UM ANO DE BLOG E OUTROS BLOGS

 

Este blog E Agora Mulher? está de aniversário, completa hoje um aninho de existência: „Pois é, como o tempo passa rápido!“; „parece que foi ontem“; „nem me dei conta que já faz um ano“. Estas expressões são usuais quando mesmo não notamos que o tempo passa depressa; eu as ouvi de pessoas e de mim mesma ao surpreender-me com a aproximação da data comemorativa. Mas como comemorar, se eu não sou adepta às celebrações de aniversário? Melhor seria estar junta com outros blogueiros que conheci ao longo deste ano: impossível, porque o que temos é um contato virtual – o que também não deixa de ser uma cruel realidade, pois através desta virtualidade cheguei a conhecer pessoas tão interessantes que junto com elas teria gostado de apagar uma velinha. Então na falta de um bolo com uma vela, quero expressar aqui um pouco minhas experiências com o blog durante o primeiro ano.

Relutei muito antes de iniciar minha atividade como blogueira; apesar de já saber que não queria escrever sobre mim, fazendo do blog um diário de acontecimentos de minha vida ou uma biografia, contudo ainda não me estava claro sobre o que escrever exatamente. Tinha muitas idéias e alguns interesses, o que só me faziam adiar mais a minha resolução de começar com o blog – é que no fundo sou lenta – mas entre todas as idéias dei prioridade a minha opinião sobre o que observo, o que penso e o que acho de coisas que para mim têm importância. Escrever sempre foi a minha paixão depois de ler; adorava escrever redações na escola, e na faculdade não tinha problemas com os trabalhos escritos e até já participei de um workshop de escrita criativa quando acreditava que poderia escrever ficção – nesta altura Clarice Lispector com seus contos era o meu ideal como representante de um estilo ímpar; adorava sua introspecção inteligente – graças a Deus esta crença durou pouco tempo, porque logo me dei conta de que não tinha a capacidade para isso. Restavam-me então o estilo de ensaio de opinião ou o jornalístico que também me fascinavam e eles me guiaram a publicar o meu primeiro post. Também ter tomado conhecimento de outros blogs antes de publicar, me ajudou muito a avaliar como estava a situação no Brasil no âmbito blogueiro. Encontrei muitos blogs interessantes e bons, blogs sérios e dignos de credibilidade, abrangendo conhecimentos e críticas alusivas à situação social e política do Brasil; entretanto o meu interesse foi atraído e guiado pela existência em grande número de blogs, cujo tema principal era a mulher no seu processo de emancipação – gostei e comecei a procurar estes blogs – eu que não vivo no meu país há muitos anos e que passei por mudanças na minha vida, pensei que este também poderia ser o meu tema, sobretudo como meio de entrar em contato, principalmente com outras mulheres. Sem esperar e ao contrário do que eu pensava, quem primeiro me fisgou foi um blogueiro, ou seja, o autor do blog Satãnatório. Ele foi o meu primeiro feedback e a ele tanto devo a minha primeira alegria por saber que tinha sido lida, como dicas importantes sobre como seguir com o blog, sem faltar um consolo amigo a uma blogueira principiante. Satãnatório é um blog especial, isto percebi logo no primeiro contato, seu autor é cineasta, mas não se limita só a escrever sobre cinema; é diversificado, dono de um humor próprio e capaz de ressaltar momentos em seus textos que me surpreendem sempre. É para mim como deve ser um autor de crônicas, apesar de que ele mesmo ter-me dito que não quer escrever crônicas, eu já o tomo como um bom cronista.

Elza Soares veio à Europa e deu um show na cidade onde moro: fui com o meu marido lá e teria querido ouvi-la responder as minhas perguntas sobre o seu engajamento com mulheres negras no Brasil e a sua mensagem de força e coragem às novas gerações para poder escrever um texto mais e vivo e menos teórico. Infelizmente não foi possível falar com ela, e assim escrevi o post „Sempre Elza“ com base em observações no concerto e lembranças da Elza de outrora. Também valeu a pena e senti-me orgulhosa de ter escrito algo sobre ela.

Na minha busca de blogs brasileiros encontrei o Escreva Lola Escreva, da Lola Aronovich – excelente blogueira. Seus textos com acusações fortes ao machismo me levaram a concentrar-me no tipo de comentários que o seu blog recebia, e aí me deparei com uma realidade que me chocou de frente ao verificar o nível grosseiro e até indecente desses comentários, constatando em que estado o macho brasileiro se encontrava: bem primitivo. Daí quis fazer alguma coisa para mostrar a minha indignação, e assim o post A Susceptibilidade de Escreva Lola Escreva foi escrito desta necessidade e como uma prova de atenção a uma das melhores blogueiras do Brasil. Seu blog, além de ser político, também é um arquivo de denúncias às arbitrariedades injustas contra mulheres, igualmente que um incentivo a mudanças. Que bom existir um blog como o da Lola no Brasil, que bom existir a Lola Aronovich .

