E o nosso feminismo daqui pra frente?

       

„Eu amo a senhora.“ Ao ouvir a frase que não era uma qualquer, mas uma declaração de amor vinda de um homem bem mais velho do que ela, o qual conhecia só há uns tantos, não teve nenhuma surpresa, infelizmente já a esperava, sabia que algum dia iria ouvir de malgrado o que era inevitável: „Eu amo a senhora, e com isso gostaria muito de tê-la ao meu lado; quero pedir-lhe que seja minha mulher, caso essa idéia também a encha de satisfação. Quero pedir-lhe Etna que se case comigo. Sei que o que estou pedindo não é uma surpresa para a senhora, mesmo assim peço-lhe que se dê tempo para decidir-se; saiba que um sim de sua parte, me faria o homem mais feliz desta terra.“

Esta cena eu não a vivi; ela tampouco cabe mais nos nossos dias atuais; ela não é real – apesar de ser convincente – ela foi tirada – sem ter sido traduzida – de um dos romances de Anita Shreve All He Ever Wanted – Tudo O Que Ele Queria – seria mais ou menos o título em português (eu o li, porém, em alemão), publicado pela primeira vez em 2003 nos Estados Unidos onde a escritora nasceu e faleceu aos 71 anos em março deste ano. No fundo Anita Shreve não é a minha escritora norte-americana predileta; o título me pareceu um tanto brega, como de um romance cor-de- rosa, melodramático, sem exigências e desafios; o que me levou a lê-lo porém, foi a curiosidade por se tratar de uma estória que se passa no século passado, focalizando um homem maduro e apaixonado, e uma mulher que de leve tateia sua emancipação pelo puro direito de poder escolher a quem amar, numa época em que os casamentos ainda eram obras de decisão dos homens. O livro é narrado em primeira pessoa, pelo homem, Nicolas Van Tassel – o que não foi uma escolha aleatória da escritora – descendente de holandeses, professor de literatura inglesa e retórica ele é quem conta a estória, a sua própria história entre os anos de 1899 e 1935, sua paixão, seu amor obsessivo, ciumento e calculista por Etna Bliss, uma mulher de uma beleza especial, jovem e que nunca chegou a amá-lo, apesar de ter se casado com ele, e com ele ter gerado dois filhos (depois o enredo me fez lembrar e encontrar paralelos com Machado de Assis em Dom Casmurro). Mesmo sendo ela, Etna Bliss, o centro das atenções do narrador, aparece na estória como em pano de fundo, como imaginada e conduzida por ele, com raras reflexões e voz própria, incapaz de expressar o que sente. Subordinada ao discurso do narrador, ela está em suas mãos, moldada à forma que ele lhe dá, e não a que ela mesma subscreveria – mas não é este o modelo convencional da mulher daquela época? – E assim está exposta Etna Bliss, apática e estagnada pelos seus sentimentos ocultos, confinada às tarefas de benfeitora do lar e da caridade – mas nem sempre leal, como era de se esperar – e mantendo uma relação com o marido que funciona bem durante o dia, mas tornando-se fria e distante de noite, no momento da intimidade do casal. Seus breves diálogos com o marido me deram raiva – como tive raiva dela pelas suas abstenções e pelo seu silêncio pesado e constrangedor. Não é que Nicolas Van Tassel se desenvolva como um macho tirano – ele é até certo ponto condescendente – seu intenso desejo sexual e de ser amado por ela não o permite extrapolar os limites de sua decepção, pois os desejos se transformam sempre em uma nova esperança.

A literatura do século XIX estava comprometida com a sociedade que era na época um palco extraordinário para os literatos: o crescimento da produção industrial, as aplicações monetárias, as drásticas diferenças entre as classes, e seus conflitos, as relações amorosas,  foram usados como temas que nos deram até hoje um retrato da sociedade em forma de romance social. Mesmo que um tema, como entre outros o amor, o dinheiro, a política, possa subsistir no tempo, ele não permanece invariável por mais que ele seja verdadeiro – e um tema tanto é verdadeiro, como é para todos – o que muda é a forma de reconhecê-lo e interpretá-lo num dado contexto social e político e numa dada época. As reações de uma jovem que leu o romance de Leon Tolstói, Anna karenina, quando ele foi publicado na Rússia entre 1877 e 1878 e com uma jovem também russa que o lê nos dias atuais é bem diferente; assim como se acontecer se a jovem que o lê é brasileira – o que não é muito frequente – ela vai reconhecer sobretudo o amor de forma malograda de Anna karenina e dar-lhe novos contornos segundo suas experiências e capacidade crítica ao confrontar a estória com a sociedade atual, apontando novas soluções e até levada a corrigir comportamentos se a leitura a estimula, ou poderá até se divertir com alguns personagens e costumes de então – mas não é isso também que faz uma obra subsistir, quando ela ganha novas interpretações através do tempo? Li num blog que Tolstói não sabia que a sua obra iria chegar até hoje e fazer pessoas „chorar, rir, e apaixonar-se pela vida“, como ele mesmo disse; se alguém lhe tivesse dito isso, ele teria dedicado a sua obra a toda sua vida e as suas forças, afirmou. Quando assisti ao filme Madame Bovary de Claude Chabrol – tendo Isabelle Ruppert no papel de Emma Bovary, reparei com espanto que mulheres riam com desdém da personagem, me deixando irritada no momento por não ter compreendido no momento o quanto ainda havia dogmatismo entre as mulheres nos anos 90, ditas feministas. Anos mais tarde a velha personagem de Gustave Flaubert foi atualizada em Little Children – em português Pecados Íntimos – dirigido por Todd Field. No filme Emma Bovary é apenas mencionada por uma mulher jovem, casada e mãe – Kate Winslet no papel – num grupo de leitura com outras mulheres de idades diferentes. A jovem se reconhece no drama da personagem por também estar vivendo no momento uma relação extraconjugal e, ao contrário das outras mulheres, sem fazer julgamento, ela avalia o comportamento de Bovary livre daquele carácter de mulher fácil e desmiolada de então. Novos valores geram novas interpretações, e quem diria que Madame Bovary não ganhasse por fim a marca de feminista? O filme não termina numa tragédia; a jovem não precisa suicidar-se, como Emma o fez por vingança, por desespero, ou mesmo por não ter podido suportar o excesso de narcisismo; pelo contrário, após esse reconhecimento, ela se afasta de qualquer intenção de culpa ou de justificar-se pela sua infidelidade, o que isto impede o suicídio e faz ganhar a reflexão.

Etna Bliss não optou por se tirar a vida, preferiu abandonar o marido e os filhos – um ato impensado, movido pelo desespero, por vingança e por tantas abstenções e renúncias que no fundo não a favoreceram em nada. Ela não só foi vítima dela mesma, como também de sua época; seus anseios não eram tantos, e Etna se considerava com o devido direito de realizá-los – por quê não? – Etna nasceu um século depois da Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776 que promulgava entre outras verdades o direito à vida, à liberdade e a aspirar à felicidade, porque todos os homens são obras do Criador e por isso têm os mesmos direitos. São palavras tão abstratas como uma escultura que configurasse cada um dos termos evidenciados: vida, liberdade e felicidade – um idealismo – a quem „todos os homens“ está referido? Também às mulheres? Etna queria ser feliz vivendo o amor ideal, que para ela, era aquele desencadeado pela experiência erótica, e assim o experimentou intensamente, mas por infortúnio foi abandonada pelo amante – daí o casamento sem amor ao marido como uma vingança – a si mesma? Ao marido? A insatisfação de Nicolas com a frieza de Etna, ele aproveita para desviar a atenção de sua própria falta de habilidade na cama; seu desejo sexual não dá para acender uma chama de amor no corpo dela. Etna todavia ainda apelou à liberdade de possuir um bem, quando usou o dinheiro de um quadro herdado para comprar uma casa, um retiro, onde ela pudesse apenas experimentar estar livre através de atos simples: costurar à mão, tomar um chá, escrever cartas, ler, descansar. No entanto foi seguida pelo marido que a descobriu, desvendou seu refúgio e acusou-a de mentirosa e traidora. Depois só restou a Etna a vida – a vida pela vida – e por esta, para não morrer – por que teria que repetir a tragédia de Anna Karenina e Emma Bovary? – ela foi embora – abandonando tudo e todos – na esperança de ainda reencontrar-se naquele amor tão aspirado.

