A CULTURA DA XINGAÇÃO

 
Como o povo brasileiro está expressando seu mal-estar e demonstrando a sua revolta frente à atual situação política e econômica do país? Estão indo às ruas para protestar? Pelo menos no momento ainda não o suficiente, e nem de longe como são os protestos no Chile. Mesmo que, os que estão no poder instrumentalizem as instituições e procedam contra a constituição, o povo está até agora calado, e passivamente parece submeter-se às medidas aprovadas pelos tais lá de cima, sejam elas a reforma da previdência, as privatizações de estatais ou os cortes na educação, sem falar no desacato do presidente da república ao nosso ecossistema, aos nossos primeiros nativos, como parte integrante da nossa etnia, e a indiferença ao povo necessitado. Pergunto-me às vezes com muita dor se a Vaza Jato ainda tem sentido, levando em conta que as revelações do site Intercept, não só de atos ilegais, mas de extremos abusos de poder, até agora têm deixado incólumes os acusados. Os pivôs da Lava Jato continuam no poder desfrutando de suas liberdades enquanto o ex-presidente Lula segue detido esperando sua liberdade justa – mas de onde ela virá? Do próprio judiciário que o meteu na prisão? Ou da enfim inconformidade do povo que atuará como pressão? Lembro-me de que o jornalista Pepe Escobar numa entrevista à TV247 perguntou a Leonardo Attuch por que o povo brasileiro não se rebelava. Attuch se limitou a dizer que isso era uma boa pergunta.

Ainda não há no Brasil razões suficientes que levem a manifestações de massa? Talvez. É que só os escândalos de políticos, suas brigas e já seus alinhamentos partidários prevendo às próximas eleições não são o que toca no âmago das necessidades do povo, ou seja, naquilo que o faz garantir sobreviver decentemente. No fim das contas são os direitos inatos das pessoas a um trabalho digno, a um salário condizente, a uma educação que forma, e ao direito tão básico quanto essencial: o de comer, vestir-se, calçar-se e locomover-se, que se restringidos, vão se transformar em energia perigosa e ameaçante a qualquer ordem estabelecida.

Enquanto isso a esquerda é atacada e criticada por não organizar o povo e mandá-lo para as ruas – está aguardando o momento histórico? O temor de cometer mais erros é maior do que arriscar-se em organizar o povo fora do tempo? E enquanto o povo aguenta, tem ele que canalizar seu sofrimento e raivas em alguma coisa: uma delas é xingar. Xingar é a via que expressa o descontentamento de um momento, se não podemos fazer mais do que vociferar; xingar é fácil e rápido e não requer reflexão. Não pode existir um diálogo à base de xingações, estas não descrevem a realidade e os fatos, não são objetivas – elas são descargas de sentimentos negativos por meio de expressões ou frases repetitivas, sem que nos deixem entender mais além do que elas dizem. Por outro lado todos nós xingamos; xingar faz parte da cultura, do modo de viver do dia-a-dia e presente nas sociedades: o povo xinga os políticos, estes xingam seus adversários e assim vai … Mas mesmo admitindo isso, nos fica um mal-estar, um vazio, pois a língua não serve só a pilhérias, e o que esperamos – eu, pelo menos – de um político é que ele se apresente e expresse-se acima do nível corrente e vulgar. É um erro crer que palavras como porra, cu, caralho e outras mais na boca de um político, o faz aproximar-se mais do povo. Não. Elas servem de fuga dos problemas reais e rebaixam-no, reduzindo-o a ser um desbocado, sem respeito, quebrando o seu distintivo: a habilidade e segurança de saber expressar-se nas situações mais críticas – política não é brincadeira não senhor!

Entre tantas, a briga da deputada Joice Hasselmann com os filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, o chamado Carlucho e o Eduardo Bolsonaro é um exemplo de como as xingações saem dos seus reais motivos e entram no paradigma de ataques a mulheres. Não só no Brasil, mas presente em outras sociedades, xinga-se de preferência usando um vocabulário referente aos órgãos sexuais; só que, e de forma machista, o genital feminino não é símbolo de grandeza nem de força, como se faz com o do homem: pau, cacete, pica referem-se ao membro masculino ereto, forte e produtivo, ou, em outros contextos, a palavra cacete marca uma intensidade. Já xereca, buceta, bucetuda reduzem à mulher ao seu genital como aquilo que o homem quer se apoderar, usar e gozar com ele. Com Joice Hasselmann não se chegou a este nível, mas ela mesma respondeu ao twitter, o da nota de três reais com a sua fotografia, do Eduardo Bolsonaro – uma ofensa a Hasselmann menos como deputada e mais como mulher – com um twitter similar: uma nota de cem reais com o rosto de Eduardo Bolsonaro escrito ao lado: Sem Pau. Não é preciso explicar mais.

A jornalista Cynara Menezes escreveu um artigo (*) no seu blog Socialista Morena que a onda de xingações ofensivas começou na abertura da Copa do Mundo no Brasil em 2014, quando a então presidenta Dilma Rousseff foi ultrajada em pleno estádio com um „vai tomar no cu“. Ela disse que nunca tinha visto aquilo, apesar de que já tinha coberto manifestações contra outros presidentes, como Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardozo. Depois, nos protestos a favor do impeachment da ex-presidente, esta foi – para mim – mais que xingada, foi insultada com nomes como puta, quenga e vaca. Senti a dor de Cynara Menezes ao ter escrito isto no seu texto, pois Dilma Rousseff não merecia esses insultos – ela era a primeira presidenta do país, além de ser mãe, já avó e com mais de 60 anos, segundo Menezes. A pergunta é se a extrema direita xinga mais do que a esquerda. Cynara Menezes acha que sim, pois eles foram às ruas para isso, mas remete ao „ei Bolsonaro, vai tomar no cu“ tanto no Rock in Rio quanto no estádio do Pacaembu em São Paulo como sinal de um enfraquecimento por falta de debates: “Não éramos nós que tínhamos mais conteúdo?” Pergunta ela. É como se o debate político tivesse sido ocupado por xingamentos, os palavrões por palavras de ordem, passando-se assim a agir como os opositores, os verde-amarelos, que – parece – se mobilizaram mais. O povo, para ela, está apático “como bois indo pro matadouro” e nessa “inércia” vive limitado a hashtags, twitters e memes nas redes sociais. Parecendo até nostálgico, ela relembra alguns daqueles ditos que popularizaram os protestos contra Fernando Collor e Fernando Henrique Cardozo; expressões que longe de insultar os tais, entoavam rimando a insatisfação do povo: “Rosane, que coisa feia. Vai com Collor pra cadeia.“ Ou: “Ê Fernandinho/vê se te orienta/ já sabem do teu furo/no imposto de renda”.

