A COVID- 19 E EU

 

Meus cafés! Meus lugares preferidos de retiro intelectual, deixei de diariamente frequentá-los há três semanas, onde neles me sentava com uma xícara grande de café com leite, um livro, um caderno, um bloquinho de anotações – este está sempre comigo – e várias folhas soltas de papel anotadas, frases ainda não acabadas de pensamentos para revisar.

A Covid-19 me encerrou em casa – só saio para as pequenas necessidades e um passeio num parque perto de casa, se faz sol. Na Europa estamos apenas saindo de um inverno instalado desde dezembro; sem neve; sem quase temperaturas negativas, mas mesmo assim frio e de chuvas. Um inverno diferente dos que conheço desde que vivo no velho continente, e um inverno que desembocou numa pandemia – a dita Coronavírus – quando ele estava prestes a terminar, já cobrando a força da luz da primavera. A pandemia chegou quando já estávamos esgotados desse inverno chato e longo; ela apareceu num cenário que prometia logo mudar – só coisa de semanas – começando a esverdear-se e abrindo a oportunidade de que já começássemos a observar as plantas, os arbustos e a ver a terra salpicada aqui e acolá de flores miúdas e coloridas. Eu gosto de olhar, nos arbustos e nos galhos baixos das árvores, os rebentos, brotos minúsculos – mas que fortes são! – ainda fechadinhos, guardando aquilo que vai explodir na beleza de um sem números de folhas novas e brilhantes. Às vezes penso que devíamos aplaudir a natureza como agradecimento pela alegria que nos dá, e até como ato de contrição pela maldade que fazemos a ela.

Tudo isso está pra chegar, e está por precauções restringido o seu convívio. Os parques e jardins não podem se encher demais, as pessoas não podem sentar na relva em círculos – a distância de no mínimo um metro entre elas é inevitável. Será que em breve deixarei de assistir a tudo isso? Perderei as primeiras quenturas do sol das manhãs de primavera na calçada de um dos meus cafés prediletos? Ele agora está fechado, suas mesas da calçada atadas umas as outras – até elas aderiram à clausura, preservando-se do contato com os humanos.

Não estou nem nostálgica, nem „em busca do tempo perdido“ – nem o tempo está perdido para mim – no presente estou reservada e seca, aguardando o que não sei. Todos nós esperamos o que não sabemos – vai haver mesmo uma mudança pra pior como dizem os analistas políticos? Não queremos crer nisso, evitamos tais esclarecimentos, nos desviamos das distopias – que com certeza virão – como expressou Greta Thunberg em 2018: „Quero que vocês entrem em pânico“, referindo-se, claro, às mudanças climáticas. Estas aparentemente não têm que ver com a Covid-19, mas este tem que ver com exacerbações de medidas políticas, com irresponsabilidades de governantes, as quais também causam as mudanças drásticas no clima – não podemos estar tão apáticos a ponto de não levantarmos conjeturas e questionarmos de onde mesmo esse vírus se originou, embora não tenhamos respostas.

Quando da minha janela vejo de vez em quando adultos e crianças, – às vezes um cachorro os acompanha – tenho a impressão de que tudo está normal e pergunto-me se isso não passa de exagero; mas não está normal quando vejo alguém de máscara num supermercado e a lentidão dos caixas: PREZADOS CLIENTES MANTENHAM, POR FAVOR, AS DISTÂNCIAS MARCADAS NO CHÃO NAS FILAS DAS CAIXAS. Aí entro na realidade e sinto que estou suspensa no tempo, que um elevador me levou a um andar superior, sem que eu ainda não saiba quando ele me trará de volta à normalidade – como também à normalidade dos meus cafés. É que em casa a pandemia me chega pela mídia de forma virtual, por estatísticas de infectados e mortos pelo vírus, cenas muito rápidas de hospitais inundados de gente, médicos e enfermeiros esgotados. Mesmo com todo esse desconcerto não me deixo levar pela melancolia e afastar-me das coisas, estou até mais afiada, procuro concentrar-me naquilo que me interessa, mas não loucamente dar conta de tudo só porque estou mais tempo em casa. Não. Estou em passo de valsa procurando me harmonizar com as imposições impostas; não estou atrás das grades, mas até usufruo de minha semi-cadeia.

Assisti recentemente ao Pepe Escobar entrevistado por Leonardo Atuch no 247. Respeito muito suas análises géo-políticas, mas ele também flutua nas opiniões sobre a crise do coronavírus, ele não é o dono da verdade. A verdade nos chegará? O que está implícito aqui é quem tem a culpa e por quê, e não justificativas e explicações que se dizem verdadeiras: Tudo começou na China – mas será mesmo, ou o vírus foi levado pra lá? O vírus escapou de um laboratório americano, o Fort Detrick, que agora se encontra fechado, e foi levado pra China, e para isto existem explicações – mas, não há provas contundentes. E o que mais me irrita: por que o isolamento de todos, e não só daqueles mais susceptíveis é defendido como certo? E quanto às medidas de providência à população: de repente, em duas semanas de pandemia, certos governos liberaram trilhões em dinheiro, tornaram-se bondosos, prestativos e mandaram a uma grande parte da população ficar em casa; de repente apareceram reservas financeiras, intenções de dar créditos e criar dívidas – são partes do PIB anual à disposição – mas como restituir esse saco de dinheiro aos cofres das nações? Quem vai pagar isso de volta? Ou, a quem mandarão a conta? Por outro lado muitas pessoas acreditam que dessa reviravolta será a entrada no socialismo, – sobretudo nos países do dito terceiro mundo elas pensam que os governantes, por conta da pandemia, começarão a priorizar às necessidades do povo. Será assim? Claro que não.

Fala-se de uma vacina. Também será ela uma exigência das fronteiras, dos portos e aeroportos? Como não. Antes as vacinas eram prevenções às doenças ditas típicas dos trópicos, para que os viajantes não se contagiassem com elas lá encontradas. Agora antevejo que vamos a passar a ser tratados como animais que são vacinados por lei antes de entrarem em outros países. A ordem é que o viajante não leve o vírus aonde for. Mas teremos que comprar essa vacina? Ou será grátis para aqueles que não podem pagar? São perguntas e dúvidas que alimentam o nosso dia-a-dia; e até quando estivermos a salvos dessa pandemia, vamos esperar.

