REBECCA SOLNIT E OS DOIS LADOS OPOSTOS: O NOSSO LADO E O OUTRO LADO

        

Andava buscando algo para ler que reiterasse o que penso sobre negacionismo e polarização; apesar de existir muito sobre os temas, queria algo que me confirmasse e que falasse por mim; foi quando visitando uma web alemã, Blätter für deutsche und internacionale Politik, que encontrei um artigo cujo título me chamou atenção, algo como, por que não devíamos ser transigentes com nazistas. E para a minha surpresa o artigo era de autoria de Rebecca Solnit, já minha conhecida desde que descobri seu famoso ensaio em 2017 “Os homens explicam tudo para mim“ e escrevi sobre ele um artigo para este blog.

Seu artigo On Not Meeting Nazis Halfway de novembro do ano passado, após as eleições americanas e publicado pela Literary Hub aponta para um tema atual, o dos discursos radicais, dos posicionamentos extremos e das confrontações até fatais e tão presentes na mídia do nosso dia-a-dia. Pelo menos uma vez já pensamos se de súbito poderíamos entrar em tal situação? Eu já pensei muito sobre isso, mas não como um momento de risco de vida, nem por estar querendo me expor a ele, e nem por precisar de um momento desse para extravasar minha raiva, o que seria a opção mais desfavorável e até perigosa, mas sim ao deparar-me com ele numa conversa sem que se esperasse o assunto viria à tona, ou, o mais provável, em público desencadeado por racismo, misoginia, ou – maus-tratos a pessoas, animais e à natureza.

Seu ensaio longe de ser um manual de se como proceder frente ao inimigo, aquele que está do lado oposto ao nosso, apela para a clareza.


O fato é que a sociedade americana em sua grande maioria está dividida, e isso ficou mais nítido desde que Donald Trump candidatou-se a presidente, venceu as eleições em 2016 e seu eleitorado foi mostrado de forma “folclórica”: a maioria branca, nacionalista e sem pudor de exibir suas armas; mas também pessoas desgastadas e sofridas pela perda do status econômico e pelas restrições do desemprego. Essa gente se sentia desprezada, e daí a confiança no presidente, no homem que prometia ressuscitar o país e fazê-lo grande novamente, um projeto nada modesto, mas bem megalomaníaco; para mim impossível, mas condizente com uma mentalidade que se crê no centro do mundo.

De onde vem „a sensação de não ser respeitado“? Rebecca Solnit cita Paul Waldman, do Washington Post, para excluir causas diretas de falas e programas dos democratas – como se crê – apontando para um conteúdo enorme de discursos dirigidos aos brancos, metendo-lhes na cabeça que sem respeito eles são olhados de cima para baixo, e não são levados em conta pelas elites liberais, pelos políticos democratas. Para dar-me conta do que isso significa, vi uns vídeos das manifestações pró impeachment da ex-presidenta Dilma Roussef. Também no Brasil a mesma engrenagem funcionava impondo narrativas falsas, disseminando mentiras. Seria descabido aqui querer apagar os erros de Dilma Roussef e os do Partido dos Trabalhadores, mas as consequências daquela campanha imunda foram bem maiores do que os retrocessos políticos do PT, descambando na situação política que ora passamos. Gritos, descargas de repúdio à ex-presidenta e ao seu partido – o ódio estava instalado do outro lado, o país estava dividido e não havia meios-termos conciliadores, o que se fez repetir nas eleições de 2018 para a presidência – a extrema polarização eliminou facilmente candidatos de renome como Ciro Gomes e Marina Silva, mas não eliminou o PT, indo para o segundo turno eleitoral contra o candidato da extrema direita, Jair Bolsonaro, que para nossa incompetência venceu as eleições.

Infelizmente o Trumpismo é maior do que Trump e vai sobreviver na era de Joe Biden como um projeto ideológico de brancos fascistas; negacionistas das investigações científicas quanto às mudanças climáticas e precauções contra o coronavírus; antifeministas; racistas; anti-imigrantes; contra as comunidades LGBT+, e assim vai. Essa gente forma um lado, um lado obscuro, e Rebecca Solnit se coloca do outro lado – eu também. Pois como encontrar meio-termo de conciliação? Como posso aceitar um racista se sou feminista e tenho amigos negros e imigrantes? – Seria como querer servir a dois deuses. Como posso concordar com coisas, nas quais não acredito? E mais: „A verdade não é um compromisso em algum lugar entre verdade e mentira, entre fato e ilusão, entre ciência e propaganda.“ A verdade sobre a forma da terra não pode ser alguma coisa entre um disco e uma esfera; a verdade que ela é uma esfera é um fato comprovado, explica Solnit.