Seu artigo também postado no site 247 teve muitos comentários, sendo a maioria do contra – claro – alegando que a autora quer moralizar, e que o “vai tomar no …“”não é negativo nem indecente por a expressão perder seu sentido original ao ser muitas vezes exclamada por uma multidão, a qual não se sabe se é de direita ou esquerda; são apenas pessoas que têm o direito de gritarem sua insatisfação. Um deles disse que o povo só entende nesse nível porque debates não elegeram Fernando Haddad. Compreendo, só que a meu ver Cynara Menezes não foi entendida. É que num contexto mais amplo xingar fica por isso mesmo, não transcende, não alcança a dor, o essencial que devia ser dito, mas que fica calado por só ser manifestado por palavrões. É um desembestado de palavras movido por emoções negativas. “Mandar Bolsonaro tomar naquele lugar seria como extravasar o grito que está preso na garganta. Mas é este mesmo o grito que queremos soltar?” Escreveu Menezes. E depois?

Nunca ficou tão claro como nos nossos dias que o Brasil tem um reduto de malfeitores. Contudo se o povo insatisfeito se contenta só em xingar seus agressores, ele não sabe ainda mobilizar-se ou não está maduro para isso. Uma coisa sabemos: xingar faz de quem xinga forte, talvez por isso o Olavo de Carvalho se sinta grande e importante. Mas sobre ele não quero escrever.

 

 
(*) O artigo de Cynara Menezes de 8/10/19 é: „Ei, Bolsonaro, vai tomar no …“: O Brasil trocou as palavras de ordem pelos palavrões

 

 

Próximo post: 24/11/19

Mamãe, não sou mais virgem!

 

Boa ou má notícia? Muitas mães preferem não ouvir tal verdade, e esta é a razão porque muitas jovens têm medo de contar-lhes que não são mais virgens e que o controle do corpo agora têm elas. Elas deram um passo irreversível, entraram para a vida de ser mulher feita e donas de seu corpo com o direito ao prazer, mas também com todos os riscos que isto pode trazer: gravidez indesejável, doenças contagiosas e deficiências como a AIDS, como também maus parceiros. Foi, porém, esse passo resultado de uma decisão consciente e acertada? Não se sabe a priori, mas o mais importante a partir daí é se elas estão preparadas para viver consciente e plenamente sua sexualidade, o que, por outro lado, nada disto é fácil por não só está implicado com a educação recebida em casa e na escola.

Verifiquei nas minhas pesquisas que a insegurança – considerada normal – frente à primeira relação sexual é bem menor nas jovens do que o medo de que os pais a descubram, ou de contar em casa, sobretudo à mãe. O medo de falar está carregado de culpa, vergonha e ameaças de serem controladas. Terem optado, contudo, por não ser mais virgens foi um ato de independência – seja este consciente ou não – termina ele drasticamente numa separação. Embora a jovem continue a viver sob o mesmo teto com os pais, ela já faz coisas sem pedir-lhes permissão – ela já tem uma privacidade. Para muitas jovens isto parece ser como viver uma vida dupla por ter quebrado a confiança dos pais; elas sabem como eles irão reagir e isto as perturbam. Infelizmente esta é uma situação ainda vivida em muitas famílias brasileiras; outras culturas, pelo contrário, são mais flexíveis, não estão orientadas por valores rígidos e conservadores e investem mais em esclarecimentos. Decisivo é como a relação familiar está articulada – caso a comunicação em casa esteja dirigida para orientar com respeito e infundir confiança, o medo não terá razão de ser, pois a jovem não sentirá vergonha ou culpa de sua decisão, e decidirá por ela mesma se contará em casa ou não.

Muitas mães não só esperam que suas filhas lhes contem tudo, mas acham que elas devem ter essa obrigação – impossível – e sentem-se desobedecidas e até traídas ao não serem informadas ou procuradas para uma conversa particular. Aí falta o respeito à filha que por sua vez está formando sua privacidade. A confiança se dá com base num diálogo sincero e requer respeito das partes. Onde as prioridades são formas de cobranças, ameaças e até chantagens não pode haver diálogos, senão autoritarismo. Essas mães não sabem lidar quando suas filhas chegam à puberdade e têm a primeira regra; elas se preocupam demais e confundem cuidados normais com ordens e proibições. As transformações físicas causadas pela produção do hormônio estrogênio podem constranger as meninas, e elas devem ser esclarecidas, respeitadas e nunca motivos de troças. Mudanças emocionais e sentimentos de valor aparecem após o primeiro sangramento menstrual: sou mesmo valorosa?
No Brasil a primeira relação sexual pode passar já aos quinze anos ou antes, ou seja, na puberdade; nas classes mais baixas a promiscuidade entre familiares pode acelerá-la tornando este contato forçado, dolorido e traumático, e não é raro que meninas engravidem por ele, sem querer obrigadas precocemente a entrar na vida adulta quando podiam ainda estar na escola. Tirando esse aspecto cruel do primeiro ato, meninas estão perdendo a virgindade cada vez mais cedo, mas para cumprir outras exigências comparadas a nossos antepassados. A minha avó, por exemplo, engravidou de sua primeira filha – a minha mãe – aos treze anos já casada, para formar uma família e ser a mulher do meu avô, sustentada e protegida por ele. Contando isto a uma roda de mulheres durante um jantar, uma delas disse que para a minha avó isso foi como uma violação – sim, uma violação permitida. Hoje, parece-me que o período da infância está se encurtando, mas por outras razões: as facilidades que a vida oferece, o acesso rápido a informações e contatos, os apelos ao desfrute da vida são o que conduzem as jovens a se desenvolverem mais rápido, querendo ter experiências inusitadas que encham e deem um sentido à vida.

Os pais devem compreender e aceitar que os diálogos prestadores de contas das filhas vão deixar de existir, dando lugar a livre iniciativa e a prática de tomar decisões dos seus atos por elas mesmas, minimizando a influência deles. É que nesta constelação não se pode falar de tudo; é o momento de admitir que suas filhas já têm uma privacidade, e eles serão convidados a participarem dela, se elas quiserem. O dito „minha mãe é minha melhor amiga“ parece mais ficção do que realidade, pois o laço que une mãe e filha não é o mesmo que une duas amigas íntimas; na relação entre pais e filhas os papeis de ambos vão estar sempre presentes, determinando e cobrando suas partes. Melhor do que esperar da filha uma amiga aberta é fortificar os laços de confiança entre eles. Lembro-me que numa das minhas viagens ao Brasil, fui apresentada a uma jovem entre dezessete e dezoito anos que chegou com o seu namorado durante um almoço na praia. Depois que eles foram embora, o pai da moça me falou num tom resignado: „ela já fez“. Eu perguntei-lhe se ela o tinha contado, ou se ele a abordara. Não, nada disso. Então disse-lhe que ele estava agindo muito bem, que a deixasse em paz, que o fato de ela ter feito ou não era um assunto só a ela cabia. Ainda que abatido, ele me confirmou. Acho que ajudei este pai a aceitar suas limitações e a nutrir respeito pela filha.