À parte do post sobre o blog da Lola Aronovich mais dois textos foram importantes para mim:
1. Licença para matar;
2. Quando homens me esclarecem o mundo.
O primeiro também foi escrito por uma necessidade, a de exprimir a minha revolta e fazer dela uma forma de reflexão sobre o homicídio passado na noite da virada de ano em Campinas. Esta notícia foi a primeira que tive do Brasil no 1. de janeiro deste ano: assassinatos, mortes, luto. Que dor! Comecei a ler tudo que encontrei sobre o caso, principalmente o que condizia com a descrição do autor do crime; sua incapacidade de aceitar a separação e o ódio consequente por seu fracasso foram o que o levaram a exprimi-los de forma fatal, matando pessoas e a si mesmo – era como se tivesse tido o direito de matar? Ao perguntar-me isto, lembrei-me logo do poema de Bob Dylan – License To Kill  – título forte e duvidoso, acarretando suspeitas, mas levando a refletir; era exatamente do que eu precisava como alusão direta às mortes em Campinas, e daí nasceu o Licença para matar.

O segundo post – Quando homens me esclarecem o mundo – veio à tona pela leitura do livro, com o mesmo título, de Rebecca Solnit. Foi amor à primeira vista, senti-me não só identificada, mas também comprovada de já ter tido experiências semelhantes, o que não é nada individual, mas uma realidade constatada pela maioria das mulheres neste planeta, a ousadia arbitrária de muitos homens de querer falar mais alto, de impor definições como se fossem as únicas verdadeiras e viáveis, e mais, não levando em conta os efeitos deprimentes deste atrevimento sobre as mulheres. Ter escrito este post foi um grande alívio para mim, por ter tido de uma vez a oportunidade de exprimir-me em nome de muitas mulheres que nunca lhes foram possível expressar-se, ou por falta de clareza, ou por conformação, ou mesmo por medo.

O meu último post foi O bê-á-bá de Judith Butler, um texto que me custou muito esforço porque teve como base um de seus livros mais importantes, mas também muito difícil e denso: Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Senti que devia escrever este texto pelo fato de ser um desafio às minhas próprias limitações – é que gosto desses tipos de desafios, eles são como motores que me levam a gerar algo ou a criar – uma aventura num terreno difícil de calcar, mas trazendo também a satisfação de ter passado por essa experiência, quando o texto está terminado. Aliás, as dificuldades são na verdade estímulos a desafiá-las e chances de superá-las. Esta forma de pensar também tem me ajudado na vida a superar alguns problemas.

No exercício de escrever para o blog dei-me conta de minhas limitações com a língua portuguesa – sou brasileira, mas já não vivo no Brasil desde a década de 80 – e o fato de não falá-la com prioridade, leva-me a uma posição passiva nomeadamente quanto ao vocabulário. É que me esqueci de palavras – e eu que amo infinitamente as palavras – isto se torna às vezes fatigante quando escrevo, tentando lembrar o que esqueci ou recorrendo ao dicionário. Por outro lado isto também tem uma boa vantagem, a de encontrar outras palavras nessas buscas constantes. Às vezes passa que sei exatamente a palavra que quero escrever, mas não estou certa como se escreve e o meu programa de texto rejeita a palavra mal escrita, estando aí a indicação de que cometi um erro. De tanto ter passado por tais experiências, já tenho um caderno exclusivo só para anotar as palavras que foram abandonadas pelo esquecimento – quando as reencontro é um momento de alegria.

Quem tem um blog sabe que o fato de que será lido não é nenhuma garantia, assim como para muitos escritores relativamente. Tive momentos de tristeza a princípio porque não recebi suficientes feedbacks e por sentir-me isolada em meio de tantos blogueiros, perguntando-me até se valia mesmo a pena continuar. Foi aí quando o meu querido amigo do Satãnatório apareceu mais uma vez para recuperar-me dos mal- entendidos. A partir daí tomei conhecimento de outros blogueiros que sentiam a mesma insatisfação pela hipótese de não terem sido lidos o bastante e o quanto isto era deprimente, ao mesmo tempo que, com ar de consolação, ainda assim estavam contentes e orgulhosos de terem alguns seguidores. A minha sensação de isolamento passou e senti-me integrada a uma grande comunidade: a comunidade dos blogueiros. Neste entremeio alguns blogs, para a minha surpresa, começaram a me seguir e eu comecei a interagir com eles recebendo feedbacks alentadores. Entre todos devo salientar que alguns foram especialmente positivos quanto aos meus textos e aqui fica o meu agradecimento de coração.

A alegria de ter chegado a um ano me faz sentir-me segura e querer prosseguir escrevendo. Pergunto-me se isto é por um mero prazer à escrita ou a ilusão de que os meus textos poderiam servir realmente de reflexão para alguma coisa relevante. Ao abandonar esta última exigência, acredito que sim, e já fui de certa forma comprovada, o que me deixa feliz saber que entre uma imensidão de textos, os meus também têm um lugar. E aqui fica o meu apelo à comunidade blogueira em geral, tendo observado uma certa falta de coleguismo e até indiferenças: devemos nos respeitar com apoio e incentivo positivos, pois estes são, na maioria das vezes, os que nos levam a continuar. Obrigada a todos.