Essas meninas!

                   

Greta Thunberg com sua mochila e boina de lã desceria de um trem despercebida se não fosse um grande cartaz que carrega escrito em sueco – Greve da escola pelo clima – e já um grupo de jornalistas e fotógrafos não a estivessem esperando, seja em Katowice, Davos, Bruxelas, Paris e Hamburgo. Mas nem por isso ela se considera uma estrela; o que a tornou assim foi a mídia em geral divulgando para o mundo sua obstinação persistente desde agosto de 2018: em vez de ir para a escola às sextas-feiras, sentar-se no chão com o seu cartaz em frente do parlamento sueco, enquanto o governo não tomar medidas locais para alcançar sua cota-parte dentro dos objetivos do Acordo de Paris em 2015, ou seja, a temperatura média da terra não deve aumentar mais de 2 graus centígrados por ano em relação aos níveis já existentes no período pré-industrial, e isto até o final deste século, ou as mudanças climáticas serão incontroláveis. O que muitos consideraram sua ação como absurda, infundada e até louca, não era para Greta uma brincadeira. Pouco a pouco foram se juntando outros alunos que também deixaram de ir às aulas para apoiá-la, e assim se formou o Friday For The Future – Sexta-feira para o futuro – também em outros países europeus e na Austrália. Crianças foram às ruas para protestar; e o que fez este movimento ser ainda mais especial é o de não estar trajado de estudantes universitários, nem ter sido começado por eles.

Como uma menina de 16 anos, que não viaja de avião por princípio – bastante pequena para a sua idade, com duas tranças longas que lhe caem ladeando suas bochechas salientes, parecendo mais ter entre 11 e 12 anos, e estando rodeada de pessoas é impossível vê-la pelos seus 1,53 de altura – é capaz de atacar políticos, empresários, banqueiros, todos aqueles que participam do poder e das grandes decisões? Estes são os responsáveis pela situação em que nos encontramos porque suas idéias são indiferentes à sobrevivência do nosso planeta, e nem adultos suficientes são para ao menos ter coragem de falar a verdade, disse Greta Thunberg em Katowice, Polônia, na última COP24, que é uma cúpula climática anual da ONU.

É que Greta foi tão somente uma alavanca, de comando e de velocidade para impulsionar novas direções. Se adultos tendem à resignação e indiferença, jovens começam a preocupar-se por anteverem insegurança quanto ao futuro. Ela tomou conhecimento do estado do planeta terra na escola; durante uma aula soube da verdade já constatada por científicos, para a qual os políticos querem fechar os olhos; por isso daí seu ataque a eles de não fazerem nada consequente, mesmo estando em postos de direção, e de não quererem ouvir nada que contrarie seus planos de crescimento global e poder monetário. E que verdade foi essa? O aquecimento da terra com as suas conseqüências fatais como: estiagem, calor alarmante, furacões, chuvas fortes, inundações, etc., causado pelo excesso de gases de efeito estufa na atmosfera, pois a concentração contínua destes gases retém altas temperaturas absorvidas pela superfície terrestre. Tudo isso, a grosso modo e à forma de clichê, pode-se explicar pelo abuso e desrespeito à natureza, pelo fascínio do poder, pela acumulação de bens materiais, pelo desmesurado crescimento do capital e pela ignorância que é uma forma de miséria. Estabelecer uma existência tendo como base o contrário destes critérios é tão difícil que para muitos é impossível, é uma utopia considerando o avanço científico, tecnológico e industrial a que chegamos – seria como parar tudo? Acho que Greta sabe disso, mas, a meu ver, ela crê mais em mudanças que possam garantir o futuro das novas e futuras gerações do que em revoluções políticas, porque estas se concentram mais em tomar e manter o poder político; sua visão é outra – a de não mais esperar que partidos políticos tomem a iniciativa de mudar algo: O verdadeiro poder tem o povo. – e ela tem razão. Sabemos que a maioria dos políticos não quer falar conosco. Tudo bem. Então nós também não queremos falar com eles. Disse.

Para diminuir as emissões de carbono na atmosfera, extinguir o desmatamento florestal, salvar as camadas de gelo nas zonas polares do derretimento constante, tudo isso implica em mudanças profundas nos padrões do que se chama desenvolvimento, pois nosso modo de vida está relacionado a esses modelos que se impõem na sociedade e na economia.

Não é fácil, reconheço, sair das bases energéticas tradicionais – as ditas fósseis – o petróleo, o carvão mineral, o gás natural – onde nelas estão assentadas bases culturais e de subsistência – e passar a formas de energia renováveis, como a solar, a eólica, etc. Por outro lado o mundo está saturado pelo poder da produção excessiva; acúmulo de produtos industrializados, dos quais não precisamos nem a metade, pois a maior parte dos produtos de consumo fica sem utilidade, amontoada em algum lugar ou queimada sem levar em conta a natureza da matéria prima, seja ela biológica ou não, e o quanto se violou a terra para a sua produção, o seu produto final exposto à venda. É quando reconheço a importância e o valor desses jovens em levar a sério as mudanças climáticas como uma questão urgente, e o fracasso dos adultos, estes sabedores de tudo, mas conformados com a ordem das coisas, como se o futuro não existisse. Para os jovens o futuro é algo que vai ser vivido, e nele deve-se depositar as expectativas e os projetos, a esperança de um mundo melhor. You Can Not Eat Money diz um cartaz que segura uma menina em Davos. Uma mensagem profunda e apocalíptica, pois se no fim das contas só restar o dinheiro, este não se pode comer.

Lá de cima se vê a terra pequena, e a terra nunca foi tão pequena como hoje em dia. Esta perspectiva de modéstia nos diz que o que precisamos é de parcimônia. Assim viu Alexander Gerst(*) o planeta terra de uma estação espacial em órbita, onde ele comandou uma missão espacial internacional junto com outros astronautas. Um dia antes de sua volta a terra, ele mandou uma mensagem aos seus netos ainda não nascidos, na qual ele, em nome de sua geração, pede desculpas pelo global aquecimento da terra causado pela humanidade. Infelizmente a sua geração – e as passadas – não deixarão para as futuras gerações a terra em boas condições; e cada um de nós deveria refletir até onde nosso estilo de vida está danando o planeta. Ele ainda tem esperança de que se possa corrigir os erros, e espera que sua geração não fique na lembrança das futuras como aquela que com egoísmo e indiferença destruiu o fundamento de suas vidas.

Greta Thunberg fala para atingir o público, ela é implacável e até sarcástica às vezes; diz exatamente o que não é dito numa cúpula:

Quero que vocês entrem em pânico. Quero que vocês sintam medo como eu sinto todos os dias. Não rogamos aos políticos que simpatizem conosco. Eles nos ignoraram no passado e vão continuar nos ignorando. Mas as coisas vão mudar, mesmo se eles gostem ou não.

Os que se sentem responsáveis tentam desacreditá-la: Pobre Greta, se referiu a ela Paul Ziemiak, político da União Democrática Cristiana, que ora está no poder em coalizão com outros democratas. Christine Lagarde, diretora do FMI quis conhecê-la – O que você faz é muito importante. – e prometeu-lhe apoio no que for possível. Greta sabe o que são promessas, para ela agir e falar claro é mais importante.

As críticas a Greta Thunberg e ao movimento Friday For The Future são diversas, a começar pelo gazeio às aulas como fator de indisciplina. Diretores de escolas, pais e funcionários da educação sabem que é melhor não criticar o conteúdo do movimento para não aparecerem mais responsáveis, mas sim atacar em nome da ordem escolar. Como esperar dessas pessoas que elas possam promover mudanças, se suas atitudes não saem das ordens estabelecidas? Isto reflete na forma de criticarem o ativismo de Greta como produto de manipulações ou como resultado de sua síndrome de Asperger, um estado doentio com sintomas de depressão e leve autismo, e que causa nos pacientes dificuldades na área de interação social, e são levados a fixações de idéias ou de perseguir constantemente uma idéia. Mesmo sendo estes argumentos plausíveis, não quero crer neles. Prefiro crer na sua postura determinada, seu olhar direto, sua expressão séria. Quando a vejo nos vídeos, não capto dissimulação, mas uma convicção no que faz.