Por que as estórias de Anna karenina e Madame Bovary não passaram como erroneamente pensamos? Uma prova aparente são as refilmagens dos romances: Anna Karenina foi filmado onze vezes e Madame Bovary nove. Também as traduções são muitas, e cada uma que reaparece é uma tentativa de aproximar mais a linguagem do escritores aos nossos dias sem que os conteúdos sejam alterados e as sequências das ações sejam modificadas. Outra prova mais convincente é quanto o romance do século XIX é grandioso, e chegou a um auge talvez não alcançado e superado em outras épocas: o avanço técnico e científico não só favoreceram as guerras, mas também abriram as possibilidades de poder controlar tudo ou quase tudo; daí também se explica porque o papel do narrador do século XIX, sabedor de tudo e que controla tudo não é gratuito. E ainda mais: o fascínio que essas estórias nos exercem; além de serem os romances um espelho das relações sociais do século XIX somado à maestria estilística dos autores, também nos sentimos atraídos pelos seus dramas e tragédias, pelos amores e sofrimentos das personagens, porque tudo isto está dentro de nós desde muito cedo: o medo, o prazer ou os tabus, tanto a vida como a morte nos atraem, porque a vida não é somente os feitos, mas ela tem um fim. E por fim: Karenina e Bovary – Anna e Emma – não morreram para nós mulheres, suas tragédias também despertaram interesses nas feministas, como fonte de questionamento de como anda a consciência da mulher, a nossa consciência hoje.

Até as tragédias e os dramas nos mostram que nem tudo está perdido, resta sempre algo que daí pode ser um reinício; a memória, as experiências, os ganhos e as conquistas promovem os movimentos de mudança, mesmo quando estes parecem mais um retrocesso. Quando uma mudança social vem de um ato do legislativo, esperamos que os resultados dela sejam rápidos e evidenciados, para nos sentirmos seguras. Por outro lado passamos por situações diárias – em casa, no trabalho, nas aulas, em festas, na rua, etc. – que ainda estão longe de serem reconhecidas e classificadas como portadoras de agressões verbais, sexismo ou racismo. Para estas situações as mudanças são mais lentas e dependem sobretudo de nossas atitudes e reações. Um silêncio pode ser entendido como uma aprovação, e assim deixamos passar o momento de falar e atuar e acumulamos mais abstenções. Quantas vezes não voltei pra casa com raiva de mim mesma, decepcionada, porque me esquivei frente a outros e não disse o que queria e devia. Achava que se falasse, iria chocar o público, ofender pessoas e todos iriam presenciar minha fúria – uma vergonha, no fundo. É que eu não estava preparada para essas situações e tinha medo das confrontações. Quando eu fui votar no primeiro turno da última eleição para presidente, atrás de mim na fila estavam duas mulheres conversando; a que falava mais alto, reclamava da espera e da má organização das seções, usando uma forma mais negativa do que condizente com a realidade. Isto me molestou porque vi que se tratava de queixas infundadas, pois a espera era normal por conta de mais eleitores, e o processo de chegar até a cabine estava visivelmente organizado. Como podia me calar frente a mentiras? Falei calmamente, expus meus argumentos, e por fim disse-lhe que o seu negativismo era desagradável e chegava até mim influindo no meu bom humor. Ela calou-se de vez, e a outra olhou-me admirada exibindo um sorriso leve de confirmação. Senti-me satisfeita com a minha ação, pois no fundo o que eu fiz foi opor-me a suas palavras que não estavam certas, e estabelecer uma fronteira. Mulheres também se abstêm de situações por não se sentirem capazes e seguras de seus argumentos, ou por vergonha de terem uma posição. No Brasil os termos feminismo e feminista ainda têm um sentido negativo, algo como incabível, exagerado, inflexível, e mulheres têm medo de assumirem essa posição, que para elas seria como se estivessem revelando algo sem valor e até proibido.

Por mais que o governo de Jair Bolsonaro vá recuar as forças democráticas, fechar os olhos para o bem do nosso planeta terra em nome de um liberalismo desenfreado, e não apoiar as mulheres na luta pelos seus direitos e contra o despotismo masculino, mesmo assim não vamos voltar atrás – porque isto é impossível – já temos o legado de nossas pioneiras antepassadas, nossas próprias experiências e sabemos que os direitos não são dados de presente, mas sim conquistados com muita luta. Vamos seguir.

Dois anos e um mês de blog

 

Este ano o aniversário do meu blog passou despercebido no primeiro de outubro; foram os acontecimentos de então no Brasil com as eleições que me tiraram a atenção, assim como a morte de um ser querido da minha família não me fizeram lembrar que já tinha dois anos de escrever num blog, por isso publico hoje somando mais um mês ao aniversário e continuo firme na minha intenção de mantê-lo, esperando que nenhuma vicissitude da vida venha por ventura impedir-me. Também sigo firme no meu propósito de ter como tema central o feminismo, ou seja, a mulher no seu processo de autodeterminação e descoberta.

A experiência de estar aqui é tão grande como quase propriamente a de escrever – é uma comunidade enorme a dos blogueiros; não seria possível só escrever e publicar sem passar pelos colegas – suas postagens, seus estilos, suas intenções, seus esforços também – tem de tudo – e é quando não me sinto isolada, pois, sei, a interação é muito importante. Conheci gente muito boa, blogueiros sérios e comprometidos com a verdade; também bons blogs continuam me seguindo, enquanto eu só sigo alguns poucos, o que isto não quer dizer que ignore outros blogs – pelo contrário – é porque leio outros blogs e faço-o para dar-me conta do que passa no momento: blogs podem ser bem mais rápidos do que outros meios de divulgação. No entanto há outro aspecto nas postagens que me salta aos olhos: o comentário que eventualmente se pode fazer após a leitura de um texto; no fundo um ato democrático ao abrir possibilidades à livre expressão, o que, infelizmente, muitos e muitos não compreendem assim, ao acharem que a livre expressão não tem limites nem regras, e chegam sem estes a alcançar um nível não só baixo, mas indecoroso também. Li comentários horripilantes, de darem nojo as expressões usadas, ficando deles como única coisa, o fato de que eles existem, e em grande quantidade; na verdade revelam a temperatura dos leitores e põem à mostra sua capacidade tanto de expressar-se, como expressar suas reações. Nós blogueiros temos a chance de moderar os comentários que nos enviam e removê-los se não nos parecem apropriados. Algumas pessoas entendem isso como apenas um controle de poder ao deixarmos aparecer só os comentários que convêm ao blog para promovê-lo. Não penso assim. Entre um comentário crítico, mesmo não estando de acordo com a opinião do texto, e outro que não diz nada, a não ser palavrões e ofensas – fico com o primeiro por rejeitar o desrespeito e as barbaridades gratuitas do segundo. Na verdade existem comentários que não devem ser publicados, pela mera falta de coesão, senso crítico e de não ser uma contribuição positiva ao público de leitores.