 

Próxima postagem: 28/4/2020

APLICATIVOS DE RELACIONAMENTO? POR QUÊ NÃO?

 

Yuval Harari, historiador israelense e autor do Best Seller Homo Deus: Uma breve história do amanhã, disse numa de suas entrevistas que o sentimento de satisfação dos seres humanos não depende exclusivamente de condições objetivas, mas, depende também do que eles imaginam produzindo expectativas com relação ao presente e ao futuro. Segundo ele, as condições objetivas melhoraram muito a partir das últimas gerações, não significando isto que as pessoas estejam mais satisfeitas que antes – suas expectativas é que aumentaram – e, paradoxalmente, a História mostra que até quando há crescimento social e econômico, as pessoas podem estar mais insatisfeitas porque suas expectativas se tornam maiores; e o que gera uma crise é quando as expectativas estão muito altas e o crescimento não prossegue, pois nenhum crescimento é ilimitado, disse Harari.

As expectativas não são sentimentos, são projeções cognitivas que atuam como variáveis, advindas geralmente de experiências passadas, que se dirigem ao presente, ou bem melhor ao futuro, como forma de antecipá-lo; ou seja, as expectativas têm que ver com resultados imaginados – desejados ou não – quer o contexto seja positivo, quer negativo. Alguma coisa vai acontecer, e se não há certeza ou garantia de como será, aparecem as expectativas alimentadas pela incerteza. Se num contexto positivo as expectativas não se efetivam, o resultado será uma decepção, e os exemplos, onde se as põem, são inúmeros: um concurso, uma eleição, uma viagem, ou conhecer uma pessoa. Aqui as expectativas podem assumir um caráter exigente e de demandas, prejudicando o anterior encanto do relacionamento. Quem vê o outro como aquele que deva ser como se espera dele, é isto enfocar-se só numa possibilidade que, sem dúvida, levará à frustração como produto de uma ilusão. Um dos grandes fardos da vida é querer ou ser forçado a corresponder às expectativas dos outros quanto à conduta de como se comportar; no fundo ninguém está no direito de corresponder ao que se espera dele, e aquele que espera mais do que o outro pode dar, cai sempre em decepção.

Eu, que tenho a tendência de sempre buscar fundamentos nos fatos, aonde quero chegar com esses conceitos que me custaram leituras e reflexão? Ao fato bastante comum hoje em dia de se usar as redes sociais como um meio de conhecer pessoas para um eventual relacionamento. Antes – quando por meio de cartas – esse meio era visto como não confiável e negativo; hoje, porém, estamos na era em que os meios digitais comandam nossa vida; meu Smartphone mede apenas treze centímetros – e não é um dos últimos modelos, – mas com ele posso abarcar o mundo, e se não o faço, preferindo ir ao computador, é pelo elementar prazer de não me sujeitar a uma coisa pequena e tão poderosa. Eu sou uma exceção; a maioria das pessoas usa o celular de modo generalizado, e por que não para conhecer alguém? Sim, por meio de aplicativos específicos, e um deles de alcance internacional é o Tinder. Este aplicativo é fácil de ser manejado e grátis numa de suas utilizações; nele homens e mulheres têm acesso a uma imensa galeria de pessoas, como um álbum de fotografias infinito, por que sempre aparecem mais ofertas, mais possibilidades, mais chances. Muitos podem encontrar nele seus parceiros, mas não acho que por sorte ou garantia dada pelo aplicativo; é que essa forma de conhecer pretendentes já se proliferou tanto que ela leva a que as formas clássicas fiquem um tanto desleixadas – quem passa muito tempo por dia com a cabeça afundada nesses tais aplicativos, deixa de ver o que passa ao redor – e isto tem que ver com expectativas. Se não fossem estas somadas às esperanças, os tais aplicativos não teriam tantos seguidores. Refiro-me aqui menos ao seu uso visando uma paquera inconsequente, mais ao uso daqueles que querem conhecer uma pessoa com o fim de um relacionamento pra valer, como sendo esse até o último recurso para encontrar o companheiro de vida.
Conhecer alguém fora desse formato é o que hoje me surpreende; ele é muito simples – tudo se faz com as mãos como se uma varinha mágica fosse um coração verde e movendo-o para a direita quando a foto de alguém junto a uma curta descrição dela agradam. E o melhor é quando esse alguém vendo a foto, também move a varinha mágica, ou seja, o coração verde, para a direita: aí acontece um match – bingo! – os dois sozinhos poderão paquerar virtualmente, conversar e marcar encontro. Nem sempre a varinha mágica funciona, nem sempre há match, por isso é tentador continuar buscando. Outra coisa é a comodidade e flexibilidade de uso para conhecer alguém, – em casa onde seja, nos intervalos de trabalho, antes de dormir, – é suficiente a existência de WI-FI no lugar para se entrar na rede virtual de buscas. Também poder selecionar a busca por idade é para aqueles na faixa dos 50 ou 60+ a oportunidade de se concentrar neste grupo e fazer da busca algo bem especial.
Fato é que o número de solteiros em geral vem aumentando no Brasil, e com ele mudanças se revelam criando uma forma de cultura. Uma mulher jovem de classe média que vive de seu trabalho e podendo morar sozinha, ainda pensa em casar nos moldes de sua mãe ou avó? Menos viável. Melhor ela tenta harmonizar seu estilo de vida a um relacionamento e a uma futura família adequados, porque seus parâmetros que definem um marido, um parceiro não só são bem diferentes de antes, como mais exigentes, e aí está o problema – mulheres que impõem pré-requisitos, dão prioridade a seus interesses e não se deixam levar pelas aparências, também querem determinar sua vida a dois, mas sem perder o encanto do amor. É possível? Essas mulheres não são compreendidas por homens bitolados em seus esquemas retrógrados – por outro lado, espero que elas também não precisem deles, mas nem por isso é simples assim. Por mais que mulheres tenham lutado pelos seus direitos na sociedade, não significa isso que elas tenham deixado de sonhar e idealizar modelos impossíveis.
O Tinder garante um espaço secreto nos chats, já que muitos dos participantes preferem não se alongar em seus perfis, mas priorizar nas fotos. Estas procuram satisfazer às tendências das redes sociais: as pessoas devem aparecer bonitas, atraentes, alegres e sociais, o que esta padronização leva a um anonimato para proteger a identidade. O que ele espera de mim? O que ela quer de mim? O que eu quero? Acho que só poucos se perguntam; o importante é ter expectativas e estar ligado no aplicativo como tantas outras pessoas – este aspecto dá conforto e segurança, apesar de conhecer, encontrar alguém por meio de um aplicativo de relacionamento é uma aventura, pois a pessoa aparece como algo isolado, pouco ou nada relacionado com outros aspectos da vida, saída de repente não se sabe de onde. Isto me faz lembrar dos flertes de minha juventude, – apenas nos olhávamos, talvez só uma vez por dia no ponto de ônibus, mas isso provocava ânsia e desejo de rever a pessoa. O tempo até que nós chegássemos a falar um com o outro nos enchia de expectativas e esperança, assim como dava a chance de averiguar sobre a pessoa, procurar saber quem ela é. Era muito bom.