Enquanto isso o ativismo de Greta traz mais seguidores e gazeadores de aulas às sextas-feiras: Nós vamos seguir nossa greve até que eles façam alguma coisa. Eles não fizeram suas tarefas de casa, mas nós sim. Vamos continuar até que algo mude. Disse Greta no 1. de março em Hamburgo, pois O clima está mais em desespero do que as minhas notas de matemática. Não existe um planeta B. Salvem a terra, pois ela é o único planeta que tem chocolate.

(*) Alexander Gerst é um geofísico e astronauta alemão da Agência Espacial Europeia – ESA.

O Brasil à venda

                    O  Brasil à venda

Lá vem ele pra se apresentar – como a estrela deste ano do Fórum Econômico Mundial pela ausência de Donald Trump, mas julgado como capaz de brilhar no cenário político de Davos – aparecendo detrás de uma cortina, como se estivesse metido num lugar sem saída, deu-me a impressão de um menino forçado a representar no palco um papel incômodo, e ali já estando não tinha para onde correr. Assim foi ontem, 22 de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro em Davos na Suíça, onde fez a sua primeira apresentação pública internacional como recém eleito presidente do „paraíso“ Brasil, „mas” infelizmente „muito pouco conhecido.“ Eu não me surpreendi com a sua atuação, pelo contrário, ela foi o que eu já esperava daquele dito „mito“ falsamente construído antes de passar pela difícil prova de conhecimentos; Jair Bolsonaro, o homem que poderia passar despercebido e sem ser ouvido, se não tivesse virado presidente da república. É coisa mesmo de brasileiro dar tal atribuição a um simplesmente nada?

Bolsonaro nunca me enganou, já o aguardava exatamente fora da proteção do lar-Brasil – seu palco seguro – e vê-lo falar diante de um público internacional de políticos, intelectuais e jornalistas especializados, resolvendo os testes de retórica e conhecimentos e provando sua falta de preparação adequada ao evento. Contudo isso, se me limito só a ele não é justo, sabendo que o que ele disse em Davos foi resultado de sua „qualificada“ equipe de assessores, esta que o expôs assim incompetente frente a uma elite política; o que dá certo e existe no Brasil – sem incluir aqui aspectos culturais – não significa sempre aprovação em outros países – gestos, expressões, atitudes aprovados dentro do país, podem ser bem rejeitados lá fora.

Meu marido esteve no Brasil após as eleições com a vitória de Bolsonaro. Nesta ocasião um homem lhe perguntou de onde ele era, e ao ouvir do meu marido que ele era alemão, estirou um braço imitando o gesto fascista de saudação a Adolf Hitler e achando que ia ser bem recebido. Claro que não. Meu marido o rejeitou e afastou-se dele. Se no Brasil o „só não te estupro porque você não merece“ considera-se normal falar assim para uma grande maioria que dá de ombros ao que realmente significa a declaração, tem peso no estrangeiro. O jornal alemão Welt não esqueceu, e mencionou-a entre outras afirmações racistas e populistas de Bolsonaro, em primeiro lugar, antes de relatar sobre seu discurso em Davos. Dentro do Brasil ele pôde, durante a sua campanha, fazer uso de um vocabulário baixo: „tou me linchando pra você“ – quando discutiu com uma repórter jovem em Brasília – consciente de que mesmo chocando a uma parte do povo, podia impressionar e ser louvado por outros – ele estava „linchando“ uma parte do povo – só que no estrangeiro capitão, isso não passa despercebido. Aqui na Alemanha quando Bolsonaro é mencionado nos noticiários, primeiro e antes da notícia é referido como populista, direitista, e conhecido por suas declarações hostis e inimigas de movimentos progressistas de mulheres, homossexuais, negros e índios. Por que foi surpresa para muitos os efeitos de sua figura grotesca no estrangeiro? Se não foi grotesco falar que temos cidades e praias lindas, foi por outro lado banal como forma de convite aos presentes a irem ao Brasil e constatar in loco que é verdade o que ele diz. No entanto essa banalidade transportou as intenções de seu governo de tornar o Brasil sem complicações num país para futuros investimentos – era como dizer: venham ao Brasil, comprem nossas nacionais, façam seus negócios da China, para isto o Brasil é um paraíso de oportunidades lucrativas e flexíveis, e é, acima de tudo, seguro. Usou de generalizações superficiais e até mentirosas para falar da realidade brasileira – mas isso não era tudo que a sua super equipe governamental tinha para dizer? As estratégias, os projetos e passos de seu programa foram calados como para não responder perguntas fora do script ou levar os presentes a perguntar-lhe sobre a reforma da previdência, ou da oficial posse de armas pelos „cidadãos de bem.“ Nada sobre isso foi falado, salvo quando foi perguntado, a modo de cobrar dele o que tinha faltado no seu discurso: conteúdo. A pergunta era para saber que passos concretos o presidente daria para transformar o país. Também aí a sua resposta foi geral, promessas de um candidato prometendo trazer melhoras.

No fundo Jair Bolsonaro repetiu os discursos populistas de sua campanha, desta vez moderado, formal, pausado – para ser bem traduzido – e lavado da corrupção do ex-presidente Luís Inácio e da esquerda. Ele ofereceu e prometeu um Brasil sem esquerda e „sem ideologias,“ só a possibilidade neoliberal de fazer de um governo federal um puro negócio, sem interesse e responsabilidade de criar projetos sociais e diminuir as dificuldades de subsistência. Como senti vergonha, apesar de estar sozinha em frente ao youtube; tive vergonha, raiva e até uma inquieta satisfação porque o que vi foi uma confirmação do que é a boca grande de um homem explosivo e agressivo quando se expõe sem defesas. Aquele homem que deixava claro que tudo era possível pela força de chegar ao poder, porque achava que o Brasil era o centro do mundo, e o mundo iria se curvar ante sua megalomania – aquele homem foi almoçar sozinho num bandejão ontem; aí tive pena de sua aparência acuada, fraquejada, nem parecendo ser um chefe de Estado, mas parecendo ter buscado um retiro num restaurante popular. Onde estava sua equipe? Que estava sentindo no momento? Não quero fazer hipóteses – elas não são importantes – Na realidade aquele homem era o presidente de uma nação que até o ano passado ocupava o oitavo lugar entre as maiores economias do mundo.

O presidente Bolsonaro teve sorte ainda no mesmo dia: ele bateu o bingo de Davos usando a chance de poder corrigir suas limitações e sua falta de horizontes, quando à delegação brasileira foi oferecido um jantar. Mesmo assim ele não passou de levar o público a rir no início de seu discurso menos formal, confirmando a habilidade que o brasileiro tem, sem complicar, de tornar o formal em informal, e repetiu o que já tinha dito no discurso da manhã. Não trouxe nada novo que pudesse encher as expectativas dos presentes; só que desta vez Bolsonaro quis passar na prova oral de retórica, e falou sem ler. Foi então aplaudido cortesmente.

E o nosso feminismo daqui pra frente?