Duas coisas foram importantes nestes dois anos – primeiro: aprender para amadurecer, pois o pré-requisito de amadurecer é ter aprendido, sendo eu ainda às vezes nada condescendente comigo mesma ao achar que meu estilo é assim e não de outro modo; meu vocabulário é insuficiente; não sou precisa e, e, e … assim vou sem me levar a nada significativo, a não ser que comece a ser condescendente comigo mesma, – e segundo: o blog me deu oportunidade de saber mais do Brasil, pois como vivo fora do país há muitos anos, não acompanhei, a não ser a grosso modo, os acontecimentos em sua extensão. Um exemplo recente é o caso da Marielle Franco que só vim a conhecê-la quando ela já não vivia mais; e muitos outros casos e notícias que me chegam ao conhecimento através de postagens. Li, por exemplo, recentemente num blog, que uma criança foi baleada em Ponta Grossa, no Paraná, por ocasião das comemorações de uma família pela vitória do presidente eleito no passado 28 de outubro. Com o blog me sinto mais próxima do Brasil, embora a maioria das notícias que recebo de lá, não me agrade.

Se faço uma avaliação do que escrevi nesse segundo ano de blog, alguns textos em relevância me cobraram esforço, como o Já um mês sem Marielle Franco, o qual escrevi sob uma forte tristeza e com o coração pesado pela sua morte repentina. Outro, Que „coisa“ é essa Clarice? eu o escrevi com base numa leitura apurada do seu conto Mineirinho de 1962. Este conto, que me parece mais um plaidoyer, é denso, profundo, complexo como a própria Clarice era e assim também a sua expressão literária; é uma visão do que está atrás das aparências e para que nos salvemos dela significa que devemos nos abster daquilo que nos revela gente – mas que salvação é esta que nos torna inimigos, em vez de fraternos? Escrever sobre Mineirinho me custou menos trabalho do que elucidar as frases de Clarice, sair de sua superfície – às vezes aparentemente fácil – e passar a compreendê-las, não de forma acadêmica, mas como base existencial. E por fim a minha postagem de agosto É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos, a escrevi com base num caso real passado no sul da Alemanha e onde também este ano ocorreu o julgamento da mãe e de seu parceiro acusados de haverem abusado sexualmente de uma criança, o filho da mulher. Escrever sobre esse caso foi como um grito de alerta aos clichês que envolvem cuidado, amor, responsabilidade em volta do papel social e afetivo da mulher como mãe. Esses clichês nos impedem de encarar a mulher além do prescrito pela identidade de gênero e de tocar em tabus em volta do papel da mãe. A pergunta é até que ponto o feminismo também seria responsável por discriminações e separações, criando da mesma forma construções discursivas e culturais. São perguntas relevantes, são elucubrações pertinentes que fascinam meu espírito inquieto – daí o inevitável E Agora Mulher?

Pudesse escrever mais, publicar com mais frequência – faço-me mesma estas críticas ao não considerar que certas circunstâncias na minha vida não me permitem isso – por outro lado escrever para mim não é nada gratuito, tem que ver com estar convencida do que quero dizer e até de sofrer no ato da expressão – é um desafio e assim será.

Agradeço aos amigos que acreditam em mim, a meu marido, que mesmo sem saber português, procura entender a nada boa tradução do google – obrigada querido – e a todos aqueles que mesmo sendo de forma virtual, me ajudam a prosseguir.

Uma coisa boa

 

Desde o início dos debates públicos do #MeToo as mulheres têm avançado na luta contra o desrespeito, a discriminação e os abusos sexuais, demonstrando coragem, poder de decisão e tornando o movimento mais amplo, sobretudo quando homens também vítimas de investidas sexuais podem se juntar a elas e denunciar ataques sofridos não só de homens, mas também de mulheres. É quando o hashtag pode ir mais além de só querer ver as mulheres como vítimas – embora o número delas como vítimas seja extremamente desproporcional ao dos homens – e passar a ampliar seu teor democrático: todos têm voz e poder de expressão porque o mais importante é o que define o próprio movimento, ou seja, o hashtag MeToo tem que ver com, acima de tudo, denunciar os abusos de poder em forma sexista e discriminatória, como também fazer frente a aqueles que defendem a impunidade e rejeitam a credibilidade das vítimas num sistema que faz prevalecer o silêncio à denúncia e assegurar o comportamento abusivo como normal. Mas isto é tudo? Pelo menos parecia que era tudo até que o presidente americano Donald Trump começou a querer tirar vantagens do movimento para o seu próprio benefício. Isto passou numa de suas viagens pela sua recandidatura à presidência no Estado do Mississipi. Ele desacreditou da professora universitária Christina Blasey Ford por ter ela denunciado o juiz Brett Kavanaugh de uma tentativa de violação no início dos anos 80, quando tinha então 15 anos. Trump, que se pôs ao lado do juiz Kavanaugh – claro – usou de zombaria para qualificar a professora de mentirosa, enquanto procurava grotescamente imitá-la por um lapso de memória, uma hesitação – o que é de se esperar ao se expor num depoimento como esse:

Ele: – “Eu tomei uma cerveja, certo?
– „Como a senhora chegou em casa?“ „Não sei.“
– „Onde passou isso?“ „Não sei.“
– „ Há quanto tempo atrás passou isso?“ “Não sei mais.“
– „Não sei, não sei, não sei.“
Isto mostra até que ponto chega Trump para que o público ria junto com ele, aplauda-o, confirme-o, mesmo fomentando a desigualdade, o ódio, a indiferença. É também uma das mostras de quão polarizado se encontram os Estados Unidos; se por um lado o país é sede de iniciativas novas como o próprio MeToo – por outro lado é exatamente o contrário: seguidores do presidente encontram confortavelmente na sua gestão terreno propício para disseminar o desrespeito, o descaso e o menosprezo às mulheres, aos negros, aos estrangeiros; não lhes interessam nem a dignidade nem a coragem de Christina Blasey Ford ao deixar público um fato de sua vida, que a marcou para sempre, independente de que ela tenha tido culpa nele ou não, porque o papel da culpa foi o que menos valeu no show do depoimento, mas sim o que se pôde fazer para eliminar o inimigo – e ela era um inimigo em potencial – uma inimiga do conservadorismo.