MULHERES QUE ESCREVEM SÃO PERIGOSAS

 

Não quero afirmar aqui neste pobre texto que Mulheres que Escrevem Vivem Perigosamente, como no livro do mesmo nome, originalmente em alemão – Frauen, die schreiben, leben gefährlich de Stefan Bollmann, 2006, com um excelente prefácio de Elke Heidenreich, e que foi publicado em Portugal em 2007.

É que não me interessa agora a quantidade de escritoras que tiveram suas vidas marcadas por algum risco, ou uma vida beirando a morte: fosse por doença – Katherine Mansfield, Carson McCullers – fosse por obsessão excessiva de morrer – Sylvia Plath, Anne Sexton – ou como único recurso para livrar-se do sofrimento psíquico – Virginia Woolf. Todas são famosas e podemos conhecer suas vidas facilmente pela internet ou por livros; todas conseguiram alcançar a fama antes de morrer. Entretanto, e aquelas que nunca conseguiram exprimir seu talento por não serem levadas a sério, e se o fizeram foi com muita luta contra condições adversas só pelo fato de serem mulheres? A história da atividade escrita feita por mulheres também está cheia de repressões, proibições e exploração do seu talento e capacidade, tendo em vista proveito financeiro e notoriedade para outros – homens, claro. A escritora francesa Colette escreveu Claudine, uma série de quatro livros entre 1900 e 1903 quando então era casada com Henry Gauthier-Villars – o Willy – um escritor menor e 15 anos mais velho que ela, que abusou do talento da esposa, apropriando-se da autoria da série que foi publicada a princípio sob o nome dele: par Willy – saiu na capa – por Willy.

Zelda Fitzgerald também não escapou dos excessos do marido alcoólatra, o famoso escritor americano, Scott Fitzgerald. Ele a considerou como uma escritora de segunda classe e plagiadora no seu único romance publicado em 1932 Save Me The Waltz escrito em apenas seis semanas quando ela se encontrava numa clínica psiquiátrica, e por sentir-se melhor teve licença de escrever até duas horas por dia. De Zelda Fitzgerald restaram pinturas, artigos e estórias curtas – escritas às vezes em seu nome, outras no nome do casal, o que evidencia a sua presença na obra de Scott Fitzgerald. Se assim era, como não pressupor que algum conto publicado do escritor não foi de autoria só dela? Zelda Fitzgerald sofreu por não ter sido reconhecido seu valor artístico em seus escritos e pinturas – mas como escapar da sombra do autor do “Grande Gatsby” e receber méritos independentes dele? Sua vida foi excessiva, escandalosa, mas também já um esforço pela sua autodeterminação que as feministas só se deram conta muito depois.

Sem as grandes mudanças ocorridas no século XIX não estaríamos onde estamos, nem teríamos o que temos hoje.O século XIX foi transformador: trouxe a derrota de Napoleão Bonaparte e guerras arrasadoras; a revolução industrial e o surgimento do capitalismo em expansão rápida; o enfraquecimento do poder monárquico e da igreja, a formação de estados políticos, e principalmente os movimentos sociais de reivindicações de direitos – a classe trabalhadora explorada se tornou consciente de seu poder de luta. E sobre os direitos da mulher, ainda como impulso da Revolução francesa no século anterior, já se começava a debater e a aparecer pequenas mudanças, sobretudo a partir da segunda metade. Também neste século cresceu a produção escrita por mulheres na Europa, como um paradoxo genial da limitada formação escolar e restritas atividades de trabalho reconhecidas para elas. Até então se atribuía às moças como trabalho fora de casa, a função de empregadas domésticas e babás – o que não lhes traziam conhecimentos extras, a não ser conviver com os modos e costumes de famílias bem situadas. As moças que tiveram a chance de aprender a ler e escrever, ou até de frequentar uma escola, podiam exercer funções de governantas, professoras de crianças, acompanhantes, ou tocar um instrumento musical, como a harpa, que era bem solicitada. Saber escrever, criar estórias e fazer disto um ofício tinha que ver com saber aproveitar sua capacidade de expressão em favor de ganhar algum dinheiro para ela, para a casa, para os filhos. Nem todas assinavam seus textos; por um lado para protegerem seus nomes – o valor da mulher estava no papel de esposa, dona de casa e mãe, o qual era cobrado sem pena pela sociedade, e a autoria revelada podia sujar sua reputação; por outro, ao dar uma autoria masculina aos seus escritos lhes aumentava a chance de aceitação e até de publicação; e até seus nomes serem colocados na capa de seus livros, tem que ver com direitos essenciais conquistados já no século XX, pois nada está desconectado e a emancipação é um processo de mudanças empurrado por alguma carência, seja material ou emocional.

