POR QUE TER UM BLOG?

 

Desde que comecei este blog convivo com uma cena que se abre ao meu redor, da mesa onde está o meu MacBook Air – onde escrevo – até um quadro retangular enorme pendurado na parede a minha frente. À esquerda ficam as janelas. A mesa comprida de madeira escura é a de jantar, nela servimos a ceia a partir das oito, o que coincide com o noticiário da televisão que só raras vezes não assistimos. Antes e depois do jantar estou sentada à mesa, os olhos atentos ao monitor que me traz o Brasil e o mundo. Ter um blog é também ler webs e outros blogs para sair, ou do absolutismo ou do isolamento.

Hoje é um grande dia para o meu blog E Agora Mulher?: Ele é uma criança que completa três anos, já sabendo andar e falar condizente a sua idade; e hoje relembro a minha primeira postagem – Defeitos: como é difícil aceitá-los – quando pensava que ia dar a este blog temas exclusivos da mulher no seu processo de autodeterminação, e não via que eu também ia passar por um igual processo aqui. Esses equívocos acontecem, e os blogueiros sabem disso – que escrever é uma aventura para além do que se propõe. Daí acabei escrevendo modestamente sobre a situação política no Brasil; minha opinião e meu parecer pareciam exigidos pelo estado alarmante que estava entrando o país desde a prisão do ex-presidente Luís Inácio até a morte da vereadora Marielle Franco, passando pela eleição de Jair Bolsonaro à presidência. Foi, porém, com o assassinato de Marielle que não pude mais me separar dos ocorridos políticos e sociais brasileiros; queria saber para onde ia tudo isso; o Brasil se tornou uma prioridade, apesar de eu viver longe e ignorar tantas coisas que passaram sem a minha presença. Eu já estava fora do país quando o ex-presidente Lula foi eleito pela primeira vez; também não conhecia Marielle Franco, e o destino trágico dos dois pôs os meus pés no chão – no chão do Brasil. Antes a distância geográfica entre mim e o país se refletia numa falta admissível de contato – o que não está perto de nós, vai perdendo interesse.

Daqui da mesa vejo um quadro na parede da sala contígua a esta, separada por uma porta larga que se abre no meio em duas partes. Quando elas estão abertas, recebo quase cem por cento da visão do quadro. Contudo eu o conheço bem e sei que se mesmo os meus olhos não podendo absorver daqui toda sua largura de 2 metros e 65 centímetros através da porta, o que posso ver é suficiente para me dar um significado. Ele também me serve de descanso e pausa inspiradora quando levanto a cabeça por tanto matutar. A pintura é um momento veneziano resumido no já ido pôr do sol. O azul prioriza entre outras poucas cores permitindo as águas de Veneza se unirem ao céu em tons brilhantes e já noturno. Os velhos prédios da cidade à margem do canal se repetem refletidos dentro das águas como colunas afundadas, rígidas e frias – é um momento eterno. Também há uma ponte, uma das tantas pontes sólidas e cortantes, iluminada por uma única lanterna que espelhada na água parece uma lua escondida entre as colunas da ponte também refletidas. Nenhuma pessoa aparece para atrapalhar esse momento – o que vejo vive de uma profunda solidão e beleza. De tanto contemplar esse enorme quadro, já conheço seus tons de azul; a cor de ferrugem da ponte traduz a idade da cidade … Me encosto no respaldo da cadeira para vê-lo melhor – é sempre assim.

Acredito que o meu blog serve a aqueles que vivem procurando algo na web, pois os que me seguem, não acho que leram ou leem todos os textos publicados aqui. De todos os modos ele serve a uma pequena população, e surpreende-me encontrar visitas de tantos países, mesmo sem saber se essas pessoas leram um texto, o compreenderam, ou se identificaram com algum. Quem são elas que interessadas por um tema ou atraídas por um título percorrem meu arquivo? Muito poucas deixam seus rastros como likes, feedbacks alentadores ou comentários, mas nem por isso vou parar de manter o blog; ele não está morto e a falta de mais likes não significa unlike. Ouvi dizer que se pode até fazer negócios com likes, ou seja, comprá-los, trocá-los por outras coisas, enfim habilidades subvertidas, fakes porquanto mentirosos. Não criei um blog para isso, mas sim por gostar de escrever, para desenvolver minha capacidade crítica e de pensar e, quem sabe, poder alcançar pessoas de forma positiva. – Meu blog é um dos instrumentos de minha expressão, disse ainda recentemente a uma conhecida que me perguntara o que ele valia – não para mim, mas – na minha vida. Ele não está no centro do que compõe minha vida, mas dá-me uma estrutura e tem um certo privilégio, não comparado, claro, este com o que dou ao meu marido, embora ele reclame algumas vezes que eu dou mais atenção ao blog que a ele. – Não é assim querido.

Já é noite, a sala onde está o quadro agora está escura, porque eu esqueci de acender a luz; se o faço, Veneza aparece azulada diante de mim; num momento de quietude buscando a si mesma e tão livre do vai-e-vem dos turistas diários que não a veem – a não ser com a objetiva de suas câmaras – como o meu pintor a captou. Estou feliz por estar aqui e continuar a tarefa inventada de ser blogueira. A gente se vê por aí.

 

Próxima postagem: 7/10/19

Dois anos e um mês de blog

 

Este ano o aniversário do meu blog passou despercebido no primeiro de outubro; foram os acontecimentos de então no Brasil com as eleições que me tiraram a atenção, assim como a morte de um ser querido da minha família não me fizeram lembrar que já tinha dois anos de escrever num blog, por isso publico hoje somando mais um mês ao aniversário e continuo firme na minha intenção de mantê-lo, esperando que nenhuma vicissitude da vida venha por ventura impedir-me. Também sigo firme no meu propósito de ter como tema central o feminismo, ou seja, a mulher no seu processo de autodeterminação e descoberta.