Por que a virgindade ainda é essencial em certas culturas, se ela como uma membrana fina e elástica pode ser rompida por um tampão, ou em certas práticas de esporte ou dança, ou até mesmo com o uso do dedo? Só para manter os valores patriarcais submetendo as mulheres ao domínio deles – claro, mas não só. Também certas religiões impondo as noções de pureza e pecado guardam a virgindade até o casamento, oferecendo-a ao marido após terem recebido a bênção de Deus. No fundo é a visão de pecado que prevalece ao considerar a sexualidade humana, e esta visão reduzida e ignorante é responsável, se de um lado pela abstinência do ato sexual como dever, por outro por excessos. Nada foi tão usado como objeto ideológico como a sexualidade: ou ela está pairada sob as sombras do pecado, ou é usada como fator de domínio exclusivo do marcho – os dois aspectos se complementam, e para sair destes extremos precisamos de muita luta de emancipação. E as nossas fantasias, estes depósitos imaginários? Aonde eles nos levam? Ao perigo? Que nos salvam?

As mães, principalmente, não podem garantir que suas filhas tenham uma vida sexual satisfatória, mas podem contribuir para isto desde o estabelecimento da autoconfiança até a consciência do corpo e o respeito por ele.

FICA TUDO POR ISSO MESMO?

 

Desde que o site Intercept-Brasil vem revelando e publicando regularmente provas de ilegais procedimentos da força tarefa Lava Jato – as quais a incriminam de ter usado sua função e fachada de anti-corrupção para poder operar ilicitamente, tendo em vista interesses políticos de alas de extrema direita – que a culpa histórica atribuída ao Partido dos Trabalhadores-PT por atos de corrupção, incluindo a culpa máxima ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está em questão. É a hora de anti-petistas menos exacerbados darem o braço a torcer e admitirem o óbvio, o qual o ex-presidente Lula foi usado na operação Lava Jato para fins políticos, que a sua prisão foi para impedi-lo a se candidatar e vencer – com certeza – as eleições para presidente da república de 2018; e cabe agora ao povo brasileiro reconhecer essas provas como dados essenciais da inocência do ex-presidente exigindo a anulação do processo para que ele readquira seus direitos políticos perdidos – é que tudo isso não pode ficar assim por isso mesmo.

Tirando dos eleitores do presidente Jair Bolsonaro aqueles impregnados de ódio contra avanços sociais e valores democráticos, já há quem reflita, incitado pelo mau desempenho do governo dentro e fora do país. A vergonha que passa o Brasil no exterior é estrondosa, além das ofensas dirigidas desrespeitando pessoas públicas; assistimos ao despreparo intelectual de ministros, suas idiotices e frases sem nexo já estampadas pela imprensa internacional. O mundo está de olho no Brasil também pela eclosão dos incêndios na floresta Amazônica, e Jair Bolsonaro crê que pode iludir o mundo como se o mundo pensasse como uma das grandes partes dos brasileiros. Ou ele acredita que Donald Trump vai apoiá-lo sempre. – Na política pode passar muitas coisas, até Trump não ser reeleito nas próximas urnas. Mesmo assim isto não seria o fim do bolsonarismo.

Contudo o PT ainda é alvo de acusações – a começar pelo próprio presidente da república – como uma palavra de ordem que toma o todo pela parte – uma metonímia clássica – qualificando tudo e todos de corruptos: a ideologia, programas e todos os membros do partido. Agora está claro que o PT, mesmo tendo sua parcela de responsabilidade pela situação política desastrosa a que o Brasil chegou, não é ele o único responsável por ela. Os anti-esquerdistas radicais não querem admitir isso, e não se rebelam contra a política econômica do presidente atual, seus disparates verbais e nem o uso do nepotismo e da violência policial nas ruas. A antropóloga Isabela Kalil numa entrevista à TVT disse que uns 30% da população brasileira apoia a visão e postura de Bolsonaro sem detrimento de certas mudanças prometidas por ele; a isso se junta uma ética religiosa baseada em pólos de deus e demônio, do bem e do mal. Para ela esta visão maniqueísta vai se alargando a tudo que possa ser um perigo para a família de bem, para o bom cidadão, a educação dos filhos e a segurança pública. É quando a violência é justificada para defender o bem. Kalil entrevistou mães, que sem interesses partidários, preferiram votar no Bolsonaro só pelo seu programa de educação escolar – elas tinham medo de uma orientação educacional dita de esquerda, a qual iria desvirtuar o desenvolvimento „normal“ dos seus filhos. Uma preocupação limitada ao patriarcalismo conservador e fundador de uma sociedade estabelecida em estruturas rígidas. Para elas ir contra isso é corromper, disse Isabela Kalil.

Eu, quando contemplo o Brasil desde longe, da segura Europa, fico estupefata. A estupefação também ora é a reação de pessoas; elas já não mais me admiram por eu ser do país do calor, do carnaval e da alegria – o calor pegou fogo na floresta Amazônica, a alegria se perdeu na insatisfação e insegurança do povo, e o carnaval é cantado de verde e amarelo ao som do hino nacional com suas „margens flácidas.“ Pelo contrário elas me perguntam por que não se faz nada no Brasil, ou onde está a oposição. Conversando com uma amiga – que vem se interessando pelo Brasil desde que viu nos noticiários a floresta Amazônica incendiada – ela não pode crer que tudo fique por isso mesmo, que ao invés de se mostrar a verdade dos fatos, não se falou mais sobre eles. Minha amiga é partidária de algo como um conselho internacional de vigilância e proteção à floresta Amazônica, caso o povo brasileiro não tenha suporte para prezá-la e protegê-la. Esta forma de pensar já pode ser um consenso internacional – é o medo de que o pulmão da terra seja destruído por interesses sem escrúpulos. A questão da soberania brasileira, neste caso, tem menos peso, uma vez que a floresta – em face ao aumento das lutas pelo meio ambiente – é vista como um patrimônio da humanidade. Já Lula, quando foi entrevistado pelo jornal francês Le Monde, disse discordar do presidente francês Emmanuel Macron quanto à internacionalização da floresta, frisando que ela faz parte do patrimônio brasileiro. No fundo ele quer que os brasileiros se conscientizem do dever que têm de cuidar do seu meio ambiente. Ele tem razão.

Por ora o Brasil continua em ebulição: Jair Bolsonaro, como se diz na Alemanha, está como uma galinha cega. O fato de querer livrar um de seus filhos que está metido em corrupção junto com o seu assessor, o faz correr de um lado pra outro, despedindo gente aqui, colocando outros ali, brincando com o poder. E o PT se enfrenta mais uma vez a um grande desafio político depois de sua queda do auge do poder – é preciso ter paciência, saber estar sincronizado e efetuar articulações necessárias. Políticos astutos já se movimentam prevendo uma possível sucessão de Bolsonaro nas próximas eleições, mas antes disso, o povo brasileiro precisa fazer sua tarefa de casa: Lula tem de sair da prisão inocentado das falsas acusações que lhe fizeram. Lula Livre.