Outrossim, expressar-se como a favor ou contra é puramente democrático e deve permanecer; discutir por opiniões divergentes pode até ser positivo, mas a isso não me refiro, e sim à defesa de princípios, o que muitas pessoas não sabem distinguir. As opiniões podem ser vagas, gerais e até mudarem; os princípios são profundos, arraigados, difíceis de mudar. Se concordo com a opinião de um fascista, só para obter uma conciliação pacífica, estou ferindo meus princípios e iludindo-me ao pensar que o problema foi resolvido porque o respeito venceu ao calar-me. Mas que o tem que ver respeito com a situação? Nada, como também o contrário dele. A situação deve ser encarada por outro ângulo, o do posicionamento honesto para não misturar as coisas e evitar saídas conciliadoras e „terapêuticas“, terminando por legitimar e engrandecer o outro. Aqui Solnit dispõe-se a sugerir melhores discursos, „narrativas que alcancem a todos“, pois „uma atitude amigável e acolhedora tem mais probabilidade de libertar o outro de seus delírios“ do que chamá-lo de burro ou monstro – o objetivo é trazê-lo para o nosso lado, e é aqui onde titubeia nossa capacidade, já que o outro lado fortaleceu sua narrativa e „vangloria-se“ dela – temos que saber nos colocar, apresentar fatos e não „espalhar fantasias“.

Para Rebecca Solnit o problema são as políticas conciliadoras. As medidas governamentais para amenizar os desastres ecológicos e as alterações do clima; a saída tardia da base econômica do carvão é a prova desse descuido. Mesmo assim essas medidas são atacadas pelos do outro lado, só que eles não apresentam fatos em lugar de mentiras, seus moldes são de aplicar correção ao nosso lado.

Uma coisa é enfrentar-se com uma pessoa do outro lado, tendo esta abertura para falar sem que se corra risco moral, e outra é enfrentar-se com um nazista declarado – com este não quero me deparar –, e quaisquer que sejam os sinais de agressão ou violência do outro lado, o melhor a fazer é buscar proteção, e pessoas que não recebem ajuda num momento desses, podem levar a pior. O mesmo para misóginos, machistas, transfóbicos, anti-imigrantes, racistas… A violência não se justifica. Por outro lado não é fazendo concessões que se elimina comportamentos abusivos de maridos, como se pensava; não é se calando que se apazigua um racista, pelo contrário, o engrandece mais; e não é com admitir um assédio por medo das consequências a posteriori que se livra do opressor, ao revés, ele se sentirá mais forte e seguirá assediando. Um nazista nunca passará para o nosso lado, „a não ser que ele deixe de ser nazista“, segundo Rebecca Solnit.

Conquanto as sugestões de Rebecca Solnit parecerem teóricas, pois o momento, o enfrentamento com o outro lado, é muito mais complexo e imprevisto do que se imagina, fica a sua observação inteligente e afiada da situação como contribuição a que aprendamos. Pode-se começar em casa, transmitindo às crianças o valor de economizar elementos da natureza, como a água e a energia; e melhor do que ensinar o quanto está errado deixar vasilhas plásticas na praia é apanhá-las e levá-las a uma lixeira. Com esses pequenos passos crianças e adultos aprendem o que é ter coragem e iniciativa civil, servindo como exemplo para outras situações. E isso não é o nosso projeto de futuro, se queremos um mundo melhor?

        