A experiência de estar aqui é tão grande como quase propriamente a de escrever – é uma comunidade enorme a dos blogueiros; não seria possível só escrever e publicar sem passar pelos colegas – suas postagens, seus estilos, suas intenções, seus esforços também – tem de tudo – e é quando não me sinto isolada, pois, sei, a interação é muito importante. Conheci gente muito boa, blogueiros sérios e comprometidos com a verdade; também bons blogs continuam me seguindo, enquanto eu só sigo alguns poucos, o que isto não quer dizer que ignore outros blogs – pelo contrário – é porque leio outros blogs e faço-o para dar-me conta do que passa no momento: blogs podem ser bem mais rápidos do que outros meios de divulgação. No entanto há outro aspecto nas postagens que me salta aos olhos: o comentário que eventualmente se pode fazer após a leitura de um texto; no fundo um ato democrático ao abrir possibilidades à livre expressão, o que, infelizmente, muitos e muitos não compreendem assim, ao acharem que a livre expressão não tem limites nem regras, e chegam sem estes a alcançar um nível não só baixo, mas indecoroso também. Li comentários horripilantes, de darem nojo as expressões usadas, ficando deles como única coisa, o fato de que eles existem, e em grande quantidade; na verdade revelam a temperatura dos leitores e põem à mostra sua capacidade tanto de expressar-se, como expressar suas reações. Nós blogueiros temos a chance de moderar os comentários que nos enviam e removê-los se não nos parecem apropriados. Algumas pessoas entendem isso como apenas um controle de poder ao deixarmos aparecer só os comentários que convêm ao blog para promovê-lo. Não penso assim. Entre um comentário crítico, mesmo não estando de acordo com a opinião do texto, e outro que não diz nada, a não ser palavrões e ofensas – fico com o primeiro por rejeitar o desrespeito e as barbaridades gratuitas do segundo. Na verdade existem comentários que não devem ser publicados, pela mera falta de coesão, senso crítico e de não ser uma contribuição positiva ao público de leitores.

Duas coisas foram importantes nestes dois anos – primeiro: aprender para amadurecer, pois o pré-requisito de amadurecer é ter aprendido, sendo eu ainda às vezes nada condescendente comigo mesma ao achar que meu estilo é assim e não de outro modo; meu vocabulário é insuficiente; não sou precisa e, e, e … assim vou sem me levar a nada significativo, a não ser que comece a ser condescendente comigo mesma, – e segundo: o blog me deu oportunidade de saber mais do Brasil, pois como vivo fora do país há muitos anos, não acompanhei, a não ser a grosso modo, os acontecimentos em sua extensão. Um exemplo recente é o caso da Marielle Franco que só vim a conhecê-la quando ela já não vivia mais; e muitos outros casos e notícias que me chegam ao conhecimento através de postagens. Li, por exemplo, recentemente num blog, que uma criança foi baleada em Ponta Grossa, no Paraná, por ocasião das comemorações de uma família pela vitória do presidente eleito no passado 28 de outubro. Com o blog me sinto mais próxima do Brasil, embora a maioria das notícias que recebo de lá, não me agrade.

Se faço uma avaliação do que escrevi nesse segundo ano de blog, alguns textos em relevância me cobraram esforço, como o Já um mês sem Marielle Franco, o qual escrevi sob uma forte tristeza e com o coração pesado pela sua morte repentina. Outro, Que „coisa“ é essa Clarice? eu o escrevi com base numa leitura apurada do seu conto Mineirinho de 1962. Este conto, que me parece mais um plaidoyer, é denso, profundo, complexo como a própria Clarice era e assim também a sua expressão literária; é uma visão do que está atrás das aparências e para que nos salvemos dela significa que devemos nos abster daquilo que nos revela gente – mas que salvação é esta que nos torna inimigos, em vez de fraternos? Escrever sobre Mineirinho me custou menos trabalho do que elucidar as frases de Clarice, sair de sua superfície – às vezes aparentemente fácil – e passar a compreendê-las, não de forma acadêmica, mas como base existencial. E por fim a minha postagem de agosto É como não chegar na cabeça de ninguém quando mães também abusam sexualmente de filhos, a escrevi com base num caso real passado no sul da Alemanha e onde também este ano ocorreu o julgamento da mãe e de seu parceiro acusados de haverem abusado sexualmente de uma criança, o filho da mulher. Escrever sobre esse caso foi como um grito de alerta aos clichês que envolvem cuidado, amor, responsabilidade em volta do papel social e afetivo da mulher como mãe. Esses clichês nos impedem de encarar a mulher além do prescrito pela identidade de gênero e de tocar em tabus em volta do papel da mãe. A pergunta é até que ponto o feminismo também seria responsável por discriminações e separações, criando da mesma forma construções discursivas e culturais. São perguntas relevantes, são elucubrações pertinentes que fascinam meu espírito inquieto – daí o inevitável E Agora Mulher?

Pudesse escrever mais, publicar com mais frequência – faço-me mesma estas críticas ao não considerar que certas circunstâncias na minha vida não me permitem isso – por outro lado escrever para mim não é nada gratuito, tem que ver com estar convencida do que quero dizer e até de sofrer no ato da expressão – é um desafio e assim será.

Agradeço aos amigos que acreditam em mim, a meu marido, que mesmo sem saber português, procura entender a nada boa tradução do google – obrigada querido – e a todos aqueles que mesmo sendo de forma virtual, me ajudam a prosseguir.