 

Próximo post: 7/10/2019

A vez do coração

                  

Quando fui vítima de um assalto no Brasil há mais de dez anos, no exato momento em que o assaltante me empurrava uma pistola contra o meu corpo, a única coisa que pensei de um relâmpago foi: „agora chegou a minha vez.“ Outros pensamentos não tive, a não ser que perguntei-lhe como uma autômata o que ele queria enquanto lhe oferecia minha bolsa linda, novíssima e cara – comprada só para a viagem – pendurada no ombro e ainda com o meu passaporte brasileiro dentro. „A gente quer o carro“, respondeu-me ele. Neste momento vi que seu colega assaltante empunhava uma pistola contra o peito do meu marido, tentando arrancar as chaves do carro de sua mão. Tudo isso foi em segundos até que alguém – um anjo talvez – passasse num carro por nós mostrando coragem e dissolvendo a situação, desfazendo o assalto. Não sei o que esse anjo falou ou fez para que os dois homens armados fossem embora.

Por que me lembro disso agora quando o que quero tão somente é esclarecer aqui o porquê não tenho escrito mais posts? Minha última publicação do blog foi há quase três meses, no seis de março com o texto „Essas meninas …“ E mais: o que estes dois fatos têm em comum? É que de novo chegou a minha vez, sem que eu tenha passado por outro assalto. Há coisas que chegam ou que passam na nossa vida, sem que tenhamos contado com elas – a vida é quando não a planejamos, diferente de como a queríamos que fosse. Nunca tinha sequer imaginado que iria ter problema de coração. Desde criança já ouvia deles, minha mãe falava das pessoas que sofriam do coração, usando bem os verbos sofrer ou ser já como prenúncio de morte, e com uma cara e um tom de voz que já deixava antever o enterro. Aqueles seus agouros estavam muito longe de mim, mas como criança não deixei de interiorizá-los para, como um paradoxo, defender-me deles mais tarde, afugentando-os de mim na idade adulta: nunca sofrerei ou serei doente do coração foi o meu lema para a vida.

Mesmo com esse mecanismo de defesa, não escapei. É claro que havia um medo latente, incubado pelos presságios de minha mãe contra ela mesma – era um tanto hipocondríaca, seu coração, porém, não foi o que pôs fim a sua vida, como ela acreditava. É que o medo para os hipocondríacos também tem a função de com ele e de antemão livrá-los do mal pressentido, apesar de que este uso não garanta nada. O medo, porém, não me incomodou com maus pressentimentos quanto ao meu órgão vital, o qual chamava e ainda o chamo de meu príncipe; até que ele, o meu príncipe forte e amado começou a sofrer, precisando de ajuda e pedindo socorro que foi além de minha capacidade. Assim fui parar num hospital para fazer uma tal de ablação cardíaca. Esta é tanto um procedimento como um tratamento, que a grosso modo, sob uso de sedativo, e por meio de um cateter, que é um fio fino e flexível, transportador de energia e que tem na sua ponta um elétrodo capaz de liberar energia fria ou de calor, esta última chamada radiofrequência. O cateter é introduzido numa veia da virilha, e daí ele chega ao coração para localizar as regiões onde impulsos elétricos indevidos são a causa da arritmia. A função dele – por meio de energia – é deixar um círculo de cicatrizes no tecido como um muro que impede a entrada daqueles impulsos elétricos danosos ao átrio, causadores de um tipo de arritmia chamada fibrilação atrial, que se não for tratada pode causar um AVC – um Acidente vascular cerebral. A arritmia cardíaca já é uma doença generalizada, o número dos que a padecem é de milhões e cresce, principalmente na idade avançada.

Assim sendo não faço parte de uma minoria, mas nem por isso sinto-me consolada, ao contrário, sinto-me retraída, e dou-me conta de que estou mais precavida e atenta, o que também é positivo. Em vez de correr para as atividades para economizar tempo, dou-me mais tempo para elas, procuro ser flexível e usufruo com isso. A minha vida mudou? Coisas mudaram no meu modo de viver; agora pertenço a uma grande maioria que por motivo de doenças cardíacas, toma medicamentos – só eu tenho que tomar três diariamente: pra isso, pra aquilo e aquilo outro que resguardam a minha convalescença. Sim, estou de resguardo sem ter parido, esperando que ele não seja pra toda a vida. O fato de ter ficado interna no hospital por dois dias, não me garante uma cura; não é verdade o que muitos médicos dizem sobre a eficácia imediata de uma ablação – há pessoas que já passaram por ela até três vezes sem que o procedimento tivesse tido sucesso; é bem provável que com a idade avançada o mal volte. Mas é possível evitar esse mal se ele não é hereditário ou uma falha orgânica? Como? Nem sempre, por mais que os médicos digam: viva mais devagar; faça exercícios físicos ou caminhadas, não engorde, evite café, chocolates e estresses – aqueles que levam o coração a galopar e a bater mais do que devia – os tais batimentos extras. Por outro lado, viver sem estresse não é possível e seria até monótono, pois até precisamos de alguns deles, que nos dê impulso, ou nos tire de um atoleiro, sobretudo durante o trabalho. Este é o bom estresse, aquele que quando já passado nos deixa satisfeitos, gratos e podemos relaxar bem.

Preparar-se para que o estresse atue positivamente é uma estratégia nova no dia a dia de trabalho em grande empresas: agendas cheias, pressão de colegas e chefes, tomar decisões, lidar com o público, etc.. requerem nervos fortes e um corpo ativo. Eu já passei por situações de estresse, nas quais pude concentrar-me, raciocinar e encontrar soluções. Por quê? É que de alguma forma estava preparada e ativa, por isso não fugi da situação, pelo contrário, pude pensar melhor e estar absorvida nela. Contudo esse modelo não pode funcionar sem margens de dúvidas; depois me senti exausta – não somos uma máquina.

Já o mau estresse começa quando nos encontramos frente a um desafio, ou sentimo-nos ameaçados por algo que vem de fora e não sabemos como superá-lo, ou por fraqueza nossa, ou por falta de tempo ou competência, ou por não estarmos em condições adequadas, e muito mais que tudo isso, pois as causas do estresse também são individuais. O corpo responde em segundos entrando em alerta pela liberação de hormônios, como a adrenalina, produzida pelas glândulas supra-renais e responsável por reações, como fugir ou lutar. Além disso a frequência de batidas do coração dispara, mais glicose entra no sangue, as atividades do estômago e intestinos se reduzem e a pressão do sangue sobe. Passado o estresse o corpo e a mente estão esgotados e necessitando de uma longa fase de relaxação e repouso, que possa revitalizá-lo. Sem essa fase e a constância dos estresses, aparecem entre outros problemas o de coração e o burn out.

Chegou a vez de ampliar o respeito a mim mesma, valorizar e praticar a paciência, ser mais cordial comigo e com os outros. Não foi em vão que do século XVI ao XVIII em Portugal se chamava de cordiais um remédio em forma de pedrinhas para fortalecer e confortar o coração. Sua preparação por monges ficou em segredo mantido por muito tempo; hoje, claro, se conhece a sua composição exótica. A cordialidade vem mesmo do coração e é mais do que a cortesia convencional criada por regras de como conviver socialmente. A cordialidade é delicada e terna, paciente e bondosa, ela quer harmonia.