A já mastigada pergunta do „por que só agora, depois de tantos anos ela faz a denúncia?“ falta raciocínio, não leva em conta o passado – ou por medo de encará-lo, ou por indiferença pelo que passou – estimula a repressão e faz da história um esquecimento, o qual este serve como tática para manipular o presente. Com tudo isto, as mulheres que sofreram, não importando a forma, se verbal ou física, investidas sexistas e discriminatórias não esquecem. Elas não esquecem porque sentem o que passou como uma ferida; para as que sofreram violentos ataques físicos – apalpações agressivas, e sobretudo violação – essa ferida sangra para sempre; traumatizadas essas mulheres não vivem com relaxo o seu dia-a-dia, pois as lembranças voltam e voltam, se não bem na memória, bem mais por sensações físicas de pânico, tremores e a terrível paralisação que impede reagir – momentos de alto grau de violência, como os de ser estuprada, por exemplo, podem provocar na vítima um mecanismo que faz escapar do presente como uma tática frente ao horror; futuramente esses momentos encontrarão, ao virem à memória, um certo filtro como algo nublado pela necessidade que a vítima teve de recorrer a esse mecanismo. E para nós todas que sabemos o que é ser verbalmente discriminadas pelo sexo ainda nos falta a medida certa de como reagir a esses ataques, a qual vem de uma consciente aprendizagem de como autodeterminar-se. A sociolinguista americana Deborah Tannen, conhecida em português pelo seu bestseller Você Simplesmente Não Me Entende – O Difícil Diálogo Entre Homens E Mulheres estabeleceu dois eixos na comunicação: vertical versus horizontal. O vertical tem que ver primeiro com o uso de poder – hierarquia, funcionalidade – já o horizontal, ao contrário, denota primeiro o conteúdo, a solidariedade, transmitindo a sensação de que o outro faz parte do diálogo – ele não é um estranho. Esperar uma mudança daqueles que pensam verticalmente usando o que se chama High Talk – conteúdos intelectuais, frases de sentido moral, etc. – como reação a uma ofensa ou insulto, não vai mudar nada, porque está visto que a vítima foi pega e dentro das relações de poder ela se encontra bem abaixo. Que fazer? Devolver na mesma moeda a ofensa? Bem melhor nunca perder os nervos, e para isso é preciso se conscientizar treinando formas de superar o ataque sem perder a sensação de sentir-se confortável e segura, ou seja, falar devagar e firme encarar o tal, o autor do ataque, olhando-o nos olhos e calmamente dar-lhe uma resposta. Nada de solidariedade, de confiança, pois a comunicação não se encontra no eixo horizontal, e o fato de que as situações são diferentes, o melhor é estar preparada para enfrentá-las. Pergunto-me se isso não parece mais um estado de guerra. É sim, uma guerra sem armas de fogo, mas com o uso da coragem, da perspicácia e da calma podemos fazer frente aos inimigos. Mulheres perdem inúmeras oportunidades de reagir à altura investidas sexistas – fazem vista grossa, se envergonham, não podem acreditar que tal absurdo possa acontecer com elas, ou se paralisam – machos sabem como investir em mulheres a durabilidade de suas posições de poder; eles não agem por brincadeira – como deixam transparecer – eles as observam, as testam para saber até onde podem chegar. Eu que não trabalho com um grupo de pessoas, posso porém imaginar a insegurança, a falta de conforto e o mal-estar daqueles e daquelas que são levados a ser alvos de brincadeiras maliciosas e até ao ridículo ou ao escárnio. Até onde ou até quando vai isso? Até quando as sociedades tiverem superado „as coisas ruins“ através de esclarecimentos, de educação para o sentido de respeito e igualdade como também de lutas? Também me pergunto assustada se por um modelo reduzido e simplista não seriam essas lutas assim como lutas entre o bem e o mal? Não creio. A História toma dialeticamente seus rumos; há sempre um desenvolvimento histórico nas lutas de classes, o qual não sabemos para onde vai, mas uma coisa é certa: se não lutamos estamos perdidos. E se pensarmos se o fim „das coisas ruins“ seria correspondente ao fim do patriarcalismo, chegaríamos a pertinente pergunta dentro do próprio feminismo: teve o patriarcalismo um início numa época tal? Então se houve um início, também terá um fim? Como no ciclo vital? (1)

É certo que o MeToo desencadeou outros hashtags, uma forma de organizar mulheres através de uma chamada capaz de ser comum a todas elas; o #EleNão no Brasil, por exemplo, o qual considero ímpar no desenvolvimento de uma consciência política das mulheres brasileiras. A necessidade de ter sido criado foi oportuna dentro do contexto político do momento, apesar de ter sido tachado como um movimento de elite branca, da esquerda, claro, ou como uma ação petista contra o petismo (*) – para mim as duas alternativas são falsas. „O EleNão vai muito além do PT“ (2), vejo-o como resultado de uma polarização, pois o momento de decidir sim ou não ao fascismo falou mais alto, daí a chamada das mulheres unidas contra um candidato à presidência que personifica a coisa ruim – a misoginia, a discriminação pelo sexo, pela cor e origem, o caráter ditatorial e o emprego da violência – fez surgir o EleNão, assim como a necessidade das mulheres de usarem a expressão e de tornarem-se estratégicas e consequentes, e principalmente serem ativas expondo-se e saindo às ruas. O movimento teve muita repercussão positiva no estrangeiro – foi melhor entendido, digo eu – e mesmo que o objetivo imediato não vingue, não é isso nenhum fracasso. O passo em direção à autodeterminação já foi dado e só o futuro mostrará isso com certeza, o que será uma coisa boa – assim espero – EleNão.
(1): Esta pergunta me veio por ter lido Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade de Judith Butler, no segundo capítulo.
(2): Parte do título de uma postagem de Raquel Rolnik em Blog da Raquel Rolnik,

(*): lêa-se antipetismo

 

 

Próximo post: 1/11/2018

É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos

 
Para escrever este texto tive que me apoiar num material informativo, por isso li muitos artigos de revistas e online, vi documentários e entrevistas. As principais fontes foram Spiegel e Spiegel online, Stern, Süddeutsche Zeitung, Badischer Zeitung Freiburg, Focus online e Welt.de

 
No sul da Alemanha, num lugar pequeno perto de Freiburg chamado Staufen um menino – hoje com dez anos – foi cruelmente abusado sexualmente durante dois anos por parte de seu padrasto Christian L., 39 anos e de sua própria mãe, Berrin T., 49 anos; foi filmado em cenas pornográficas e ao ser violado por pedófilos perversos e depois oferecido numa área obscena e criminosa da internet em troca de dinheiro. O casal admitiu e confessou seus crimes, embora Christian L. tenha sido o melhor esclarecedor dos fatos, até apontando à polícia outros homens envolvidos nas violações, enquanto ela permaneceu como uma incógnita, transparecendo desleixo e falta de empatia, procurando racionalizar seus motivos através de clichês para sua própria defesa ao ser questionada. No início deste mês os dois foram julgados e condenados, ele a doze anos sob o regime de segurança – uma espécie de liberdade confiscada o aguarda após o cumprimento de sua pena, pois permissão para sair não terá, por ser considerado como perigoso para a sociedade e inclinado a sofrer recaídas; ela, a mãe, a doze anos e meio de cárcere – um resultado que decepcionou a maioria das pessoas que esperava mais justiça, não só considerando o grau das atrocidades cometidas pelos dois, mas também o descuido de funcionários do judicial ao deixar que o menino voltasse à custódia da mãe após ter sido afastado do lar. Na Alemanha uma pena para os casos especialmente graves de abusos sexuais a crianças pode ser de até quinze anos; se nenhum dos dois abusadores não recebeu esta pena, é por que para a justiça o caso ainda não foi considerado como extremamente grave? Mas o que é isso tudo em comparação com os danos físicos e psíquicos causados à criança, danos estes que irão marcar toda sua vida? A promotora Nikola Novak já tinha apelado para uma pena mais longa, sobretudo para a mãe do menino que não só colaborou com o seu parceiro, preparando o ambiente, conduzindo a criança às humilhações e torturas, mas também ela mesma, abusando do menino como se ele fosse seu brinquedo sexual.

Quando se conheceram no início de 2015, Christian L. tinha acabado de sair da prisão também por abuso sexual a uma garota de treze anos e daí ficou conhecido nos meios policiais como um tipo ainda capaz de retroceder a ações pedófilas, não lhe sendo permitido, por isto, estar em contato com crianças e jovens, a não ser na presença de um funcionário do judicial. Claro que Berrin T. sabia de tudo isso, mas mesmo assim concedeu a ele possibilidades de abusar sexualmente de uma menina de três anos, filha de uma conhecida e de quem ela tomava conta como babysitter. Nessa época o menino tinha oito anos e para ele também começaram o suplício físico e moral, a escravidão, a prostituição forçada, os estupros com a absoluta permissão dela. Por quê? Alegou ter permitido por medo de ser abandonada pelo parceiro – o que deixa claro seu papel de vítima na história – ou para também comprazê-lo como uma forma de amor? Não. Para mim uma forma de perversão, uma extrema falta de empatia, uma inteligência deteriorada e submetida à vileza. E onde fica nisso tudo o amor maternal que esperamos de toda mãe?