       

„Eu amo a senhora.“ Ao ouvir a frase que não era uma qualquer, mas uma declaração de amor vinda de um homem bem mais velho do que ela, o qual conhecia só há uns tantos, não teve nenhuma surpresa, infelizmente já a esperava, sabia que algum dia iria ouvir de malgrado o que era inevitável: „Eu amo a senhora, e com isso gostaria muito de tê-la ao meu lado; quero pedir-lhe que seja minha mulher, caso essa idéia também a encha de satisfação. Quero pedir-lhe Etna que se case comigo. Sei que o que estou pedindo não é uma surpresa para a senhora, mesmo assim peço-lhe que se dê tempo para decidir-se; saiba que um sim de sua parte, me faria o homem mais feliz desta terra.“

Esta cena eu não a vivi; ela tampouco cabe mais nos nossos dias atuais; ela não é real – apesar de ser convincente – ela foi tirada – sem ter sido traduzida – de um dos romances de Anita Shreve All He Ever Wanted – Tudo O Que Ele Queria – seria mais ou menos o título em português (eu o li, porém, em alemão), publicado pela primeira vez em 2003 nos Estados Unidos onde a escritora nasceu e faleceu aos 71 anos em março deste ano. No fundo Anita Shreve não é a minha escritora norte-americana predileta; o título me pareceu um tanto brega, como de um romance cor-de- rosa, melodramático, sem exigências e desafios; o que me levou a lê-lo porém, foi a curiosidade por se tratar de uma estória que se passa no século passado, focalizando um homem maduro e apaixonado, e uma mulher que de leve tateia sua emancipação pelo puro direito de poder escolher a quem amar, numa época em que os casamentos ainda eram obras de decisão dos homens. O livro é narrado em primeira pessoa, pelo homem, Nicolas Van Tassel – o que não foi uma escolha aleatória da escritora – descendente de holandeses, professor de literatura inglesa e retórica ele é quem conta a estória, a sua própria história entre os anos de 1899 e 1935, sua paixão, seu amor obsessivo, ciumento e calculista por Etna Bliss, uma mulher de uma beleza especial, jovem e que nunca chegou a amá-lo, apesar de ter se casado com ele, e com ele ter gerado dois filhos (depois o enredo me fez lembrar e encontrar paralelos com Machado de Assis em Dom Casmurro). Mesmo sendo ela, Etna Bliss, o centro das atenções do narrador, aparece na estória como em pano de fundo, como imaginada e conduzida por ele, com raras reflexões e voz própria, incapaz de expressar o que sente. Subordinada ao discurso do narrador, ela está em suas mãos, moldada à forma que ele lhe dá, e não a que ela mesma subscreveria – mas não é este o modelo convencional da mulher daquela época? – E assim está exposta Etna Bliss, apática e estagnada pelos seus sentimentos ocultos, confinada às tarefas de benfeitora do lar e da caridade – mas nem sempre leal, como era de se esperar – e mantendo uma relação com o marido que funciona bem durante o dia, mas tornando-se fria e distante de noite, no momento da intimidade do casal. Seus breves diálogos com o marido me deram raiva – como tive raiva dela pelas suas abstenções e pelo seu silêncio pesado e constrangedor. Não é que Nicolas Van Tassel se desenvolva como um macho tirano – ele é até certo ponto condescendente – seu intenso desejo sexual e de ser amado por ela não o permite extrapolar os limites de sua decepção, pois os desejos se transformam sempre em uma nova esperança.

A literatura do século XIX estava comprometida com a sociedade que era na época um palco extraordinário para os literatos: o crescimento da produção industrial, as aplicações monetárias, as drásticas diferenças entre as classes, e seus conflitos, as relações amorosas,  foram usados como temas que nos deram até hoje um retrato da sociedade em forma de romance social. Mesmo que um tema, como entre outros o amor, o dinheiro, a política, possa subsistir no tempo, ele não permanece invariável por mais que ele seja verdadeiro – e um tema tanto é verdadeiro, como é para todos – o que muda é a forma de reconhecê-lo e interpretá-lo num dado contexto social e político e numa dada época. As reações de uma jovem que leu o romance de Leon Tolstói, Anna karenina, quando ele foi publicado na Rússia entre 1877 e 1878 e com uma jovem também russa que o lê nos dias atuais é bem diferente; assim como se acontecer se a jovem que o lê é brasileira – o que não é muito frequente – ela vai reconhecer sobretudo o amor de forma malograda de Anna karenina e dar-lhe novos contornos segundo suas experiências e capacidade crítica ao confrontar a estória com a sociedade atual, apontando novas soluções e até levada a corrigir comportamentos se a leitura a estimula, ou poderá até se divertir com alguns personagens e costumes de então – mas não é isso também que faz uma obra subsistir, quando ela ganha novas interpretações através do tempo? Li num blog que Tolstói não sabia que a sua obra iria chegar até hoje e fazer pessoas „chorar, rir, e apaixonar-se pela vida“, como ele mesmo disse; se alguém lhe tivesse dito isso, ele teria dedicado a sua obra a toda sua vida e as suas forças, afirmou. Quando assisti ao filme Madame Bovary de Claude Chabrol – tendo Isabelle Ruppert no papel de Emma Bovary, reparei com espanto que mulheres riam com desdém da personagem, me deixando irritada no momento por não ter compreendido no momento o quanto ainda havia dogmatismo entre as mulheres nos anos 90, ditas feministas. Anos mais tarde a velha personagem de Gustave Flaubert foi atualizada em Little Children – em português Pecados Íntimos – dirigido por Todd Field. No filme Emma Bovary é apenas mencionada por uma mulher jovem, casada e mãe – Kate Winslet no papel – num grupo de leitura com outras mulheres de idades diferentes. A jovem se reconhece no drama da personagem por também estar vivendo no momento uma relação extraconjugal e, ao contrário das outras mulheres, sem fazer julgamento, ela avalia o comportamento de Bovary livre daquele carácter de mulher fácil e desmiolada de então. Novos valores geram novas interpretações, e quem diria que Madame Bovary não ganhasse por fim a marca de feminista? O filme não termina numa tragédia; a jovem não precisa suicidar-se, como Emma o fez por vingança, por desespero, ou mesmo por não ter podido suportar o excesso de narcisismo; pelo contrário, após esse reconhecimento, ela se afasta de qualquer intenção de culpa ou de justificar-se pela sua infidelidade, o que isto impede o suicídio e faz ganhar a reflexão.

Etna Bliss não optou por se tirar a vida, preferiu abandonar o marido e os filhos – um ato impensado, movido pelo desespero, por vingança e por tantas abstenções e renúncias que no fundo não a favoreceram em nada. Ela não só foi vítima dela mesma, como também de sua época; seus anseios não eram tantos, e Etna se considerava com o devido direito de realizá-los – por quê não? – Etna nasceu um século depois da Declaração de Independência dos Estados Unidos de 1776 que promulgava entre outras verdades o direito à vida, à liberdade e a aspirar à felicidade, porque todos os homens são obras do Criador e por isso têm os mesmos direitos. São palavras tão abstratas como uma escultura que configurasse cada um dos termos evidenciados: vida, liberdade e felicidade – um idealismo – a quem „todos os homens“ está referido? Também às mulheres? Etna queria ser feliz vivendo o amor ideal, que para ela, era aquele desencadeado pela experiência erótica, e assim o experimentou intensamente, mas por infortúnio foi abandonada pelo amante – daí o casamento sem amor ao marido como uma vingança – a si mesma? Ao marido? A insatisfação de Nicolas com a frieza de Etna, ele aproveita para desviar a atenção de sua própria falta de habilidade na cama; seu desejo sexual não dá para acender uma chama de amor no corpo dela. Etna todavia ainda apelou à liberdade de possuir um bem, quando usou o dinheiro de um quadro herdado para comprar uma casa, um retiro, onde ela pudesse apenas experimentar estar livre através de atos simples: costurar à mão, tomar um chá, escrever cartas, ler, descansar. No entanto foi seguida pelo marido que a descobriu, desvendou seu refúgio e acusou-a de mentirosa e traidora. Depois só restou a Etna a vida – a vida pela vida – e por esta, para não morrer – por que teria que repetir a tragédia de Anna Karenina e Emma Bovary? – ela foi embora – abandonando tudo e todos – na esperança de ainda reencontrar-se naquele amor tão aspirado.

