byung-Chul Han, filósofo coreano-alemão, residente e professor universitário em Berlim disse: Não é que o vírus foi como um tapa no capitalismo, evocando já um comunismo, e que o vírus até poderia provocar uma queda no regime chinês. Nada disso vai acontecer e Zizek está enganado, escreveu Byung-Chul Han. Compreendo Zizek, sua profunda veia marxista o leva a sonhar, apesar de que ele tenha apresentado dados concretos como as medidas emergenciais de governantes, ajuda financeira, produção de implementos hospitalários, como também o ter-se dado conta da necessidade de um sistema de saúde eficaz e global, – mas será que essas medidas vão continuar mesmo depois de passada a pandemia?

Eu já me perguntei muitas vezes de onde teria vindo esse coronavírus capaz de mutações. Não o faço mais; dou-me conta porém, do quanto ele passa ileso de ter sido um castigo de Deus. O vírus HIV ou HIV que causou o síndrome da AIDS, aparecido na década de 80 do século passado, pelo contrário foi também, para os fanáticos religiosos, uma punição do Divino a aqueles que praticavam aberrações sexuais de natureza sobretudo homossexuais e vícios com drogas. À sífilis dos séculos XVI ao XX também foram atribuídas causas por procedimentos indecentes e indecorosos, principalmente as práticas de relações sexuais fora do matrimônio, a procura de prostitutas de rua e as visitas exacerbadas aos prostíbulos, apesar de que as locomoções de soldados durante as guerras, as condições sanitárias e de higiene e mais a falta de um medicamento eficaz foram o que disseminou a sífilis na época. Mas agora desta vez não fizemos nada de errado para ser castigados por Deus? Talvez tenhamos desenvolvido tantas tecnologias cibernéticas de controle e de inteligência artificial capazes até de nos substituir, e acessado tanto de forma digital informações que merecemos ser vigiados como punição?

Paul B. Preciado, um filósofo espanhol, transgênero diz, com base em Miichel Focault, que as epidemias são formas de materializar nos corpos dos indivíduos as obsessões que dominam a gestão política da vida e da morte das populações num período determinado. Eu entendo que as epidemias tornam visíveis em cada corpo que tipos de preocupação e empreendimento geram as políticas de vida e de morte de uma população num certo período. Assim segundo Preciado, a sífilis de então materializou nos corpos de cada um as formas de repressão e exclusão social que dominavam na política patriarcal e colonial da época – as obsessões pela pureza racial, e a proibição das chamadas uniões mistas, entre pessoas de raças e classes sociais distintas; e as restrições que pesavam sobre as relações sexuais.

Então, como entender, a partir da pandemia do coronavírus que ora passamos, as medidas que nos impõem para seguir durante essa crise? Como entender as contradições dessas medidas com base numa visão histórica e crítica política? Se por um lado sabemos que se os governantes nos mandam voltar às ruas, ao trabalho, à „vida normal“, isto leva a correr risco de infecção e até morrer, contudo o mercado não pára e os homens voltam a ser máquinas subordinados à produção. Por outro lado os dirigentes da saúde pública nos aconselham a permanecer em casa, nos obrigam ao isolamento em detrimento da maioria dos meios de produção e de consumo – é uma situação paradoxal, a qual nos enfrentamos, e o que nos ajudam são só os fatos de ambos os lados. Mesmo assim sabemos que a imunidade não vem do fechamento das fronteiras, nem de distâncias. Esta vem, como bem diz Preciado, de uma nova compreensão do que é comunidade; de um novo equilíbrio entre todos os seres vivos – ele atualiza as palavras „seres vivos“e
sai do político nacionalista e de identidades; evoca um parlamento, mas um parlamento planetário, de corpos vivos, que vivem no planeta terra, e não em países individuais.

Para um futuro mais humanista está em jogo sermos contra ao estado de exceção e vigilância, sermos contra ao implante de nanochips em corpos humanos e sermos contra ao capitalismo destrutivo que só destrui o nosso planeta terra. Assim poderemos enfrentar melhor as epidemias, que com certeza, ainda virão.

A COVID- 19 E EU

 

Meus cafés! Meus lugares preferidos de retiro intelectual, deixei de diariamente frequentá-los há três semanas, onde neles me sentava com uma xícara grande de café com leite, um livro, um caderno, um bloquinho de anotações – este está sempre comigo – e várias folhas soltas de papel anotadas, frases ainda não acabadas de pensamentos para revisar.

A Covid-19 me encerrou em casa – só saio para as pequenas necessidades e um passeio num parque perto de casa, se faz sol. Na Europa estamos apenas saindo de um inverno instalado desde dezembro; sem neve; sem quase temperaturas negativas, mas mesmo assim frio e de chuvas. Um inverno diferente dos que conheço desde que vivo no velho continente, e um inverno que desembocou numa pandemia – a dita Coronavírus – quando ele estava prestes a terminar, já cobrando a força da luz da primavera. A pandemia chegou quando já estávamos esgotados desse inverno chato e longo; ela apareceu num cenário que prometia logo mudar – só coisa de semanas – começando a esverdear-se e abrindo a oportunidade de que já começássemos a observar as plantas, os arbustos e a ver a terra salpicada aqui e acolá de flores miúdas e coloridas. Eu gosto de olhar, nos arbustos e nos galhos baixos das árvores, os rebentos, brotos minúsculos – mas que fortes são! – ainda fechadinhos, guardando aquilo que vai explodir na beleza de um sem números de folhas novas e brilhantes. Às vezes penso que devíamos aplaudir a natureza como agradecimento pela alegria que nos dá, e até como ato de contrição pela maldade que fazemos a ela.