As primeiras estórias escritas por mulheres deixaram um legado ao que se chama hoje de literatura feminina, ou romances para mulheres. Estes são os que mantêm a tradição do que era abordado como tema central – a vida amorosa das mulheres, os amores contidos e impedidos, o sofrimento do casamento, mas também sua ânsia por ele: „Melhor qualquer casamento do que nenhum“, era o que se afirmava e conduzia mulheres com frequência a matrimônios malogrados só por ser a única chance de saírem da casa dos pais e evitar o negativo emblema familiar e social de solteirona, pois no casamento estava depositado seu objetivo e seu futuro. Ela sonhava com ele, o idealizava, também esperando encontrar nele o amor e a sorte de poder subir na escala social e garantir um futuro materialmente satisfatório. Este modelo de novela massificou-se, considerado hoje o tipo de romance não só mais lido por mulheres, mas também escrito por elas. Na Europa e nos Estados Unidos estes romances são bem vendidos, eles têm uma estrutura nada complexa de uma saga familiar, ou de mulheres nos seus papéis atuais na sociedade: a mulher que não abdica de sua independência, mas ainda sonha com o Mr Right, ou os problemas da mãe e da mulher divorciada que trabalham, ou o apaixonar-se na idade madura, enfim a mulher ainda mais envolta com as vicissitudes do amor do que com outras questões. E daí a tendência de homens vê-los de forma negativa, como livros exclusivos para elas – porque eles não leem estes livros, claro! Mas claro podem escrevê-los! E é aí onde a situação se inverte: para atender a procura deles no mercado de vendas – homens escrevem romances de amor sob o pseudônimo de mulheres. E por que não?
A atividade de escrever aliada à formação escolar deu a mulher a possibilidade de emancipação, apesar de suas dificuldades e restrições do início. As exigências eram grandes para que uma mulher pudesse assumir um cargo de redatora na imprensa ou de fazer correções de textos. Como esperar tanto daquela que recebeu uma escolaridade inferior ao do homem? Só as privilegiadas aprendiam a gramática, as línguas clássicas e filosofia, mas ainda assim a ocupação de escrever era mais assunto de homens. Então, de fato quando mulheres se metiam a escrever eram perigosas porque se intrometiam em atividades que não lhes eram concedidas. Até hoje, escrever é para a mulher um reduto, um trabalho de concentração que entra em choque com exigências ao seu redor. Não é fácil aceitar que ela se retire dos demais por longo tempo, que não deva ser interrompida e que tenha seu próprio recinto – que é essencial, como já reivindicava Virginia Woolf. A mulher que escreve se entrega, mas ao seu mundo particular, ao seu trabalho exclusivo como se tivesse ela uma vida paralela que só a ela pertence . Quanto às profissionais, as que conseguiram se estabelecer e fazer de seu trabalho como escritora um meio de independizar-se economicamente,  estas são mais respeitadas, – mas será que gozam de plena liberdade sem culpar-se? Escrever não é um trabalho cômodo, mas bem exigente quanto à dedicação, – e as mulheres aprenderam a ser devotas, mas ao marido, a casa e aos filhos – teriam elas por isso que viver sozinhas para empreender melhor seu ofício de escritora? Não. Nós mulheres sabemos que desde cedo vivemos envoltas de compromissos com a, b, e c, e que para autodeterminarmos temos que ter coragem de vencer o que nos impede.

Dedico este texto a nossa primeira escritora brasileira Maria Firmina dos Reis – 1822-1917, corajosa abolicionista e conhecedora do sofrimento e da exploração dos negros. Seu único romance „Úrsula” foi publicado em1860, sob a autoria de „uma maranhense“. As mulheres brasileiras devem orgulhar-se de ter uma mulher negra como iniciadora da literatura escrita por mulheres.

A CULTURA DA XINGAÇÃO

Como o povo brasileiro está expressando seu mal-estar e demonstrando a sua revolta frente à atual situação política e econômica do país? Estão indo às ruas para protestar? Pelo menos no momento ainda não o suficiente, e nem de longe como são os protestos no Chile. Mesmo que, os que estão no poder instrumentalizem as instituições e procedam contra a constituição, o povo está até agora calado, e passivamente parece submeter-se às medidas aprovadas pelos tais lá de cima, sejam elas a reforma da previdência, as privatizações de estatais ou os cortes na educação, sem falar no desacato do presidente da república ao nosso ecossistema, aos nossos primeiros nativos, como parte integrante da nossa etnia, e a indiferença ao povo necessitado. Pergunto-me às vezes com muita dor se a Vaza Jato ainda tem sentido, levando em conta que as revelações do site Intercept, não só de atos ilegais, mas de extremos abusos de poder, até agora têm deixado incólumes os acusados. Os pivôs da Lava Jato continuam no poder desfrutando de suas liberdades enquanto o ex-presidente Lula segue detido esperando sua liberdade justa – mas de onde ela virá? Do próprio judiciário que o meteu na prisão? Ou da enfim inconformidade do povo que atuará como pressão? Lembro-me de que o jornalista Pepe Escobar numa entrevista à TV247 perguntou a Leonardo Attuch por que o povo brasileiro não se rebelava. Attuch se limitou a dizer que isso era uma boa pergunta.

Ainda não há no Brasil razões suficientes que levem a manifestações de massa? Talvez. É que só os escândalos de políticos, suas brigas e já seus alinhamentos partidários prevendo às próximas eleições não são o que toca no âmago das necessidades do povo, ou seja, naquilo que o faz garantir sobreviver decentemente. No fim das contas são os direitos inatos das pessoas a um trabalho digno, a um salário condizente, a uma educação que forma, e ao direito tão básico quanto essencial: o de comer, vestir-se, calçar-se e locomover-se, que se restringidos, vão se transformar em energia perigosa e ameaçante a qualquer ordem estabelecida.

Enquanto isso a esquerda é atacada e criticada por não organizar o povo e mandá-lo para as ruas – está aguardando o momento histórico? O temor de cometer mais erros é maior do que arriscar-se em organizar o povo fora do tempo? E enquanto o povo aguenta, tem ele que canalizar seu sofrimento e raivas em alguma coisa: uma delas é xingar. Xingar é a via que expressa o descontentamento de um momento, se não podemos fazer mais do que vociferar; xingar é fácil e rápido e não requer reflexão. Não pode existir um diálogo à base de xingações, estas não descrevem a realidade e os fatos, não são objetivas – elas são descargas de sentimentos negativos por meio de expressões ou frases repetitivas, sem que nos deixem entender mais além do que elas dizem. Por outro lado todos nós xingamos; xingar faz parte da cultura, do modo de viver do dia-a-dia e presente nas sociedades: o povo xinga os políticos, estes xingam seus adversários e assim vai … Mas mesmo admitindo isso, nos fica um mal-estar, um vazio, pois a língua não serve só a pilhérias, e o que esperamos – eu, pelo menos – de um político é que ele se apresente e expresse-se acima do nível corrente e vulgar. É um erro crer que palavras como porra, cu, caralho e outras mais na boca de um político, o faz aproximar-se mais do povo. Não. Elas servem de fuga dos problemas reais e rebaixam-no, reduzindo-o a ser um desbocado, sem respeito, quebrando o seu distintivo: a habilidade e segurança de saber expressar-se nas situações mais críticas – política não é brincadeira não senhor!