Por que as estórias de Anna karenina e Madame Bovary não passaram como erroneamente pensamos? Uma prova aparente são as refilmagens dos romances: Anna Karenina foi filmado onze vezes e Madame Bovary nove. Também as traduções são muitas, e cada uma que reaparece é uma tentativa de aproximar mais a linguagem do escritores aos nossos dias sem que os conteúdos sejam alterados e as sequências das ações sejam modificadas. Outra prova mais convincente é quanto o romance do século XIX é grandioso, e chegou a um auge talvez não alcançado e superado em outras épocas: o avanço técnico e científico não só favoreceram as guerras, mas também abriram as possibilidades de poder controlar tudo ou quase tudo; daí também se explica porque o papel do narrador do século XIX, sabedor de tudo e que controla tudo não é gratuito. E ainda mais: o fascínio que essas estórias nos exercem; além de serem os romances um espelho das relações sociais do século XIX somado à maestria estilística dos autores, também nos sentimos atraídos pelos seus dramas e tragédias, pelos amores e sofrimentos das personagens, porque tudo isto está dentro de nós desde muito cedo: o medo, o prazer ou os tabus, tanto a vida como a morte nos atraem, porque a vida não é somente os feitos, mas ela tem um fim. E por fim: Karenina e Bovary – Anna e Emma – não morreram para nós mulheres, suas tragédias também despertaram interesses nas feministas, como fonte de questionamento de como anda a consciência da mulher, a nossa consciência hoje.

Até as tragédias e os dramas nos mostram que nem tudo está perdido, resta sempre algo que daí pode ser um reinício; a memória, as experiências, os ganhos e as conquistas promovem os movimentos de mudança, mesmo quando estes parecem mais um retrocesso. Quando uma mudança social vem de um ato do legislativo, esperamos que os resultados dela sejam rápidos e evidenciados, para nos sentirmos seguras. Por outro lado passamos por situações diárias – em casa, no trabalho, nas aulas, em festas, na rua, etc. – que ainda estão longe de serem reconhecidas e classificadas como portadoras de agressões verbais, sexismo ou racismo. Para estas situações as mudanças são mais lentas e dependem sobretudo de nossas atitudes e reações. Um silêncio pode ser entendido como uma aprovação, e assim deixamos passar o momento de falar e atuar e acumulamos mais abstenções. Quantas vezes não voltei pra casa com raiva de mim mesma, decepcionada, porque me esquivei frente a outros e não disse o que queria e devia. Achava que se falasse, iria chocar o público, ofender pessoas e todos iriam presenciar minha fúria – uma vergonha, no fundo. É que eu não estava preparada para essas situações e tinha medo das confrontações. Quando eu fui votar no primeiro turno da última eleição para presidente, atrás de mim na fila estavam duas mulheres conversando; a que falava mais alto, reclamava da espera e da má organização das seções, usando uma forma mais negativa do que condizente com a realidade. Isto me molestou porque vi que se tratava de queixas infundadas, pois a espera era normal por conta de mais eleitores, e o processo de chegar até a cabine estava visivelmente organizado. Como podia me calar frente a mentiras? Falei calmamente, expus meus argumentos, e por fim disse-lhe que o seu negativismo era desagradável e chegava até mim influindo no meu bom humor. Ela calou-se de vez, e a outra olhou-me admirada exibindo um sorriso leve de confirmação. Senti-me satisfeita com a minha ação, pois no fundo o que eu fiz foi opor-me a suas palavras que não estavam certas, e estabelecer uma fronteira. Mulheres também se abstêm de situações por não se sentirem capazes e seguras de seus argumentos, ou por vergonha de terem uma posição. No Brasil os termos feminismo e feminista ainda têm um sentido negativo, algo como incabível, exagerado, inflexível, e mulheres têm medo de assumirem essa posição, que para elas seria como se estivessem revelando algo sem valor e até proibido.

Por mais que o governo de Jair Bolsonaro vá recuar as forças democráticas, fechar os olhos para o bem do nosso planeta terra em nome de um liberalismo desenfreado, e não apoiar as mulheres na luta pelos seus direitos e contra o despotismo masculino, mesmo assim não vamos voltar atrás – porque isto é impossível – já temos o legado de nossas pioneiras antepassadas, nossas próprias experiências e sabemos que os direitos não são dados de presente, mas sim conquistados com muita luta. Vamos seguir.

Dois anos e um mês de blog

 

Este ano o aniversário do meu blog passou despercebido no primeiro de outubro; foram os acontecimentos de então no Brasil com as eleições que me tiraram a atenção, assim como a morte de um ser querido da minha família não me fizeram lembrar que já tinha dois anos de escrever num blog, por isso publico hoje somando mais um mês ao aniversário e continuo firme na minha intenção de mantê-lo, esperando que nenhuma vicissitude da vida venha por ventura impedir-me. Também sigo firme no meu propósito de ter como tema central o feminismo, ou seja, a mulher no seu processo de autodeterminação e descoberta.

A experiência de estar aqui é tão grande como quase propriamente a de escrever – é uma comunidade enorme a dos blogueiros; não seria possível só escrever e publicar sem passar pelos colegas – suas postagens, seus estilos, suas intenções, seus esforços também – tem de tudo – e é quando não me sinto isolada, pois, sei, a interação é muito importante. Conheci gente muito boa, blogueiros sérios e comprometidos com a verdade; também bons blogs continuam me seguindo, enquanto eu só sigo alguns poucos, o que isto não quer dizer que ignore outros blogs – pelo contrário – é porque leio outros blogs e faço-o para dar-me conta do que passa no momento: blogs podem ser bem mais rápidos do que outros meios de divulgação. No entanto há outro aspecto nas postagens que me salta aos olhos: o comentário que eventualmente se pode fazer após a leitura de um texto; no fundo um ato democrático ao abrir possibilidades à livre expressão, o que, infelizmente, muitos e muitos não compreendem assim, ao acharem que a livre expressão não tem limites nem regras, e chegam sem estes a alcançar um nível não só baixo, mas indecoroso também. Li comentários horripilantes, de darem nojo as expressões usadas, ficando deles como única coisa, o fato de que eles existem, e em grande quantidade; na verdade revelam a temperatura dos leitores e põem à mostra sua capacidade tanto de expressar-se, como expressar suas reações. Nós blogueiros temos a chance de moderar os comentários que nos enviam e removê-los se não nos parecem apropriados. Algumas pessoas entendem isso como apenas um controle de poder ao deixarmos aparecer só os comentários que convêm ao blog para promovê-lo. Não penso assim. Entre um comentário crítico, mesmo não estando de acordo com a opinião do texto, e outro que não diz nada, a não ser palavrões e ofensas – fico com o primeiro por rejeitar o desrespeito e as barbaridades gratuitas do segundo. Na verdade existem comentários que não devem ser publicados, pela mera falta de coesão, senso crítico e de não ser uma contribuição positiva ao público de leitores.

Duas coisas foram importantes nestes dois anos – primeiro: aprender para amadurecer, pois o pré-requisito de amadurecer é ter aprendido, sendo eu ainda às vezes nada condescendente comigo mesma ao achar que meu estilo é assim e não de outro modo; meu vocabulário é insuficiente; não sou precisa e, e, e … assim vou sem me levar a nada significativo, a não ser que comece a ser condescendente comigo mesma, – e segundo: o blog me deu oportunidade de saber mais do Brasil, pois como vivo fora do país há muitos anos, não acompanhei, a não ser a grosso modo, os acontecimentos em sua extensão. Um exemplo recente é o caso da Marielle Franco que só vim a conhecê-la quando ela já não vivia mais; e muitos outros casos e notícias que me chegam ao conhecimento através de postagens. Li, por exemplo, recentemente num blog, que uma criança foi baleada em Ponta Grossa, no Paraná, por ocasião das comemorações de uma família pela vitória do presidente eleito no passado 28 de outubro. Com o blog me sinto mais próxima do Brasil, embora a maioria das notícias que recebo de lá, não me agrade.