Tudo isso está pra chegar, e está por precauções restringido o seu convívio. Os parques e jardins não podem se encher demais, as pessoas não podem sentar na relva em círculos – a distância de no mínimo um metro entre elas é inevitável. Será que em breve deixarei de assistir a tudo isso? Perderei as primeiras quenturas do sol das manhãs de primavera na calçada de um dos meus cafés prediletos? Ele agora está fechado, suas mesas da calçada atadas umas as outras – até elas aderiram à clausura, preservando-se do contato com os humanos.

Não estou nem nostálgica, nem „em busca do tempo perdido“ – nem o tempo está perdido para mim – no presente estou reservada e seca, aguardando o que não sei. Todos nós esperamos o que não sabemos – vai haver mesmo uma mudança pra pior como dizem os analistas políticos? Não queremos crer nisso, evitamos tais esclarecimentos, nos desviamos das distopias – que com certeza virão – como expressou Greta Thunberg em 2018: „Quero que vocês entrem em pânico“, referindo-se, claro, às mudanças climáticas. Estas aparentemente não têm que ver com a Covid-19, mas este tem que ver com exacerbações de medidas políticas, com irresponsabilidades de governantes, as quais também causam as mudanças drásticas no clima – não podemos estar tão apáticos a ponto de não levantarmos conjeturas e questionarmos de onde mesmo esse vírus se originou, embora não tenhamos respostas.

Quando da minha janela vejo de vez em quando adultos e crianças, – às vezes um cachorro os acompanha – tenho a impressão de que tudo está normal e pergunto-me se isso não passa de exagero; mas não está normal quando vejo alguém de máscara num supermercado e a lentidão dos caixas: PREZADOS CLIENTES MANTENHAM, POR FAVOR, AS DISTÂNCIAS MARCADAS NO CHÃO NAS FILAS DAS CAIXAS. Aí entro na realidade e sinto que estou suspensa no tempo, que um elevador me levou a um andar superior, sem que eu ainda não saiba quando ele me trará de volta à normalidade – como também à normalidade dos meus cafés. É que em casa a pandemia me chega pela mídia de forma virtual, por estatísticas de infectados e mortos pelo vírus, cenas muito rápidas de hospitais inundados de gente, médicos e enfermeiros esgotados. Mesmo com todo esse desconcerto não me deixo levar pela melancolia e afastar-me das coisas, estou até mais afiada, procuro concentrar-me naquilo que me interessa, mas não loucamente dar conta de tudo só porque estou mais tempo em casa. Não. Estou em passo de valsa procurando me harmonizar com as imposições impostas; não estou atrás das grades, mas até usufruo de minha semi-cadeia.

Assisti recentemente ao Pepe Escobar entrevistado por Leonardo Atuch no 247. Respeito muito suas análises géo-políticas, mas ele também flutua nas opiniões sobre a crise do coronavírus, ele não é o dono da verdade. A verdade nos chegará? O que está implícito aqui é quem tem a culpa e por quê, e não justificativas e explicações que se dizem verdadeiras: Tudo começou na China – mas será mesmo, ou o vírus foi levado pra lá? O vírus escapou de um laboratório americano, o Fort Detrick, que agora se encontra fechado, e foi levado pra China, e para isto existem explicações – mas, não há provas contundentes. E o que mais me irrita: por que o isolamento de todos, e não só daqueles mais susceptíveis é defendido como certo? E quanto às medidas de providência à população: de repente, em duas semanas de pandemia, certos governos liberaram trilhões em dinheiro, tornaram-se bondosos, prestativos e mandaram a uma grande parte da população ficar em casa; de repente apareceram reservas financeiras, intenções de dar créditos e criar dívidas – são partes do PIB anual à disposição – mas como restituir esse saco de dinheiro aos cofres das nações? Quem vai pagar isso de volta? Ou, a quem mandarão a conta? Por outro lado muitas pessoas acreditam que dessa reviravolta será a entrada no socialismo, – sobretudo nos países do dito terceiro mundo elas pensam que os governantes, por conta da pandemia, começarão a priorizar às necessidades do povo. Será assim? Claro que não.

Fala-se de uma vacina. Também será ela uma exigência das fronteiras, dos portos e aeroportos? Como não. Antes as vacinas eram prevenções às doenças ditas típicas dos trópicos, para que os viajantes não se contagiassem com elas lá encontradas. Agora antevejo que vamos a passar a ser tratados como animais que são vacinados por lei antes de entrarem em outros países. A ordem é que o viajante não leve o vírus aonde for. Mas teremos que comprar essa vacina? Ou será grátis para aqueles que não podem pagar? São perguntas e dúvidas que alimentam o nosso dia-a-dia; e até quando estivermos a salvos dessa pandemia, vamos esperar.

 

Próxima postagem: 28/4/2020

APLICATIVOS DE RELACIONAMENTO? POR QUÊ NÃO?

 

Yuval Harari, historiador israelense e autor do Best Seller Homo Deus: Uma breve história do amanhã, disse numa de suas entrevistas que o sentimento de satisfação dos seres humanos não depende exclusivamente de condições objetivas, mas, depende também do que eles imaginam produzindo expectativas com relação ao presente e ao futuro. Segundo ele, as condições objetivas melhoraram muito a partir das últimas gerações, não significando isto que as pessoas estejam mais satisfeitas que antes – suas expectativas é que aumentaram – e, paradoxalmente, a História mostra que até quando há crescimento social e econômico, as pessoas podem estar mais insatisfeitas porque suas expectativas se tornam maiores; e o que gera uma crise é quando as expectativas estão muito altas e o crescimento não prossegue, pois nenhum crescimento é ilimitado, disse Harari.