Entre tantas, a briga da deputada Joice Hasselmann com os filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, o chamado Carlucho e o Eduardo Bolsonaro é um exemplo de como as xingações saem dos seus reais motivos e entram no paradigma de ataques a mulheres. Não só no Brasil, mas presente em outras sociedades, xinga-se de preferência usando um vocabulário referente aos órgãos sexuais; só que, e de forma machista, o genital feminino não é símbolo de grandeza nem de força, como se faz com o do homem: pau, cacete, pica referem-se ao membro masculino ereto, forte e produtivo, ou, em outros contextos, a palavra cacete marca uma intensidade. Já xereca, buceta, bucetuda reduzem à mulher ao seu genital como aquilo que o homem quer se apoderar, usar e gozar com ele. Com Joice Hasselmann não se chegou a este nível, mas ela mesma respondeu ao twitter, o da nota de três reais com a sua fotografia, do Eduardo Bolsonaro – uma ofensa a Hasselmann menos como deputada e mais como mulher – com um twitter similar: uma nota de cem reais com o rosto de Eduardo Bolsonaro escrito ao lado: Sem Pau. Não é preciso explicar mais.

A jornalista Cynara Menezes escreveu um artigo (*) no seu blog Socialista Morena que a onda de xingações ofensivas começou na abertura da Copa do Mundo no Brasil em 2014, quando a então presidenta Dilma Rousseff foi ultrajada em pleno estádio com um „vai tomar no cu“. Ela disse que nunca tinha visto aquilo, apesar de que já tinha coberto manifestações contra outros presidentes, como Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardozo. Depois, nos protestos a favor do impeachment da ex-presidente, esta foi – para mim – mais que xingada, foi insultada com nomes como puta, quenga e vaca. Senti a dor de Cynara Menezes ao ter escrito isto no seu texto, pois Dilma Rousseff não merecia esses insultos – ela era a primeira presidenta do país, além de ser mãe, já avó e com mais de 60 anos, segundo Menezes. A pergunta é se a extrema direita xinga mais do que a esquerda. Cynara Menezes acha que sim, pois eles foram às ruas para isso, mas remete ao „ei Bolsonaro, vai tomar no cu“ tanto no Rock in Rio quanto no estádio do Pacaembu em São Paulo como sinal de um enfraquecimento por falta de debates: “Não éramos nós que tínhamos mais conteúdo?” Pergunta ela. É como se o debate político tivesse sido ocupado por xingamentos, os palavrões por palavras de ordem, passando-se assim a agir como os opositores, os verde-amarelos, que – parece – se mobilizaram mais. O povo, para ela, está apático “como bois indo pro matadouro” e nessa “inércia” vive limitado a hashtags, twitters e memes nas redes sociais. Parecendo até nostálgico, ela relembra alguns daqueles ditos que popularizaram os protestos contra Fernando Collor e Fernando Henrique Cardozo; expressões que longe de insultar os tais, entoavam rimando a insatisfação do povo: “Rosane, que coisa feia. Vai com Collor pra cadeia.“ Ou: “Ê Fernandinho/vê se te orienta/ já sabem do teu furo/no imposto de renda”.

Seu artigo também postado no site 247 teve muitos comentários, sendo a maioria do contra – claro – alegando que a autora quer moralizar, e que o “vai tomar no …“”não é negativo nem indecente por a expressão perder seu sentido original ao ser muitas vezes exclamada por uma multidão, a qual não se sabe se é de direita ou esquerda; são apenas pessoas que têm o direito de gritarem sua insatisfação. Um deles disse que o povo só entende nesse nível porque debates não elegeram Fernando Haddad. Compreendo, só que a meu ver Cynara Menezes não foi entendida. É que num contexto mais amplo xingar fica por isso mesmo, não transcende, não alcança a dor, o essencial que devia ser dito, mas que fica calado por só ser manifestado por palavrões. É um desembestado de palavras movido por emoções negativas. “Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito que está preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar?” Escreveu Menezes. E depois?

Nunca ficou tão claro como nos nossos dias que o Brasil tem um reduto de malfeitores. Contudo se o povo insatisfeito se contenta só em xingar seus agressores, ele não sabe ainda mobilizar-se ou não está maduro para isso. Uma coisa sabemos: xingar faz de quem xinga forte, talvez por isso o Olavo de Carvalho se sinta grande e importante. Mas sobre ele não quero escrever.

 
(*) O artigo de Cynara Menezes de 8/10/19 é: „Ei, Bolsonaro, vai tomar no …“: O Brasil trocou as palavras de ordem pelos palavrões

 

 

Próximo post: 26/11/19

Mamãe, não sou mais virgem!

 

Boa ou má notícia? Muitas mães preferem não ouvir tal verdade, e esta é a razão porque muitas jovens têm medo de contar-lhes que não são mais virgens e que o controle do corpo agora têm elas. Elas deram um passo irreversível, entraram para a vida de ser mulher feita e donas de seu corpo com o direito ao prazer, mas também com todos os riscos que isto pode trazer: gravidez indesejável, doenças contagiosas e deficiências como a AIDS, como também maus parceiros. Foi, porém, esse passo resultado de uma decisão consciente e acertada? Não se sabe a priori, mas o mais importante a partir daí é se elas estão preparadas para viver consciente e plenamente sua sexualidade, o que, por outro lado, nada disto é fácil por não só está implicado com a educação recebida em casa e na escola.

Verifiquei nas minhas pesquisas que a insegurança – considerada normal – frente à primeira relação sexual é bem menor nas jovens do que o medo de que os pais a descubram, ou de contar em casa, sobretudo à mãe. O medo de falar está carregado de culpa, vergonha e ameaças de serem controladas. Terem optado, contudo, por não ser mais virgens foi um ato de independência – seja este consciente ou não – termina ele drasticamente numa separação. Embora a jovem continue a viver sob o mesmo teto com os pais, ela já faz coisas sem pedir-lhes permissão – ela já tem uma privacidade. Para muitas jovens isto parece ser como viver uma vida dupla por ter quebrado a confiança dos pais; elas sabem como eles irão reagir e isto as perturbam. Infelizmente esta é uma situação ainda vivida em muitas famílias brasileiras; outras culturas, pelo contrário, são mais flexíveis, não estão orientadas por valores rígidos e conservadores e investem mais em esclarecimentos. Decisivo é como a relação familiar está articulada – caso a comunicação em casa esteja dirigida para orientar com respeito e infundir confiança, o medo não terá razão de ser, pois a jovem não sentirá vergonha ou culpa de sua decisão, e decidirá por ela mesma se contará em casa ou não.