Agora deixo claro que não quis aqui nem fazer um texto científico sobre a arritmia – o que escrevi sobre ela e o estresse é básico e corrente – nem dar conselhos a aqueles que padecem deste mal – o que posso dizer é que estou consciente do meu problema, conheço minhas restrições, mas estou vivendo, e isto é mais eficaz do que o medo de morrer. Fui estritamente pessoal sem, contudo, entrar em detalhes de como a doença me chegou e como sofri com ela. o que quis foi justificar minha ausência como blogueira aqui nesta rede social. Espero publicar de novo o quanto antes, mas como disse, ainda estou convalescente.

Essas meninas!

                   

Greta Thunberg com sua mochila e boina de lã desceria de um trem despercebida se não fosse um grande cartaz que carrega escrito em sueco – Greve da escola pelo clima – e já um grupo de jornalistas e fotógrafos não a estivessem esperando, seja em Katowice, Davos, Bruxelas, Paris e Hamburgo. Mas nem por isso ela se considera uma estrela; o que a tornou assim foi a mídia em geral divulgando para o mundo sua obstinação persistente desde agosto de 2018: em vez de ir para a escola às sextas-feiras, sentar-se no chão com o seu cartaz em frente do parlamento sueco, enquanto o governo não tomar medidas locais para alcançar sua cota-parte dentro dos objetivos do Acordo de Paris em 2015, ou seja, a temperatura média da terra não deve aumentar mais de 2 graus centígrados por ano em relação aos níveis já existentes no período pré-industrial, e isto até o final deste século, ou as mudanças climáticas serão incontroláveis. O que muitos consideraram sua ação como absurda, infundada e até louca, não era para Greta uma brincadeira. Pouco a pouco foram se juntando outros alunos que também deixaram de ir às aulas para apoiá-la, e assim se formou o Friday For The Future – Sexta-feira para o futuro – também em outros países europeus e na Austrália. Crianças foram às ruas para protestar; e o que fez este movimento ser ainda mais especial é o de não estar trajado de estudantes universitários, nem ter sido começado por eles.

Como uma menina de 16 anos, que não viaja de avião por princípio – bastante pequena para a sua idade, com duas tranças longas que lhe caem ladeando suas bochechas salientes, parecendo mais ter entre 11 e 12 anos, e estando rodeada de pessoas é impossível vê-la pelos seus 1,53 de altura – é capaz de atacar políticos, empresários, banqueiros, todos aqueles que participam do poder e das grandes decisões? Estes são os responsáveis pela situação em que nos encontramos porque suas idéias são indiferentes à sobrevivência do nosso planeta, e nem adultos suficientes são para ao menos ter coragem de falar a verdade, disse Greta Thunberg em Katowice, Polônia, na última COP24, que é uma cúpula climática anual da ONU.

É que Greta foi tão somente uma alavanca, de comando e de velocidade para impulsionar novas direções. Se adultos tendem à resignação e indiferença, jovens começam a preocupar-se por anteverem insegurança quanto ao futuro. Ela tomou conhecimento do estado do planeta terra na escola; durante uma aula soube da verdade já constatada por científicos, para a qual os políticos querem fechar os olhos; por isso daí seu ataque a eles de não fazerem nada consequente, mesmo estando em postos de direção, e de não quererem ouvir nada que contrarie seus planos de crescimento global e poder monetário. E que verdade foi essa? O aquecimento da terra com as suas conseqüências fatais como: estiagem, calor alarmante, furacões, chuvas fortes, inundações, etc., causado pelo excesso de gases de efeito estufa na atmosfera, pois a concentração contínua destes gases retém altas temperaturas absorvidas pela superfície terrestre. Tudo isso, a grosso modo e à forma de clichê, pode-se explicar pelo abuso e desrespeito à natureza, pelo fascínio do poder, pela acumulação de bens materiais, pelo desmesurado crescimento do capital e pela ignorância que é uma forma de miséria. Estabelecer uma existência tendo como base o contrário destes critérios é tão difícil que para muitos é impossível, é uma utopia considerando o avanço científico, tecnológico e industrial a que chegamos – seria como parar tudo? Acho que Greta sabe disso, mas, a meu ver, ela crê mais em mudanças que possam garantir o futuro das novas e futuras gerações do que em revoluções políticas, porque estas se concentram mais em tomar e manter o poder político; sua visão é outra – a de não mais esperar que partidos políticos tomem a iniciativa de mudar algo: O verdadeiro poder tem o povo. – e ela tem razão. Sabemos que a maioria dos políticos não quer falar conosco. Tudo bem. Então nós também não queremos falar com eles. Disse.

Para diminuir as emissões de carbono na atmosfera, extinguir o desmatamento florestal, salvar as camadas de gelo nas zonas polares do derretimento constante, tudo isso implica em mudanças profundas nos padrões do que se chama desenvolvimento, pois nosso modo de vida está relacionado a esses modelos que se impõem na sociedade e na economia.

Não é fácil, reconheço, sair das bases energéticas tradicionais – as ditas fósseis – o petróleo, o carvão mineral, o gás natural – onde nelas estão assentadas bases culturais e de subsistência – e passar a formas de energia renováveis, como a solar, a eólica, etc. Por outro lado o mundo está saturado pelo poder da produção excessiva; acúmulo de produtos industrializados, dos quais não precisamos nem a metade, pois a maior parte dos produtos de consumo fica sem utilidade, amontoada em algum lugar ou queimada sem levar em conta a natureza da matéria prima, seja ela biológica ou não, e o quanto se violou a terra para a sua produção, o seu produto final exposto à venda. É quando reconheço a importância e o valor desses jovens em levar a sério as mudanças climáticas como uma questão urgente, e o fracasso dos adultos, estes sabedores de tudo, mas conformados com a ordem das coisas, como se o futuro não existisse. Para os jovens o futuro é algo que vai ser vivido, e nele deve-se depositar as expectativas e os projetos, a esperança de um mundo melhor. You Can Not Eat Money diz um cartaz que segura uma menina em Davos. Uma mensagem profunda e apocalíptica, pois se no fim das contas só restar o dinheiro, este não se pode comer.

Lá de cima se vê a terra pequena, e a terra nunca foi tão pequena como hoje em dia. Esta perspectiva de modéstia nos diz que o que precisamos é de parcimônia. Assim viu Alexander Gerst(*) o planeta terra de uma estação espacial em órbita, onde ele comandou uma missão espacial internacional junto com outros astronautas. Um dia antes de sua volta a terra, ele mandou uma mensagem aos seus netos ainda não nascidos, na qual ele, em nome de sua geração, pede desculpas pelo global aquecimento da terra causado pela humanidade. Infelizmente a sua geração – e as passadas – não deixarão para as futuras gerações a terra em boas condições; e cada um de nós deveria refletir até onde nosso estilo de vida está danando o planeta. Ele ainda tem esperança de que se possa corrigir os erros, e espera que sua geração não fique na lembrança das futuras como aquela que com egoísmo e indiferença destruiu o fundamento de suas vidas.

