Mudanças

A palavra “mudança” tem uma variedade de usos: podemos mudar de casa, de trabalho, de cidade ou de país, de parceiro, de partido político ou de religião e, até é possível hoje em dia, mudar de sexo, o que é um tema bastante abrangente e delicado. Contudo a que me refiro é a outro tipo de mudança, ou seja, aquela que passa no nosso interior quando nos decidimos a agir e a reagir diferente frente a situações conflituosas. O que quer dizer isto? As mudanças têm muito que ver com nossos costumes, ou melhor, costumes ou padrões de comportamento negativos que são aquelas reações impensadas e automatizadas sem que nos dê tempo para refletir, mas deixando um sentimento de insatisfação, pelo qual sabemos que alguma coisa não anda bem conosco. Então essa é a oportunidade que a vida mais uma vez nos oferece para mudar alguma coisa no nosso comportamento, o que não é fácil e exige coragem porque requer um reconhecimento honesto de como somos realmente, seguido de uma autoaceitação incondicional. Eu só cheguei a compreender o que no fundo “mudar” significa, quando comecei a aceitar-me de verdade como sou e vi que na aceitação o processo de mudança já estava incluído. Além disso, o aforismo “tudo muda nessa vida” confirma o que as pessoas que não aceitam as mudanças, não podem reconhecer: nós mudamos todos os dias, nos tornando mais velhos: não somos mais a criança de outrora.
Segundo o que diz o dicionário, “mudança” é a modificação do estado normal de qualquer coisa; uma alteração; uma troca, sempre de uma coisa por outra. Mudar é uma dinâmica que implica levar uma coisa para outro lugar, dar uma outra direção e finalmente renovar. Se pensamos em um fato concreto como mudar de casa, por exemplo, é muito fácil aplicar as definições acima, pois podemos imaginar claramente o que as palavras expressam quanto a deslocar, substituir, renovar, etc. Mas quanto à mudança interior não é fácil nem trocar nem substituir formas de comportamento por outras.
Então podemos mudar mesmo? A partir daí dividem-se as correntes entre os que creem que as mudanças são possíveis, se realmente queremos mudar, bastando tão somente agir, e assim pensa o Dalai Lama; e há aqueles que pelo contrário defendem o dito popular: “o pau que nasce torto não tem jeito morre torto” e ainda há aqueles, para os quais as mudanças são o que eles mais temem. Não importando as posições, as mudanças podem acontecer para o bem ou para o mal. Aqui não quero entrar em aspectos morais, mas sobretudo sobressaltar as mudanças positivas como resultadas de um esforço consciente de nossa vontade. Não é que passamos a ser outra pessoa, mas sim que passamos de algum modo a agir diferente e até a usar outro vocabulário. Essas mudanças geralmente causam surpresa nas pessoas, já de antemão familiarizadas com o nosso modo velho de reagir, sendo comum ouvir: “Como você está diferente, até parece outra pessoa!” Ou a nos olhar um tanto desconfiadas. Que maravilha ter essa possibilidade de reagir diferente, de não mais repetir velhos argumentos só para defender uma parte de si, que no fundo está irada, descontente e desamparada! É finalmente a verdadeira liberdade de ser como se é e não mais abusar de recursos injustos e incabíveis só para sair como vitoriosos de uma situação sem ter respeitado a posição do outro e, com certeza, em outra ocasião, repetir o mesmo por falta de reflexão e, sobretudo, por falta da necessidade de mudar algo em si mesmo.
No meu relacionamento, precisei de muito tempo para reconhecer que o que me impedia de mudar era estar fixada na relação ou no parceiro, como se dele devesse partir tudo para que eu finalmente pudesse me sentir bem e cômoda. Ainda não captava que essa condição prévia e imposta por mim era o que impedia de ver-me como ponto de partida e só me enchia mais e mais de sentimentos negativos.