As expectativas não são sentimentos, são projeções cognitivas que atuam como variáveis, advindas geralmente de experiências passadas, que se dirigem ao presente, ou bem melhor ao futuro, como forma de antecipá-lo; ou seja, as expectativas têm que ver com resultados imaginados – desejados ou não – quer o contexto seja positivo, quer negativo. Alguma coisa vai acontecer, e se não há certeza ou garantia de como será, aparecem as expectativas alimentadas pela incerteza. Se num contexto positivo as expectativas não se efetivam, o resultado será uma decepção, e os exemplos, onde se as põem, são inúmeros: um concurso, uma eleição, uma viagem, ou conhecer uma pessoa. Aqui as expectativas podem assumir um caráter exigente e de demandas, prejudicando o anterior encanto do relacionamento. Quem vê o outro como aquele que deva ser como se espera dele, é isto enfocar-se só numa possibilidade que, sem dúvida, levará à frustração como produto de uma ilusão. Um dos grandes fardos da vida é querer ou ser forçado a corresponder às expectativas dos outros quanto à conduta de como se comportar; no fundo ninguém está no direito de corresponder ao que se espera dele, e aquele que espera mais do que o outro pode dar, cai sempre em decepção.

Eu, que tenho a tendência de sempre buscar fundamentos nos fatos, aonde quero chegar com esses conceitos que me custaram leituras e reflexão? Ao fato bastante comum hoje em dia de se usar as redes sociais como um meio de conhecer pessoas para um eventual relacionamento. Antes – quando por meio de cartas – esse meio era visto como não confiável e negativo; hoje, porém, estamos na era em que os meios digitais comandam nossa vida; meu Smartphone mede apenas treze centímetros – e não é um dos últimos modelos, – mas com ele posso abarcar o mundo, e se não o faço, preferindo ir ao computador, é pelo elementar prazer de não me sujeitar a uma coisa pequena e tão poderosa. Eu sou uma exceção; a maioria das pessoas usa o celular de modo generalizado, e por que não para conhecer alguém? Sim, por meio de aplicativos específicos, e um deles de alcance internacional é o Tinder. Este aplicativo é fácil de ser manejado e grátis numa de suas utilizações; nele homens e mulheres têm acesso a uma imensa galeria de pessoas, como um álbum de fotografias infinito, por que sempre aparecem mais ofertas, mais possibilidades, mais chances. Muitos podem encontrar nele seus parceiros, mas não acho que por sorte ou garantia dada pelo aplicativo; é que essa forma de conhecer pretendentes já se proliferou tanto que ela leva a que as formas clássicas fiquem um tanto desleixadas – quem passa muito tempo por dia com a cabeça afundada nesses tais aplicativos, deixa de ver o que passa ao redor – e isto tem que ver com expectativas. Se não fossem estas somadas às esperanças, os tais aplicativos não teriam tantos seguidores. Refiro-me aqui menos ao seu uso visando uma paquera inconsequente, mais ao uso daqueles que querem conhecer uma pessoa com o fim de um relacionamento pra valer, como sendo esse até o último recurso para encontrar o companheiro de vida.
Conhecer alguém fora desse formato é o que hoje me surpreende; ele é muito simples – tudo se faz com as mãos como se uma varinha mágica fosse um coração verde e movendo-o para a direita quando a foto de alguém junto a uma curta descrição dela agradam. E o melhor é quando esse alguém vendo a foto, também move a varinha mágica, ou seja, o coração verde, para a direita: aí acontece um match – bingo! – os dois sozinhos poderão paquerar virtualmente, conversar e marcar encontro. Nem sempre a varinha mágica funciona, nem sempre há match, por isso é tentador continuar buscando. Outra coisa é a comodidade e flexibilidade de uso para conhecer alguém, – em casa onde seja, nos intervalos de trabalho, antes de dormir, – é suficiente a existência de WI-FI no lugar para se entrar na rede virtual de buscas. Também poder selecionar a busca por idade é para aqueles na faixa dos 50 ou 60+ a oportunidade de se concentrar neste grupo e fazer da busca algo bem especial.
Fato é que o número de solteiros em geral vem aumentando no Brasil, e com ele mudanças se revelam criando uma forma de cultura. Uma mulher jovem de classe média que vive de seu trabalho e podendo morar sozinha, ainda pensa em casar nos moldes de sua mãe ou avó? Menos viável. Melhor ela tenta harmonizar seu estilo de vida a um relacionamento e a uma futura família adequados, porque seus parâmetros que definem um marido, um parceiro não só são bem diferentes de antes, como mais exigentes, e aí está o problema – mulheres que impõem pré-requisitos, dão prioridade a seus interesses e não se deixam levar pelas aparências, também querem determinar sua vida a dois, mas sem perder o encanto do amor. É possível? Essas mulheres não são compreendidas por homens bitolados em seus esquemas retrógrados – por outro lado, espero que elas também não precisem deles, mas nem por isso é simples assim. Por mais que mulheres tenham lutado pelos seus direitos na sociedade, não significa isso que elas tenham deixado de sonhar e idealizar modelos impossíveis.
O Tinder garante um espaço secreto nos chats, já que muitos dos participantes preferem não se alongar em seus perfis, mas priorizar nas fotos. Estas procuram satisfazer às tendências das redes sociais: as pessoas devem aparecer bonitas, atraentes, alegres e sociais, o que esta padronização leva a um anonimato para proteger a identidade. O que ele espera de mim? O que ela quer de mim? O que eu quero? Acho que só poucos se perguntam; o importante é ter expectativas e estar ligado no aplicativo como tantas outras pessoas – este aspecto dá conforto e segurança, apesar de conhecer, encontrar alguém por meio de um aplicativo de relacionamento é uma aventura, pois a pessoa aparece como algo isolado, pouco ou nada relacionado com outros aspectos da vida, saída de repente não se sabe de onde. Isto me faz lembrar dos flertes de minha juventude, – apenas nos olhávamos, talvez só uma vez por dia no ponto de ônibus, mas isso provocava ânsia e desejo de rever a pessoa. O tempo até que nós chegássemos a falar um com o outro nos enchia de expectativas e esperança, assim como dava a chance de averiguar sobre a pessoa, procurar saber quem ela é. Era muito bom.