Se faço uma avaliação do que escrevi nesse segundo ano de blog, alguns textos em relevância me cobraram esforço, como o Já um mês sem Marielle Franco, o qual escrevi sob uma forte tristeza e com o coração pesado pela sua morte repentina. Outro, Que „coisa“ é essa Clarice? eu o escrevi com base numa leitura apurada do seu conto Mineirinho de 1962. Este conto, que me parece mais um plaidoyer, é denso, profundo, complexo como a própria Clarice era e assim também a sua expressão literária; é uma visão do que está atrás das aparências e para que nos salvemos dela significa que devemos nos abster daquilo que nos revela gente – mas que salvação é esta que nos torna inimigos, em vez de fraternos? Escrever sobre Mineirinho me custou menos trabalho do que elucidar as frases de Clarice, sair de sua superfície – às vezes aparentemente fácil – e passar a compreendê-las, não de forma acadêmica, mas como base existencial. E por fim a minha postagem de agosto É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos, a escrevi com base num caso real passado no sul da Alemanha e onde também este ano ocorreu o julgamento da mãe e de seu parceiro acusados de haverem abusado sexualmente de uma criança, o filho da mulher. Escrever sobre esse caso foi como um grito de alerta aos clichês que envolvem cuidado, amor, responsabilidade em volta do papel social e afetivo da mulher como mãe. Esses clichês nos impedem de encarar a mulher além do prescrito pela identidade de gênero e de tocar em tabus em volta do papel da mãe. A pergunta é até que ponto o feminismo também seria responsável por discriminações e separações, criando da mesma forma construções discursivas e culturais. São perguntas relevantes, são elucubrações pertinentes que fascinam meu espírito inquieto – daí o inevitável E Agora Mulher?

Pudesse escrever mais, publicar com mais frequência – faço-me mesma estas críticas ao não considerar que certas circunstâncias na minha vida não me permitem isso – por outro lado escrever para mim não é nada gratuito, tem que ver com estar convencida do que quero dizer e até de sofrer no ato da expressão – é um desafio e assim será.

Agradeço aos amigos que acreditam em mim, a meu marido, que mesmo sem saber português, procura entender a nada boa tradução do google – obrigada querido – e a todos aqueles que mesmo sendo de forma virtual, me ajudam a prosseguir.

Uma coisa boa

 

Desde o início dos debates públicos do #MeToo as mulheres têm avançado na luta contra o desrespeito, a discriminação e os abusos sexuais, demonstrando coragem, poder de decisão e tornando o movimento mais amplo, sobretudo quando homens também vítimas de investidas sexuais podem se juntar a elas e denunciar ataques sofridos não só de homens, mas também de mulheres. É quando o hashtag pode ir mais além de só querer ver as mulheres como vítimas – embora o número delas como vítimas seja extremamente desproporcional ao dos homens – e passar a ampliar seu teor democrático: todos têm voz e poder de expressão porque o mais importante é o que define o próprio movimento, ou seja, o hashtag MeToo tem que ver com, acima de tudo, denunciar os abusos de poder em forma sexista e discriminatória, como também fazer frente a aqueles que defendem a impunidade e rejeitam a credibilidade das vítimas num sistema que faz prevalecer o silêncio à denúncia e assegurar o comportamento abusivo como normal. Mas isto é tudo? Pelo menos parecia que era tudo até que o presidente americano Donald Trump começou a querer tirar vantagens do movimento para o seu próprio benefício. Isto passou numa de suas viagens pela sua recandidatura à presidência no Estado do Mississipi. Ele desacreditou da professora universitária Christina Blasey Ford por ter ela denunciado o juiz Brett Kavanaugh de uma tentativa de violação no início dos anos 80, quando tinha então 15 anos. Trump, que se pôs ao lado do juiz Kavanaugh – claro – usou de zombaria para qualificar a professora de mentirosa, enquanto procurava grotescamente imitá-la por um lapso de memória, uma hesitação – o que é de se esperar ao se expor num depoimento como esse:

Ele: – “Eu tomei uma cerveja, certo?
– „Como a senhora chegou em casa?“ „Não sei.“
– „Onde passou isso?“ „Não sei.“
– „ Há quanto tempo atrás passou isso?“ “Não sei mais.“
– „Não sei, não sei, não sei.“
Isto mostra até que ponto chega Trump para que o público ria junto com ele, aplauda-o, confirme-o, mesmo fomentando a desigualdade, o ódio, a indiferença. É também uma das mostras de quão polarizado se encontram os Estados Unidos; se por um lado o país é sede de iniciativas novas como o próprio MeToo – por outro lado é exatamente o contrário: seguidores do presidente encontram confortavelmente na sua gestão terreno propício para disseminar o desrespeito, o descaso e o menosprezo às mulheres, aos negros, aos estrangeiros; não lhes interessam nem a dignidade nem a coragem de Christina Blasey Ford ao deixar público um fato de sua vida, que a marcou para sempre, independente de que ela tenha tido culpa nele ou não, porque o papel da culpa foi o que menos valeu no show do depoimento, mas sim o que se pôde fazer para eliminar o inimigo – e ela era um inimigo em potencial – uma inimiga do conservadorismo.

A já mastigada pergunta do „por que só agora, depois de tantos anos ela faz a denúncia?“ falta raciocínio, não leva em conta o passado – ou por medo de encará-lo, ou por indiferença pelo que passou – estimula a repressão e faz da história um esquecimento, o qual este serve como tática para manipular o presente. Com tudo isto, as mulheres que sofreram, não importando a forma, se verbal ou física, investidas sexistas e discriminatórias não esquecem. Elas não esquecem porque sentem o que passou como uma ferida; para as que sofreram violentos ataques físicos – apalpações agressivas, e sobretudo violação – essa ferida sangra para sempre; traumatizadas essas mulheres não vivem com relaxo o seu dia-a-dia, pois as lembranças voltam e voltam, se não bem na memória, bem mais por sensações físicas de pânico, tremores e a terrível paralisação que impede reagir – momentos de alto grau de violência, como os de ser estuprada, por exemplo, podem provocar na vítima um mecanismo que faz escapar do presente como uma tática frente ao horror; futuramente esses momentos encontrarão, ao virem à memória, um certo filtro como algo nublado pela necessidade que a vítima teve de recorrer a esse mecanismo. E para nós todas que sabemos o que é ser verbalmente discriminadas pelo sexo ainda nos falta a medida certa de como reagir a esses ataques, a qual vem de uma consciente aprendizagem de como autodeterminar-se. A sociolinguista americana Deborah Tannen, conhecida em português pelo seu bestseller Você Simplesmente Não Me Entende – O Difícil Diálogo Entre Homens E Mulheres estabeleceu dois eixos na comunicação: vertical versus horizontal. O vertical tem que ver primeiro com o uso de poder – hierarquia, funcionalidade – já o horizontal, ao contrário, denota primeiro o conteúdo, a solidariedade, transmitindo a sensação de que o outro faz parte do diálogo – ele não é um estranho. Esperar uma mudança daqueles que pensam verticalmente usando o que se chama High Talk – conteúdos intelectuais, frases de sentido moral, etc. – como reação a uma ofensa ou insulto, não vai mudar nada, porque está visto que a vítima foi pega e dentro das relações de poder ela se encontra bem abaixo. Que fazer? Devolver na mesma moeda a ofensa? Bem melhor nunca perder os nervos, e para isso é preciso se conscientizar treinando formas de superar o ataque sem perder a sensação de sentir-se confortável e segura, ou seja, falar devagar e firme encarar o tal, o autor do ataque, olhando-o nos olhos e calmamente dar-lhe uma resposta. Nada de solidariedade, de confiança, pois a comunicação não se encontra no eixo horizontal, e o fato de que as situações são diferentes, o melhor é estar preparada para enfrentá-las. Pergunto-me se isso não parece mais um estado de guerra. É sim, uma guerra sem armas de fogo, mas com o uso da coragem, da perspicácia e da calma podemos fazer frente aos inimigos. Mulheres perdem inúmeras oportunidades de reagir à altura investidas sexistas – fazem vista grossa, se envergonham, não podem acreditar que tal absurdo possa acontecer com elas, ou se paralisam – machos sabem como investir em mulheres a durabilidade de suas posições de poder; eles não agem por brincadeira – como deixam transparecer – eles as observam, as testam para saber até onde podem chegar. Eu que não trabalho com um grupo de pessoas, posso porém imaginar a insegurança, a falta de conforto e o mal-estar daqueles e daquelas que são levados a ser alvos de brincadeiras maliciosas e até ao ridículo ou ao escárnio. Até onde ou até quando vai isso? Até quando as sociedades tiverem superado „as coisas ruins“ através de esclarecimentos, de educação para o sentido de respeito e igualdade como também de lutas? Também me pergunto assustada se por um modelo reduzido e simplista não seriam essas lutas assim como lutas entre o bem e o mal? Não creio. A História toma dialeticamente seus rumos; há sempre um desenvolvimento histórico nas lutas de classes, o qual não sabemos para onde vai, mas uma coisa é certa: se não lutamos estamos perdidos. E se pensarmos se o fim „das coisas ruins“ seria correspondente ao fim do patriarcalismo, chegaríamos a pertinente pergunta dentro do próprio feminismo: teve o patriarcalismo um início numa época tal? Então se houve um início, também terá um fim? Como no ciclo vital? (1)