Próximo post: 16/2/21

Quando homens me esclarecem o mundo

É a minha tradução (só) do título do ensaio e livro de Rebecca Solnit, cujo original em inglês é Men Explain Things to Me. Já me referi a ele no meu último post “A Susceptibilidade de Escreva Lola Escreva” de forma apenas a introduzir meu texto sem aprofundar-me no seu conteúdo. Agora quero expor o que me parece este seu ensaio publicado em 2008. Ele foi inspirado por uma experiência vivida seis anos antes pela própria autora numa festa em companhia de uma amiga, quando o anfitrião, com ar arrogante, tentou esclarecer-lhe sobre um livro recém- publicado sem ter querido dar-se conta de que ela era a autora do livro em questão. Um sinal de que não tinha querido ouvi-la dizer que o tal livro era seu, e  assim presunçoso continuou palavreando até que, após várias incursões da amiga em tentar dizer-lhe que era o livro dela, deu-se conta em fim onde tinha se metido. Depois de saírem e já a uma certa distância, as duas amigas riram aliviadas do sucedido – como não rir do ridículo? O riso é uma reação que pode nos dar distância dos fatos e ajudar-nos a relaxar frente a situações que no momento não teríamos outra saída; rir como reação à prepotência ou como uma liberação. E Rebecca Solnit ainda ri deste fato, e sem ter rido de antemão, talvez não tivesse escrito um ensaio com tanta agudeza. Primeiramente foi publicado na Website de Tom Engelhardt – TomDispatch – com grande recepção: foi como beslicar uma corda de violão, disse, ou tocar numa ferida aberta; pois ela nunca tinha recebido antes tanta repercussão com um ensaio como com este . Mas por que um só ensaio, e além do mais curto, chegou a causar tanto impacto, não só entre mulheres, como entre homens também? Nós mulheres conhecemos muito bem o que significa o título deste ensaio em situações ou momentos onde sobretudo homens se impõem como donos da verdade em favor de sua pretensa sapiência ou conhecimento das coisas para poder estar no centro das atenções. São esses discursos soberbos carregados de explicações, definições, … por onde se deixam aparecer, muitas vezes só insinuando saber sobre isso e aquilo, mas que nos levam a calar como se fôssemos impedidas de abrir a boca – nem sempre por meios de imperativos, mas por reserva nos excluímos – confirmando uma insegurança ou o medo de sermos ouvidas. Rebecca Solnit fala do quanto é brutal fazer com que  mulheres se calem: „Eu sei do que estou falando.“ Uma frase agressiva como esta, e pelo seu conteúdo já podemos imaginar sem dificuldade como ela foi pronunciada – aos gritos – uma frase categórica de homens e sinônima de: „Você não sabe de nada“. Por que só ele sabe sobre o que fala, e ela não? A vivência deste fato brutal, não importando o contexto, se relacionado a uma discussão ou a uma simples conversa, perpetua nela o ódio e interrompe-lhe a claridade de pensar. Com esta tamanha tirania está explicado então porque mulheres não ousam ser ouvidas, e chegando esse silêncio a situações extremas, mostra até aonde vai a relação de poder entre os sexos existente na sociedade. Solnit não descreve o patriarcalismo como nascente do machismo para justificar este  comportamento específico, fala porém da hierarquia entre os dois gêneros como fundamento básico da sociedade, e enfoca bem sim essa habilidade secular que têm homens de fazer calar mulheres e de se fazerem escutados por elas. Será que são mesmo escutados como creem? (Podem continuar acreditando queridos!)
Nascida na Califórnia em 1961, Rebecca Solnit é dona de uma notável carreira intelectual, já tendo escrito mais de doze livros ligados a diversos temas desde política, história da cultura, arte, feminismo até meio ambiente, e embora estando seus livros fundamentados sobre uma pesquisa sólida, mesmo assim não passa a escritora incólume a situações como a experiência do início com o sr. importante, por ela assim batizado. Esta e outras são experiências que põem em questão suas certezas e podem avivar-lhe velhas inseguranças – experiências nada gratuitas como encontrar-se na presença do sr. importante que revestido de confiança na sua atuação, e também confiante que ela se deixará vacilar e intimidar-se frente à certeza dele. É com essa lealdade e coragem que fala de si mesma e lembra o que dia a dia enfrentam mulheres quando são expostas a situações sem terem o direito de exercer sua expressão, sendo esta o que lhes dá o direito de ser alguém.  Já fui muitas vezes testemunha de casos como este, e quem não foi? Homens também a mim já explicaram e querem explicar o mundo e o significado das coisas como se eu fosse uma colegial preguiçosa e desinteressada, e muito pior até, sem levarem em conta se eu conheço ou não o assunto sobre o que eles estão falando, ou se tenho ou não uma bagagem de conhecimento ou experiência de vida. Homens que não dão importância a esses pré-requisitos não querem ouvir, mas serem ouvidos e admirados – E como é irritante ter que ouvir um discurso sem fim!