MULHERES QUE ESCREVEM SÃO PERIGOSAS

 

Não quero afirmar aqui neste pobre texto que Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente, como no livro do mesmo nome, originalmente em alemão – Frauen, die schreiben, leben gefährlich de Stefan Bollmann, 2006, com um excelente prefácio de Elke Heidenreich, e que foi publicado em Portugal em 2007.

É que não me interessa agora a quantidade de escritoras que tiveram suas vidas marcadas por algum risco, ou uma vida beirando a morte: fosse por doença – Katherine Mansfield, Carson McCullers – fosse por obsessão excessiva de morrer – Sylvia Plath, Anne Sexton – ou como único recurso para livrar-se do sofrimento psíquico – Virginia Woolf. Todas são famosas e podemos conhecer suas vidas facilmente pela internet ou por livros; todas conseguiram alcançar a fama antes de morrer. Entretanto, e aquelas que nunca conseguiram exprimir seu talento por não serem levadas a sério, e se o fizeram foi com muita luta contra condições adversas só pelo fato de serem mulheres? A história da atividade escrita feita por mulheres também está cheia de repressões, proibições e exploração do seu talento e capacidade, tendo em vista proveito financeiro e notoriedade para outros – homens, claro. A escritora francesa Colette escreveu Claudine, uma série de quatro livros entre 1900 e 1903 quando então era casada com Henry Gauthier-Villars – o Willy – um escritor menor e 15 anos mais velho que ela, que abusou do talento da esposa, apropriando-se da autoria da série que foi publicada a princípio sob o nome dele: par Willy – saiu na capa – por Willy.

Zelda Fitzgerald também não escapou dos excessos do marido alcoólatra, o famoso escritor americano, Scott Fitzgerald. Ele a considerou como uma escritora de segunda classe e plagiadora no seu único romance publicado em 1932 Save Me The Waltz escrito em apenas seis semanas quando ela se encontrava numa clínica psiquiátrica, e por sentir-se melhor teve licença de escrever até duas horas por dia. De Zelda Fitzgerald restaram pinturas, artigos e estórias curtas – escritas às vezes em seu nome, outras no nome do casal, o que evidencia a sua presença na obra de Scott Fitzgerald. Se assim era, como não pressupor que algum conto publicado do escritor não foi de autoria só dela? Zelda Fitzgerald sofreu por não ter sido reconhecido seu valor artístico em seus escritos e pinturas – mas como escapar da sombra do autor do “Grande Gatsby” e receber méritos independentes dele? Sua vida foi excessiva, escandalosa, mas também já um esforço pela sua autodeterminação que as feministas só se deram conta muito depois.

Sem as grandes mudanças ocorridas no século XIX não estaríamos onde estamos, nem teríamos o que temos hoje.O século XIX foi transformador: trouxe a derrota de Napoleão Bonaparte e guerras arrasadoras; a revolução industrial e o surgimento do capitalismo em expansão rápida; o enfraquecimento do poder monárquico e da igreja, a formação de estados políticos, e principalmente os movimentos sociais de reivindicações de direitos – a classe trabalhadora explorada se tornou consciente de seu poder de luta. E sobre os direitos da mulher, ainda como impulso da Revolução francesa no século anterior, já se começava a debater e a aparecer pequenas mudanças, sobretudo a partir da segunda metade. Também neste século cresceu a produção escrita por mulheres na Europa, como um paradoxo genial da limitada formação escolar e restritas atividades de trabalho reconhecidas para elas. Até então se atribuía às moças como trabalho fora de casa, a função de empregadas domésticas e babás – o que não lhes traziam conhecimentos extras, a não ser conviver com os modos e costumes de famílias bem situadas. As moças que tiveram a chance de aprender a ler e escrever, ou até de frequentar uma escola, podiam exercer funções de governantas, professoras de crianças, acompanhantes, ou tocar um instrumento musical, como a harpa, que era bem solicitada. Saber escrever, criar estórias e fazer disto um ofício tinha que ver com saber aproveitar sua capacidade de expressão em favor de ganhar algum dinheiro para ela, para a casa, para os filhos. Nem todas assinavam seus textos; por um lado para protegerem seus nomes – o valor da mulher estava no papel de esposa, dona de casa e mãe, o qual era cobrado sem pena pela sociedade, e a autoria revelada podia sujar sua reputação; por outro, ao dar uma autoria masculina aos seus escritos lhes aumentava a chance de aceitação e até de publicação; e até seus nomes serem colocados na capa de seus livros, tem que ver com direitos essenciais conquistados já no século XX, pois nada está desconectado e a emancipação é um processo de mudanças empurrado por alguma carência, seja material ou emocional.