É certo que o MeToo desencadeou outros hashtags, uma forma de organizar mulheres através de uma chamada capaz de ser comum a todas elas; o #EleNão no Brasil, por exemplo, o qual considero ímpar no desenvolvimento de uma consciência política das mulheres brasileiras. A necessidade de ter sido criado foi oportuna dentro do contexto político do momento, apesar de ter sido tachado como um movimento de elite branca, da esquerda, claro, ou como uma ação petista contra o petismo (*) – para mim as duas alternativas são falsas. „O EleNão vai muito além do PT“ (2), vejo-o como resultado de uma polarização, pois o momento de decidir sim ou não ao fascismo falou mais alto, daí a chamada das mulheres unidas contra um candidato à presidência que personifica a coisa ruim – a misoginia, a discriminação pelo sexo, pela cor e origem, o caráter ditatorial e o emprego da violência – fez surgir o EleNão, assim como a necessidade das mulheres de usarem a expressão e de tornarem-se estratégicas e consequentes, e principalmente serem ativas expondo-se e saindo às ruas. O movimento teve muita repercussão positiva no estrangeiro – foi melhor entendido, digo eu – e mesmo que o objetivo imediato não vingue, não é isso nenhum fracasso. O passo em direção à autodeterminação já foi dado e só o futuro mostrará isso com certeza, o que será uma coisa boa – assim espero – EleNão.
(1): Esta pergunta me veio por ter lido Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade de Judith Butler, no segundo capítulo.
(2): Parte do título de uma postagem de Raquel Rolnik em Blog da Raquel Rolnik,

(*): lêa-se antipetismo

 

 

Próximo post: 1/11/2018

A coisa ruim

 

Citando a expressão de “o coisa ruim” de Mauro Luís Iasi no seu último post para o Blog da Boitempo – “Eleições 2018: a armadilha do voto útil e o desafio da esquerda” – também vou me referir aqui ao Jair Bolsonaro de “coisa ruim”, mas vou optar pelo gênero mesmo de “coisa”, ou seja, feminino. Então: a coisa ruim. Isto também me faz lembrar minha antepenúltima postagem aqui no blog: “Que coisa é essa, Clarice?” onde a palavra “coisa” assume duas dimensões ao Clarice Lispector analisar a morte de um bandido no seu conto Mineirinho. Mineirinho, um criminoso, um fora da lei, foi assassinado com treze tiros, sem que isso tenha deixado Clarice em paz, ao contrário, ela se encheu de revolta e de dor pela morte bárbara do bandido; os tiros a perseguiram na lembrança como uma via crúcis, relacionando cada um a uma reação sua. É que existe uma coisa em nós tão intensa como o radium e ao mesmo tempo tão fugaz que para nos salvarmos dela é melhor evitá-la, pois essa coisa nos faz sentir compaixão pelo outro, nos dá capacidade para aceitar e amar o outro. Entretanto essa coisa, como o radium, se irradiará de qualquer forma: se não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição. É o lado mau da coisa, é “a coisa ruim”.

Não queria escrever sobre a coisa ruim; muito já se escreveu sobre ela a favor ou contra; a mídia está cheia de vídeos de seus discursos, entrevistas e ataques agressivos a mulheres, claro, embora ele, a coisa ruim, tenha dito a uma entrevistadora de um programa de televisão, que não brigava com mulher. Ele a deixou desconcertada, pois sem dúvida sabia ela que ele estava mentindo – mas tudo ficou por isso mesmo, sem que ela tivesse dito algo para contradizê-lo, confrontando-o com a sua própria falsidade – e eu para me preparar para este post também tive de ler artigos e ver vídeos ouvindo sua voz gasguita, rasgada como se ele estivesse num desembestado bate-boca sem nível num botequim ou numa esquina. Tive dores de cabeça ao ponto de não poder mais ouvi-lo, seu tom de voz ficou sendo extremamente negativo para mim. Homens que não sabem dialogar usam de autoritarismo e agressões para poder ter a situação sob controle, pelo medo que estas ações provocam nas pessoas – todos sabemos disso – e a coisa ruim é o retrato perfeito destas características, também por ser um especialista em murar o seu interlocutor em caso de se sentir ameaçado por ele a sair de seu papel; e ele o faz muito bem falando mais alto, não querendo ouvir e sobretudo deformando o tema das perguntas. É molesto ter que ouvir as mesmas coisas repetidas vezes como se viessem de um velho disco emperrado e em volume alto – é o macho em plena ação, é o dogmático incapaz de adaptar-se à convicção da realidade, ou seja, ele não capta a realidade como ela é, mas como ele a vê distorcida pelas suas convicções machista e autoritária. Por que é fácil para a coisa ruim propagar suas idéias adaptando as pessoas às convicções que ele tem da realidade? Porque já existia de antemão um terreno propício para isso, por isso a coisa ruim não é nenhum fenômeno político surgido assim de repente. Não. Mas bem resultado de um velho processo já existente que não permite uma esquerda no país – e isto também não é nada novo, apesar de existirem exemplos suficientes que nos mostram que um sistema dogmático-autoritário não tem chance de funcionar para sempre; algum dia esse sistema se perderá em suas próprias contradições porque a realidade é mais forte do que aquilo que ele tanto apregoou como verdade – é quando o povo crédulo e seguidor se cansa decepcionado de tantas mentiras.

Por que se deu a ele, a coisa ruim, tanto espaço? A mídia também precisou dele para aumentar suas cotas enquanto o quis transformar numa estrela, num fenômeno construído; foram poucos os que o fizeram calar, e ao meu ver a maioria o tratou de luvas e permitiu que ele fosse além dos limites do bom senso. Durante uma entrevista no programa da Mariana Godoy ele chegou a comparar a então presidente Dilma Rousseff com uma cafetina, e por meio de uma tolerância absurda, que só o levou a seguir atacando pessoas descaradamente, não foi expulso do programa – argumentos fortes em nome do respeito à presidente e ao público foram calados; a entrevistadora se bastou com um gesto de como querer tapar os ouvidos.