Então como mudar algo em nós? Primeiro precisamos estar conscientes do que mudar, nos concentrando nisso e segundo, querer mudar e fazer possível a mudança acontecer.
Nem sempre há vitórias, também há os chamados fracassos, mas estes são devidos geralmente a algumas inverdades com relação às mudanças, por exemplo, querer mudar rapidamente só para resolver uma situação conflituosa, não ocasiona uma mudança profunda porque está dirigida a algo fora de nós e algum dia os sentimentos mandam a conta por não mais aguentarem tanta oposição. Transferir ao outro a causa dos problemas é cair na ilusão de que se ele mudasse tudo estaria bem. Isto não só é um grande erro, mas também uma desculpa por não querer se enfrentar com os próprios problemas, o que no fundo é o medo de estar em união com o outro. Também há pessoas que creem que não podem mudar, estas são geralmente inflexíveis e fechadas a novas alternativas e possibilidades. No fundo são pessoas que não veem outras saídas, a não ser guardar e defender seus próprios interesses repetindo o mesmo comportamento já tão incrustado. Temos medo de mudar porque pensamos que a mudança tem de passar de repente, como se fosse um pulo num abismo escuro; um pulo fatal e sem retorno. Por outro lado a mudança é um processo consciente e paulatino, partindo de uma disposição interior que nos leva a pensar ou a agir diferente. Outro equívoco é querer que o outro mude primeiro: “Por que tenho que mudar primeiro?” “Quando ele mudar, eu mudo também.” No fundo, por orgulho ou por medo, esta é uma posição bastante rígida que não leva a lugar nenhum. Mudar é um ato livre, sem exigir condições do outro e sem que a mudança do outro seja tomada como pré-requisito. E por fim o maior erro com relação à mudança é insistir em querer mudar o outro como se isto fosse a solução dos problemas. O outro tem que ser como eu quero ou estar feito segundo as minhas medidas. Eu também pensava assim, e na minha ânsia de querer mudar o outro como condição preliminar para acabar com os nossos conflitos, não via que eu era a que devia mudar. Quando me dei conta de que o outro jamais iria mudar só para satisfazer os meus desejos, foi quando entrei no processo de mudar eu mesma e comecei a perguntar-me: mudar o quê? Como? Pouco a pouco fui compreendendo que primeiro de tudo precisava aceitar-me; aceitar-me e fazer dessa aceitação uma liberação para por fim também poder aceitar o meu parceiro. Muitos casais passam a vida brigando por tudo ou por nada, repetem as mesmas reações, um acusando o outro e dando-lhe a culpa dos problemas e não veem que cada um é igualmente responsável. Mudar é uma ação solitária, de um sujeito consigo mesmo, cujo efeito chega ao outro e também o faz mudar. E este é o maior e o melhor paradoxo da mudança: o outro, como resultado de nossa mudança, também muda sua forma de ver as coisas, ou seja, uma mudança leva a outra mudança, porque no fundo as coisas não mudam, somos nós que mudamos a forma de encarar as coisas.
Contudo há coisas que não podemos mudar, elas existem ou existiram independentes de nosso campo de ação, como por exemplo, uma infância infeliz e cheia de carência, um acontecimento traumático ou a perda de um ser querido. Estes fatos pertencem a nossa vida e ao passado, existindo nas nossas lembranças e reações sem que possamos excluí-los de nossas experiências; entretanto uma pessoa que teve uma infância infeliz não deve ter necessariamente uma vida infeliz, mas se continua sendo infeliz é porque não consegue mudar a perspectiva de encarar esse passado e permite que ele a persiga por toda parte. Isto é o tema de um livro interessantíssimo que li, cujo título, mais ou menos em português seria – Nunca é tarde para se ter uma infância feliz – o que já soa bastante promissor para se crer nele. Seu autor, sem embargo, o Dr. Ben Furman, psiquiatra e psicoterapeuta finlandês, crê que podemos viver sem o determinismo da infância e questiona a crença de que toda nossa vida é, sem dúvida, dependente de como foi essa infância. Sua terapia ajuda pessoas a compreenderem o passado como uma fonte de forças – e não fatalmente como a origem de todos os problemas – reforçando as razões para se crer na possibilidade de uma vida promissora e assim fazendo que pessoas usem suas forças e criatividade para dar a volta por cima, tendo controle sobre seus traumas. Por outro lado falar é sempre fácil; árduo ainda é entrar consciente no processo mesmo de mudar que requer muita força de vontade. Muitos se valem de pedir a Deus essa força mesmo que ela leve ao contrário, ou seja, a não poder mudar: “Senhor, dê-nos forças para mudar o que podemos mudar, como também forças para aceitar aquilo que não podemos mudar.” É um pedido feito com humildade e extremamente conciliador com a realidade, mas fazendo crer que aquilo que não podemos mudar, não mudará nunca? Na verdade, o que podemos mudar é a nossa perspectiva ou atitude frente ao problema, e isto já é uma grande mudança.