As primeiras estórias escritas por mulheres deixaram um legado ao que se chama hoje de literatura feminina, ou romances para mulheres. Estes são os que mantêm a tradição do que era abordado como tema central – a vida amorosa das mulheres, os amores contidos e impedidos, o sofrimento do casamento, mas também sua ânsia por ele: „Melhor qualquer casamento do que nenhum“, era o que se afirmava e conduzia mulheres com frequência a matrimônios malogrados só por ser a única chance de saírem da casa dos pais e evitar o negativo emblema familiar e social de solteirona, pois no casamento estava depositado seu objetivo e seu futuro. Ela sonhava com ele, o idealizava, também esperando encontrar nele o amor e a sorte de poder subir na escala social e garantir um futuro materialmente satisfatório. Este modelo de novela massificou-se, considerado hoje o tipo de romance não só mais lido por mulheres, mas também escrito por elas. Na Europa e nos Estados Unidos estes romances são bem vendidos, eles têm uma estrutura nada complexa de uma saga familiar, ou de mulheres nos seus papéis atuais na sociedade: a mulher que não abdica de sua independência, mas ainda sonha com o Mr Right, ou os problemas da mãe e da mulher divorciada que trabalham, ou o apaixonar-se na idade madura, enfim a mulher ainda mais envolta com as vicissitudes do amor do que com outras questões. E daí a tendência de homens vê-los de forma negativa, como livros exclusivos para elas – porque eles não leem estes livros, claro! Mas claro podem escrevê-los! E é aí onde a situação se inverte: para atender a procura deles no mercado de vendas – homens escrevem romances de amor sob o pseudônimo de mulheres. E por que não?
A atividade de escrever aliada à formação escolar deu a mulher a possibilidade de emancipação, apesar de suas dificuldades e restrições do início. As exigências eram grandes para que uma mulher pudesse assumir um cargo de redatora na imprensa ou de fazer correções de textos. Como esperar tanto daquela que recebeu uma escolaridade inferior ao do homem? Só as privilegiadas aprendiam a gramática, as línguas clássicas e filosofia, mas ainda assim a ocupação de escrever era mais assunto de homens. Então, de fato quando mulheres se metiam a escrever eram perigosas porque se intrometiam em atividades que não lhes eram concedidas. Até hoje, escrever é para a mulher um reduto, um trabalho de concentração que entra em choque com exigências ao seu redor. Não é fácil aceitar que ela se retire dos demais por longo tempo, que não deva ser interrompida e que tenha seu próprio recinto – que é essencial, como já reivindicava Virginia Woolf. A mulher que escreve se entrega, mas ao seu mundo particular, ao seu trabalho exclusivo como se tivesse ela uma vida paralela que só a ela pertence . Quanto às profissionais, as que conseguiram se estabelecer e fazer de seu trabalho como escritora um meio de independizar-se economicamente,  estas são mais respeitadas, – mas será que gozam de plena liberdade sem culpar-se? Escrever não é um trabalho cômodo, mas bem exigente quanto à dedicação, – e as mulheres aprenderam a ser devotas, mas ao marido, a casa e aos filhos – teriam elas por isso que viver sozinhas para empreender melhor seu ofício de escritora? Não. Nós mulheres sabemos que desde cedo vivemos envoltas de compromissos com a, b, e c, e que para autodeterminarmos temos que ter coragem de vencer o que nos impede.

Dedico este texto a nossa primeira escritora brasileira Maria Firmina dos Reis – 1822-1917, corajosa abolicionista e conhecedora do sofrimento e da exploração dos negros. Seu único romance „Úrsula” foi publicado em1860, sob a autoria de „uma maranhense“. As mulheres brasileiras devem orgulhar-se de ter uma mulher negra como iniciadora da literatura escrita por mulheres.

AMAR É … CASAR É …

 

„É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.“

Mais explícita não podia ter sido Jane Austen ao começar seu romance Orgulho e Preconceito, publicado em 1813 na Inglaterra. O tema é óbvio para a sociedade da época, quando rapazes e moças – sobretudo das classes média e alta – se buscavam mutuamente também pretendendo  fazer do casamento um assunto vantajoso: elas se empenhavam em encontrar aqueles que lhes garantiria uma vida cômoda, retribuindo-lhes com um relacionamento invejável e uma família exemplar; e eles, sabedores de suas vantagens no assunto de casamento, podiam escolher, entre outros requisitos, aquelas com mais atributos de beleza. E o amor não contava além da segurança material e do laço conjugal? Claro. Os jovens também sonhavam com a paixão, com o amor e o afeto e desejavam que tudo isso viesse a juntar-se com o inevitável plano da segurança econômica e social. Jane Austen escreveu e reescreveu Orgulho e Preconceito por ter sido o primeiro manuscrito recusado em 1897; ao publicá-lo ela se absteve de sua própria identidade, mas também não deu ao seu livro um pseudônimo masculino, limitando-se com a autoria de By A Lady – Por Uma Dama. Jane Austen faleceu em 1817 e não foi a única a não revelar seu nome verdadeiro como escritora; um ano antes de sua morte nascia Charlotte Brontë; em 1818 e 1820 suas irmãs Emily e Anne – as famosas irmãs Brontë – que tiveram de recorrer a um pseudônimo masculino para serem publicadas. Outra, como a francesa Aurore Lucile Dupin nunca foi conhecida como escritora, ensaísta e crítica da sociedade da época, mas sim como George Sand que também se trajava de homem em público – fosse talvez isso mais cômodo?

No século XVIII mulheres escreviam sobretudo cartas, enveredavam em longas correspondências – onde a alma e os sentimentos protagonizavam – e faziam-se também de homens nas respostas. Havia já uma relativa produção escrita justificada por uma tal ociosidade das mulheres por permanecerem mais tempo em casa que os homens; também neste século incrementava-se a produção de objetos manufaturados e vendidos para diminuir os esforços de trabalhos caseiros como costurar, tecer, cozinhar, fazer pão e até sabão. O século seguinte assentou o romance de amor como a ficção de intrigas, dramas, sucessos e insucessos que envolviam um tema tão requisitado por mulheres – o amor – e havia mais vida interior que social – era como se só mulheres pudessem escrever sobre o que interessavam a mulheres. Como sorte ou azar a cultura de ler exercida por mulheres começa aí e ainda persiste no modelo deste tipo de romance: há muito mais escritoras de estórias de amor e sagas de famílias que escritores, e muito mais mulheres que homens que leem estes livros. Por quê? É a sensibilidade feminina como se esta fosse biológica? Claro que não. Isso tem que ver com o que as mulheres adquiriram na vida durante séculos: confinadas em ideologias discriminatórias e reduzidas a papeis pré-estabelecidos, as mulheres participavam menos das decisões sociais, alinhando-se ao que lhes restava como competência – os assuntos do casamento, do amor, da família.