Sei que além da mídia mainstream há profissionais que tentam fazer um bom trabalho, trazendo à luz a verdade dos fatos e comprometendo-se com a moral; também sei o quanto tantos jornalistas trabalham submetidos a seus empregadores e seguindo suas linhas, não importando se estas sejam sérias ou não; e ainda sei das dificuldades do jornalismo independente para sobreviver – este é o modo de fazer jornalismo que eu mais respeito – no entanto ao seguir observando o andamento de várias entrevistas que fizeram à coisa ruim, dei-me conta de certas parcialidades . A minha crítica não é pessoalmente aos entrevistadores como responsáveis absolutos daquilo que deixou tanto a desejar; entendo que o que faltou nas entrevistas e que não fez com que elas ganhassem em qualidade e elevado nível foi a inexperiência, a insuficiência de parâmetros adequados que fizessem a coisa ruim se dobrar, em vez de dar-lhe asas para ainda mais sustentar suas idéias. No Roda Viva assisti à boa fé da equipe que o entrevistou, contudo me aborreci com o seu silêncio demorado e sem ter falado mais alto para sobressair-se, interrompendo-o e corrigindo-o quando preciso; pelo contrário, a coisa ruim foi quem interrompeu perguntas, e de forma contraproducente até fez uma pergunta fechada – exigindo sim ou não na resposta – a Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico: se o Tancredo Neves foi eleito de forma democrática. Ela, em vez de barrá-lo devidamente – por regra aqui somos nós quem faz as perguntas – ainda o respondeu timidamente. Por que a coisa ruim conseguiu dominar aqueles que o entrevistaram? Porque na maioria das vezes, as perguntas foram genéricas, soltas – sem conexão entre uma e outra – já conhecidas, e que deram à coisa ruim mais chances de se confirmar, respondendo as perguntas com fatos que também não foram levados à discussão. Fatos, os quais os entrevistadores não tiveram como revidá-lo e ficaram sendo para o grande público como verdadeiros. Não estavam preparados? Pareceu-me que não – um despreparo que beirou mesmo a falta de competência ao não poderem argumentar suas perguntas, comprová-las com pesquisas, fatos, vídeos, estatísticas, e tantos outros recursos capazes de se impor ao entrevistado, no caso, a coisa ruim: que parecia – percebi – longe de estar à vontade quando entrou no programa, mas bem, nervoso, mostrando seu típico olhar frio ao sentir-se ameaçado. O Jornal Nacional – com apenas 27 minutos de entrevista – não tocou no aspecto vulnerável da coisa ruim que é seu caráter explosivo, agressivo e seu potencial violento comprovado em vídeos ao alcance de todos; em vez de dar exclusividade ao tema homofobia – que só o levou a repetir suas idéias autoritárias sobre educação – por que não relacionaram o tema com o caráter racista, machista e preconceituoso dele, como no caso da deputada Maria do Rosário no salão verde? Por que não mostraram também o vídeo da discussão com uma jovem repórter – talvez ela no início de sua carreira – que mostrando coragem, o enfrentou, mesmo recebendo esta baixaria:

Ele: Você é bonita, você é bonita.
Ela: (…)
Ele: Você é uma idiota, você é uma idiota.
Você é uma ignorante, você é uma ignorante.
Tô cagando pra você, tô cagando pra você.
Tô me linchando pra você.
Não tá me respeitando?
Ora, vai embora daqui vai, tá atrapalhando teus colegas daqui.

A coisa ruim também mostrou claramente seus traços narcisistas, tomando partido deles para salvar-se de perguntas incômodas; pondo-se na primeira pessoa, na frente de todos como o melhor, embora o que tenha dito nem sempre procedesse a verdade. O pior é que a coisa ruim foi ouvida como se o que disse fosse absolutamente verdade, sem ter ninguém que o revidasse, o negasse com propriedade, e assim passou-se a pergunta seguinte. Li em blogs acusações aos jornalistas do Roda Viva de petistas – como se ser partidário do PT é motivo de acusação – ou que eles tentam ser melhores do que o próprio entrevistado. Não. Ao que assisti foi o oposto destas declarações – não vi intuitos partidaristas, mas bem vi – com poucas exceções – entrevistadores perdidos, limitados por não terem sabido sem embaraço se sobressair com argumentos eficazes. É quando me dei conta do quanto se precisa aprender no Brasil – o que não é mau – ou ainda é o jeitinho brasileiro que deixa passar coisas para não complicar? Não incluo aqui os fazedores do fake news e seus interesses em falsificar a realidade – estes eu os abomino – mas sim o jornalismo crítico, inteligente, ativo e conhecedor dos fatos. O futuro do jornalismo brasileiro depende da educação política que os jovens irão receber – e que não seja a tal que a coisa ruim tem na cabeça – mas uma que tanto fomente a confiança para tomadas de iniciativa própria – sem precisar copiar aos demais – como que ensine a formalizar para também estimular a confiança – a informalidade brasileira com o seu jeitinho brasileiro, em muitas situações, já se deu muito o que falar no estrangeiro: é muito engraçada, viva, espontânea, tudo bem, mas também chata, pesada e não digna de confiança dos demais; ela está presente por toda parte e certos políticos abrem mão dela até em Brasília. Numa das vezes que estive no Brasil assisti a uma sessão da Câmara na televisão; na ocasião presidia a mesa o deputado Rodrigo Maia que ao terminar seus trabalhos, levantou-se de sua poltrona e bateu no ombro do seu auxiliar para ir embora, só que de uma forma tão sem cerimônia, tão à vontade e descuidada, como se bate no ombro de um companheiro de bar – onde neste recinto seria normal – mas não na Câmara dos Deputados. Para mim este gesto mostrou uma indiferença e desrespeito tanto a seu trabalho como ao lugar onde se encontrava; se o deputado agiu assim, por que outros não?

A coisa ruim foi mais além da informalidade; no fundo não o considero informal, pelo contrário, ele é autoritário e intransigente – qualidades que negam a informalidade – é um grosseiro, um desbocado, um agressivo que sabe atacar. A deputada Maria do Rosário – talvez ainda esperando condescendência dele – o ameaçou de esbofeteá-lo. A reação dele foi a evidência de não saber usar da diplomacia em casos de discussão – a qual é imprescindível para um político, sobretudo se ele está em público – e, dono de si, a empurrou duas vezes, mostrando até onde podiam chegar, impunemente, suas atitudes. Foi o apogeu da falta de respeito às mulheres, às famílias, à luta das mulheres. Por que a deputada não o esbofeteou mesmo, em vez de só tê-lo intimidado? Medo? Se assim tivesse passado, a situação teria sido bem diferente, e aí eu estaria pronta para perguntar à senhora Michele Bolsonaro se ela também já viveu semelhante situação em casa.

Próximo post: 17/10/2018

É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos

Para escrever este texto tive que me apoiar num material informativo, por isso li muitos artigos de revistas e online, vi documentários e entrevistas. As principais fontes foram Spiegel e Spiegel online, Stern, Süddeutsche Zeitung, Badischer Zeitung Freiburg, Focus online e Welt.de

No sul da Alemanha, num lugar pequeno perto de Freiburg chamado Staufen um menino – hoje com dez anos – foi cruelmente abusado sexualmente durante dois anos por parte de seu padrasto Christian L., 39 anos e de sua própria mãe, Berrin T., 49 anos; foi filmado em cenas pornográficas e ao ser violado por pedófilos perversos e depois oferecido numa área obscena e criminosa da internet em troca de dinheiro. O casal admitiu e confessou seus crimes, embora Christian L. tenha sido o melhor esclarecedor dos fatos, até apontando à polícia outros homens envolvidos nas violações, enquanto ela permaneceu como uma incógnita, transparecendo desleixo e falta de empatia, procurando racionalizar seus motivos através de clichês para sua própria defesa ao ser questionada. No início deste mês os dois foram julgados e condenados, ele a doze anos sob o regime de segurança – uma espécie de liberdade confiscada o aguarda após o cumprimento de sua pena, pois permissão para sair não terá, por ser considerado como perigoso para a sociedade e inclinado a sofrer recaídas; ela, a mãe, a doze anos e meio de cárcere – um resultado que decepcionou a maioria das pessoas que esperava mais justiça, não só considerando o grau das atrocidades cometidas pelos dois, mas também o descuido de funcionários do judicial ao deixar que o menino voltasse à custódia da mãe após ter sido afastado do lar. Na Alemanha uma pena para os casos especialmente graves de abusos sexuais a crianças pode ser de até quinze anos; se nenhum dos dois abusadores não recebeu esta pena, é por que para a justiça o caso ainda não foi considerado como extremamente grave? Mas o que é isso tudo em comparação com os danos físicos e psíquicos causados à criança, danos estes que irão marcar toda sua vida? A promotora Nikola Novak já tinha apelado para uma pena mais longa, sobretudo para a mãe do menino que não só colaborou com o seu parceiro, preparando o ambiente, conduzindo a criança às humilhações e torturas, mas também ela mesma, abusando do menino como se ele fosse seu brinquedo sexual.

