LICENÇA PARA MATAR

Há exatamente um mês passou em Campinas a morte de doze pessoas enquanto comemoravam a entrada do ano novo. Este post é uma forma de lembrar esta tragédia. Também  pretendo com ele promover uma reflexão mais aberta, aproveitando a vantagem que uma certa distância de tempo nos dá para entender melhor este sucedido já tão discutido.

“Agora na rua onde moro / há uma mulher sentada / e enquanto a noite vai entrando calmamente / ela diz: quem vai tirar dele a licença para matar? “ („Now, there’s a women on my block/ She just sit there as the night grows still./ She say who gonna take away his license to kill?)
São palavras que descrevem um quadro difícil, abstruso, como se fosse um sonho, que nos deixa sem saber o que dizer diante de formas que por serem tão insociáveis, se tornam tão incompreensíveis. Este quadro insólito e onírico está expresso nos versos de Bob Dylan da canção “License To Kill”. Ele os escreveu compondo um ambiente vago, minimalista, formado por poucos elementos – por mais que as palavras tenham conteúdo concreto, ainda assim nos é difícil abarcar o que significam – como ao mesmo tempo irritante, porque não sabemos quem é essa mulher que fala, sentada lá. O título da letra já nos incomoda pela audácia e pela falta de um dispositivo moral – matar pode ser justificado por uma licença? Com esta pode-se matar pura e simplesmente, o que falta é só um motivo, não importando este qual seja? – o que nos leva até a pensar que assim o título seja uma confirmação ou mesmo uma ordem de matar, sem a leitura e a compreensão do poema.
Neste poema Bob Dylan se refere ao orgulho desmesurado numa sociedade materialista e dirigida ao egocentrismo, onde as pessoas foram preparadas desde cedo para seguirem um caminho destrutivo que, com certeza, lhes trará danos futuros, ou seja, uma sociedade, na qual o homem está condenado a ser destruído por ele mesmo, mas bem por não ter podido ver além de si mesmo: “ele se venera num altar de uma piscina inerte/ e quando vê seu reflexo, sente-se realizado”: („Now he workships at an altar of a stagnant pool/ And when he sees his reflection , he’s fulfilled.“);  por não ter podido ouvir palavras que não tenham sido as suas: “Ele só acredita nos seus olhos/ E seus olhos só dizem mentiras”: („ All he belives are his eyes/ And his eyes, they just tell him lies.“);  e assim por não possuir outro mundo fora este, onde já se sente ameaçado e em vez de ir para o céu, vai ser enterrado com estrelas: “Aí o conduzem para um caminho que só lhe trará danos/ Aí o enterram com estrelas”/: („And they set him on a path where he’s bound to get ill,/Then they bury him with stars,“ …).
Bob Dylan, que ganhou o prêmio Nobel de literatura de 2016, veio-me à tona com este
poema, exatamente pelo título “Licença Para Matar”, quando horrorizada me inteirei do terrível ocorrido em Campinas na noite da passagem para o ano novo. As feministas brasileiras têm razão: é o momento de gritar, acusar e reivindicar direitos que permitam às mulheres, em suas últimas instâncias, pelo menos o direito à vida. Quem lhe deu licença para matar a sua ex-mulher, seu próprio filho, mais dez pessoas e depois a si mesmo?  Infelizmente é verdade dizer que licença para matar, a receberam e ainda a recebem muitos, se lhes convêm que crimes sejam praticados. No entanto se procurarmos as fontes deste homicídio nas páginas da bíblia, podemos explicar esta chacina pela falta de fé em Deus? E com tudo o que a falta de um discernimento espiritual pode ser maléfico na nossa vida? Não quero me prender a questões de fé religiosa, pois até em nome de Deus ou de Cristo ou de Alá muitas pessoas foram mortas, e já se fizeram muitas guerras como ainda se fazem, embora suas causas no fundo, dizem muito mais respeito a outras questões: ideológicas por exemplo. E também porque tal explanação não caberia dentro dos ditames feministas, ora fortemente removidos e empregados com razão a defender suas causas, o que torna este crime  em nossos dias tomar outra dimensão com respeito a ser questionado. No século passado teria sido diferente… o ocorrido teria ficado nas mãos da polícia; o povo teria estado mais assustado e menos aclarado; a opinião pública teria estado mais dividida – não escapando as acusações à mãe: “como é possível que uma mulher impeça o pai de ver o seu filho!” – E as mulheres? Mais vulneráveis e mais temerosas. Entretanto não estamos mais no século passado, já estamos esclarecidas de muitas coisas e aprendemos com nossas próprias experiências para afirmar que o trabalho e a luta de conscientização da mulher no seu papel de esposa, mãe, companheira, trabalhadora, amante …  foi e é produtivo; mas nem por isso deixa-lhe incólume à ataques e até riscos de vida. É quando nos perguntamos se o fato de termos lutado para estar mais conscientes e seguras do que queremos  é suficiente para nos garantir um futuro promissor. Não é. E pode até ser perigoso, porque toda luta implica em combater os inimigos, e estes tendem a se revoltarem.