Como quantidade não tem que ver com qualidade Jane Austen assistiu à virada do século dezoito para o dezenove com apenas 25 anos de idade, e a sua genialidade foi ter saído do esquema formal da época e de ter dado ao seu romance, sobretudo, Orgulho e Preconceito a qualidade de ter sido perspicaz ao tratar de um tema tão corrente na época como o de casar, mas com quem? Também o de ter mostrado o comportamento das personagens – às vezes ironicamente, outras as pondo à luz do orgulho ostensivo e da insolência – de ter posto em questão o que se acreditava como verdade, e de ter apresentado soluções para problemas que só desuniam os dois enamorados. Jane Austen deu a seu romance de amor muito mais que intrigas e fatos passados; sua lucidez com o presente é grandiosa para acertar na reflexão como indispensável antecessora de decisões; e mais, ela desmistificou a primeira impressão, o amor à primeira vista como provas de certificação do amor duradouro; enfim, não é o amor que tudo salva, mas o que precisa ser salvado.

Jane Austen é lida até hoje, seus quatro mais importantes romances – Senso e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Emma, Persuasão e Mansfield Park – já foram traduzidos em muitas línguas e filmados várias vezes; é a prova de que eles ainda alcançam necessidades literárias, sejam pela forma ou pelos temas tratados, quando lidos e contemplados hoje na mocidade do século XXI, nos dá a satisfação de termos superado esse tempo, no qual o casamento era sem dúvidas o meio de sobrevivência para a mulher deixar a casa dos pais e ganhar uma suposta falsa liberdade que só consistia em substituir o dono da casa: antes era o pai, depois o marido. Mas será que superamos mesmo esse tempo? Não é ainda hoje o casamento menos que um laço de amor, um contrato vantajoso para ele, para ela, para os dois, para os filhos, para a casa própria, para a aposentadoria, para os impostos? São inúmeros os proveitos que o casamento oferece, e ainda assim queremos justificá-lo com o amor, como se este tivesse o selo de existir recebido daquele até que a morte o desfaça. Este selo é real, ele é a certidão de casamento, e apesar de ele poder ser desfeito dando lugar a outro casamento ou não, queremos que só o amor nos una de verdade. Jane Austen sabia de tudo isso, e mostrou que é melhor salvar o amor do que esperar que este salve as complicações do casamento. Fica aqui a velha receita vinda do século passado.

 

Próxima postagem: 17/12/19

 

A CULTURA DA XINGAÇÃO

Como o povo brasileiro está expressando seu mal-estar e demonstrando a sua revolta frente à atual situação política e econômica do país? Estão indo às ruas para protestar? Pelo menos no momento ainda não o suficiente, e nem de longe como são os protestos no Chile. Mesmo que, os que estão no poder instrumentalizem as instituições e procedam contra a constituição, o povo está até agora calado, e passivamente parece submeter-se às medidas aprovadas pelos tais lá de cima, sejam elas a reforma da previdência, as privatizações de estatais ou os cortes na educação, sem falar no desacato do presidente da república ao nosso ecossistema, aos nossos primeiros nativos, como parte integrante da nossa etnia, e a indiferença ao povo necessitado. Pergunto-me às vezes com muita dor se a Vaza Jato ainda tem sentido, levando em conta que as revelações do site Intercept, não só de atos ilegais, mas de extremos abusos de poder, até agora têm deixado incólumes os acusados. Os pivôs da Lava Jato continuam no poder desfrutando de suas liberdades enquanto o ex-presidente Lula segue detido esperando sua liberdade justa – mas de onde ela virá? Do próprio judiciário que o meteu na prisão? Ou da enfim inconformidade do povo que atuará como pressão? Lembro-me de que o jornalista Pepe Escobar numa entrevista à TV247 perguntou a Leonardo Attuch por que o povo brasileiro não se rebelava. Attuch se limitou a dizer que isso era uma boa pergunta.

Ainda não há no Brasil razões suficientes que levem a manifestações de massa? Talvez. É que só os escândalos de políticos, suas brigas e já seus alinhamentos partidários prevendo às próximas eleições não são o que toca no âmago das necessidades do povo, ou seja, naquilo que o faz garantir sobreviver decentemente. No fim das contas são os direitos inatos das pessoas a um trabalho digno, a um salário condizente, a uma educação que forma, e ao direito tão básico quanto essencial: o de comer, vestir-se, calçar-se e locomover-se, que se restringidos, vão se transformar em energia perigosa e ameaçante a qualquer ordem estabelecida.

Enquanto isso a esquerda é atacada e criticada por não organizar o povo e mandá-lo para as ruas – está aguardando o momento histórico? O temor de cometer mais erros é maior do que arriscar-se em organizar o povo fora do tempo? E enquanto o povo aguenta, tem ele que canalizar seu sofrimento e raivas em alguma coisa: uma delas é xingar. Xingar é a via que expressa o descontentamento de um momento, se não podemos fazer mais do que vociferar; xingar é fácil e rápido e não requer reflexão. Não pode existir um diálogo à base de xingações, estas não descrevem a realidade e os fatos, não são objetivas – elas são descargas de sentimentos negativos por meio de expressões ou frases repetitivas, sem que nos deixem entender mais além do que elas dizem. Por outro lado todos nós xingamos; xingar faz parte da cultura, do modo de viver do dia-a-dia e presente nas sociedades: o povo xinga os políticos, estes xingam seus adversários e assim vai … Mas mesmo admitindo isso, nos fica um mal-estar, um vazio, pois a língua não serve só a pilhérias, e o que esperamos – eu, pelo menos – de um político é que ele se apresente e expresse-se acima do nível corrente e vulgar. É um erro crer que palavras como porra, cu, caralho e outras mais na boca de um político, o faz aproximar-se mais do povo. Não. Elas servem de fuga dos problemas reais e rebaixam-no, reduzindo-o a ser um desbocado, sem respeito, quebrando o seu distintivo: a habilidade e segurança de saber expressar-se nas situações mais críticas – política não é brincadeira não senhor!