Quando se conheceram no início de 2015, Christian L. tinha acabado de sair da prisão também por abuso sexual a uma garota de treze anos e daí ficou conhecido nos meios policiais como um tipo ainda capaz de retroceder a ações pedófilas, não lhe sendo permitido, por isto, estar em contato com crianças e jovens, a não ser na presença de um funcionário do judicial. Claro que Berrin T. sabia de tudo isso, mas mesmo assim concedeu a ele possibilidades de abusar sexualmente de uma menina de três anos, filha de uma conhecida e de quem ela tomava conta como babysitter. Nessa época o menino tinha oito anos e para ele também começaram o suplício físico e moral, a escravidão, a prostituição forçada, os estupros com a absoluta permissão dela. Por quê? Alegou ter permitido por medo de ser abandonada pelo parceiro – o que deixa claro seu papel de vítima na história – ou para também comprazê-lo como uma forma de amor? Não. Para mim uma forma de perversão, uma extrema falta de empatia, uma inteligência deteriorada e submetida à vileza. E onde fica nisso tudo o amor maternal que esperamos de toda mãe?

Nikola Novak não crê sem mais no papel de vítima de Berrin T. e pergunta se a tal estivesse mesmo sob pressão do parceiro – por que não mostrava sentir piedade pelo filho nos vídeos onde o menino era violado? Não mostrou. Seu interesse era não deixar transparecer marcas de violência nele, através de algemas, adesivos e outros instrumentos repressivos que usaram na criança; seu interesse também era mostrar-se como mãe protetora e lutadora, e assim o fez quando em março de 2017 um policial deu-se conta de que Christian L. e Berrin T. viviam juntos apesar da proibição de contato. O filho foi retirado do lar e entregue aos cuidados de uma família. Após um mês a criança voltou a viver com a mãe, sem que os funcionários de amparo a menores tivessem se dado conta de estar sendo ele vítima de agressões e abusos – a criança não foi ouvida, apenas ela, a mãe conseguiu convencer os funcionários usando conhecidos argumentos clássicos que definem uma mãe como boa, amorosa e cuidadosa – mentiras, enganos, mas que deram para ganhar a sua confiança. Como poder estar contra de uma mãe que quer proteger o filho? Com a mãe o menino não poderia estar em melhores mãos. – Assim se defenderam alguns dos funcionários – Por que o menino voltou a viver sob a tutela da mãe equivale a pergunta por que ele voltou ao martírio. Esta pergunta tardia, muitos a fizeram na imprensa e na mídia em busca de uma claridade, que no fundo revelou, por um lado, a expressão do fracasso das autoridades competentes que poderiam ter evitado mais sofrimento à criança se tivessem à disposição mais pessoal com suficiente trabalho coordenado, como também o acatamento a bitolas no modo de pensar e trabalhar impediram esclarecimentos dos fatos e até a possível salvação da vítima. Por outro lado a imagem da mãe protetora, cuidadosa e cheia de amor que temos fortemente impregnada em nós é incapaz de se virar no contrário. A confiança vem daí, deste padrão de que uma mãe por natureza não desonra o filho, e quando isto acontece e tomamos conhecimento, ficamos perdidos, nossa imaginação se limita, sentimos repulsa dos fatos que ouvimos e evitamos falar deles, pois falar deles é tocar num tabu, o tabu que envolve a mãe, que a faz intocável e longe de ser vista como uma abusadora sexual ou pedófila. Até os termos causam estranheza porque quem abusa comumente é o pai, o padrasto, o avô, o tio e outros ligados à família, mas nunca a mãe. Expertos no assunto dizem que a maioria dos delitos de abuso sexual a crianças praticado por mães – ou mulheres em geral – fica na sombra, encoberto porque não queremos aceitá-lo como verdade, e a razão disso repousa em profundos tabus, em mitos de gêneros e em repressão coletiva. Na Alemanha, segundo as estatísticas policiais, foi registrado em 2017 que no total de abusos sexuais a menores, quatro por cento foi de autoria de mulheres – a mãe, a avó, a tia, etc. – em todas elas está presente o mito do amor maternal. E os casos não registrados? Destes não sabemos.

Que energia produtora é capaz de conduzir a tais atos? O papel da mídia, da ganância, a história familiar de cada uma, o perfil psíquico? Já foi constatado em vários casos que quando uma mulher pratica pedofilia, já foi ela mesma vítima de abuso sexual, sem que jamais tivesse procurado ajuda terapêutica, ou vem de meios familiares insanos, tornando-se alcoólica ou dependente de drogas, no fundo um desajuste de personalidade. Sabe ela disso? Está consciente dos danos irreparáveis que causa à criança? Acho que sim, embora não queira se dar conta, ou procura um mecanismo de defesa para livrar-se de sentimentos de culpa. Uma mãe que manipula ou força seu próprio filho a satisfazê-la sexualmente – manualmente, oralmente, ou através de objetos – que se masturba na sua presença, ou o incita a uma penetração não pode esperar compaixão da sociedade, mas sim ódio – ela violou um tabu – por isso há casos de pedófilas que querem e tentam abrir-se para outros, principalmente por meio de serviços telefônicos de ajuda emocional, mas interrompem o contato se pressentem que poderão ser descobertas; daí as dificuldades nas investigações porque ao contrário dos pedófilos, elas não aparecem, mas sabemos que existem e por toda parte.

Nos países onde o feminismo ainda anda de quatro ou quando este ainda precisa, apontar o dedo na cara dos machos irreverentes e, de formulações fortes e diretas para confrontá-los, não é fácil também ver a mulher com aqueles comportamentos contra os quais ele se posiciona ou considera-os como típico de homens – até para estes é difícil conceder que uma mãe faça isso, contudo a moeda também tem outra cara, e segundo relatórios de profissionais uma parte considerável dos abusos sexuais intrafamiliar tem a mãe como cúmplice. Uma vez que também não é fácil aceitar esta triste realidade, caímos em formas de defesas – como é possível? Isso não chega na cabeça de ninguém! – Pois sim, e dá até margens para revisar certos posicionamentos radicais ou polarizados dentro do feminismo. Homens que foram abusados sexualmente pela mãe quando crianças guardam por muito tempo a dor, sem poder expressá-la, de terem sido maltratados, golpeados e ameaçados de serem abandonados, caso não a satisfizessem como ela queria – tudo se passa a nível dos sentimentos, pois as crianças não sabem exatamente o que está sucedendo; a maioria dos abusos começa antes da puberdade, e nesta fase elas são vítimas diretas de serem divididas entre o que é certo e o que não é certo; não sabem julgar o que é amor, dedicação e sexualidade e sentem-se exigidas de passarem a ter vários papeis: filho, amigo, amante, marido – tornaram-se vítimas, a serviço dos desejos de prazer da mãe – o prazer como um vício vazio – até puderem de uma vez se liberar: isto passa no período da puberdade entrando na adolescência, quando os garotos já esgotados, estragados e desorientados dizem um basta acompanhado muitas vezes do afastamento radical da mãe. Muitos reprimem esses episódios, banindo-os do consciente, esquecendo-os até que qualquer vicissitude oferecida pela vida faça com que eles irrompam brutalmente e o horror do inferno volte outra vez. Daí a necessidade de trabalhar esse passado horrendo numa terapia – e quanto mais cedo melhor – o que não passa com muitos pela repetida razão do quanto esse passado desorienta e causa desordem na personalidade de seu dono.

Agora Berrin T. e Christian L. estão na prisão graças a uma indicação anônima à polícia em setembro de 2017. Eles têm ainda que pagar 42.500 euros à criança assim como às outras vítimas – o chamado dinheiro da dor pelos estragos causados a elas, e será aplicado em favor de sua educação. O menino está vivendo sob os cuidados de uma família e não quer falar sobre o que passou com ele. Ela, a mãe, a qual nunca vi seu rosto – baixou a cabeça ou cobriu-o com um papel durante o julgamento – é gorda, uma figura balofa, com aparência desleixada e sem atrativos, um acúmulo de gorduras e cigarros fumados; não perguntou pelo filho, nem como ele estava, sua preocupação maior foi poder comprar seus cigarros.

Próximo post: 24/9/2018