O machismo como ideologia  é uma afronta narcisista, não só contra as mulheres, mas também  a outros seres considerados pelo machista como inferiores, e crianças também podem ser um exemplo disso. Já sabemos que ele é despótico; tanto abusa, principalmente das mulheres, como as oprime por não aceitar que junto com elas poderia ser criada uma relação fundada no amor e em valores morais, tais como, o respeito, a lealdade, a fidelidade, a confiança, a justiça e outros mais. É neste ponto onde o machista mais fracassa, pois considerando o seu comportamento como um lema institucionalizado de vida, carece por isso mesmo da capacidade de amar, como bem diz Rómulo Sánchez Leytón no seu artigo “Machismo na América Latina”: “Como o machismo menospreza o amor natural, abre assim o caminho para violação ou gravidez indesejável” … , ou seja, todo ato de violência de um homem contra uma mulher tem como princípio a sujeição dela a ele, como necessidade de provar seu domínio e autoridade frente a ela. Como todavia esperar que ele a ame ou que ela o ame?
As feministas ainda têm razão quando denunciam essa pretensa superioridade do machismo, com o fim de deslegitimar  a discriminação contra as mulheres, como também com o fim de parar com coações, humilhações e mortes, como vemos no Brasil em proporções consideradas bem avançadas.
Por outro lado como reagem  machistas frente ao empenho sem pausa de feministas em acusá-los de seus atos infames? Em confrontá-los com a sua tirania e em mostrar-lhes seu caos interior? Sob a influência da emancipação da mulher numa sociedade, como a brasileira, por exemplo,  e a consequente aquisição de mais direitos em seu favor – embora alguns destes ainda não funcionem de forma integral – muitos homens podem descambar numa total desorientação, e em se tratando de machos, podem reagir ainda com mais violência por se sentirem fortemente atacados. É o nosso caso em questão?  Ele – que ao sentir-se desamparado, excluído de um mundo em vias de rebelar-se contra às suas convicções, fazendo suas colunas estremecerem – procurou com as suas próprias mãos „fazer justiça“: no fundo um ato solitário e cruel de um macho indignado, movido pelo medo e desespero de perder seus direitos, e também seu trono? Não sei. No entanto ao ler trechos de sua carta esclarecedora dos motivos do seu crime, não me pareceu que ele tivesse tido um, mas bem dei-me conta de um homem extremamente revoltado, isolado e fechado em si mesmo, encontrando na vingança o meio de descarregar seu ódio contra familiares de sua ex-mulher, na maioria mulheres, que para ele, eram elas a causa de seu desespero pela separação do seu tão”amado” filho. A meu ver no convívio entre pai e filho se encontra o que ainda não temos conhecimento ou nunca vamos tê-lo: que tipo de relação, na verdade, tinham os dois, chegando o filho a afirmar que quando crescesse mataria o pai? E embora nutrindo grande afeto pelo filho, por que escolheu o pai como forma de matá-lo uma verdadeira execução?
Também observei sua incapacidade de refletir sobre a situação, a que o conduziu a estruturas reduzidas de pensamento, formulando-as em categorias de causa e efeito ou de bem e de mal. É o que vemos em suas frases quando divide as mulheres entre boas e más, sendo estas tachadas de vadias; quando as vadias são feministas e ardilosas, ou quando diz que o feminismo é um sistema – desconhecendo assim de fato que esse „sistema“ é um movimento político e social? – Não importa se a sua definição de feminismo esteja correta ou não, e aqui não pretendo julgá-lo, mas sim ressaltar uma expressão movida por sentimentos de inferioridade, ira e vingança: uma vingança que o levou a sacrificar não só a sua vida, como também a de outras pessoas . Para mim sua falha trágica foi a de não ter sabido usar suas fronteiras. Mas isto não é o que implica o fenômeno da violência machista?
Levando em conta que a violência – também existindo entre as mulheres, embora em  proporções menores – é um fenômeno muito complexo hoje em dia, pergunto-me o que nos falta acrescentar a mais à parte das acusações, das denúncias e até das leis às arbitrariedades do machismo? Está a nossa linguagem já equipada suficiente de intenções que favoreçam um diálogo? Ou, como muitos acreditam, é impossível homens e mulheres dialogarem? Acho que não, mas para isto é imprescindível que as duas partes estejam preparadas, e foi o que faltou a Isamara Filier e a Sidnei Ramis de Araújo.