Nikola Novak não crê sem mais no papel de vítima de Berrin T. e pergunta se a tal estivesse mesmo sob pressão do parceiro – por que não mostrava sentir piedade pelo filho nos vídeos onde o menino era violado? Não mostrou. Seu interesse era não deixar transparecer marcas de violência nele, através de algemas, adesivos e outros instrumentos repressivos que usaram na criança; seu interesse também era mostrar-se como mãe protetora e lutadora, e assim o fez quando em março de 2017 um policial deu-se conta de que Christian L. e Berrin T. viviam juntos apesar da proibição de contato. O filho foi retirado do lar e entregue aos cuidados de uma família. Após um mês a criança voltou a viver com a mãe, sem que os funcionários de amparo a menores tivessem se dado conta de estar sendo ele vítima de agressões e abusos – a criança não foi ouvida, apenas ela, a mãe conseguiu convencer os funcionários usando conhecidos argumentos clássicos que definem uma mãe como boa, amorosa e cuidadosa – mentiras, enganos, mas que deram para ganhar a sua confiança. Como poder estar contra de uma mãe que quer proteger o filho? Com a mãe o menino não poderia estar em melhores mãos. – Assim se defenderam alguns dos funcionários – Por que o menino voltou a viver sob a tutela da mãe equivale a pergunta por que ele voltou ao martírio. Esta pergunta tardia, muitos a fizeram na imprensa e na mídia em busca de uma claridade, que no fundo revelou, por um lado, a expressão do fracasso das autoridades competentes que poderiam ter evitado mais sofrimento à criança se tivessem à disposição mais pessoal com suficiente trabalho coordenado, como também o acatamento a bitolas no modo de pensar e trabalhar impediram esclarecimentos dos fatos e até a possível salvação da vítima. Por outro lado a imagem da mãe protetora, cuidadosa e cheia de amor que temos fortemente impregnada em nós é incapaz de se virar no contrário. A confiança vem daí, deste padrão de que uma mãe por natureza não desonra o filho, e quando isto acontece e tomamos conhecimento, ficamos perdidos, nossa imaginação se limita, sentimos repulsa dos fatos que ouvimos e evitamos falar deles, pois falar deles é tocar num tabu, o tabu que envolve a mãe, que a faz intocável e longe de ser vista como uma abusadora sexual ou pedófila. Até os termos causam estranheza porque quem abusa comumente é o pai, o padrasto, o avô, o tio e outros ligados à família, mas nunca a mãe. Expertos no assunto dizem que a maioria dos delitos de abuso sexual a crianças praticado por mães – ou mulheres em geral – fica na sombra, encoberto porque não queremos aceitá-lo como verdade, e a razão disso repousa em profundos tabus, em mitos de gêneros e em repressão coletiva. Na Alemanha, segundo as estatísticas policiais, foi registrado em 2017 que no total de abusos sexuais a menores, quatro por cento foi de autoria de mulheres – a mãe, a avó, a tia, etc. – em todas elas está presente o mito do amor maternal. E os casos não registrados? Destes não sabemos.

Que energia produtora é capaz de conduzir a tais atos? O papel da mídia, da ganância, a história familiar de cada uma, o perfil psíquico? Já foi constatado em vários casos que quando uma mulher pratica pedofilia, já foi ela mesma vítima de abuso sexual, sem que jamais tivesse procurado ajuda terapêutica, ou vem de meios familiares insanos, tornando-se alcoólica ou dependente de drogas, no fundo um desajuste de personalidade. Sabe ela disso? Está consciente dos danos irreparáveis que causa à criança? Acho que sim, embora não queira se dar conta, ou procura um mecanismo de defesa para livrar-se de sentimentos de culpa. Uma mãe que manipula ou força seu próprio filho a satisfazê-la sexualmente – manualmente, oralmente, ou através de objetos – que se masturba na sua presença, ou o incita a uma penetração não pode esperar compaixão da sociedade, mas sim ódio – ela violou um tabu – por isso há casos de pedófilas que querem e tentam abrir-se para outros, principalmente por meio de serviços telefônicos de ajuda emocional, mas interrompem o contato se pressentem que poderão ser descobertas; daí as dificuldades nas investigações porque ao contrário dos pedófilos, elas não aparecem, mas sabemos que existem e por toda parte.

Nos países onde o feminismo ainda anda de quatro ou quando este ainda precisa, apontar o dedo na cara dos machos irreverentes e, de formulações fortes e diretas para confrontá-los, não é fácil também ver a mulher com aqueles comportamentos contra os quais ele se posiciona ou considera-os como típico de homens – até para estes é difícil conceder que uma mãe faça isso, contudo a moeda também tem outra cara, e segundo relatórios de profissionais uma parte considerável dos abusos sexuais intrafamiliar tem a mãe como cúmplice. Uma vez que também não é fácil aceitar esta triste realidade, caímos em formas de defesas – como é possível? Isso não chega na cabeça de ninguém! – Pois sim, e dá até margens para revisar certos posicionamentos radicais ou polarizados dentro do feminismo. Homens que foram abusados sexualmente pela mãe quando crianças guardam por muito tempo a dor, sem poder expressá-la, de terem sido maltratados, golpeados e ameaçados de serem abandonados, caso não a satisfizessem como ela queria – tudo se passa a nível dos sentimentos, pois as crianças não sabem exatamente o que está sucedendo; a maioria dos abusos começa antes da puberdade, e nesta fase elas são vítimas diretas de serem divididas entre o que é certo e o que não é certo; não sabem julgar o que é amor, dedicação e sexualidade e sentem-se exigidas de passarem a ter vários papeis: filho, amigo, amante, marido – tornaram-se vítimas, a serviço dos desejos de prazer da mãe – o prazer como um vício vazio – até puderem de uma vez se liberar: isto passa no período da puberdade entrando na adolescência, quando os garotos já esgotados, estragados e desorientados dizem um basta acompanhado muitas vezes do afastamento radical da mãe. Muitos reprimem esses episódios, banindo-os do consciente, esquecendo-os até que qualquer vicissitude oferecida pela vida faça com que eles irrompam brutalmente e o horror do inferno volte outra vez. Daí a necessidade de trabalhar esse passado horrendo numa terapia – e quanto mais cedo melhor – o que não passa com muitos pela repetida razão do quanto esse passado desorienta e causa desordem na personalidade de seu dono.

Agora Berrin T. e Christian L. estão na prisão graças a uma indicação anônima à polícia em setembro de 2017. Eles têm ainda que pagar 42.500 euros à criança assim como às outras vítimas – o chamado dinheiro da dor pelos estragos causados a elas, e será aplicado em favor de sua educação. O menino está vivendo sob os cuidados de uma família e não quer falar sobre o que passou com ele. Ela, a mãe, a qual nunca vi seu rosto – baixou a cabeça ou cobriu-o com um papel durante o julgamento – é gorda, uma figura balofa, com aparência desleixada e sem atrativos, um acúmulo de gorduras e cigarros fumados; não perguntou pelo filho, nem como ele estava, sua preocupação maior foi poder comprar seus cigarros.

Próximo post: 24/9/2018

Já um mês sem Marielle Franco

 

Devia publicar no 30 de abril deste, como mesma o indiquei no post anterior. A data de hoje – um mês da morte de Marielle Franco – não me fez calar, mas antes expressar a minha dor em forma deste humilde texto.