Muitas mães não só esperam que suas filhas lhes contem tudo, mas acham que elas devem ter essa obrigação – impossível – e sentem-se desobedecidas e até traídas ao não serem informadas ou procuradas para uma conversa particular. Aí falta o respeito à filha que por sua vez está formando sua privacidade. A confiança se dá com base num diálogo sincero e requer respeito das partes. Onde as prioridades são formas de cobranças, ameaças e até chantagens não pode haver diálogos, senão autoritarismo. Essas mães não sabem lidar quando suas filhas chegam à puberdade e têm a primeira regra; elas se preocupam demais e confundem cuidados normais com ordens e proibições. As transformações físicas causadas pela produção do hormônio estrogênio podem constranger as meninas, e elas devem ser esclarecidas, respeitadas e nunca motivos de troças. Mudanças emocionais e sentimentos de valor aparecem após o primeiro sangramento menstrual: sou mesmo valorosa?
No Brasil a primeira relação sexual pode passar já aos quinze anos ou antes, ou seja, na puberdade; nas classes mais baixas a promiscuidade entre familiares pode acelerá-la tornando este contato forçado, dolorido e traumático, e não é raro que meninas engravidem por ele, sem querer obrigadas precocemente a entrar na vida adulta quando podiam ainda estar na escola. Tirando esse aspecto cruel do primeiro ato, meninas estão perdendo a virgindade cada vez mais cedo, mas para cumprir outras exigências comparadas a nossos antepassados. A minha avó, por exemplo, engravidou de sua primeira filha – a minha mãe – aos treze anos já casada, para formar uma família e ser a mulher do meu avô, sustentada e protegida por ele. Contando isto a uma roda de mulheres durante um jantar, uma delas disse que para a minha avó isso foi como uma violação – sim, uma violação permitida. Hoje, parece-me que o período da infância está se encurtando, mas por outras razões: as facilidades que a vida oferece, o acesso rápido a informações e contatos, os apelos ao desfrute da vida são o que conduzem as jovens a se desenvolverem mais rápido, querendo ter experiências inusitadas que encham e deem um sentido à vida.

Os pais devem compreender e aceitar que os diálogos prestadores de contas das filhas vão deixar de existir, dando lugar a livre iniciativa e a prática de tomar decisões dos seus atos por elas mesmas, minimizando a influência deles. É que nesta constelação não se pode falar de tudo; é o momento de admitir que suas filhas já têm uma privacidade, e eles serão convidados a participarem dela, se elas quiserem. O dito „minha mãe é minha melhor amiga“ parece mais ficção do que realidade, pois o laço que une mãe e filha não é o mesmo que une duas amigas íntimas; na relação entre pais e filhas os papeis de ambos vão estar sempre presentes, determinando e cobrando suas partes. Melhor do que esperar da filha uma amiga aberta é fortificar os laços de confiança entre eles. Lembro-me que numa das minhas viagens ao Brasil, fui apresentada a uma jovem entre dezessete e dezoito anos que chegou com o seu namorado durante um almoço na praia. Depois que eles foram embora, o pai da moça me falou num tom resignado: „ela já fez“. Eu perguntei-lhe se ela o tinha contado, ou se ele a abordara. Não, nada disso. Então disse-lhe que ele estava agindo muito bem, que a deixasse em paz, que o fato de ela ter feito ou não era um assunto que só a ela cabia. Ainda que abatido, ele me confirmou. Acho que ajudei este pai a aceitar suas limitações e a nutrir respeito pela filha.

Por que a virgindade ainda é essencial em certas culturas, se ela como uma membrana fina e elástica pode ser rompida por um tampão, ou em certas práticas de esporte ou dança, ou até mesmo com o uso do dedo? Só para manter os valores patriarcais submetendo as mulheres ao domínio deles – claro, mas não só. Também certas religiões impondo as noções de pureza e pecado guardam a virgindade até o casamento, oferecendo-a ao marido após terem recebido a bênção de Deus. No fundo é a visão de pecado que prevalece ao considerar a sexualidade humana, e esta visão reduzida e ignorante é responsável, se de um lado pela abstinência do ato sexual como dever, por outro por excessos. Nada foi tão usado como objeto ideológico como a sexualidade: ou ela está pairada sob as sombras do pecado, ou é usada como fator de domínio exclusivo do marcho – os dois aspectos se complementam, e para sair destes extremos precisamos de muita luta de emancipação. E as nossas fantasias, estes depósitos imaginários? Aonde eles nos levam? Ao perigo? Que nos salvam?

As mães, principalmente, não podem garantir que suas filhas tenham uma vida sexual satisfatória, mas podem contribuir para isto desde o estabelecimento da autoconfiança até a consciência do corpo e o respeito por ele.

FICA TUDO POR ISSO MESMO?

 

Desde que o site Intercept-Brasil vem revelando e publicando regularmente provas de ilegais procedimentos da força tarefa Lava Jato – as quais a incriminam de ter usado sua função e fachada de anti-corrupção para poder operar ilicitamente, tendo em vista interesses políticos de alas de extrema direita – que a culpa histórica atribuída ao Partido dos Trabalhadores-PT por atos de corrupção, incluindo a culpa máxima ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está em questão. É a hora de anti-petistas menos exacerbados darem o braço a torcer e admitirem o óbvio, o qual o ex-presidente Lula foi usado na operação Lava Jato para fins políticos, que a sua prisão foi para impedi-lo a se candidatar e vencer – com certeza – as eleições para presidente da república de 2018; e cabe agora ao povo brasileiro reconhecer essas provas como dados essenciais da inocência do ex-presidente exigindo a anulação do processo para que ele readquira seus direitos políticos perdidos – é que tudo isso não pode ficar assim por isso mesmo.