Entre tantas, a briga da deputada Joice Hasselmann com os filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, o chamado Carlucho e o Eduardo Bolsonaro é um exemplo de como as xingações saem dos seus reais motivos e entram no paradigma de ataques a mulheres. Não só no Brasil, mas presente em outras sociedades, xinga-se de preferência usando um vocabulário referente aos órgãos sexuais; só que, e de forma machista, o genital feminino não é símbolo de grandeza nem de força, como se faz com o do homem: pau, cacete, pica referem-se ao membro masculino ereto, forte e produtivo, ou, em outros contextos, a palavra cacete marca uma intensidade. Já xereca, buceta, bucetuda reduzem à mulher ao seu genital como aquilo que o homem quer se apoderar, usar e gozar com ele. Com Joice Hasselmann não se chegou a este nível, mas ela mesma respondeu ao twitter, o da nota de três reais com a sua fotografia, do Eduardo Bolsonaro – uma ofensa a Hasselmann menos como deputada e mais como mulher – com um twitter similar: uma nota de cem reais com o rosto de Eduardo Bolsonaro escrito ao lado: Sem Pau. Não é preciso explicar mais.

A jornalista Cynara Menezes escreveu um artigo (*) no seu blog Socialista Morena que a onda de xingações ofensivas começou na abertura da Copa do Mundo no Brasil em 2014, quando a então presidenta Dilma Rousseff foi ultrajada em pleno estádio com um „vai tomar no cu“. Ela disse que nunca tinha visto aquilo, apesar de que já tinha coberto manifestações contra outros presidentes, como Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardozo. Depois, nos protestos a favor do impeachment da ex-presidente, esta foi – para mim – mais que xingada, foi insultada com nomes como puta, quenga e vaca. Senti a dor de Cynara Menezes ao ter escrito isto no seu texto, pois Dilma Rousseff não merecia esses insultos – ela era a primeira presidenta do país, além de ser mãe, já avó e com mais de 60 anos, segundo Menezes. A pergunta é se a extrema direita xinga mais do que a esquerda. Cynara Menezes acha que sim, pois eles foram às ruas para isso, mas remete ao „ei Bolsonaro, vai tomar no cu“ tanto no Rock in Rio quanto no estádio do Pacaembu em São Paulo como sinal de um enfraquecimento por falta de debates: “Não éramos nós que tínhamos mais conteúdo?” Pergunta ela. É como se o debate político tivesse sido ocupado por xingamentos, os palavrões por palavras de ordem, passando-se assim a agir como os opositores, os verde-amarelos, que – parece – se mobilizaram mais. O povo, para ela, está apático “como bois indo pro matadouro” e nessa “inércia” vive limitado a hashtags, twitters e memes nas redes sociais. Parecendo até nostálgico, ela relembra alguns daqueles ditos que popularizaram os protestos contra Fernando Collor e Fernando Henrique Cardozo; expressões que longe de insultar os tais, entoavam rimando a insatisfação do povo: “Rosane, que coisa feia. Vai com Collor pra cadeia.“ Ou: “Ê Fernandinho/vê se te orienta/ já sabem do teu furo/no imposto de renda”.

Seu artigo também postado no site 247 teve muitos comentários, sendo a maioria do contra – claro – alegando que a autora quer moralizar, e que o “vai tomar no …“”não é negativo nem indecente por a expressão perder seu sentido original ao ser muitas vezes exclamada por uma multidão, a qual não se sabe se é de direita ou esquerda; são apenas pessoas que têm o direito de gritarem sua insatisfação. Um deles disse que o povo só entende nesse nível porque debates não elegeram Fernando Haddad. Compreendo, só que a meu ver Cynara Menezes não foi entendida. É que num contexto mais amplo xingar fica por isso mesmo, não transcende, não alcança a dor, o essencial que devia ser dito, mas que fica calado por só ser manifestado por palavrões. É um desembestado de palavras movido por emoções negativas. “Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito que está preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar?” Escreveu Menezes. E depois?

Nunca ficou tão claro como nos nossos dias que o Brasil tem um reduto de malfeitores. Contudo se o povo insatisfeito se contenta só em xingar seus agressores, ele não sabe ainda mobilizar-se ou não está maduro para isso. Uma coisa sabemos: xingar faz de quem xinga forte, talvez por isso o Olavo de Carvalho se sinta grande e importante. Mas sobre ele não quero escrever.

 
(*) O artigo de Cynara Menezes de 8/10/19 é: „Ei, Bolsonaro, vai tomar no …“: O Brasil trocou as palavras de ordem pelos palavrões

 

 

Próximo post: 26/11/19

Mamãe, não sou mais virgem!

 

Boa ou má notícia? Muitas mães preferem não ouvir tal verdade, e esta é a razão porque muitas jovens têm medo de contar-lhes que não são mais virgens e que o controle do corpo agora têm elas. Elas deram um passo irreversível, entraram para a vida de ser mulher feita e donas de seu corpo com o direito ao prazer, mas também com todos os riscos que isto pode trazer: gravidez indesejável, doenças contagiosas e deficiências como a AIDS, como também maus parceiros. Foi, porém, esse passo resultado de uma decisão consciente e acertada? Não se sabe a priori, mas o mais importante a partir daí é se elas estão preparadas para viver consciente e plenamente sua sexualidade, o que, por outro lado, nada disto é fácil por não só está implicado com a educação recebida em casa e na escola.