 

Já um mês sem Marielle; um mês sem a sua presença forte e decidida, sem o seu respaldo a aqueles por quem ela lutava. Não a conhecia quando estava viva e atuando como vereadora – que pena! – talvez por não viver no Brasil e não poder me dar conta de tudo que passa no país; assim não pude acompanhar seu itinerário político e suas lutas, sendo por isso este post de caracter pessoal e carregado de emoções, como também vindo de um esforço à maneira de suprir as lacunas que tenho em torno de sua vida. Mas observando as suas fotografias, deparei-me com uma mulher alegre, forte e dona de um sorriso aberto de quem conhece a franqueza, e de um olhar firme e direto, de quem sabe ir muito longe. Essa mulher merecia morrer? Claro que não, e ainda mais por mãos de – encargados ou não – bandidos vis, como uma forma de represália – por ter sido Marielle um perigo para seus projetos ignóbeis? Com ela também morreu outro, o Anderson Pedro Gomes, que foi uma vítima do crime só porque conduzia o carro onde se encontrava a vereadora – esta sim era o alvo da emboscada que resultou em treze tiros. Treze tiros também foram disparados contra Mineirinho, um bandido e criminoso em 1962 e que levaram Clarice Lispector a escrever um conto sobre ele – um dos seus contos preferidos. Os treze tiros me fazem lembrar que na sua última entrevista em 1977, poucos meses antes de morrer, Clarice Lispector mencionou horrorizada o quanto esse caso a encheu de dor e revolta diante da injustiça chamada „justiça“: foram treze balas „quando só uma bastava para matá-lo“ e „qualquer que tivesse sido o crime dele, era prepotência, era vontade de matar.“ Clarice, de forma magistral no conto, se transforma em Mineirinho e acompanha-o até o último disparo: „ O décimo terceiro me assassina – porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.“

As perguntas ao redor da morte de Marielle são muitas sem que já tenham sido respondidas, deixando um vazio como um buraco aberto, mas sem mostrar o que tem no fundo. É também o vazio que ela deixou na sua família, na sua companheira, nos seus colegas de militância e em todos os brasileiros que a seguiam e acreditavam no seu trabalho. Este vazio só pode ser preenchido através de lutas que continuem as suas aspirações e digam NÃO ao crime organizado: MARIELLE VIVE.

A Organização das Nações Unidas exigiu dos políticos brasileiros o esclarecimento total sobre a execução de Marielle e seu motorista, Anderson Pedro Gomes; a Anistia Internacional e comissões comprometidas com os direitos humanos também estão preocupadas pela falta de solução e incerteza que o caso no fim das contas poderá descambar; enquanto isso forma-se no Brasil uma onda de protestos – como se já estivesse prestes a explodir – assentada no torpor e na indignação de um povo inconforme com os abusos dos que acoitam a violência e o crime. Isto para mim é mostrar uma cara nova, ao preferir formas sociais de protesto e não entregar nas mãos de Deus, como se só ele fosse capaz de fazer justiça. Por outro lado, e como reação direta ao processo de conscientização das populações oprimidas, eclodiu uma onda negativa saída de um ódio profundo às classes – um ódio antigo, anterior às democracias – expresso falsamente em nome da livre expressão, mas que no fundo é uma descarga de repulsa a tudo que se opõe ao conservadorismo, ao patriarcalismo e à discriminação social que leva a marginalizar pessoas pela cor, pelo sexo e pela condição de vida de onde elas emergem – uma aversão às forças democráticas, as quais o Brasil, dotado de bom senso daqueles que lutam contra elas, não deverá permitir.

O ódio é uma descarga do medo; o pânico de perder o poder ou privilégios e até mesmo o próprio caráter onde se assentam as convicções. Uma das teorias do ódio o explica como resultado de uma pressão sofrida por uma pessoa ao ser exigida que ela se libere, ou seja, forçar o outro a liberar-se, causa ódio. Podemos aplicar esta teoria às expressões de ódio contra a esquerda? Marielle e Lula são os mais recentes exemplos de difamação, calúnias e desrespeito até onde não se pode imaginar, como mesma li nas redes sociais e noticiários vistos como confiáveis. Chamar Marielle de safada, ou Lula de bandido sujo é ao meu ver a expressão de uma incapacidade ao não poder liberar-se do que impede reconhecer o outro e vê-lo como igual. Por que a desembargadora Marília Castro Neves preferiu caluniar a referir-se a Marielle com mais ponderação e discernimento? Por que muitos comemoraram a prisão de Lula? Marielle sabia responder sem medo estas perguntas e outras mais; por isso a fizeram calar.

 

 

 

 

Mudanças

A palavra “mudança” tem uma variedade de usos: podemos mudar de casa, de trabalho, de cidade ou de país, de parceiro, de partido político ou de religião e, até é possível hoje em dia, mudar de sexo, o que é um tema bastante abrangente e delicado. Contudo a que me refiro é a outro tipo de mudança, ou seja, aquela que passa no nosso interior quando nos decidimos a agir e a reagir diferente frente a situações conflituosas. O que quer dizer isto? As mudanças têm muito que ver com nossos costumes, ou melhor, costumes ou padrões de comportamento negativos que são aquelas reações impensadas e automatizadas sem que nos dê tempo para refletir, mas deixando um sentimento de insatisfação, pelo qual sabemos que alguma coisa não anda bem conosco. Então essa é a oportunidade que a vida mais uma vez nos oferece para mudar alguma coisa no nosso comportamento, o que não é fácil e exige coragem porque requer um reconhecimento honesto de como somos realmente, seguido de uma autoaceitação incondicional. Eu só cheguei a compreender o que no fundo “mudar” significa, quando comecei a aceitar-me de verdade como sou e vi que na aceitação o processo de mudança já estava incluído. Além disso, o aforismo “tudo muda nessa vida” confirma o que as pessoas que não aceitam as mudanças, não podem reconhecer: nós mudamos todos os dias, nos tornando mais velhos: não somos mais a criança de outrora.
Segundo o que diz o dicionário, “mudança” é a modificação do estado normal de qualquer coisa; uma alteração; uma troca, sempre de uma coisa por outra. Mudar é uma dinâmica que implica levar uma coisa para outro lugar, dar uma outra direção e finalmente renovar. Se pensamos em um fato concreto como mudar de casa, por exemplo, é muito fácil aplicar as definições acima, pois podemos imaginar claramente o que as palavras expressam quanto a deslocar, substituir, renovar, etc. Mas quanto à mudança interior não é fácil nem trocar nem substituir formas de comportamento por outras.
Então podemos mudar mesmo? A partir daí dividem-se as correntes entre os que creem que as mudanças são possíveis, se realmente queremos mudar, bastando tão somente agir, e assim pensa o Dalai Lama; e há aqueles que pelo contrário defendem o dito popular: “o pau que nasce torto não tem jeito morre torto” e ainda há aqueles, para os quais as mudanças são o que eles mais temem. Não importando as posições, as mudanças podem acontecer para o bem ou para o mal. Aqui não quero entrar em aspectos morais, mas sobretudo sobressaltar as mudanças positivas como resultadas de um esforço consciente de nossa vontade. Não é que passamos a ser outra pessoa, mas sim que passamos de algum modo a agir diferente e até a usar outro vocabulário. Essas mudanças geralmente causam surpresa nas pessoas, já de antemão familiarizadas com o nosso modo velho de reagir, sendo comum ouvir: “Como você está diferente, até parece outra pessoa!” Ou a nos olhar um tanto desconfiadas. Que maravilha ter essa possibilidade de reagir diferente, de não mais repetir velhos argumentos só para defender uma parte de si, que no fundo está irada, descontente e desamparada! É finalmente a verdadeira liberdade de ser como se é e não mais abusar de recursos injustos e incabíveis só para sair como vitoriosos de uma situação sem ter respeitado a posição do outro e, com certeza, em outra ocasião, repetir o mesmo por falta de reflexão e, sobretudo, por falta da necessidade de mudar algo em si mesmo.
No meu relacionamento, precisei de muito tempo para reconhecer que o que me impedia de mudar era estar fixada na relação ou no parceiro, como se dele devesse partir tudo para que eu finalmente pudesse me sentir bem e cômoda. Ainda não captava que essa condição prévia e imposta por mim era o que impedia de ver-me como ponto de partida e só me enchia mais e mais de sentimentos negativos.