Greta Thunberg fala para atingir o público, ela é implacável e até sarcástica às vezes; diz exatamente o que não é dito numa cúpula:

Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam medo como eu sinto todos os dias. Não rogamos aos políticos que simpatizem conosco. Eles nos ignoraram no passado e vão continuar nos ignorando. Mas as coisas vão mudar, mesmo se eles gostem ou não.

Os que se sentem responsáveis tentam desacreditá-la: Pobre Greta, se referiu a ela Paul Ziemiak, político da União Democrática Cristiana, que ora está no poder em coalizão com outros democratas. Christine Lagarde, diretora do FMI quis conhecê-la – O que você faz é muito importante. – e prometeu-lhe apoio no que for possível. Greta sabe o que são promessas, para ela agir e falar claro é mais importante.

As críticas a Greta Thunberg e ao movimento Friday For The Future são diversas, a começar pelo gazeio às aulas como fator de indisciplina. Diretores de escolas, pais e funcionários da educação sabem que é melhor não criticar o conteúdo do movimento para não aparecerem mais responsáveis, mas sim atacar em nome da ordem escolar. Como esperar dessas pessoas que elas possam promover mudanças, se suas atitudes não saem das ordens estabelecidas? Isto reflete na forma de criticarem o ativismo de Greta como produto de manipulações ou como resultado de sua síndrome de Asperger, um estado doentio com sintomas de depressão e leve autismo, e que causa nos pacientes dificuldades na área de interação social, e são levados a fixações de idéias ou de perseguir constantemente uma idéia. Mesmo sendo estes argumentos plausíveis, não quero crer neles. Prefiro crer na sua postura determinada, seu olhar direto, sua expressão séria. Quando a vejo nos vídeos, não capto dissimulação, mas uma convicção no que faz.

Enquanto isso o ativismo de Greta traz mais seguidores e gazeadores de aulas às sextas-feiras: Nós vamos seguir nossa greve até que eles façam alguma coisa. Eles não fizeram suas tarefas de casa, mas nós sim. Vamos continuar até que algo mude. Disse Greta no 1. de março em Hamburgo, pois O clima está mais em desespero do que as minhas notas de matemática. Não existe um planeta B. Salvem a terra, pois ela é o único planeta que tem chocolate.

(*) Alexander Gerst é um geofísico e astronauta alemão da Agência Espacial Europeia – ESA.

E o nosso feminismo daqui pra frente?

       

„Eu amo a senhora.“ Ao ouvir a frase que não era uma qualquer, mas uma declaração de amor vinda de um homem bem mais velho do que ela, o qual conhecia só há uns tantos, não teve nenhuma surpresa, infelizmente já a esperava, sabia que algum dia iria ouvir de malgrado o que era inevitável: „Eu amo a senhora, e com isso gostaria muito de tê-la ao meu lado; quero pedir-lhe que seja minha mulher, caso essa idéia também a encha de satisfação. Quero pedir-lhe Etna que se case comigo. Sei que o que estou pedindo não é uma surpresa para a senhora, mesmo assim peço-lhe que se dê tempo para decidir-se; saiba que um sim de sua parte, me faria o homem mais feliz desta terra.“

Esta cena eu não a vivi; ela tampouco cabe mais nos nossos dias atuais; ela não é real – apesar de ser convincente – ela foi tirada – sem ter sido traduzida – de um dos romances de Anita Shreve All He Ever Wanted – Tudo O Que Ele Queria – seria mais ou menos o título em português (eu o li, porém, em alemão), publicado pela primeira vez em 2003 nos Estados Unidos onde a escritora nasceu e faleceu aos 71 anos em março deste ano. No fundo Anita Shreve não é a minha escritora norte-americana predileta; o título me pareceu um tanto brega, como de um romance cor-de- rosa, melodramático, sem exigências e desafios; o que me levou a lê-lo porém, foi a curiosidade por se tratar de uma estória que se passa no século passado, focalizando um homem maduro e apaixonado, e uma mulher que de leve tateia sua emancipação pelo puro direito de poder escolher a quem amar, numa época em que os casamentos ainda eram obras de decisão dos homens. O livro é narrado em primeira pessoa, pelo homem, Nicolas Van Tassel – o que não foi uma escolha aleatória da escritora – descendente de holandeses, professor de literatura inglesa e retórica ele é quem conta a estória, a sua própria história entre os anos de 1899 e 1935, sua paixão, seu amor obsessivo, ciumento e calculista por Etna Bliss, uma mulher de uma beleza especial, jovem e que nunca chegou a amá-lo, apesar de ter se casado com ele, e com ele ter gerado dois filhos (depois o enredo me fez lembrar e encontrar paralelos com Machado de Assis em Dom Casmurro). Mesmo sendo ela, Etna Bliss, o centro das atenções do narrador, aparece na estória como em pano de fundo, como imaginada e conduzida por ele, com raras reflexões e voz própria, incapaz de expressar o que sente. Subordinada ao discurso do narrador, ela está em suas mãos, moldada à forma que ele lhe dá, e não a que ela mesma subscreveria – mas não é este o modelo convencional da mulher daquela época? – E assim está exposta Etna Bliss, apática e estagnada pelos seus sentimentos ocultos, confinada às tarefas de benfeitora do lar e da caridade – mas nem sempre leal, como era de se esperar – e mantendo uma relação com o marido que funciona bem durante o dia, mas tornando-se fria e distante de noite, no momento da intimidade do casal. Seus breves diálogos com o marido me deram raiva – como tive raiva dela pelas suas abstenções e pelo seu silêncio pesado e constrangedor. Não é que Nicolas Van Tassel se desenvolva como um macho tirano – ele é até certo ponto condescendente – seu intenso desejo sexual e de ser amado por ela não o permite extrapolar os limites de sua decepção, pois os desejos se transformam sempre em uma nova esperança.