Até hoje homens seguem esclarecendo o mundo a Rebecca Solnit, sem que nunca tenham lhe pedido desculpas por isso, ou por terem explicado errado, ou mesmo pelo fato de ela saber e eles não.
E mulheres por outro lado também não gostam de dar explicações, sobretudo a outras mulheres, muitas vezes sobre insignificâncias e até de forma desdenhosa como se fossem expertas no assunto? Sim, existem tais, como também em grande número e Rebecca Solnit não nega a existência delas, mas não que esse aspecto loquaz e maçante seja uma marca que especifique o gênero feminino; ao contrário uma atrevida exibição de confiança até na própria ignorância é para ela uma característica masculina – escondendo insegurança e imprestabilidade.
No meio político vemos com mais nitidez a inundação de discursos daqueles que sabem de tudo, e sabemos o como é difícil e fatigante para mulheres, as jovens principalmente, sobrepor-se e serem ouvidas com respeito até por seus colegas de partido. Solnit cita o caso de Coleen Rowley, uma agente do FBI durante a presidência de Bush, que não foi ouvida ao ter chamado com antecedência a atenção para o Al-Qaida. Não quiseram escutá-la, e isto é o mesmo que dizer: só escutaram o que estava conforme a seus conceitos. O fato de que a guerra foi resultado de um jogo  arrogante masculino, também leva-lhe a afirmar que há outras guerras, aquelas vividas no interior de quase todas as mulheres, por terem a convicção de poder ser dispensadas e atraídas a se calarem. Por que não devo me expor a falar sobre coisas que sei expor sabendo que tenho esse direito? E mesmo com uma certa insegurança sobre algo, isto pode ser útil e abrir caminho para corrigir-se: ouvindo, aprendendo e crescendo, mas quando essa insegurança é grande demais, pode conduzir a mudez e paralisações, do mesmo modo que uma excessiva autoconfiança pode demonstrar pura arrogância. Entretanto há um caminho entre esses dois pólos – diz Rebecca Solnit – onde os dois sexos podem conviver: a calorosa região do dar e do receber onde todos nós devemos nos encontrar. Uma metáfora nada proporcional à realidade da maioria dos diálogos entre homens e mulheres, mas otimista.
Se muitas mulheres, infelizmente, não ousam ser ouvidas, esconde-se por trás deste fato o quanto é importante ter credibilidade e até como um pré-requisito para sobreviver. Solnit escreve no seu ensaio que num Natal quando era muito jovem, e já tinha começado a entender o que era o feminismo e a sua importância, o tio de um amigo contou, como se fosse uma estória inventada, que a mulher de seu vizinho a altas horas da noite saiu despida de casa correndo e gritando que seu marido queria matá-la. Sem pestanejar acreditei na declaração da mulher, mas ao seguir lendo, defrontei-me com a pergunta da própria Solnit ao tal tio: Como o senhor sabia que isso não estava certo?  A explicação foi que o marido se tratava de um cidadão honrado e respeitado e que a acusação meu marido quer me matar não continha em si fator de credibilidade para que fosse tomada como verdade, embora ela tenha gritado na rua isso; mas que fosse uma louca, pelo contrário, foi levado a sério.
Em certos países do Oriente Próximo a falta de credibilidade às mulheres é comprovada em casos de violação sexual, nos quais a acusação da mulher não tem peso na justiça, a não ser que ela tenha um homem como testemunha, e que este queira confirmar sua acusação, o que só raramente acontece.  E Rebecca Solnit vai mais além destes fatos; ela que começou o ensaio por um incidente, foi mais adentro chegando a mencionar estupro e morte, o que para ela pode ser uma coisa de continuidade – um mal-entendido pode passar, de sua forma normal, ao abuso, à violência, intimidando mulheres a se calarem ou até as matando. É assustador ver o número de mulheres (incluindo meninas pequenas) reprimidas, abusadas, violentadas e mortas em quase todo o planeta – mulheres que são seres humanos e com direito à vida e a participar dela como um ser livre. Que este direito porém, deva ser conquistado, é uma luta, uma luta longa e amarga.
A ensaísta sabe disso e acha que a melhor maneira de compreender todas as formas de discriminação contra mulheres é dando-lhes uma expressão concisa, como abuso de poder, em vez de considerar em separado violência doméstica, assédio, estupro, etc., etc. e até morte: Tomando tudo junto, põe-se à luz o padrão de comportamento, evidenciando clareza e concisão.
Rebecca Solnit não se queixa de si mesma, está satisfeita com o seu próprio crescimento e desempenho e com ter encontrado na idade adulta a sua expressão. E como ela diz:
o direito de mostrar-se e de expressar-se é inevitável para a sobrevivência, para a dignidade e a liberdade. As circunstâncias me obrigaram a usar o direito de falar por aquelas que não têm voz.

 

(Próximo post: 19/4/2017)