Tirando dos eleitores do presidente Jair Bolsonaro aqueles impregnados de ódio contra avanços sociais e valores democráticos, já há quem reflita, incitado pelo mau desempenho do governo dentro e fora do país. A vergonha que passa o Brasil no exterior é estrondosa, além das ofensas dirigidas desrespeitando pessoas públicas; assistimos ao despreparo intelectual de ministros, suas idiotices e frases sem nexo já estampadas pela imprensa internacional. O mundo está de olho no Brasil também pela eclosão dos incêndios na floresta Amazônica, e Jair Bolsonaro crê que pode iludir o mundo como se o mundo pensasse como uma das grandes partes dos brasileiros. Ou ele acredita que Donald Trump vai apoiá-lo sempre. – Na política pode passar muitas coisas, até Trump não ser reeleito nas próximas urnas. Mesmo assim isto não seria o fim do bolsonarismo.

Contudo o PT ainda é alvo de acusações – a começar pelo próprio presidente da república – como uma palavra de ordem que toma o todo pela parte – uma metonímia clássica – qualificando tudo e todos de corruptos: a ideologia, programas e todos os membros do partido. Agora está claro que o PT, mesmo tendo sua parcela de responsabilidade pela situação política desastrosa a que o Brasil chegou, não é ele o único responsável por ela. Os anti-esquerdistas radicais não querem admitir isso, e não se rebelam contra a política econômica do presidente atual, seus disparates verbais e nem o uso do nepotismo e da violência policial nas ruas. A antropóloga Isabela Kalil numa entrevista à TVT disse que uns 30% da população brasileira apoia a visão e postura de Bolsonaro sem detrimento de certas mudanças prometidas por ele; a isso se junta uma ética religiosa baseada em pólos de deus e demônio, do bem e do mal. Para ela esta visão maniqueísta vai se alargando a tudo que possa ser um perigo para a família de bem, para o bom cidadão, a educação dos filhos e a segurança pública. É quando a violência é justificada para defender o bem. Kalil entrevistou mães, que sem interesses partidários, preferiram votar no Bolsonaro só pelo seu programa de educação escolar – elas tinham medo de uma orientação educacional dita de esquerda, a qual iria desvirtuar o desenvolvimento „normal“ dos seus filhos. Uma preocupação limitada ao patriarcalismo conservador e fundador de uma sociedade estabelecida em estruturas rígidas. Para elas ir contra isso é corromper, disse Isabela Kalil.

Eu, quando contemplo o Brasil desde longe, da segura Europa, fico estupefata. A estupefação também ora é a reação de pessoas; elas já não mais me admiram por eu ser do país do calor, do carnaval e da alegria – o calor pegou fogo na floresta Amazônica, a alegria se perdeu na insatisfação e insegurança do povo, e o carnaval é cantado de verde e amarelo ao som do hino nacional com suas „margens flácidas.“ Pelo contrário elas me perguntam por que não se faz nada no Brasil, ou onde está a oposição. Conversando com uma amiga – que vem se interessando pelo Brasil desde que viu nos noticiários a floresta Amazônica incendiada – ela não pode crer que tudo fique por isso mesmo, que ao invés de se mostrar a verdade dos fatos, não se falou mais sobre eles. Minha amiga é partidária de algo como um conselho internacional de vigilância e proteção à floresta Amazônica, caso o povo brasileiro não tenha suporte para prezá-la e protegê-la. Esta forma de pensar já pode ser um consenso internacional – é o medo de que o pulmão da terra seja destruído por interesses sem escrúpulos. A questão da soberania brasileira, neste caso, tem menos peso, uma vez que a floresta – em face ao aumento das lutas pelo meio ambiente – é vista como um patrimônio da humanidade. Já Lula, quando foi entrevistado pelo jornal francês Le Monde, disse discordar do presidente francês Emmanuel Macron quanto à internacionalização da floresta, frisando que ela faz parte do patrimônio brasileiro. No fundo ele quer que os brasileiros se conscientizem do dever que têm de cuidar do seu meio ambiente. Ele tem razão.

Por ora o Brasil continua em ebulição: Jair Bolsonaro, como se diz na Alemanha, está como uma galinha cega. O fato de querer livrar um de seus filhos que está metido em corrupção junto com o seu assessor, o faz correr de um lado pra outro, despedindo gente aqui, colocando outros ali, brincando com o poder. E o PT se enfrenta mais uma vez a um grande desafio político depois de sua queda do auge do poder – é preciso ter paciência, saber estar sincronizado e efetuar articulações necessárias. Políticos astutos já se movimentam prevendo uma possível sucessão de Bolsonaro nas próximas eleições, mas antes disso, o povo brasileiro precisa fazer sua tarefa de casa: Lula tem de sair da prisão inocentado das falsas acusações que lhe fizeram. Lula Livre.

 

Próximo post: 7/10/2019

A vez do coração

                  

Quando fui vítima de um assalto no Brasil há mais de dez anos, no exato momento em que o assaltante me empurrava uma pistola contra o meu corpo, a única coisa que pensei de um relâmpago foi: „agora chegou a minha vez.“ Outros pensamentos não tive, a não ser que perguntei-lhe como uma autômata o que ele queria enquanto lhe oferecia minha bolsa linda, novíssima e cara – comprada só para a viagem – pendurada no ombro e ainda com o meu passaporte brasileiro dentro. „A gente quer o carro“, respondeu-me ele. Neste momento vi que seu colega assaltante empunhava uma pistola contra o peito do meu marido, tentando arrancar as chaves do carro de sua mão. Tudo isso foi em segundos até que alguém – um anjo talvez – passasse num carro por nós mostrando coragem e dissolvendo a situação, desfazendo o assalto. Não sei o que esse anjo falou ou fez para que os dois homens armados fossem embora.

Por que me lembro disso agora quando o que quero tão somente é esclarecer aqui o porquê não tenho escrito mais posts? Minha última publicação do blog foi há quase três meses, no seis de março com o texto „Essas meninas …“ E mais: o que estes dois fatos têm em comum? É que de novo chegou a minha vez, sem que eu tenha passado por outro assalto. Há coisas que chegam ou que passam na nossa vida, sem que tenhamos contado com elas – a vida é quando não a planejamos, diferente de como a queríamos que fosse. Nunca tinha sequer imaginado que iria ter problema de coração. Desde criança já ouvia deles, minha mãe falava das pessoas que sofriam do coração, usando bem os verbos sofrer ou ser já como prenúncio de morte, e com uma cara e um tom de voz que já deixava antever o enterro. Aqueles seus agouros estavam muito longe de mim, mas como criança não deixei de interiorizá-los para, como um paradoxo, defender-me deles mais tarde, afugentando-os de mim na idade adulta: nunca sofrerei ou serei doente do coração foi o meu lema para a vida.