A literatura do século XIX estava comprometida com a sociedade que era na época um palco extraordinário para os literatos: o crescimento da produção industrial, as aplicações monetárias, as drásticas diferenças entre as classes, e seus conflitos, as relações amorosas,  foram usados como temas que nos deram até hoje um retrato da sociedade em forma de romance social. Mesmo que um tema, como entre outros o amor, o dinheiro, a política, possa subsistir no tempo, ele não permanece invariável por mais que ele seja verdadeiro – e um tema tanto é verdadeiro, como é para todos – o que muda é a forma de reconhecê-lo e interpretá-lo num dado contexto social e político e numa dada época. As reações de uma jovem que leu o romance de Leon Tolstói, Anna karenina, quando ele foi publicado na Rússia entre 1877 e 1878 e com uma jovem também russa que o lê nos dias atuais é bem diferente; assim como se acontecer se a jovem que o lê é brasileira – o que não é muito frequente – ela vai reconhecer sobretudo o amor de forma malograda de Anna karenina e dar-lhe novos contornos segundo suas experiências e capacidade crítica ao confrontar a estória com a sociedade atual, apontando novas soluções e até levada a corrigir comportamentos se a leitura a estimula, ou poderá até se divertir com alguns personagens e costumes de então – mas não é isso também que faz uma obra subsistir, quando ela ganha novas interpretações através do tempo? Li num blog que Tolstói não sabia que a sua obra iria chegar até hoje e fazer pessoas „chorar, rir, e apaixonar-se pela vida“, como ele mesmo disse; se alguém lhe tivesse dito isso, ele teria dedicado a sua obra a toda sua vida e as suas forças, afirmou. Quando assisti ao filme Madame Bovary de Claude Chabrol – tendo Isabelle Ruppert no papel de Emma Bovary, reparei com espanto que mulheres riam com desdém da personagem, me deixando irritada no momento por não ter compreendido no momento o quanto ainda havia dogmatismo entre as mulheres nos anos 90, ditas feministas. Anos mais tarde a velha personagem de Gustave Flaubert foi atualizada em Little Children – em português Pecados Íntimos – dirigido por Todd Field. No filme Emma Bovary é apenas mencionada por uma mulher jovem, casada e mãe – Kate Winslet no papel – num grupo de leitura com outras mulheres de idades diferentes. A jovem se reconhece no drama da personagem por também estar vivendo no momento uma relação extraconjugal e, ao contrário das outras mulheres, sem fazer julgamento, ela avalia o comportamento de Bovary livre daquele carácter de mulher fácil e desmiolada de então. Novos valores geram novas interpretações, e quem diria que Madame Bovary não ganhasse por fim a marca de feminista? O filme não termina numa tragédia; a jovem não precisa suicidar-se, como Emma o fez por vingança, por desespero, ou mesmo por não ter podido suportar o excesso de narcisismo; pelo contrário, após esse reconhecimento, ela se afasta de qualquer intenção de culpa ou de justificar-se pela sua infidelidade, o que isto impede o suicídio e faz ganhar a reflexão.

Etna Bliss não optou por se tirar a vida, preferiu abandonar o marido e os filhos – um ato impensado, movido pelo desespero, por vingança e por tantas abstenções e renúncias que no fundo não a favoreceram em nada. Ela não só foi vítima dela mesma, como também de sua época; seus anseios não eram tantos, e Etna se considerava com o devido direito de realizá-los – por quê não? – Etna nasceu um século depois da Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776 que promulgava entre outras verdades o direito à vida, à liberdade e a aspirar à felicidade, porque todos os homens são obras do Criador e por isso têm os mesmos direitos. São palavras tão abstratas como uma escultura que configurasse cada um dos termos evidenciados: vida, liberdade e felicidade – um idealismo – a quem „todos os homens“ está referido? Também às mulheres? Etna queria ser feliz vivendo o amor ideal, que para ela, era aquele desencadeado pela experiência erótica, e assim o experimentou intensamente, mas por infortúnio foi abandonada pelo amante – daí o casamento sem amor ao marido como uma vingança – a si mesma? Ao marido? A insatisfação de Nicolas com a frieza de Etna, ele aproveita para desviar a atenção de sua própria falta de habilidade na cama; seu desejo sexual não dá para acender uma chama de amor no corpo dela. Etna todavia ainda apelou à liberdade de possuir um bem, quando usou o dinheiro de um quadro herdado para comprar uma casa, um retiro, onde ela pudesse apenas experimentar estar livre através de atos simples: costurar à mão, tomar um chá, escrever cartas, ler, descansar. No entanto foi seguida pelo marido que a descobriu, desvendou seu refúgio e acusou-a de mentirosa e traidora. Depois só restou a Etna a vida – a vida pela vida – e por esta, para não morrer – por que teria que repetir a tragédia de Anna Karenina e Emma Bovary? – ela foi embora – abandonando tudo e todos – na esperança de ainda reencontrar-se naquele amor tão aspirado.

Por que as estórias de Anna karenina e Madame Bovary não passaram como erroneamente pensamos? Uma prova aparente são as refilmagens dos romances: Anna Karenina foi filmado onze vezes e Madame Bovary nove. Também as traduções são muitas, e cada uma que reaparece é uma tentativa de aproximar mais a linguagem do escritores aos nossos dias sem que os conteúdos sejam alterados e as sequências das ações sejam modificadas. Outra prova mais convincente é quanto o romance do século XIX é grandioso, e chegou a um auge talvez não alcançado e superado em outras épocas: o avanço técnico e científico não só favoreceram as guerras, mas também abriram as possibilidades de poder controlar tudo ou quase tudo; daí também se explica porque o papel do narrador do século XIX, sabedor de tudo e que controla tudo não é gratuito. E ainda mais: o fascínio que essas estórias nos exercem; além de serem os romances um espelho das relações sociais do século XIX somado à maestria estilística dos autores, também nos sentimos atraídos pelos seus dramas e tragédias, pelos amores e sofrimentos das personagens, porque tudo isto está dentro de nós desde muito cedo: o medo, o prazer ou os tabus, tanto a vida como a morte nos atraem, porque a vida não é somente os feitos, mas ela tem um fim. E por fim: Karenina e Bovary – Anna e Emma – não morreram para nós mulheres, suas tragédias também despertaram interesses nas feministas, como fonte de questionamento de como anda a consciência da mulher, a nossa consciência hoje.

Até as tragédias e os dramas nos mostram que nem tudo está perdido, resta sempre algo que daí pode ser um reinício; a memória, as experiências, os ganhos e as conquistas promovem os movimentos de mudança, mesmo quando estes parecem mais um retrocesso. Quando uma mudança social vem de um ato do legislativo, esperamos que os resultados dela sejam rápidos e evidenciados, para nos sentirmos seguras. Por outro lado passamos por situações diárias – em casa, no trabalho, nas aulas, em festas, na rua, etc. – que ainda estão longe de serem reconhecidas e classificadas como portadoras de agressões verbais, sexismo ou racismo. Para estas situações as mudanças são mais lentas e dependem sobretudo de nossas atitudes e reações. Um silêncio pode ser entendido como uma aprovação, e assim deixamos passar o momento de falar e atuar e acumulamos mais abstenções. Quantas vezes não voltei pra casa com raiva de mim mesma, decepcionada, porque me esquivei frente a outros e não disse o que queria e devia. Achava que se falasse, iria chocar o público, ofender pessoas e todos iriam presenciar minha fúria – uma vergonha, no fundo. É que eu não estava preparada para essas situações e tinha medo das confrontações. Quando eu fui votar no primeiro turno da última eleição para presidente, atrás de mim na fila estavam duas mulheres conversando; a que falava mais alto, reclamava da espera e da má organização das seções, usando uma forma mais negativa do que condizente com a realidade. Isto me molestou porque vi que se tratava de queixas infundadas, pois a espera era normal por conta de mais eleitores, e o processo de chegar até a cabine estava visivelmente organizado. Como podia me calar frente a mentiras? Falei calmamente, expus meus argumentos, e por fim disse-lhe que o seu negativismo era desagradável e chegava até mim influindo no meu bom humor. Ela calou-se de vez, e a outra olhou-me admirada exibindo um sorriso leve de confirmação. Senti-me satisfeita com a minha ação, pois no fundo o que eu fiz foi opor-me a suas palavras que não estavam certas, e estabelecer uma fronteira. Mulheres também se abstêm de situações por não se sentirem capazes e seguras de seus argumentos, ou por vergonha de terem uma posição. No Brasil os termos feminismo e feminista ainda têm um sentido negativo, algo como incabível, exagerado, inflexível, e mulheres têm medo de assumirem essa posição, que para elas seria como se estivessem revelando algo sem valor e até proibido.