Verifiquei nas minhas pesquisas que a insegurança – considerada normal – frente à primeira relação sexual é bem menor nas jovens do que o medo de que os pais a descubram, ou de contar em casa, sobretudo à mãe. O medo de falar está carregado de culpa, vergonha e ameaças de serem controladas. Terem optado, contudo, por não ser mais virgens foi um ato de independência – seja este consciente ou não – termina ele drasticamente numa separação. Embora a jovem continue a viver sob o mesmo teto com os pais, ela já faz coisas sem pedir-lhes permissão – ela já tem uma privacidade. Para muitas jovens isto parece ser como viver uma vida dupla por ter quebrado a confiança dos pais; elas sabem como eles irão reagir e isto as perturbam. Infelizmente esta é uma situação ainda vivida em muitas famílias brasileiras; outras culturas, pelo contrário, são mais flexíveis, não estão orientadas por valores rígidos e conservadores e investem mais em esclarecimentos. Decisivo é como a relação familiar está articulada – caso a comunicação em casa esteja dirigida para orientar com respeito e infundir confiança, o medo não terá razão de ser, pois a jovem não sentirá vergonha ou culpa de sua decisão, e decidirá por ela mesma se contará em casa ou não.

Muitas mães não só esperam que suas filhas lhes contem tudo, mas acham que elas devem ter essa obrigação – impossível – e sentem-se desobedecidas e até traídas ao não serem informadas ou procuradas para uma conversa particular. Aí falta o respeito à filha que por sua vez está formando sua privacidade. A confiança se dá com base num diálogo sincero e requer respeito das partes. Onde as prioridades são formas de cobranças, ameaças e até chantagens não pode haver diálogos, senão autoritarismo. Essas mães não sabem lidar quando suas filhas chegam à puberdade e têm a primeira regra; elas se preocupam demais e confundem cuidados normais com ordens e proibições. As transformações físicas causadas pela produção do hormônio estrogênio podem constranger as meninas, e elas devem ser esclarecidas, respeitadas e nunca motivos de troças. Mudanças emocionais e sentimentos de valor aparecem após o primeiro sangramento menstrual: sou mesmo valorosa?
No Brasil a primeira relação sexual pode passar já aos quinze anos ou antes, ou seja, na puberdade; nas classes mais baixas a promiscuidade entre familiares pode acelerá-la tornando este contato forçado, dolorido e traumático, e não é raro que meninas engravidem por ele, sem querer obrigadas precocemente a entrar na vida adulta quando podiam ainda estar na escola. Tirando esse aspecto cruel do primeiro ato, meninas estão perdendo a virgindade cada vez mais cedo, mas para cumprir outras exigências comparadas a nossos antepassados. A minha avó, por exemplo, engravidou de sua primeira filha – a minha mãe – aos treze anos já casada, para formar uma família e ser a mulher do meu avô, sustentada e protegida por ele. Contando isto a uma roda de mulheres durante um jantar, uma delas disse que para a minha avó isso foi como uma violação – sim, uma violação permitida. Hoje, parece-me que o período da infância está se encurtando, mas por outras razões: as facilidades que a vida oferece, o acesso rápido a informações e contatos, os apelos ao desfrute da vida são o que conduzem as jovens a se desenvolverem mais rápido, querendo ter experiências inusitadas que encham e deem um sentido à vida.

Os pais devem compreender e aceitar que os diálogos prestadores de contas das filhas vão deixar de existir, dando lugar a livre iniciativa e a prática de tomar decisões dos seus atos por elas mesmas, minimizando a influência deles. É que nesta constelação não se pode falar de tudo; é o momento de admitir que suas filhas já têm uma privacidade, e eles serão convidados a participarem dela, se elas quiserem. O dito „minha mãe é minha melhor amiga“ parece mais ficção do que realidade, pois o laço que une mãe e filha não é o mesmo que une duas amigas íntimas; na relação entre pais e filhas os papeis de ambos vão estar sempre presentes, determinando e cobrando suas partes. Melhor do que esperar da filha uma amiga aberta é fortificar os laços de confiança entre eles. Lembro-me que numa das minhas viagens ao Brasil, fui apresentada a uma jovem entre dezessete e dezoito anos que chegou com o seu namorado durante um almoço na praia. Depois que eles foram embora, o pai da moça me falou num tom resignado: „ela já fez“. Eu perguntei-lhe se ela o tinha contado, ou se ele a abordara. Não, nada disso. Então disse-lhe que ele estava agindo muito bem, que a deixasse em paz, que o fato de ela ter feito ou não era um assunto que só a ela cabia. Ainda que abatido, ele me confirmou. Acho que ajudei este pai a aceitar suas limitações e a nutrir respeito pela filha.

Por que a virgindade ainda é essencial em certas culturas, se ela como uma membrana fina e elástica pode ser rompida por um tampão, ou em certas práticas de esporte ou dança, ou até mesmo com o uso do dedo? Só para manter os valores patriarcais submetendo as mulheres ao domínio deles – claro, mas não só. Também certas religiões impondo as noções de pureza e pecado guardam a virgindade até o casamento, oferecendo-a ao marido após terem recebido a bênção de Deus. No fundo é a visão de pecado que prevalece ao considerar a sexualidade humana, e esta visão reduzida e ignorante é responsável, se de um lado pela abstinência do ato sexual como dever, por outro por excessos. Nada foi tão usado como objeto ideológico como a sexualidade: ou ela está pairada sob as sombras do pecado, ou é usada como fator de domínio exclusivo do marcho – os dois aspectos se complementam, e para sair destes extremos precisamos de muita luta de emancipação. E as nossas fantasias, estes depósitos imaginários? Aonde eles nos levam? Ao perigo? Que nos salvam?

As mães, principalmente, não podem garantir que suas filhas tenham uma vida sexual satisfatória, mas podem contribuir para isto desde o estabelecimento da autoconfiança até a consciência do corpo e o respeito por ele.