Então como mudar algo em nós? Primeiro precisamos estar conscientes do que mudar, nos concentrando nisso e segundo, querer mudar e fazer possível a mudança acontecer.
Nem sempre há vitórias, também há os chamados fracassos, mas estes são devidos geralmente a algumas inverdades com relação às mudanças, por exemplo, querer mudar rapidamente só para resolver uma situação conflituosa, não ocasiona uma mudança profunda porque está dirigida a algo fora de nós e algum dia os sentimentos mandam a conta por não mais aguentarem tanta oposição. Transferir ao outro a causa dos problemas é cair na ilusão de que se ele mudasse tudo estaria bem. Isto não só é um grande erro, mas também uma desculpa por não querer se enfrentar com os próprios problemas, o que no fundo é o medo de estar em união com o outro. Também há pessoas que creem que não podem mudar, estas são geralmente inflexíveis e fechadas a novas alternativas e possibilidades. No fundo são pessoas que não veem outras saídas, a não ser guardar e defender seus próprios interesses repetindo o mesmo comportamento já tão incrustado. Temos medo de mudar porque pensamos que a mudança tem de passar de repente, como se fosse um pulo num abismo escuro; um pulo fatal e sem retorno. Por outro lado a mudança é um processo consciente e paulatino, partindo de uma disposição interior que nos leva a pensar ou a agir diferente. Outro equívoco é querer que o outro mude primeiro: “Por que tenho que mudar primeiro?” “Quando ele mudar, eu mudo também.” No fundo, por orgulho ou por medo, esta é uma posição bastante rígida que não leva a lugar nenhum. Mudar é um ato livre, sem exigir condições do outro e sem que a mudança do outro seja tomada como pré-requisito. E por fim o maior erro com relação à mudança é insistir em querer mudar o outro como se isto fosse a solução dos problemas. O outro tem que ser como eu quero ou estar feito segundo as minhas medidas. Eu também pensava assim, e na minha ânsia de querer mudar o outro como condição preliminar para acabar com os nossos conflitos, não via que eu era a que devia mudar. Quando me dei conta de que o outro jamais iria mudar só para satisfazer os meus desejos, foi quando entrei no processo de mudar eu mesma e comecei a perguntar-me: mudar o quê? Como? Pouco a pouco fui compreendendo que primeiro de tudo precisava aceitar-me; aceitar-me e fazer dessa aceitação uma liberação para por fim também poder aceitar o meu parceiro. Muitos casais passam a vida brigando por tudo ou por nada, repetem as mesmas reações, um acusando o outro e dando-lhe a culpa dos problemas e não veem que cada um é igualmente responsável. Mudar é uma ação solitária, de um sujeito consigo mesmo, cujo efeito chega ao outro e também o faz mudar. E este é o maior e o melhor paradoxo da mudança: o outro, como resultado de nossa mudança, também muda sua forma de ver as coisas, ou seja, uma mudança leva a outra mudança, porque no fundo as coisas não mudam, somos nós que mudamos a forma de encarar as coisas.
Contudo há coisas que não podemos mudar, elas existem ou existiram independentes de nosso campo de ação, como por exemplo, uma infância infeliz e cheia de carência, um acontecimento traumático ou a perda de um ser querido. Estes fatos pertencem a nossa vida e ao passado, existindo nas nossas lembranças e reações sem que possamos excluí-los de nossas experiências; entretanto uma pessoa que teve uma infância infeliz não deve ter necessariamente uma vida infeliz, mas se continua sendo infeliz é porque não consegue mudar a perspectiva de encarar esse passado e permite que ele a persiga por toda parte. Isto é o tema de um livro interessantíssimo que li, cujo título, mais ou menos em português seria – Nunca é tarde para se ter uma infância feliz – o que já soa bastante promissor para se crer nele. Seu autor, sem embargo, o Dr. Ben Furman, psiquiatra e psicoterapeuta finlandês, crê que podemos viver sem o determinismo da infância e questiona a crença de que toda nossa vida é, sem dúvida, dependente de como foi essa infância. Sua terapia ajuda pessoas a compreenderem o passado como uma fonte de forças – e não fatalmente como a origem de todos os problemas – reforçando as razões para se crer na possibilidade de uma vida promissora e assim fazendo que pessoas usem suas forças e criatividade para dar a volta por cima, tendo controle sobre seus traumas. Por outro lado falar é sempre fácil; árduo ainda é entrar consciente no processo mesmo de mudar que requer muita força de vontade. Muitos se valem de pedir a Deus essa força mesmo que ela leve ao contrário, ou seja, a não poder mudar: “Senhor, dê-nos forças para mudar o que podemos mudar, como também forças para aceitar aquilo que não podemos mudar.” É um pedido feito com humildade e extremamente conciliador com a realidade, mas fazendo crer que aquilo que não podemos mudar, não mudará nunca? Na verdade, o que podemos mudar é a nossa perspectiva ou atitude frente ao problema, e isto já é uma grande mudança.

 