 

Quando homens me esclarecem o mundo

É a minha tradução (só) do título do ensaio e livro de Rebecca Solnit, cujo original em inglês é Men Explain Things to Me. Já me referi a ele no meu último post “A Susceptibilidade de Escreva Lola Escreva” de forma apenas a introduzir meu texto sem aprofundar-me no seu conteúdo. Agora quero expor o que me parece este seu ensaio publicado em 2008. Ele foi inspirado por uma experiência vivida seis anos antes pela própria autora numa festa em companhia de uma amiga, quando o anfitrião, com ar arrogante, tentou esclarecer-lhe sobre um livro recém- publicado sem ter querido dar-se conta de que ela era a autora do livro em questão. Um sinal de que não tinha querido ouvi-la dizer que o tal livro era seu, e  assim presunçoso continuou palavreando até que, após várias incursões da amiga em tentar dizer-lhe que era o livro dela, deu-se conta em fim onde tinha se metido. Depois de saírem e já a uma certa distância, as duas amigas riram aliviadas do sucedido – como não rir do ridículo? O riso é uma reação que pode nos dar distância dos fatos e ajudar-nos a relaxar frente a situações que no momento não teríamos outra saída; rir como reação à prepotência ou como uma liberação. E Rebecca Solnit ainda ri deste fato, e sem ter rido de antemão, talvez não tivesse escrito um ensaio com tanta agudeza. Primeiramente foi publicado na Website de Tom Engelhardt – TomDispatch – com grande recepção: foi como beslicar uma corda de violão, disse, ou tocar numa ferida aberta; pois ela nunca tinha recebido antes tanta repercussão com um ensaio como com este . Mas por que um só ensaio, e além do mais curto, chegou a causar tanto impacto, não só entre mulheres, como entre homens também? Nós mulheres conhecemos muito bem o que significa o título deste ensaio em situações ou momentos onde sobretudo homens se impõem como donos da verdade em favor de sua pretensa sapiência ou conhecimento das coisas para poder estar no centro das atenções. São esses discursos soberbos carregados de explicações, definições, … por onde se deixam aparecer, muitas vezes só insinuando saber sobre isso e aquilo, mas que nos levam a calar como se fôssemos impedidas de abrir a boca – nem sempre por meios de imperativos, mas por reserva nos excluímos – confirmando uma insegurança ou o medo de sermos ouvidas. Rebecca Solnit fala do quanto é brutal fazer com que  mulheres se calem: „Eu sei do que estou falando.“ Uma frase agressiva como esta, e pelo seu conteúdo já podemos imaginar sem dificuldade como ela foi pronunciada – aos gritos – uma frase categórica de homens e sinônima de: „Você não sabe de nada“. Por que só ele sabe sobre o que fala, e ela não? A vivência deste fato brutal, não importando o contexto, se relacionado a uma discussão ou a uma simples conversa, perpetua nela o ódio e interrompe-lhe a claridade de pensar. Com esta tamanha tirania está explicado então porque mulheres não ousam ser ouvidas, e chegando esse silêncio a situações extremas, mostra até aonde vai a relação de poder entre os sexos existente na sociedade. Solnit não descreve o patriarcalismo como nascente do machismo para justificar este  comportamento específico, fala porém da hierarquia entre os dois gêneros como fundamento básico da sociedade, e enfoca bem sim essa habilidade secular que têm homens de fazer calar mulheres e de se fazerem escutados por elas. Será que são mesmo escutados como creem? (Podem continuar acreditando queridos!)
Nascida na Califórnia em 1961, Rebecca Solnit é dona de uma notável carreira intelectual, já tendo escrito mais de doze livros ligados a diversos temas desde política, história da cultura, arte, feminismo até meio ambiente, e embora estando seus livros fundamentados sobre uma pesquisa sólida, mesmo assim não passa a escritora incólume a situações como a experiência do início com o sr. importante, por ela assim batizado. Esta e outras são experiências que põem em questão suas certezas e podem avivar-lhe velhas inseguranças – experiências nada gratuitas como encontrar-se na presença do sr. importante que revestido de confiança na sua atuação, e também confiante que ela se deixará vacilar e intimidar-se frente à certeza dele. É com essa lealdade e coragem que fala de si mesma e lembra o que dia a dia enfrentam mulheres quando são expostas a situações sem terem o direito de exercer sua expressão, sendo esta o que lhes dá o direito de ser alguém.  Já fui muitas vezes testemunha de casos como este, e quem não foi? Homens também a mim já explicaram e querem explicar o mundo e o significado das coisas como se eu fosse uma colegial preguiçosa e desinteressada, e muito pior até, sem levarem em conta se eu conheço ou não o assunto sobre o que eles estão falando, ou se tenho ou não uma bagagem de conhecimento ou experiência de vida. Homens que não dão importância a esses pré-requisitos não querem ouvir, mas serem ouvidos e admirados – E como é irritante ter que ouvir um discurso sem fim!