Mesmo com esse mecanismo de defesa, não escapei. É claro que havia um medo latente, incubado pelos presságios de minha mãe contra ela mesma – era um tanto hipocondríaca, seu coração, porém, não foi o que pôs fim a sua vida, como ela acreditava. É que o medo para os hipocondríacos também tem a função de com ele e de antemão livrá-los do mal pressentido, apesar de que este uso não garanta nada. O medo, porém, não me incomodou com maus pressentimentos quanto ao meu órgão vital, o qual chamava e ainda o chamo de meu príncipe; até que ele, o meu príncipe forte e amado começou a sofrer, precisando de ajuda e pedindo socorro que foi além de minha capacidade. Assim fui parar num hospital para fazer uma tal de ablação cardíaca. Esta é tanto um procedimento como um tratamento, que a grosso modo, sob uso de sedativo, e por meio de um cateter, que é um fio fino e flexível, transportador de energia e que tem na sua ponta um elétrodo capaz de liberar energia fria ou de calor, esta última chamada radiofrequência. O cateter é introduzido numa veia da virilha, e daí ele chega ao coração para localizar as regiões onde impulsos elétricos indevidos são a causa da arritmia. A função dele – por meio de energia – é deixar um círculo de cicatrizes no tecido como um muro que impede a entrada daqueles impulsos elétricos danosos ao átrio, causadores de um tipo de arritmia chamada fibrilação atrial, que se não for tratada pode causar um AVC – um Acidente vascular cerebral. A arritmia cardíaca já é uma doença generalizada, o número dos que a padecem é de milhões e cresce, principalmente na idade avançada.

Assim sendo não faço parte de uma minoria, mas nem por isso sinto-me consolada, ao contrário, sinto-me retraída, e dou-me conta de que estou mais precavida e atenta, o que também é positivo. Em vez de correr para as atividades para economizar tempo, dou-me mais tempo para elas, procuro ser flexível e usufruo com isso. A minha vida mudou? Coisas mudaram no meu modo de viver; agora pertenço a uma grande maioria que por motivo de doenças cardíacas, toma medicamentos – só eu tenho que tomar três diariamente: pra isso, pra aquilo e aquilo outro que resguardam a minha convalescença. Sim, estou de resguardo sem ter parido, esperando que ele não seja pra toda a vida. O fato de ter ficado interna no hospital por dois dias, não me garante uma cura; não é verdade o que muitos médicos dizem sobre a eficácia imediata de uma ablação – há pessoas que já passaram por ela até três vezes sem que o procedimento tivesse tido sucesso; é bem provável que com a idade avançada o mal volte. Mas é possível evitar esse mal se ele não é hereditário ou uma falha orgânica? Como? Nem sempre, por mais que os médicos digam: viva mais devagar; faça exercícios físicos ou caminhadas, não engorde, evite café, chocolates e estresses – aqueles que levam o coração a galopar e a bater mais do que devia – os tais batimentos extras. Por outro lado, viver sem estresse não é possível e seria até monótono, pois até precisamos de alguns deles, que nos dê impulso, ou nos tire de um atoleiro, sobretudo durante o trabalho. Este é o bom estresse, aquele que quando já passado nos deixa satisfeitos, gratos e podemos relaxar bem.

Preparar-se para que o estresse atue positivamente é uma estratégia nova no dia a dia de trabalho em grande empresas: agendas cheias, pressão de colegas e chefes, tomar decisões, lidar com o público, etc.. requerem nervos fortes e um corpo ativo. Eu já passei por situações de estresse, nas quais pude concentrar-me, raciocinar e encontrar soluções. Por quê? É que de alguma forma estava preparada e ativa, por isso não fugi da situação, pelo contrário, pude pensar melhor e estar absorvida nela. Contudo esse modelo não pode funcionar sem margens de dúvidas; depois me senti exausta – não somos uma máquina.

Já o mau estresse começa quando nos encontramos frente a um desafio, ou sentimo-nos ameaçados por algo que vem de fora e não sabemos como superá-lo, ou por fraqueza nossa, ou por falta de tempo ou competência, ou por não estarmos em condições adequadas, e muito mais que tudo isso, pois as causas do estresse também são individuais. O corpo responde em segundos entrando em alerta pela liberação de hormônios, como a adrenalina, produzida pelas glândulas supra-renais e responsável por reações, como fugir ou lutar. Além disso a frequência de batidas do coração dispara, mais glicose entra no sangue, as atividades do estômago e intestinos se reduzem e a pressão do sangue sobe. Passado o estresse o corpo e a mente estão esgotados e necessitando de uma longa fase de relaxação e repouso, que possa revitalizá-lo. Sem essa fase e a constância dos estresses, aparecem entre outros problemas o de coração e o burn out.

Chegou a vez de ampliar o respeito a mim mesma, valorizar e praticar a paciência, ser mais cordial comigo e com os outros. Não foi em vão que do século XVI ao XVIII em Portugal se chamava de cordiais um remédio em forma de pedrinhas para fortalecer e confortar o coração. Sua preparação por monges ficou em segredo mantido por muito tempo; hoje, claro, se conhece a sua composição exótica. A cordialidade vem mesmo do coração e é mais do que a cortesia convencional criada por regras de como conviver socialmente. A cordialidade é delicada e terna, paciente e bondosa, ela quer harmonia.

Agora deixo claro que não quis aqui nem fazer um texto científico sobre a arritmia – o que escrevi sobre ela e o estresse é básico e corrente – nem dar conselhos a aqueles que padecem deste mal – o que posso dizer é que estou consciente do meu problema, conheço minhas restrições, mas estou vivendo, e isto é mais eficaz do que o medo de morrer. Fui estritamente pessoal sem, contudo, entrar em detalhes de como a doença me chegou e como sofri com ela. o que quis foi justificar minha ausência como blogueira aqui nesta rede social. Espero publicar de novo o quanto antes, mas como disse, ainda estou convalescente.