Por mais que o governo de Jair Bolsonaro vá recuar as forças democráticas, fechar os olhos para o bem do nosso planeta terra em nome de um liberalismo desenfreado, e não apoiar as mulheres na luta pelos seus direitos e contra o despotismo masculino, mesmo assim não vamos voltar atrás – porque isto é impossível – já temos o legado de nossas pioneiras antepassadas, nossas próprias experiências e sabemos que os direitos não são dados de presente, mas sim conquistados com muita luta. Vamos seguir.

Dois anos e um mês de blog

 

Este ano o aniversário do meu blog passou despercebido no primeiro de outubro; foram os acontecimentos de então no Brasil com as eleições que me tiraram a atenção, assim como a morte de um ser querido da minha família não me fizeram lembrar que já tinha dois anos de escrever num blog, por isso publico hoje somando mais um mês ao aniversário e continuo firme na minha intenção de mantê-lo, esperando que nenhuma vicissitude da vida venha por ventura impedir-me. Também sigo firme no meu propósito de ter como tema central o feminismo, ou seja, a mulher no seu processo de autodeterminação e descoberta.

A experiência de estar aqui é tão grande como quase propriamente a de escrever – é uma comunidade enorme a dos blogueiros; não seria possível só escrever e publicar sem passar pelos colegas – suas postagens, seus estilos, suas intenções, seus esforços também – tem de tudo – e é quando não me sinto isolada, pois, sei, a interação é muito importante. Conheci gente muito boa, blogueiros sérios e comprometidos com a verdade; também bons blogs continuam me seguindo, enquanto eu só sigo alguns poucos, o que isto não quer dizer que ignore outros blogs – pelo contrário – é porque leio outros blogs e faço-o para dar-me conta do que passa no momento: blogs podem ser bem mais rápidos do que outros meios de divulgação. No entanto há outro aspecto nas postagens que me salta aos olhos: o comentário que eventualmente se pode fazer após a leitura de um texto; no fundo um ato democrático ao abrir possibilidades à livre expressão, o que, infelizmente, muitos e muitos não compreendem assim, ao acharem que a livre expressão não tem limites nem regras, e chegam sem estes a alcançar um nível não só baixo, mas indecoroso também. Li comentários horripilantes, de darem nojo as expressões usadas, ficando deles como única coisa, o fato de que eles existem, e em grande quantidade; na verdade revelam a temperatura dos leitores e põem à mostra sua capacidade tanto de expressar-se, como expressar suas reações. Nós blogueiros temos a chance de moderar os comentários que nos enviam e removê-los se não nos parecem apropriados. Algumas pessoas entendem isso como apenas um controle de poder ao deixarmos aparecer só os comentários que convêm ao blog para promovê-lo. Não penso assim. Entre um comentário crítico, mesmo não estando de acordo com a opinião do texto, e outro que não diz nada, a não ser palavrões e ofensas – fico com o primeiro por rejeitar o desrespeito e as barbaridades gratuitas do segundo. Na verdade existem comentários que não devem ser publicados, pela mera falta de coesão, senso crítico e de não ser uma contribuição positiva ao público de leitores.

Duas coisas foram importantes nestes dois anos – primeiro: aprender para amadurecer, pois o pré-requisito de amadurecer é ter aprendido, sendo eu ainda às vezes nada condescendente comigo mesma ao achar que meu estilo é assim e não de outro modo; meu vocabulário é insuficiente; não sou precisa e, e, e … assim vou sem me levar a nada significativo, a não ser que comece a ser condescendente comigo mesma, – e segundo: o blog me deu oportunidade de saber mais do Brasil, pois como vivo fora do país há muitos anos, não acompanhei, a não ser a grosso modo, os acontecimentos em sua extensão. Um exemplo recente é o caso da Marielle Franco que só vim a conhecê-la quando ela já não vivia mais; e muitos outros casos e notícias que me chegam ao conhecimento através de postagens. Li, por exemplo, recentemente num blog, que uma criança foi baleada em Ponta Grossa, no Paraná, por ocasião das comemorações de uma família pela vitória do presidente eleito no passado 28 de outubro. Com o blog me sinto mais próxima do Brasil, embora a maioria das notícias que recebo de lá, não me agrade.

Se faço uma avaliação do que escrevi nesse segundo ano de blog, alguns textos em relevância me cobraram esforço, como o Já um mês sem Marielle Franco, o qual escrevi sob uma forte tristeza e com o coração pesado pela sua morte repentina. Outro, Que „coisa“ é essa Clarice? eu o escrevi com base numa leitura apurada do seu conto Mineirinho de 1962. Este conto, que me parece mais um plaidoyer, é denso, profundo, complexo como a própria Clarice era e assim também a sua expressão literária; é uma visão do que está atrás das aparências e para que nos salvemos dela significa que devemos nos abster daquilo que nos revela gente – mas que salvação é esta que nos torna inimigos, em vez de fraternos? Escrever sobre Mineirinho me custou menos trabalho do que elucidar as frases de Clarice, sair de sua superfície – às vezes aparentemente fácil – e passar a compreendê-las, não de forma acadêmica, mas como base existencial. E por fim a minha postagem de agosto É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos, a escrevi com base num caso real passado no sul da Alemanha e onde também este ano ocorreu o julgamento da mãe e de seu parceiro acusados de haverem abusado sexualmente de uma criança, o filho da mulher. Escrever sobre esse caso foi como um grito de alerta aos clichês que envolvem cuidado, amor, responsabilidade em volta do papel social e afetivo da mulher como mãe. Esses clichês nos impedem de encarar a mulher além do prescrito pela identidade de gênero e de tocar em tabus em volta do papel da mãe. A pergunta é até que ponto o feminismo também seria responsável por discriminações e separações, criando da mesma forma construções discursivas e culturais. São perguntas relevantes, são elucubrações pertinentes que fascinam meu espírito inquieto – daí o inevitável E Agora Mulher?

Pudesse escrever mais, publicar com mais frequência – faço-me mesma estas críticas ao não considerar que certas circunstâncias na minha vida não me permitem isso – por outro lado escrever para mim não é nada gratuito, tem que ver com estar convencida do que quero dizer e até de sofrer no ato da expressão – é um desafio e assim será.

Agradeço aos amigos que acreditam em mim, a meu marido, que mesmo sem saber português, procura entender a nada boa tradução do google – obrigada querido – e a todos aqueles que mesmo sendo de forma virtual, me ajudam a prosseguir.