Até hoje homens seguem esclarecendo o mundo a Rebecca Solnit, sem que nunca tenham lhe pedido desculpas por isso, ou por terem explicado errado, ou mesmo pelo fato de ela saber e eles não.
E mulheres por outro lado também não gostam de dar explicações, sobretudo a outras mulheres, muitas vezes sobre insignificâncias e até de forma desdenhosa como se fossem expertas no assunto? Sim, existem tais, como também em grande número e Rebecca Solnit não nega a existência delas, mas não que esse aspecto loquaz e maçante seja uma marca que especifique o gênero feminino; ao contrário uma atrevida exibição de confiança até na própria ignorância é para ela uma característica masculina – escondendo insegurança e imprestabilidade.
No meio político vemos com mais nitidez a inundação de discursos daqueles que sabem de tudo, e sabemos o como é difícil e fatigante para mulheres, as jovens principalmente, sobrepor-se e serem ouvidas com respeito até por seus colegas de partido. Solnit cita o caso de Coleen Rowley, uma agente do FBI durante a presidência de Bush, que não foi ouvida ao ter chamado com antecedência a atenção para o Al-Qaida. Não quiseram escutá-la, e isto é o mesmo que dizer: só escutaram o que estava conforme a seus conceitos. O fato de que a guerra foi resultado de um jogo  arrogante masculino, também leva-lhe a afirmar que há outras guerras, aquelas vividas no interior de quase todas as mulheres, por terem a convicção de poder ser dispensadas e atraídas a se calarem. Por que não devo me expor a falar sobre coisas que sei expor sabendo que tenho esse direito? E mesmo com uma certa insegurança sobre algo, isto pode ser útil e abrir caminho para corrigir-se: ouvindo, aprendendo e crescendo, mas quando essa insegurança é grande demais, pode conduzir a mudez e paralisações, do mesmo modo que uma excessiva autoconfiança pode demonstrar pura arrogância. Entretanto há um caminho entre esses dois pólos – diz Rebecca Solnit – onde os dois sexos podem conviver: a calorosa região do dar e do receber onde todos nós devemos nos encontrar. Uma metáfora nada proporcional à realidade da maioria dos diálogos entre homens e mulheres, mas otimista.
Se muitas mulheres, infelizmente, não ousam ser ouvidas, esconde-se por trás deste fato o quanto é importante ter credibilidade e até como um pré-requisito para sobreviver. Solnit escreve no seu ensaio que num Natal quando era muito jovem, e já tinha começado a entender o que era o feminismo e a sua importância, o tio de um amigo contou, como se fosse uma estória inventada, que a mulher de seu vizinho a altas horas da noite saiu despida de casa correndo e gritando que seu marido queria matá-la. Sem pestanejar acreditei na declaração da mulher, mas ao seguir lendo, defrontei-me com a pergunta da própria Solnit ao tal tio: Como o senhor sabia que isso não estava certo?  A explicação foi que o marido se tratava de um cidadão honrado e respeitado e que a acusação meu marido quer me matar não continha em si fator de credibilidade para que fosse tomada como verdade, embora ela tenha gritado na rua isso; mas que fosse uma louca, pelo contrário, foi levado a sério.
Em certos países do Oriente Próximo a falta de credibilidade às mulheres é comprovada em casos de violação sexual, nos quais a acusação da mulher não tem peso na justiça, a não ser que ela tenha um homem como testemunha, e que este queira confirmar sua acusação, o que só raramente acontece.  E Rebecca Solnit vai mais além destes fatos; ela que começou o ensaio por um incidente, foi mais adentro chegando a mencionar estupro e morte, o que para ela pode ser uma coisa de continuidade – um mal-entendido pode passar, de sua forma normal, ao abuso, à violência, intimidando mulheres a se calarem ou até as matando. É assustador ver o número de mulheres (incluindo meninas pequenas) reprimidas, abusadas, violentadas e mortas em quase todo o planeta – mulheres que são seres humanos e com direito à vida e a participar dela como um ser livre. Que este direito porém, deva ser conquistado, é uma luta, uma luta longa e amarga.
A ensaísta sabe disso e acha que a melhor maneira de compreender todas as formas de discriminação contra mulheres é dando-lhes uma expressão concisa, como abuso de poder, em vez de considerar em separado violência doméstica, assédio, estupro, etc., etc. e até morte: Tomando tudo junto, põe-se à luz o padrão de comportamento, evidenciando clareza e concisão.
Rebecca Solnit não se queixa de si mesma, está satisfeita com o seu próprio crescimento e desempenho e com ter encontrado na idade adulta a sua expressão. E como ela diz:
o direito de mostrar-se e de expressar-se é inevitável para a sobrevivência, para a dignidade e a liberdade. As circunstâncias me obrigaram a usar o direito de falar por aquelas que não têm voz.

 

(Próximo post: 19/4/2017)