Quando homens me esclarecem o mundo

É a minha tradução (só) do título do ensaio e livro de Rebecca Solnit, cujo original em inglês é Men Explain Things to Me. Já me referi a ele no meu último post “A Susceptibilidade de Escreva Lola Escreva” de forma apenas a introduzir meu texto sem aprofundar-me no seu conteúdo. Agora quero expor o que me parece este seu ensaio publicado em 2008. Ele foi inspirado por uma experiência vivida seis anos antes pela própria autora numa festa em companhia de uma amiga, quando o anfitrião, com ar arrogante, tentou esclarecer-lhe sobre um livro recém- publicado sem ter querido dar-se conta de que ela era a autora do livro em questão. Um sinal de que não tinha querido ouvi-la dizer que o tal livro era seu, e  assim presunçoso continuou palavreando até que, após várias incursões da amiga em tentar dizer-lhe que era o livro dela, deu-se conta em fim onde tinha se metido. Depois de saírem e já a uma certa distância, as duas amigas riram aliviadas do sucedido – como não rir do ridículo? O riso é uma reação que pode nos dar distância dos fatos e ajudar-nos a relaxar frente a situações que no momento não teríamos outra saída; rir como reação à prepotência ou como uma liberação. E Rebecca Solnit ainda ri deste fato, e sem ter rido de antemão, talvez não tivesse escrito um ensaio com tanta agudeza. Primeiramente foi publicado na Website de Tom Engelhardt – TomDispatch – com grande recepção: foi como beslicar uma corda de violão, disse, ou tocar numa ferida aberta; pois ela nunca tinha recebido antes tanta repercussão com um ensaio como com este . Mas por que um só ensaio, e além do mais curto, chegou a causar tanto impacto, não só entre mulheres, como entre homens também? Nós mulheres conhecemos muito bem o que significa o título deste ensaio em situações ou momentos onde sobretudo homens se impõem como donos da verdade em favor de sua pretensa sapiência ou conhecimento das coisas para poder estar no centro das atenções. São esses discursos soberbos carregados de explicações, definições, … por onde se deixam aparecer, muitas vezes só insinuando saber sobre isso e aquilo, mas que nos levam a calar como se fôssemos impedidas de abrir a boca – nem sempre por meios de imperativos, mas por reserva nos excluímos – confirmando uma insegurança ou o medo de sermos ouvidas. Rebecca Solnit fala do quanto é brutal fazer com que  mulheres se calem: „Eu sei do que estou falando.“ Uma frase agressiva como esta, e pelo seu conteúdo já podemos imaginar sem dificuldade como ela foi pronunciada – aos gritos – uma frase categórica de homens e sinônima de: „Você não sabe de nada“. Por que só ele sabe sobre o que fala, e ela não? A vivência deste fato brutal, não importando o contexto, se relacionado a uma discussão ou a uma simples conversa, perpetua nela o ódio e interrompe-lhe a claridade de pensar. Com esta tamanha tirania está explicado então porque mulheres não ousam ser ouvidas, e chegando esse silêncio a situações extremas, mostra até aonde vai a relação de poder entre os sexos existente na sociedade. Solnit não descreve o patriarcalismo como nascente do machismo para justificar este  comportamento específico, fala porém da hierarquia entre os dois gêneros como fundamento básico da sociedade, e enfoca bem sim essa habilidade secular que têm homens de fazer calar mulheres e de se fazerem escutados por elas. Será que são mesmo escutados como creem? (Podem continuar acreditando queridos!)
Nascida na Califórnia em 1961, Rebecca Solnit é dona de uma notável carreira intelectual, já tendo escrito mais de doze livros ligados a diversos temas desde política, história da cultura, arte, feminismo até meio ambiente, e embora estando seus livros fundamentados sobre uma pesquisa sólida, mesmo assim não passa a escritora incólume a situações como a experiência do início com o sr. importante, por ela assim batizado. Esta e outras são experiências que põem em questão suas certezas e podem avivar-lhe velhas inseguranças – experiências nada gratuitas como encontrar-se na presença do sr. importante que revestido de confiança na sua atuação, e também confiante que ela se deixará vacilar e intimidar-se frente à certeza dele. É com essa lealdade e coragem que fala de si mesma e lembra o que dia a dia enfrentam mulheres quando são expostas a situações sem terem o direito de exercer sua expressão, sendo esta o que lhes dá o direito de ser alguém.  Já fui muitas vezes testemunha de casos como este, e quem não foi? Homens também a mim já explicaram e querem explicar o mundo e o significado das coisas como se eu fosse uma colegial preguiçosa e desinteressada, e muito pior até, sem levarem em conta se eu conheço ou não o assunto sobre o que eles estão falando, ou se tenho ou não uma bagagem de conhecimento ou experiência de vida. Homens que não dão importância a esses pré-requisitos não querem ouvir, mas serem ouvidos e admirados – E como é irritante ter que ouvir um discurso sem fim!
Até hoje homens seguem esclarecendo o mundo a Rebecca Solnit, sem que nunca tenham lhe pedido desculpas por isso, ou por terem explicado errado, ou mesmo pelo fato de ela saber e eles não.
E mulheres por outro lado também não gostam de dar explicações, sobretudo a outras mulheres, muitas vezes sobre insignificâncias e até de forma desdenhosa como se fossem expertas no assunto? Sim, existem tais, como também em grande número e Rebecca Solnit não nega a existência delas, mas não que esse aspecto loquaz e maçante seja uma marca que especifique o gênero feminino; ao contrário uma atrevida exibição de confiança até na própria ignorância é para ela uma característica masculina – escondendo insegurança e imprestabilidade.
No meio político vemos com mais nitidez a inundação de discursos daqueles que sabem de tudo, e sabemos o como é difícil e fatigante para mulheres, as jovens principalmente, sobrepor-se e serem ouvidas com respeito até por seus colegas de partido. Solnit cita o caso de Coleen Rowley, uma agente do FBI durante a presidência de Bush, que não foi ouvida ao ter chamado com antecedência a atenção para o Al-Qaida. Não quiseram escutá-la, e isto é o mesmo que dizer: só escutaram o que estava conforme a seus conceitos. O fato de que a guerra foi resultado de um jogo  arrogante masculino, também leva-lhe a afirmar que há outras guerras, aquelas vividas no interior de quase todas as mulheres, por terem a convicção de poder ser dispensadas e atraídas a se calarem. Por que não devo me expor a falar sobre coisas que sei expor sabendo que tenho esse direito? E mesmo com uma certa insegurança sobre algo, isto pode ser útil e abrir caminho para corrigir-se: ouvindo, aprendendo e crescendo, mas quando essa insegurança é grande demais, pode conduzir a mudez e paralisações, do mesmo modo que uma excessiva autoconfiança pode demonstrar pura arrogância. Entretanto há um caminho entre esses dois pólos – diz Rebecca Solnit – onde os dois sexos podem conviver: a calorosa região do dar e do receber onde todos nós devemos nos encontrar. Uma metáfora nada proporcional à realidade da maioria dos diálogos entre homens e mulheres, mas otimista.
Se muitas mulheres, infelizmente, não ousam ser ouvidas, esconde-se por trás deste fato o quanto é importante ter credibilidade e até como um pré-requisito para sobreviver. Solnit escreve no seu ensaio que num Natal quando era muito jovem, e já tinha começado a entender o que era o feminismo e a sua importância, o tio de um amigo contou, como se fosse uma estória inventada, que a mulher de seu vizinho a altas horas da noite saiu despida de casa correndo e gritando que seu marido queria matá-la. Sem pestanejar acreditei na declaração da mulher, mas ao seguir lendo, defrontei-me com a pergunta da própria Solnit ao tal tio: Como o senhor sabia que isso não estava certo?  A explicação foi que o marido se tratava de um cidadão honrado e respeitado e que a acusação meu marido quer me matar não continha em si fator de credibilidade para que fosse tomada como verdade, embora ela tenha gritado na rua isso; mas que fosse uma louca, pelo contrário, foi levado a sério.
Em certos países do Oriente Próximo a falta de credibilidade às mulheres é comprovada em casos de violação sexual, nos quais a acusação da mulher não tem peso na justiça, a não ser que ela tenha um homem como testemunha, e que este queira confirmar sua acusação, o que só raramente acontece.  E Rebecca Solnit vai mais além destes fatos; ela que começou o ensaio por um incidente, foi mais adentro chegando a mencionar estupro e morte, o que para ela pode ser uma coisa de continuidade – um mal-entendido pode passar, de sua forma normal, ao abuso, à violência, intimidando mulheres a se calarem ou até as matando. É assustador ver o número de mulheres (incluindo meninas pequenas) reprimidas, abusadas, violentadas e mortas em quase todo o planeta – mulheres que são seres humanos e com direito à vida e a participar dela como um ser livre. Que este direito porém, deva ser conquistado, é uma luta, uma luta longa e amarga.
A ensaísta sabe disso e acha que a melhor maneira de compreender todas as formas de discriminação contra mulheres é dando-lhes uma expressão concisa, como abuso de poder, em vez de considerar em separado violência doméstica, assédio, estupro, etc., etc. e até morte: Tomando tudo junto, põe-se à luz o padrão de comportamento, evidenciando clareza e concisão.
Rebecca Solnit não se queixa de si mesma, está satisfeita com o seu próprio crescimento e desempenho e com ter encontrado na idade adulta a sua expressão. E como ela diz:
o direito de mostrar-se e de expressar-se é inevitável para a sobrevivência, para a dignidade e a liberdade. As circunstâncias me obrigaram a usar o direito de falar por aquelas que não têm voz.

 

(Próximo post: 19/4/2017)